Por Davi Caldas

Um dos aspectos mais curiosos do pecado é que ele machuca o pecador. Quando pecamos, não apenas nos tornamos culpados, mas também vítimas. O pecado tem o poder de nos destruir por dentro, de fazer com que nos sintamos indignos, maus, sujos e sem valor. Ele nos faz sangrar. Cria uma dor excruciante. Um incômodo terrível. Uma vergonha destruidora. Há muitos que escapam a esses sentimentos, entorpecendo sua consciência e ignorando o Santo Espírito de Deus. Mas quando não se faz isso e, mais ainda, quando se é um cristão, a dor e a vergonha causadas pelo pecado podem ser altamente angustiantes. Sentimo-nos hipócritas, falsos e mentirosos. Diversas vezes me senti assim.

Felizmente, Deus, em toda a sua bondade, aceita nossos sinceros pedidos de perdão. Ele nos acolhe quando voltamos da lama, sujos, fedorentos e indignos. Ele não se importa de nos abraçar nesse estado. Seu desejo está em nos lavar, nos regenerar, sarar nossas feridas e nos fazer novos homens e mulheres. E sabe por quê? Porque Ele nos ama e deseja não apenas mudar nossa vida, mas mudar outras vidas através da nossa. Ele quer nos tornar homens e mulheres valorosos, cristãos vibrantes, evangelistas natos, modelos de virtude.

Talvez o amigo leitor (ou amiga leitora) tenha cometido alguns grandes pecados na vida e esteja pensando: “Não, eu não posso me tornar um modelo de virtude. Sou um lixo. Estou condenado pelos meus erros do passado”. Será mesmo? Convido você a pensar em alguns personagens bíblicos e tirar algumas conclusões comigo.

Pense em Pedro. Este homem cometeu um pecado gravíssimo: negou o Senhor do Universo por três vezes! Isso depois de ter dito a Ele que jamais o negaria. Isso depois de ter vivido durante três anos e meio ao lado do Senhor, presenciando todos os seus milagres e maravilhas. Creio ser este um pecado mais grave que os meus e os seus. Imagine o quanto esse homem se sentiu angustiado, culpado, condenado por esse ato!
“Neguei Jesus. Sou um lixo. Não sou digno de fazer nada por Ele. Sou o pior dos homens. Não sirvo para pregar o evangelho a ninguém”, Pedro deve ter pensado.

No entanto, Jesus, após ressuscitar, faz questão de dizer a Ele por três vezes: “Pedro, apascenta minhas ovelhas” (João 21:15-17). Em outras palavras, “Pedro, sei que você está arrependido do que fez. Já me pediu perdão. Não há mais condenação sobre você. Não há mais culpa. Você está limpo desse pecado agora. Eu o apaguei. De hoje em diante, quero que você seja um novo Pedro, um novo cristão, alguém que será grande, que fará a minha obra, que apascentará as minhas ovelhas. O velho Pedro morreu”.

E o que Pedro fez? Aceitou o perdão que Jesus lhe deu e tornou-se um grande homem do Senhor. Em seu primeiro sermão público, levou ao batismo três mil pessoas. Abriu as portas para que o evangelho fosse pregado aos gentios. Morreu recusando-se a negar Jesus. O seu pecado passado não impediu que Ele se tornasse um cristão valoroso no futuro. Cristo sabia disso. E por isso o nomeou como Pedro (Pedra) antes mesmo que Ele fosse firme como uma rocha. Porque agrada a Deus mudar vidas.

Pense no apóstolo Paulo. Este homem consentiu na prisão e até na morte de vários cristãos inocentes. Talvez até já tenha pego em pedras para participar de algum desses homicídios. Ele observou friamente a morte de Estevão, um grande homem de Deus. Creio ser este um pecado mais grave que os meus e os seus. Pense na culpa que ele deve ter sentido quando descobriu que Jesus era realmente o Cristo e que ele, Paulo, havia condenado inocentes!

“Consenti na morte de inocentes. Servos de Deus. Sou um lixo. Não sou digno de fazer nada por Ele. Sou o pior dos homens. Não sirvo para pregar o evangelho a ninguém”.

No entanto, Jesus disse a Paulo que ele seria uma ferramenta preciosa para a pregação do evangelho aos gentios. E Paulo realmente se tornou um cristão magnífico, que espalhou o evangelho por inúmeros lugares, escreveu cartas inspiradas por Deus, fez diversas boas obras pelos necessitados e morreu recusando-se a negar Jesus.

Pense em João, o apóstolo do amor. Antes de ser o cristão maravilhoso que se tornou, ele era um homem nervoso e que estava disposto a mandar fogo descer do céu contra descrentes, em vez de desejar seu arrependimento.

Pense em Tomé, que descreu em Jesus, mesmo quando todas as evidências indicavam que seu Mestre havia ressuscitado. Pense em Tiago, irmão de Jesus, que só o aceitou depois que Ele morreu, ressuscitou e apareceu a ele. Pense em Maria Madalena e em Raabe. Eram prostitutas, vendiam o corpo por dinheiro. Mas se arrependeram, mostraram amor por Deus, mudaram suas vidas e foram louvadas por Deus. Tornaram-se virtuosas.

Pense no rei Davi. Foi chamado “o homem segundo o coração de Deus”. A Bíblia o tem em alta conta e afirma que Ele fez o que era reto perante o Senhor. Quantos elogios! Mas durante sua vida, fugiu às suas obrigações em uma guerra, cobiçou a esposa de um soldado, cometeu adultério, mandou assassinar um inocente, tornou-se um polígamo e chegou até ao ponto de permitir que a punição por um pecado que cometeu recaísse sobre o povo e não sobre ele. Era um homem repleto de falhas. Muito provavelmente cometeu pecados muito maiores que os meus e os seus. Mas ainda assim, Deus o considerou um homem segundo o seu coração. Por quê? Porque Davi se arrependeu genuinamente de cada um desses atos. Então, Deus os esqueceu e continuou a trabalhar para que seu servo se tornasse um grande homem do Senhor.

Pense em Abraão. Ele é chamado de “o Pai da fé”. Mas mentiu duas vezes à respeito de sua esposa, por não crer que Deus os protegeria caso homens quisessem tomá-la. Também ouviu a ideia esdrúxula de Sara de que ele deveria ter um filho com a sua serva, já que ela mesma já era velha (como se Deus precisasse de ajuda para cumprir sua promessa). Mas mesmo assim Deus teve Abraão em alta conta. Por quê? Porque ele se arrependeu dos seus pecados. Então, o Senhor os esqueceu e continuou a trabalhar para que Abraão se tornasse um grande homem.

Eu poderia citar muitos outros exemplos, mas não é necessário. O que quero que o leitor entenda é os heróis da Bíblia, os homens que o próprio Deus considerou santos e modelos para nós, foram terríveis pecadores no passado. Cometeram, em sua maioria, pecados muito graves. Ainda assim, Deus os perdoou e fez deles grandes homens, servos valorosos, modelos de santidade, evangelistas de grande poder. Por quê? Porque agrada a Deus que nós sejamos totalmente transformados por Ele, a ponto de transformarmos a vida de outras pessoas. E Ele é mestre em fazer isso.

Infelizmente, Satanás trabalha para que Deus não cumpra em nós esse objetivo. Quando ele percebe que nos arrependemos, pedimos perdão a Deus e nos afastamos de um pecado, seu trunfo é criar sentimento de culpa e condenação em nós. Através disso, Satanás nos limita. Ele nos faz acreditar que não valemos nada, que não somos capazes de nos tornar modelos de virtuosidade e santidade. Ele nos atrela aos nossos erros, reduz o nosso poder e nos impede que Deus nos torne novas pessoas.

A culpa e a condenação cria uma barreira, por exemplo, para que digamos com propriedade para alguém: “Amigo, Deus pode perdoar totalmente os seus pecados e transformar você em um grande cristão, um modelo de santidade, que não tem do que se envergonhar”. Não podemos dizer isso com propriedade, porque nós mesmos ainda nos sentimos culpados. Porque ainda achamos que não podemos ser exemplo, que Deus não pode nos usar poderosamente.

De quebra, a estratégia satânica ainda nos faz reduzir o poder de Deus. É como se disséssemos todos os dias: “Sua morte na cruz não é suficiente para me tornar em uma pessoa totalmente nova, Senhor. Meu pecado é grave demais para que seu sacrifício me dê o direito de ser uma pessoa virtuosa”.

A estratégia é velha e foi usada em todos os personagens que citei. E continua sendo usada hoje em todos nós. Quantas vezes eu caí nela! Mas sabe qual é a notícia boa? Deus continua interessado em mudar totalmente nossas vidas e traçar novos futuros para nós. Ele continua desejoso de nos transformar em cristãos de valor. E se Ele pensa assim, quem sou eu para pensar diferente?

Eu não tenho a menor moral para condenar qualquer pessoa por qualquer coisa que ela tenha feito no passado. Cristo me ensina a não julgar, para não ser julgado. Ele me ensina a perdoar, do mesmo modo como Ele pacientemente me perdoa. Ele me ensina não apontar o cisco no olho dos outros antes de tirar do meu olho uma trave. Ele me ensina que se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar e nos purificar de toda a injustiça. Ele me ensina que jamais se lembrará novamente de nossos pecados já confessados.

Ele me ensina que a salvação é unicamente pela graça e que ele não leva em conta nossas obras passadas. Ele não está interessado na quantidade de coisas boas e ruins que fizemos, ou em quem fomos, mas sim se hoje estamos com Ele. Ele me ensina que “Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1). Ele me ensina que todos tem direito a outra chance. Não por nós mesmos, mas porque Ele morreu por todos e dá a todos o direito de ser perdoado e começar de novo. Ele me ensina que faz nova todas as coisas. Ele me ensina que cria um novo ser em nós quando o aceitamos. Morremos para o pecado e passamos a viver para Ele. Ele me ensina, acima de tudo, que enquanto estamos vivos, nunca é tarde para recomeçar.

Um bandido, que provavelmente viveu décadas praticando crimes perversos, foi crucificado ao lado de Jesus. Estava recebendo a pena mais severa que existia. Certamente já havia matado pessoas, roubado coisas e causado muito sofrimento. Seu passado era horrível. Ele devia se sentir um lixo. Indigno de qualquer amor. Mas Ele reconheceu que Jesus era o Salvador e humildemente rogou que Cristo se lembrasse dele no paraíso. Bastou isso, para que Jesus confirmasse ao ladrão arrependido: “Em verdade te digo hoje: estarás comigo no paraíso”. O passado daquele homem, milhares de vezes pior que o meu e o seu, foi irrelevante para Jesus Cristo. O arrependimento expresso em um minuto foi suficiente para que Cristo se esquecesse de todos os seus pecados e escolhesse estar eternamente com aquele ladrão no paraíso.

Nem Deus, nem eu, estamos interessados em condenar o leitor por seu passado. Seus pecados já não existem nos registros de Deus. Foram cobertos por uma enorme mancha de sangue. O sangue do cordeiro que tira o pecado. Você já não deve nada. Está limpo. Está livre para ser um homem santo (ou uma mulher virtuosa) e um modelo de cristão. Está livre para ser instrumento de Deus para salvar a muitos. Está livre para dizer a Satanás: “Você não pode mais me condenar por nada. Meus pecados estão perdoados e esquecidos e eu posso hoje, pela força e o poder de Deus, me tornar uma serva ou um servo santo, valoroso e virtuoso. É Deus quem me dá esse direito”.

Se o leitor (ou a leitora) tem coragem e sinceridade para confessar seus pecados a Deus e se incomoda claramente com o seu pecado, posso dizer que você tem minha admiração. E muito mais que isso: tem a admiração de Deus. Se sua postura hoje é de um verdadeiro cristão e um homem (ou mulher) determinado a fazer o que é certo, então, sim, você pode ser comparado ao homem justo do Salmo 24 ou a mulher virtuosa de Provérbios 31. Sim, você pode ser considerado um modelo de bom cristão. Sem dúvida, você já é. Porque você hoje não tem mais nada a ver com o que outrora fora no passado. Deus já escreveu uma nova história para você. As páginas antigas foram arrancadas da sua vida. Como diz uma música que gosto: “O Autor da Vida escreveu a história, a escolha é sua e o final será feliz”. Não há mais condenação. Sinta-se livre para ser virtuoso, como de fato tem sido.