Esse texto refuta a quarta parte da série proposta pela página “Adventista Subversivo”, a qual defende que a prática homossexual não é considerada um pecado pela Bíblia. O autor da refutação é o teólogo Isaac Malheiros. Para ler o texto refutado, clique aqui.

1. A hipótese do “eunuco homossexual” gera um problema lógico no texto

A grosso modo, o argumento do Adventista Subversivo, se desenvolvido, pode sugerir que os “eunucos” podem ser entendidos como “homossexuais” em Mateus 19:12. O problema vem à tona se, aceitando essa sugestão, substituirmos “eunuco” por “homossexual” no texto:

“Alguns são [homossexuais] porque nasceram assim; outros foram feitos [homossexuais] pelos homens; outros ainda se fizeram [homossexuais] por causa do Reino dos céus. Quem puder aceitar isso, aceite” (Mt 19:12 versão subversiva).

Não faz nenhum sentido Jesus dizer isso logo após ter dito heteronormativamente que “o Criador, desde o princípio, os fez macho e fêmea” (v. 4) e que “deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (v. 5), que tal união é “o que Deus ajuntou” (v. 6), e que são condenáveis as “relações sexuais ilícitas” e o “adultério” (v. 9) sempre usando o binário “homem-mulher”.

Além disso, como explicar logicamente os “homossexuais feitos pelos homens”? Essa sentença se opõe à teoria da primeira (homossexuais nascem assim). Os ouvintes saberiam explicar como se faz um eunuco, mas como se faz um homossexual? E como explicar os que “se fizeram homossexuais por causa do Reino dos Céus”? Quem fez isso? E como isso poderia favorecer o Reino de Deus? Ser homossexual é uma opção, é algo que pode ser imposto a alguém, ou é uma característica de nascimento?

O Adventista Subversivo destaca apenas a primeira sentença (os que nasceram assim), e até alerta que não está igualando eunuco a homossexual (apesar de essa ser a conclusão lógica de seu argumento). Mas por que apenas a primeira sentença deveria abrigar o sentido de “homossexual”? Não há uma justificativa hermeneuticamente plausível para tal restrição. No mínimo, a segunda sentença também deveria admitir esse novo significado, já que pode-se alegar que a terceira sentença é uma metáfora.

 2. Se há um “conceito inovador”, é a indissolubilidade do casamento

De fato, como afirma o Adventista Subversivo, Jesus “apresentou conceitos espirituais inovadores” em seu ministério. Mas com relação a Mt 19:3-12, o “conceito inovador” que Jesus trouxe no assunto do divórcio foi reafirmar a indissolubilidade do casamento. Foi isso que provocou a reação dos ouvintes. Não há nas palavras de Jesus nenhuma abertura para a prática sexual fora do padrão estabelecido no Gênesis.

3. O assunto de Mt 19:3-12 é casamento e divórcio, não homossexualidade

Isso fica claro quando visualizamos a estrutura do relato:

  1. a) A pergunta inicial é sobre o divórcio, o término do casamento (v. 3);
  2. b) Jesus reafirma o modelo original de casamento do Gênesis (v. 4-6);[1]
  3. c) Mais uma pergunta sobre a legislação do divórcio (v. 7);
  4. d) Jesus reafirma que casamento[2] é indissolúvel, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, usando novamente o Gênesis como modelo[3] (v. 8-9);
  5. e) Os discípulos dizem que é melhor não casar (v. 10);[4]
  6. f) Então, Jesus fala sobre os eunucos (v. 11-12).

Ou seja, a fala sobre os eunucos faz parte da resposta ao comentário “é melhor não se casar”. O assunto específico aqui é casamento (casar ou não casar?), e o tema mais amplo é divórcio. As expressões “divorciar”, “divórcio”, “casar” e correlatas, se repetem ao longo do relato, evidenciando isso.

 4. Casamento é sempre entre macho e fêmea

Jesus estabelece claramente o casamento como a união (sexual, inclusive) entre um macho e uma fêmea (Mt 19:4). Em grego, a frase é literalmente “macho (ἄρσην, arsen) e fêmea (θῆλυς, thelus)”, não apenas “homem (ἄνθρωπος, anthropos) e mulher (γυνή, gyne)”.[5] O aspecto heterossexual do casamento está presente em toda a conversa (“macho-fêmea”, “homem-mulher”).

Ao falar sobre os eunucos, Jesus não está afirmando que nem todos estão aptos para receber o conceito de heterossexualidade do casamento. A heterossexualidade do casamento não está em discussão nesse texto. Ele está apenas afirmando que nem todos estão aptos para se casar (pois casamento na Bíblia é apenas a união heterossexual, sem exceções).

O assunto específico é “casar ou não?”, e não “fazer sexo heterossexual ou não?”. O que chama a atenção dos ouvintes é a indissolubilidade, não a heterossexualidade do casamento. Sempre a Bíblia fala em casamento a relação homossexual está excluída, sem exceções e sem dúvidas.

5. “Eunuco” aqui é quem não se casa, não sugere “homossexual”

Em Mateus 19:12, Jesus refere-se a três categorias específicas de eunucos: a) por nascimento; b) feitos pelo homem; c) por escolha pessoal. De fato, embora não se refira explicitamente à homossexualidade, esse texto abre a possibilidade para o reconhecimento bíblico de algum desvio da norma sexual, que pode ser herdado, adquirido ou escolhido (sem significar aprovação divina de tais desvios). Além disso, revela que Jesus reconhece que algumas pessoas escolhem a abstinência sexual por causa do reino de Deus.

O significado típico, o mais natural e provável para “eunucos” em Mt 19:12, é:

  1. a) Eunucos desde o nascimento: eram naturalmente incapazes de casamento (por alguma deformidade física, como a incapacidade de gerar filhos, por exemplo) ou não desejavam casar.
  2. b) Eunucos feitos pelo homem: trata-se da castração física. Esses eunucos eram frequentemente usados para guardar haréns e servir nas coortes (estes, não eram necessariamente castrados).
  3. c) Os que escolhem ser eunucos: são solteiros “para o reino de Deus” (celibatários). Sobre esse tipo de eunuco solteiro-celibatário, Paulo comenta:

Gostaria que todos os homens fossem como eu; mas cada um tem o seu próprio dom da parte de Deus; um de um modo, outro de outro. Digo, porém, aos solteiros [ἄγαμος, agamos] e às viúvas: é bom que permaneçam como eu. Mas, se não conseguem controlar-se, devem casar-se [γαμέω, gaméo], pois é melhor casar-se do que ficar ardendo de desejo (1Co 7:7-9).

A expressão grega agamos significa literalmente “sem casamento”, ou “não casado” (gamos é “casamento”), e, como Mt 19:3-12, o texto de Paulo também traz a discussão “casar ou não casar?” Paulo fala de seu “dom de Deus”, o dom de seu celibato para que ele possa servir ao Senhor (v. 32-37). Isto é paralelo ao que Jesus disse em Mt 19:12 sobre ser um eunuco “para o reino de Deus”.

Em todos os casos, não há qualquer sugestão de que as pessoas nascem com orientação homossexual. A única característica do eunuco que interessa aqui é não estar envolvido no casamento (e, portanto, excluído da atividade sexual em geral). Não importa se ele é afeminado ou não, se usa barba ou não, se trabalha na coorte ou cuida de haréns, ou se canta soprano como castrato. Nada disso é relevante ao texto.

E outra evidência de que “eunucos” aqui não se referem a homossexuais é que o AT não se refere aos eunucos como estando em pecado, enquanto as práticas homossexuais são claramente condenadas. Apesar da lei excluir os eunucos da assembleia legal e política de Israel (Dt 23:1), Deus aceitava os eunucos que abraçavam a sua aliança e guardavam o sábado (Is 56:3-7), e lhes recompensava a falta de filhos (Is 56:5). A igreja cristã também aceitava eunucos normalmente (At 8:26-40). Por outro lado, as relações homossexuais eram punidas com a morte (Lv 20:13; cf. 18:22). Assim, dificilmente Jesus e seus ouvintes compreendiam “eunucos” como algo equivalente a “homossexuais”.

6. “Eunucos de nascimento” não são uma prática sexual alternativa

Eunucos não surgem em Mateus 19 como uma prática sexual alternativa pois são celibatários, sem atividade sexual, abstinentes (a discussão é “casar-se ou não?”, e portanto, “fazer sexo ou não?”). Ser eunuco também não surge em Mateus como um terceiro gênero, além do “macho e fêmea” já citados por Jesus.

O Adventista Subversivo insiste que Jesus reconheceu a existência de uma “diversidade sexual”. Mas a única “diversidade sexual” existente no texto de Mateus 19:3-12 é casar ou não casar (consequentemente, fazer sexo heterossexual ou não fazer sexo nenhum). Não existe na Bíblia um “conceito de casamento heterossexual”, apenas o conceito de casamento (que, por definição, é heterossexual). Novamente, insisto: todos esses textos do Adventista Subversivo dependem de uma redefinição biblicamente consistente de casamento, o que não foi feito.

7. Algumas observações sobre a hermenêutica do Adventista Subversivo

É inegável que o termo eunuco tinha vários significados no mundo antigo, mas as palavras de Jesus não podem ser forçadas a admitir todos eles, desrespeitando a evidência interna, o contexto gramatical imediato e o contexto bíblico mais amplo. A tentativa de colocar a declaração de Jesus no contexto histórico mais apropriado não pode levar ao desprezo do contexto gramatical: o significado mais provável das palavras dentro do próprio texto.

Podemos listar vários significados para “eunucos”, das mais diferentes culturas e épocas, mas o que importa é: Jesus e os discípulos tinham esses diferentes significados de “eunuco” em mente? Ou o sentido típico de não-casado/castrado é preferível?

A reação dos ouvintes de Jesus sugere que o significado de “eunuco” era o mais simplório, pois não gerou nenhum escândalo ou debate. Os ouvintes ficaram mais escandalizados com a reafirmação da indissolubilidade do casamento do que com a afirmação de que há eunucos de nascimento.

Precisamos averiguar o que Jesus quis dizer com o uso que Ele fez da palavra em seu contexto, em sua época, e à luz das definições bíblicas de “eunuco”[6] e “casamento”, antes de apelar à autoridade de fontes externas de culturas e épocas diferentes.

7.1 O contexto não pode ser ignorado

Ao trazer um tema externo, o Adventista Subversivo está impondo ao texto de Mt 19:3-12 significados e conceitos estranhos à narrativa, reivindicando significados distantes ou improváveis, e dando às palavras sentidos diferentes dos que elas possuem no contexto.

O Subversivo cita o Talmude, mas sem ligar o sentido de “eunuco” no Talmude ao significado pretendido por Jesus (e no NT), num caso de paralelomania: achar que o fato de dois documentos usarem a mesma palavra indica que os conceitos sejam os mesmos, ou que um documento tenha influenciado o outro.

A análise do Adventista Subversivo peca num ponto essencial da exegese: o significado sugerido está em conflito com o contexto. Ele simplesmente levanta vários significados possíveis, mas ignora a influência restritiva do contexto de Mateus 19 (ver o item 3 acima). Semântica envolve mais que o significado das palavras isoladas: envolve frases, gênero, estilo, etc. Enfim, o contexto de Mateus 19 torna claro o que Jesus queria dizer com “eunuco”.

Nada no contexto sugere que Jesus tinha em mente alguma forma de orientação homossexual natural. Pelo sentido de “eunuco” no AT e no NT, e pela reação dos ouvintes, é muito mais provável que Jesus tivesse em mente o conceito de “eunucos desde o nascimento” mais típico e simples: aqueles que nasceram com algum impedimento físico de se envolver em casamento/relações sexuais.

7.2 O Adventista Subversivo usa o argumento do silêncio

O Adventista Subversivo afirma que “uma das provas de que os Evangelhos não condenam a ‘homoafetividade’ é o fato de Jesus nunca ter dito nenhuma palavra contrária para tais relações”.

Porém, Jesus também não falou “nenhuma palavra contrária” sobre muitos outros assuntos: pedofilia, zoofilia, necrofilia, incesto, etc. Esse é um terrível argumento, e não é uma maneira hermeneuticamente correta de se estudar a Bíblia.

Podemos levantar diversas hipóteses para essa suposta omissão. Talvez, por exemplo, não houvesse necessidade de Jesus reiterar todas as proibições morais já existentes e inquestionáveis na cultura judaica do século I. Seja como for, para o cristão do século XXI, a teologia da sexualidade está firmemente estabelecida em toda a Bíblia, AT e NT, e o “argumento do silêncio” se torna em “argumento da análise seletiva dos dados”.

Referências:

[1] O aspecto heterossexual do casamento está claro em Mt 19:4 na expressão “macho e fêmea” (ἄρσεν καὶ θῆλυ), expressão mais específica nesse aspecto que “homem e mulher”.

[2] Usa o verbo “se casar” (γαμέω).

[3] Refere-se ao Gênesis usando a expressão “desde o princípio (ἀπ᾽ ἀρχῆς).

[4] Usa o verbo “se casar” (γαμέω).

[5] “Macho e fêmea” (ἄρσεν καὶ θῆλυ) também é mais específico que “marido e mulher” (ἄνδρα καὶ γυναῖκα).

[6] No AT, há abundante referência aos eunucos, especialmente como funcionários das coortes reais. No NT, apenas Mateus e Atos usam a palavra “eunuco” (εὐνοῦχος, eunouchos). E só Mateus a usa metaforicamente para solteiro-celibatário.

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Posts da Série “A Bíblia e a Homossexualidade”

Apresentação
Parte 1: A Criação
Parte 2: Sodoma e Gomorra
Parte 3: Os Cananeus e a prostituição cultural
Parte 4: Jesus e a Homossexualidade
Parte 5: Idolatria e ritos orgíacos (Rm 1:26-27)
Parte 6: Prostituição Masculina e Devassidão (1 Co 6:9 e 1 Tm 1:10)

Parte 7: Ciência, genética, psicologia e conclusão