Por Davi Caldas

Um dos fatores que mais inviabilizam debates bíblicos é a mera citação de textos bíblicos como se isso, por si só, comprovasse alguma coisa. Não comprova. A discussão bíblica depende, em grande parte, das interpretações dos textos bíblicos. Citação por citação qualquer um pode fazer. E se apenas citar uma dúzia de textos bíblicos sobre determinado ponto bastasse, todas as pessoas poderiam provar seus mais diversos pontos só citando textos, o que, evidentemente, provocaria milhares de contradições e tornaria a Bíblia um livro falso. Portanto, o trabalho do debatedor bíblico não é meramente citar montes de textos, mas demonstrar que a sua interpretação é a correta. Como se faz isso? Através dos princípios básicos de interpretação, dentre os quais se inclui o raciocínio lógico, a análise do contexto da passagem, do contexto histórico e cultural, das expressões idiomáticas, do estilo e objetivo do livro, do perfil do autor, das características do público alvo e, por fim, das relações do texto analisado com a totalidade da Bíblia.

Dois assuntos bíblicos rotineiramente muito maltratados nesse sentido são: a Lei e a Graça de Deus. Como cristãos adventistas estamos acostumados a travar debates com cristãos de outras denominações que, muitas vezes, buscando provarem que estamos errados, citam passagens paulinas da Bíblia nas quais o apóstolo afirma que os cristãos não estão mais debaixo da lei e sim da graça. Essas citações são feitas com a certeza de que não há a menor possibilidade de que a interpretação dessas palavras esteja sendo feita de modo equivocado. Ora, quando se adentra um debate observando a sua própria interpretação como a única possível e crendo não haver necessidade de conhecer a outra, o debate já terminou. Se citar textos bíblicos por si só já é o suficiente para provar um ponto, então já não há qualquer possibilidade de debate.

O objetivo desse texto é seguir pelo caminho contrário, buscando não apenas citar textos, mas explicar o que eles realmente querem dizer e demonstrar as razões pelas quais nossa interpretação faz sentido e deve ser aceita. Cremos que essa é a única maneira de conduzir um debate verdadeiro. Os assuntos escolhidos são justamente esses dois: a Lei e a Graça de Deus – tendo como ponto principal a análise dos textos paulinos.

Não estamos mais debaixo da Lei

O apóstolo Paulo afirma várias vezes em seus escritos que não estamos mais “debaixo da Lei”. Para compreender o que Paulo quer dizer com isso, precisamos primeiramente saber o que o apóstolo entendia por Lei. Muito bem. Paulo era judeu. O que todo judeu entendia como a Lei (em grego “nomos”) era a chamada Torá, isto é, os cinco primeiros livros de Moisés. Os rabinos judeus afirmam desde há muito tempo que a Torá é composta por 613 mandamentos. Uma vez que a Torá é, e sempre foi vista pelos judeus, como uma coisa só, qualquer indivíduo que negue um único mandamento dela já não pode ser considerado seu seguidor, já não se encontra dentro (ou debaixo) desse regime. Não existe um “seguir em parte”, um “seguir mais ou menos”. Ou a Torá é considerada totalmente válida por quem a diz seguir ou o que o indivíduo segue é outra coisa (ainda que parecida).

Quando, portanto, Paulo afirma que os crentes em Jesus não estavam mais debaixo da lei, não quer dizer que a cruz de Cristo aboliu todo e qualquer tipo de lei. Paulo está falando especificamente de um sistema legal composto por 613 mandamentos. E a sua intenção não é dizer que todos eles foram abolidos, mas sim que o sistema o foi. Isso não diz nada, por si só, sobre os mandamentos individualmente. As palavras de Paulo nos permitem concluir que pelo menos um dos 613 mandamentos foi abolido (o que acarreta o fim do sistema), mas não que todos foram, muito menos quais foram.

Infelizmente, muitos cristãos entendem esses textos exatamente assim: Jesus aboliu todas as leis, instaurando a graça. Para evitar a conclusão lógica de que sem lei tudo é permitido, estes procuram fazer um malabarismo retórico. Ao mesmo tempo que afirmam não haver mais leis, afirmam que devemos agir de modo amoroso e bom, porque Jesus é amoroso e bom, e não porque isso nos trará salvação, pois a salvação não depende do que fazemos ou deixamos de fazer.

Tudo bem. A segunda parte do argumento está correta. Mas ainda assim há pelo menos dois problemas na argumentação. O primeiro é que ela não demonstra a anulação de todas as leis. Ao contrário, ela reafirma a existência delas. Se nós devemos ser bons e amorosos, então há um dever a cumprir. Logo, há uma regra de conduta. E as leis são, nada mais nada menos que regras de conduta, padrões do que devemos e não devemos fazer. Lei, mandamento, ordenança, regra, dever, obrigação, padrão. Todas essas palavras aqui são sinônimas. Enquanto houver uma regra de conduta a seguir, há leis. Se a regra de conduta for apenas uma sugestão, já não é regra. Só não há lei se não há padrão de conduta a seguir, se não há deveres. Mas esse estado de coisas se chama anomia e a Bíblia desaprova a anomia. João define pecado como anomia (I Jo 3:4). Essa palavrinha grega significa justamente a total ausência de leis. Viver em anomia, portanto, é viver em pecado.

O segundo problema da resposta é que ela nos induz a crer que antes de Cristo as pessoas se salvavam pela lei e depois de Cristo passaram a se salvar pela graça. Na verdade, a salvação sempre foi pela graça. Tanto no AT como no NT deve-se guardar as leis não para ser salvo, mas porque as leis são baseadas na bondade e no amor de um Deus bom e amoroso. Logo, devemos ser bons e amorosos também. O fato de, na prática, muitos judeus do primeiro século não enxergarem a lei dessa maneira não anula o fato de que essa foi sempre a razão para cumprir as ordens de Deus. Nada do que fazemos ou deixamos de fazer é capaz de nos salvar. O que nos salva é a misericórdia de Deus, capaz de nos perdoar, receber a punição por nós e nos ajudar a ser melhores. Isso é graça. Então, a salvação pela graça sempre coexistiu com as leis e as duas não podem andar separadas.

Jamais foi intenção do apóstolo Paulo defender uma posição antinomista, isto é, contra a existência de leis. Isso fica claro em diversas passagens. Paulo menciona positivamente os mandamentos (Rm 7:12-16 e 13:8-10, Ef 6:2 e I Co 7:18-19), alerta sobre como a prática constante de pecados inviabiliza a entrada no céu (I Co 6:9-10 e Gl 5:19-21), ressalta que o efeito da salvação é a obediência e a prática de boas obras (Tt 1:16 e Fl 2:10) – o que significa que desobedientes não aceitaram realmente a graça de Deus, alerta que não estar debaixo da Torá não significa estar livre para cometer pecados (Rm 6:15 e Gl 5:13-14) e, por fim, afirma que embora não esteja mais debaixo da Torá, não está sem lei diante de Deus, mas debaixo da Lei de Cristo (I Co 9:20).

Tudo isso deixa claro que, para Paulo, havia ainda leis, mandamentos, regras. O problema não eram todos os mandamentos da Torá, pois boa parte deles permanecia válida e, por conseguinte, fazia parte do sistema emergido na Nova Aliança. O problema era a Torá continuar a ser enxergada como um sistema válido, porque isso implicava a aceitação de todos os 613 mandamentos, dentre os quais muitos tinham perdido o valor.

Análise dos textos

Tendo compreendido esses aspectos, podemos agora expor os textos paulinos com a expressão “debaixo da lei” para analisá-los individualmente. Para facilitar a compreensão, substituímos a expressão supracitada por “debaixo da Torá”, que traduz melhor a intenção de Paulo.

Romanos 3:19-20: “Ora, nós sabemos que tudo o que a Torá diz, aos que estão debaixo da Torá o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus, visto que ninguém será justificado diante dele por obras da Torá, em razão de que pela Torá vem o pleno conhecimento do pecado”.

Nesse capítulo, Paulo defende a ideia de que a posição de judeu e seguidor da Torá não faz uma pessoa ser melhor que outra. O apóstolo trata de equiparar todos os homens, lembrando que todos são pecadores e que, portanto, a Torá, por si só, acaba sendo um instrumento condenatório, já que ela revela o pecado. Fica claro que o apóstolo não está falando contra a Torá, mas apenas demonstrando a limitação dela. Ela não pode gerar mérito ou status, não pode fazer uns melhores que os outros, não pode salvar.

A problemática da limitação da Torá é resolvida por meio de Jesus Cristo (Rm 3:21-26), o qual é testificado pela própria Torá. Assim, o reconhecimento de que o sistema da Torá era temporário confirma a validade dos propósitos da própria Torá (Rm 3:31). E com isso Paulo conclui que não há superioridade de judeus naturais para com gentios, o que é o tema central do capítulo (Rm 3:27-30).

Romanos 6:14-15: “Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da Torá, mas debaixo da graça. Pois quê? Pecaremos porque não estamos debaixo da Torá, mas debaixo da graça? De modo nenhum”.

Paulo busca, no capítulo 6, evitar que suas palavras sejam interpretadas como uma forma de antinomismo. Alguns poderiam entender que a abolição do sistema da Torá dava carta branca para pecar, posto que já não haveria padrão de conduta. Para evitar essa noção errônea, Paulo procura deixar claro nessa e em outras epístolas que o evangelho de Cristo provê um sistema substituto para a Torá, que é muito mais eficaz, aliás, pois não apenas oferece um padrão de conduta, mas efetiva a salvação em Cristo e outorga o Espírito Santo (Rm 7:24-25 e 8:1-11).

Na visão do apóstolo, portanto, a Torá não é o único padrão de conduta que existe. O fato de seu sistema perder a validade não faz com que todos agora estejam sem lei, mas apenas que o padrão não se perfaz mais de todos os 613 mandamentos. Assim, defender o fim desse sistema não é abraçar o antinomismo. Paulo reforçará essa ideia lembrando que Jesus morreu para nos libertar do pecado (Rm 6:1-13). Ao aceitar o conceito de pecado, que significa “errar o alvo” (e, na visão de João, “anomia”), Paulo está concordando com a ideia de que existia e continua existindo um alvo a ser perseguido; e que errá-lo é algo ruim. Se Cristo morreu para nos libertar desse mal, quando aceitamos a Cristo morremos para o pecado. Isso implica, evidentemente, a aceitação de um padrão de conduta.

As conclusões paulinas nos versos 14 e 15, portanto, podem ser descritas da seguinte forma: (1) mesmo com o fim do sistema da Torá o pecado não deve ter domínio sobre nós justamente porque o sistema da graça é mais eficaz nesse combate; e (2) o fim do sistema da Torá não significa um mergulho no antinomismo, pois o pecado continua sendo algo ruim, devendo ser evitado. Isso implica, mais uma vez, que Paulo não está contra todas as leis da Torá, mas contra o sistema apenas.

I Coríntios 9:20: “E fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da Torá, como se estivesse debaixo da Torá, para ganhar os que estão debaixo da Torá. Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei”.

Esse texto confirma o que temos dito até aqui. Paulo está falando sobre sua estratégia de adaptar a pregação do evangelho para cada grupo distinto que encontrava. Obviamente, o apóstolo não está sancionando a hipocrisia, a falsidade e a quebra de preceitos como forma de evangelização. A adaptação era no campo do discurso, da forma de se passar a mensagem, não no conteúdo. Ele, então, fala sobre como adaptou seu discurso para judeus naturais, para judeus e prosélitos que estavam no regime da Torá e para gentios que não estavam debaixo de nenhum sistema de lei. Este é o ponto crucial da passagem. Note que o apóstolo faz questão de enfatizar que, conquanto adaptasse sua mensagem também para quem não estava debaixo de nenhum sistema (incluindo a Torá), ele mesmo não estava sem lei, mas debaixo da lei de Cristo.

Em outras palavras, Paulo entendia que o sistema da Torá não era mais válido, mas que em seu lugar havia outro sistema de lei, o qual podia ser chamado de “graça” ou “lei de Cristo”. O sistema novo contava, evidentemente, com muitos dos mandamentos presentes na Torá, mas não todos, não sendo, portanto, o próprio sistema da Torá. O cuidado de Paulo em demonstrar isso prova, outra vez, que ele não era adepto do antinomismo e que suas críticas não eram propriamente à Torá, mas à vigência dela como sistema no contexto da Nova Aliança.

Gálatas 3:23-29: “Mas, antes que viesse a fé [em Jesus Cristo], estávamos debaixo da Torá e nela encerrados, para essa fé que, de futuro, haveria de revelar-se. De maneira que a Torá nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé. Mas, tendo vindo a fé, já não permanecemos subordinados ao aio. Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes. Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa”.

Essa passagem também é muito elucidativa. Mas para entendê-la corretamente é preciso prestar atenção a algumas nuances. Primeiro vejamos o contexto. O apóstolo Paulo vem discorrendo desde Gl 2:15 sobre como o homem não é justificado pelas obras da Torá, ou seja, pela obediência a todo o sistema composto pelos 613 mandamentos. Muitos judeus que haviam aceitado o evangelho de Cristo acreditavam que isso não afetava o sistema da Torá. Em outras palavras, o judeu crente em Cristo deveria permanecer fiel aos 613 mandamentos, incluindo a circuncisão e as festas fixas com enfoque no sistema sacrificial. E para boa parte desses, isso valia para os gentios que desejavam se unir a Cristo. Além dessa posição, alguns ainda mantinham tradições extra bíblicas como a de não comer com não-judeus.

Paulo, então, se coloca a explicar que o homem jamais foi justificado pela obediência a esse sistema de 613 mandamentos, incluindo o próprio Abraão. Argumenta ainda que se aceitasse a justificação pelas obras da Torá, a morte de Cristo seria vã. Afinal, se tudo o que o homem necessitasse para ser salvo e santificado fosse um corpo de mandamentos, Cristo não teria razão para se sacrificar. Relembra que o Espírito Santo, que nos guia pelo caminho correto não foi outorgado pelo sistema da Torá, mas por meio da pregação da fé. E que fé era essa? A fé em Jesus Cristo.

Toda a explicação de Paulo é pautada nas próprias Escrituras Hebraicas, tanto que ele chega a enfatizar, de maneira semelhante a Rm 3:31, que ele morreu para a Torá por meio da própria Torá (Gl 2:19). Ou seja, o apóstolo Paulo está convicto de que não é um transgressor da Torá, posto que é a Torá mesma que determina o fim do seu sistema. Paulo, portanto, está levando o cumprimento da Torá até as últimas consequências, isto é, a abolição de seu sistema. A finalidade, contudo, não é a anomia ou o antinomismo, mas sim viver para Deus, crucificado com Cristo.

Exposto esse contexto, conseguimos compreender o texto em destaque. Paulo explica que o sistema da Torá tinha a função de nos conduzir até Cristo enquanto a promessa de seu sacrifício não se cumpria. Esse era o sentido de um corpo de mandamentos que incluía um sistema sacrificial, o conceito de uma nação exclusiva, leis civis teocráticas e a circuncisão como sinal de pertencimento ao povo. Nenhum desses aspectos da Torá tinha qualquer valor prático a não ser o de apontar para Cristo. Paulo já havia dito em Gl 2:19 que a razão de ser desse corpo de 613 mandamentos eram as transgressões do ser humano, que só seriam justificadas de fato no sacrifício de Cristo. Assim, o sistema da Torá cumpria o papel de apontar a vindoura justiça divina e simbolizar a salvação que se daria pela fé. A conclusão paulina é que todos são salvos em Cristo, não havendo distinção entre quem chegou a viver sob o sistema da Torá e quem não viveu.

Gálatas 4:1-5: “Digo, pois, que, durante o tempo em que o herdeiro é menor, em nada difere de escravo, posto que é ele senhor de tudo. Mas está sob tutores e curadores até ao tempo predeterminado pelo pai. Assim, também nós, quando éramos menores, estávamos servilmente sujeitos aos rudimentos do mundo; vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Torá, para resgatar os que estavam debaixo da Torá, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos”.

Aqui Paulo oferece mais uma explicação sobre como o sistema da Torá fora dado de um modo temporário, já que não tem em si o poder da salvação. Cristo é quem resolve o problema. Algo importante a ser ressaltado é que, neste ponto da epístola, Paulo começa a tratar não mais apenas de judaizantes, mas de sincretistas. No contexto do capítulo 4, ele afirma que os gálatas serviam a outros deuses, não eram conhecidos por Deus e se apegavam a rudimentos fracos e pobres, os quais, para o apóstolo, eram rudimentos do mundo (Gl 4:8-9 e 2). E agora eles se voltavam a esses rudimentos. Ou seja, havia em alguns dos ensinos judaizantes elementos das antigas religiões pagãs dos gálatas. Tal conclusão tem sido sustentada por muitos teólogos, tanto no caso dos gálatas, quanto no caso dos colossenses. Em ambos os casos, havia uma tendência da igreja a aceitar uma série de rituais, judaicos e exotéricos, numa enorme mistura, ofuscando a suficiência da salvação de Cristo.

Gálatas 4:21: “Dizei-me, os que quereis estar debaixo da Torá, não ouvis vós a Torá?”.

Ainda no mesmo capítulo, o apóstolo inicia uma analogia, retirada de uma história da própria Torá. Ele lembra que Abraão teve dois filhos, uma da escrava, Agar, e outra da esposa, Sara. O primeiro não foi o filho da promessa de Deus, mas sim o segundo. E foi o filho da promessa que permaneceu sob os cuidados de Abraão, enquanto o filho da escrava e sua mãe saíram de casa. Paulo explica que, da mesma forma, a Torá, por ser de natureza temporária, não traz liberdade. Portanto, não somos filhos dela. A promessa, no entanto, anterior à Torá e testificada pela própria Torá, essa sim nos faz livres.

Note o cuidado de Paulo em sempre embasar suas observações e conclusões na própria Escritura e enfatizar que está agindo de acordo com a Torá quando deixa de lado o seu sistema temporário, substituindo pelo sistema trazido por Cristo. A intenção é impedir que suas posições sejam vistas como transgressoras, libertinas e antinomistas. Paulo é extremamente bíblico e fiel aos verdadeiros propósitos da Torá.

Gálatas 5:18: “Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da Torá”.

Essa última passagem encerra o estudo e concretiza o que temos dito. Ainda na epístola de Gálatas, agora no capítulo 5, Paulo volta a falar mais especificamente do problema judaizante. O principal ponto defendido por estes era a necessidade de circuncisão para a inclusão na Igreja e, por consequência, a salvação. Essa foi a maior das polêmicas da Igreja primitiva em suas primeiras décadas. Paulo entendia que o rito da circuncisão era um dos preceitos que haviam saído da validade, em função de ter sido instituído com a função única e exclusiva de simbolizar a antiga aliança. Não faria sentido, portanto, um gentio precisar adentrar uma aliança já ultrapassada para então fazer parte da nova.

Ora, tendo isso em mente e também o fato de que o sistema da Torá era um todo de 613 mandamentos, nenhum a menos, ele inicia o capítulo informando o óbvio: aqueles que se deixam circuncidar estão obrigados a guardar todos os outros 612 mandamentos. E isso recai no problema já tratado em Gl 2:21: se a justificação é por meio da obediência a esse corpo de 613 mandamentos, então Cristo morreu em vão.

O interessante desse capítulo é que Paulo mais uma vez se vê obrigado a explicar que suas posições não são antinomistas ou favoráveis à anomia. Ele não está fazendo uma cruzada contra as leis, mas sim contra o entendimento de que o sistema da Torá, isto é, os 613 mandamentos permanecem válidos. Assim, no verso 13 ele diz que a liberdade de Cristo, que ele tanto exalta, não é uma permissão para pecar. No verso 14, ele mostra mais uma vez que não é um transgressor da Torá, dizendo: “Porque toda a Torá se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Ou seja, o sistema caiu não via transgressão, mas via cumprimento através do amor. O amor é capaz de preencher todos os lugares vagos deixados pelos mandamentos que perderam o prazo de validade e permanecem sendo a base dos que ainda restam.

Do verso 15 em diante, Paulo faz um sermão sobre conduta cristã, destruindo totalmente qualquer possível interpretação antinomista. Ele lembra que devemos andar segundo as orientações e a força do Espírito Santo que nos foi outorgado, o que implica não andar segundo a carne. Isso quer dizer que ainda há padrão de conduta. É nesse contexto que, no verso 18, ele vai dizer que quem é guiado pelo Espírito já não está mais debaixo do sistema da Torá. Ou seja, mais uma vez o apóstolo, ao mesmo tempo em que descarta a Torá como sistema para a nova aliança (com aval da própria Torá), ressalta sua posição contrária ao pensamento antinomista.

Conclusão

Não há em Paulo revolta contra mandamentos divinos. O apóstolo simplesmente quer colocar as coisas em seus devidos lugares. A Torá, segundo sua teologia, é santa, boa e espiritual (Rm 7:12, 14 e 16). Seus mandamentos são, da mesma forma, santos, justos e bons (Rm 7:12). Mas ela não salva o homem, nem pode ajudá-lo a ser obediente. Sua função é apenas dizer o que é certo e o que é errado. E nesse sentido se torna um instrumento de condenação e morte, já que vemos por ela nossos erros e nada podemos fazer para resolver isso.

Por essa razão a aliança baseada apenas na letra era temporária e precisava caducar. Era necessária uma nova aliança que provesse, de fato, a salvação do homem e um modo de ajuda-lo a ser obediente. Paulo irá enfatizar que essa aliança nova foi dada por Cristo, conforme testificada pela própria Torá e toda a Escritura. Nela, não só somos salvos pelos méritos de Cristo na cruz, como também recebemos o seu Espírito, a fim de que o preceito da Torá se cumpra em nós (Rm 8:4). Por isso a nova aliança é superior à antiga e agarrar-se a antiga é agarrar-se à escravidão do pecado. Uma vez que só Jesus salva e que só sua nova aliança pode nos outorgar o Espírito, não há como viver em santidade viva e progressiva estando debaixo do regime da Torá, os 613 mandamentos.

Uma vez que aceitamos a Jesus Cristo, passamos a fazer parte de outro sistema, no qual a graça de Deus se tornou concreta (deixando de ser apenas promessa vindoura), a fé em Cristo se tornou evidente, o Espírito faz de nós morada e os mandamentos referentes ao sistema sacrificial e às concepções da antiga aliança perdem a validade. Nada disso, no entanto, significa que não há mais mandamentos. Ainda há uma lei nesse sistema, uma regra de conduta baseada no amor, para a qual o Espírito nos conduz quando assumimos a postura de sermos crentes verdadeiros. O cumprimento dessa lei é efeito inevitável de uma caminhada com Cristo. É Jesus quem afirma: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (João 14:15).

Em suma, o intuito dessa postagem foi mostrar que não existe, na teologia de Paulo, uma luta contra a lei, mas sim contra a vigência do sistema da Torá no contexto da nova aliança. Assim, o uso dos versos que contém a expressão “debaixo da Torá” como uma forma de criticar quem enfatiza a obediência aos mandamentos de Deus não é legítima, pois foge ao que o apóstolo pretendia com suas palavras. Aqueles que buscam obedecer aos mandamentos de Deus não são legalistas, anuladores da graça ou escravos da Torá, mas servos de Cristo que pretendem andar segundo o Espírito por amor a Deus.

No próximo texto, veremos mais detalhadamente como Paulo construiu a sua teologia, de modo a compreender o que cai e o que fica da Torá. O texto nos auxiliará a perceber em que lugar se encontra o sábado nessa discussão, desfazendo a ideia de que o sábado, à semelhança da circuncisão, está exclusivamente ligado à antiga aliança. Derrubando este mito, ficará claro que a guarda do sábado não inclui ninguém no sistema da Torá e na antiga aliança, sendo um preceito que permanece e se harmoniza com a nova aliança em Cristo.