Por Patrike Wauker

Há um pensamento reformado, que é uma das mais importantes verdades que posso me lembrar. “ Cristo é Senhor de Tudo”. E se Cristo é Senhor de Tudo, e se Tudo deve glorificá-lo, então, para o cristão não existem coisas desimportantes. Tudo para o Cristão glorifica a Deus. Meu trabalho, por mais comum que possa ser, louva e engrandece a Deus. O cristão nessa perspectiva deve ver a Graça de Deus em Tudo. Deus criou as coisas especiais, assim como as coisas comuns; e as coisas comuns são tão especiais quanto as coisas especiais.

Schaeffer e Rookmaker defenderam essa ideia. Eles viram que Arte deve também louvar a Deus. Engana-se porém quem acredita que o valor da arte está no evangelismo. A arte é boa não porque evangeliza, mas porque glorifica a Deus. A função primeira da arte cristã não é evangelizar, mas glorificar. E ao glorificar, ela evangeliza.

Todos nossos dons devem gritar da Glória de Deus. Se eu cozinho, devo cozinhar para Sua Glória. Se lavo um prato, lavo-o para a Glória de Deus. Se crio uma música, componho para o adorar. Cristo é o centro do Universo, e como centro,  tudo que produzo deve subir a Ele como cheiro suave.

Esse é o segredo da força da Reforma. A salvação vem pela fé, todos podem ter fé, e a fé produz obras; as obras devem glorificá-lo, logo todos podem glorificá-lo. Acredito que esse é o cerne da ideia que veio a se chamar Sacerdócio de Todos os Crentes. Todos são Sacerdotes. Não apenas o Pastor. Não apenas o Ancião. Não apenas o líder. Todos são sacerdotes. Todos têm dons. Todos devem usar seus Dons para Cristo, pois Todos foram salvos por Cristo.

Isso obviamente não é o rebaixamento das coisas santas, mas a exaltação das coisas comuns. O Pastor não tem um trabalho menos santo, por ser o membro comum tão especial quanto ele.  Essa verdade é apenas a certeza de que Todos devem glorificá-lo em Tudo.

Esse pensamento, contudo, pode ser mal interpretado. Alguns pensam que se Cristo pede Tudo que sou, e se Cristo quer que eu o glorifique com os meus dons, então, tudo que eu possa fazer deve ser usado para O exaltar. Por exemplo, se eu sou um cantor de funk, devo usar esse meu dom para glorificar Seu Nome. Se produzo uma série de TV, não preciso parar de produzi-la por ter me convertido, pois, Deus quer que eu use esse meu dom para Ele.

O problema com esse pensamento é que ele não exalta as coisas comuns, mas rebaixa as coisas santas. O pensamento de que “não existe diferença entre o santo e o profano”, como vem sendo formulado pelas novas gerações, caminha a léguas mil do pensamento bíblico.

É bem verdade que devo usar Todos os meus dons para Cristo, mas devo lembrar também que só é um dom aquilo que pode ser santificado por Cristo. E santificação é um assunto que se relaciona com Sua Lei. Logo, qualquer “dom” que não obedeça à Lei de Cristo não é um dom.

Falha quem deduz que Cristo santifica Tudo que tenho. Cristo santifica Tudo que tenho que pode ser santificado. Aquilo que não o pode (pois é contrário à Sua Lei) ele joga fora.

Há, então, coisas que podem ser redimidas, e coisas que não podem ser redimidas. Há coisas que podem glorificá-lo, e coisas que não podem glorificá-lo. O parâmetro é a Sua Lei. Uma série de TV pode glorificar a Deus porque não há passagem alguma na Bíblia que condene esse tipo de produção. Contudo, se uma série de TV contém nudez, linguagem sem virtude e influencia seus fãs a pecarem, essa série não pode ser usada para glorificar a Cristo. Cristo é segregador. Ele não aceita tudo. Ele aceita tudo que pode ser aceito.

Nesse contexto, o tema da arte cristã ganha destaque. Os artistas nunca gostaram de dever satisfação a ninguém. Isso porque a arte parece surgir na livre vontade do artista. Carpeaux já disse que Beethoven quando criava por obrigação não produzia grande coisa. Todos hoje acham-se Beethoven, e querem criar apenas o que quiserem.

Cria-se assim uma Nova Elite eclesiástica. Os músicos, acredito, são pioneiros nisso. A música deles não deve ser julgada por ninguém, pois a Arte não deve satisfação, já que ela é boa em si mesma. Arte é importante não porque prega a Palavra, mas porque é Arte. Por isso, o artista cristão não precisa dar satisfação à Igreja. Se ele cria, já cumpre seu papel e assim alegra a Deus.

Isso, obviamente, é uma falsidade. Um cristão que encontra valor na sua arte apenas por ser arte, esquece que nada que o homem cria tem valor, se não for dignificado por Deus.  Não nego que uma obra possa denegrir a imagem de Deus e mesmo assim possuir resquícios de virtudes. O Teatro grego é ideologicamente contrário ao cristianismo, mas não deixa de ter qualidades.

O cristão contudo não pode cair nesse erro, pois ele já foi exposto à luz. E se a luz da Lei já chegou até ele, não há justificativa para ele produzir algo contrário a essa Lei.

O pensamento da Arte pela Arte dentro do cristianismo construiu uma nova elite. Se antes os sacerdotes eram a elite intocável da igreja, hoje a nova elite são os músicos e artistas. Eles podem produzir o que quiserem e nós não podemos discordar. E se o fizermos, receberemos um simples “você não entende de arte.”

Exemplifiquemos. O cantor Gabriel Iglesias lançou a pouco tempo o clipe de sua nova música, Jeremias. Alguns criticaram a produção. Felipe Valente, também cantor, saiu em defesa de Iglesias e disse:

Quando alguém diz “não entendi e não gostei”, me leva à crer que ela só é capaz de gostar de algo q não lhe seja estranho, ou seja, previsível. Se a previsibilidade supera o deslumbramento pelo inusitado, logo, tendo a achar que tal pessoa detesta arte. Meu conselho: não sofra. Procure sempre músicos previsíveis.

O argumento de Valente é que existe um tipo de música cristã “previsível”. A música de Gabriel, contudo, é “inusitada” e por isso é arte. Apenas os que se “deslumbram” com o “Inusitado” podem apreciar essa arte.

Sua ideia de arte é ridícula. O pensamento de que arte é arte quando choca é na verdade um conceito moderno de arte e totalmente anticristão. Seria Bach inusitado? O que há de inusitado em Beethoven? Por mais que a arte seja sempre arrebatadora, ela nem sempre é chocante. O que há de mais tradicional que os sonetos de Camões?

O problema está com a palavra “inusitada”. Se “inusitado” é aquilo que surpreende, então o pensamento de Valente está certo. Afinal, mesmo um poema comum (como o tradicional soneto) é inusitado, quando bem escrito, pois a Beleza é sempre surpreendente.

Mas percebe-se que o “inusitado” aqui faz referência a simples capacidade de ser diferente, de ser chocante. Os artistas de verdade não importam-se se são chocantes ou não, inusitados ou não; ele se preocupam em produzir beleza. Motivo porque Rembrendt é um artista, e Duchamp apenas um entusiasta.  Razão porque a poesia camoniana durará até o último dia deste planeta, e a de Oswald de Andrade já está sendo esquecida.

Ser “inusitada” não é uma qualidade artística. Ela pode existir, e às vezes existe. Mas nem sempre é qualidade. Afinal, a função da arte não é chocar, mas glorificar a Deus. Talvez por crer que a função da arte é chocar, Valente coloca uma crase onde não deveria existir. E por isso seu comentário é também arte. Camões deve estar chocado com o seu comentário, mesmo agora quando morto.

A verdade é que todo artista deve ser livre para produzir arte. Mas a liberdade verdadeira só pode encontrar-se na submissão a Cristo. O cristianismo só voltará a produzir arte elevada, quando aprender a criar sob à Sombra da Cruz. Os artistas não são especiais, os artistas não são uma elite. Eles devem se submeter a Cristo e aprenderem a produzir verdadeira arte. Oro para que um dia isso aconteça. Oro para que um dia, os artistas cristãos produzam arte cristã, ou pelo menos arte.