Esse texto refuta a sétima e última parte da série proposta pela página “Adventista Subversivo”, a qual defende que a prática homossexual não é considerada um pecado pela Bíblia. Todas as outras seis refutações foram feitas pelo teólogo Isaac Malheiros. Esta conclusão, no entanto, é de autoria do articulista Davi Caldas. Para ler o texto refutado, clique aqui.

Inclinação x Determinismo

Em seu último texto da série, o Subversivo sustenta a seguinte tese: se o comportamento homossexual possuir uma origem genética, não pode ser considerado um pecado, pois o comportamento seria natural. Há muitas falhas nessa linha de argumentação. Em primeiro lugar, não necessariamente o que é natural é correto. A natureza do ser humano após a queda se corrompeu. Isso implica que podemos nascer com uma série de inclinações que não são morais e que não se coadunam com o que deveríamos ser originalmente. Pode ser o caso do comportamento homossexual ou não. É o que se pretende descobrir. Mas pressupor que só porque é natural é correto, não se constitui um argumento logicamente válido.

Fica claro como esse pressuposto domina toda a argumentação do Subversivo quando ele cita a pesquisa da bióloga transexual Joan Roughgard. No livro Evolution’s Rainbow (“Arco-Íris da Evolução”, sem tradução em português), ela analisa cerca de 300 casos de comportamento homossexual entre animais. O Subversivo destaca suas palavras: “Os homossexuais são muitas vezes acusados de exibir um comportamento não natural. A única maneira de refutar essa acusação é pesquisar as causas das diferentes orientações sexuais”. O leitor percebe? O Subversivo vai até uma obra evolucionista, que busca traçar um paralelo entre comportamentos do reino animal e comportamentos humanos, a fim de classificar a homossexualidade humana como natural e sustentar que natural é sinônimo de correto.

É, no mínimo, curioso que uma página autodenominada adventista recorra à cosmovisão evolucionista para defender um paralelo entre animais e humanos. Levando em conta que os adventistas são históricos defensores do criacionismo, em oposição à teoria darwinista da evolução das espécies, não existe qualquer validade na comparação entre animais e humanos no estudo da homossexualidade. Ademais, o comportamento animal sequer é uma boa base para servir de exemplo ao ser humano. No reino animal também é natural o estupro, o incesto, a promiscuidade, as brigas fatais por fêmeas, etc. Natural, normal e rotineiro. Devemos entender, então, que tais práticas são corretas? Creio que o Subversivo diria que não. Mas curiosamente, ele cita também as palavras do antropólogo Luis Mott, presidente do Grupo Gay da Bahia: “Se comprovarem que há uma raiz genética, estará claro que a homossexualidade está nos próprios desígnios do Criador”. Ocorre que Luis Mott é ateu e defensor da pedofilia. Podem pesquisar no Google. Não é segredo para ninguém. A pergunta que fica é: o Subversivo vai até as últimas consequências de seus pressupostos, como Luis Mott?

Em segundo lugar, o Subversivo trabalha com a ideia de que uma inclinação genética ao comportamento homossexual seria o mesmo que um determinismo. Ou ainda: a ideia de que o comportamento homossexual está no mesmo patamar que características físicas como ser branco, negro ou ter nariz grande. Em ambos os casos, a intenção é fazer com que o comportamento deixe de ser uma questão de escolha. O homossexual assumido Milo Yiannopoulos comenta sobre isso em uma palestra, afirmando categoricamente que essa ideia é mentirosa. Clique aqui para assistir. Vale à pena ver a resposta dele.

Independentemente de haver ou não alguma propensão genética ao comportamento homossexual, o que deve ficar claro é que ninguém é obrigado a seguir suas inclinações naturais. Na verdade, a vida cristã ensina justamente que a natureza humana se tornou corrompida, distinta do que era originalmente. Isso implica que muitas vezes, para fazer a vontade de Deus, precisaremos negar impulsos de nossa própria natureza. Tal fato é tão óbvio que posso reafirmá-lo até mesmo sem linguagem religiosa. Nós, humanos, assim como os animais, temos uma série de instintos naturais. Eles são naturais, mas devemos sempre controlá-los. Assim, um homem vê uma mulher bonita na rua e seu instinto natural é correr atrás dela e força-la a procriar. É o que nossa biologia ordena. E é o que os animais efetivamente fazem. No entanto, por nós sermos dotados de razão e senso moral mais refinados, dizemos não ao impulso natural. Ora, se podemos dizer “não” aos impulsos naturais, então há possibilidade de escolha.

Ressalta-se ainda que não só a natureza humana foi corrompida, mas toda a criação. Isso significa que tomar animais como exemplo para o comportamento humano é, além de tudo, se basear em uma natureza já corrompida também. Note que não estou (ainda) dizendo que o comportamento homossexual é pecado, mas atacando os pressupostos do Subversivo para dizer que não é. Até o momento não houve argumentação válida por parte do Subversivo. E boa parte do artigo irá se basear apenas nisso: comparação entre humanos e animais, pressuposto de natural como certo, defesa de impulso natural como determinismo e ideia de impossibilidade de escolha. Nada disso faz sentido.

Falácias Secularistas

Mais para o fim do artigo, o Subversivo começa a criticar quem entende o comportamento homossexual como pecado. Nesse tópico, uma série de falácias secularistas são usados como se fossem bons argumentos. Uma delas sugere que quem entende o comportamento homossexual como um pecado e defende isso com firmeza está tentando esconder algo suas próprias tendências homossexuais e tende a se tornar psicótico. Ou seja, para o Subversivo, quem pensa diferente dele nesse assunto não o faz porque tem uma boa base argumentativa e deseja estar do lado da verdade, mas apenas porque quer reprimir a si mesmo. Trata-se claramente de uma falácia, cuja intenção é meramente tirar o crédito de quem pensa diferente.

Outra falácia, usada mais adiante, procura colocar no mesmo saco pessoas que acham a prática homossexual errada com pessoas que reprimem e perseguem gays. Ou seja, todos são homofóbicos. Essa conclusão está diretamente atrelada ao pressuposto de que a prática homossexual não seria uma escolha, mas uma característica fisiológica imutável, tal como ser negro ou branco. Ora, se seria ridículo dizer que ser negro é errado, também seria ridículo dizer que praticar o homossexualidade é errada. No entanto, como é evidente, ser negro é uma condição, ao passo que praticar homossexualidade é uma ação. Ações pressupõem escolhas. Independente de haver inclinação natural à escolha ou não, isso não tira o status de escolha da ação. O Subversivo passa por cima dessa obviedade para poder rotular quem pensa diferente como intolerante, psicótico, raivoso, preconceituoso. É todo o modo de ação dos grupos secularistas militantes LGBT (o lobby gay, como o Milo fala no vídeo).

Na sequência, como não poderia deixar de faltar, o Subversivo sugere que quem tem essa opinião se aproxima de movimentos genocidas. “Muita gente na história da humanidade elegeu minorias para serem dizimadas: Os judeus, os índios, os negros, as mulheres e agora os gays”. Ele não diz, mas certamente pensou no nazismo. É a regra máxima das discussões com esquerdistas (o Subversivo é ligado às pautas da esquerda): “Todo mundo que eu não gosto é nazista/fascista”. Curioso é que, nas discussões sobre o assunto na página, sobram críticas contra cristãos e à cultura ocidental, que formam um contexto onde os gays têm seus direitos de cidadão garantidos, podem fazer passeatas e, em muitos países, unirem-se civilmente e adotarem crianças. Contudo, faltam críticas ao islamismo e à cultura oriental, que formam um contexto extremamente homofóbico, onde em muitos países homossexuais são perseguidos, torturados e mortos com amparo legal.

O Subversivo continua se utilizando de discursos secularistas. Ele menciona que há pouco tempo havia forte discussão na Igreja Anglicana sobre a possibilidade das mulheres serem ou não sacerdotes e bispas na Igreja. Atualmente as mulheres anglicanas podem ser sacerdotes e bispas. E o Adventista Subversivo resume as discussões em torno do assunto assim: “Hoje, algumas décadas passadas, rimos as gargalhadas daqueles tempos e daquela discussão, que nada mais evidenciava do que um momento histórico, em que os homens estavam perdendo para as mulheres, sua hegemonia no poder (na Igreja e fora dela). Era o preconceito e o pecado buscando legitimidade Bíblica. Tal discussão é atual na Igreja Adventista do Sétimo Dia” (Gifo meu).

Destaquei a frase acima para demonstrar como a análise do Subversivo está fincada numa visão feminista. Para ele, o único motivo de haver discussões sobre o assunto era uma indignação por perder espaço para as mulheres. Não há a mais remota possibilidade, para o Subversivo, de que as discussões ocorressem porque realmente há bons argumentos para se sustentar que a posição de sacerdotisa não é autorizada pela Bíblia (embora o sejam outras posições de liderança, como juíza civil). O Subversivo lê a realidade apenas com os óculos ideológicos do secularismo e da esquerda.

A questão do amor

O Subversivo continua o artigo investindo um pouco mais na ideia de que a motivação para achar a prática homossexual errada não pode ser, de forma alguma, racional. Para ele, quem tem essa opinião “está com dificuldade de entender aquilo que Jesus tanto insistiu em todo o seu ministério: Amar ao próximo, como a si mesmo. Nisso, disse Jesus, resume-se toda a Lei”. Ou seja, o Subversivo joga o jogo do “nós contra eles”, criando um grupo que representa o amor, que é o de quem possui a opinião favorável à prática homossexual, e o um grupo que representa o não-amor (ou o ódio), que é o de quem crê que a Bíblia condena a prática homossexual. Trata-se de uma tática de difamação, claro, já que cria um rótulo negativo sobre o oponente e joga a plateia contra o mesmo sem muita necessidade de argumentação. Afinal, se o grupo oponente representa o ódio, não há mais o que discutir, certo?

Essa questão do amor se desdobra. Para quem aceita as posições do Subversivo, a prática homossexual não pode ser errada porque Deus é amor e mandou amar. Assim, como amar uma pessoa do mesmo sexo poderia ser errado? O Subversivo chegou a utilizar esse argumento em uma das discussões na sua página. A grande falha aqui é que o argumento não considera a existência de tipos de amor diferentes na Bíblia. Tanto no grego, quanto no hebraico, há palavras diferentes para tipos diferentes de amor. Quando a Bíblia fala que Deus é amor, refere-se ao amor geral. O amor geral é aquele que devemos sentir por qualquer pessoa pelo simples fato de ela ter vida e sentimentos. É o amor que Deus sente por nós e que nós devemos nutrir por Ele e pelo próximo.

Para usar as definições gregas, não devemos confundir este amor geral com as suas demais vertentes: o amor “Eros” (de casal), o amor “Philos” (de irmão) e o amor “Storge” (de família). Este amor geral é o amor Ágape. É um amor maior do que todas as suas vertentes e sem o qual nenhuma delas existe. É o amor do qual suas vertentes são apenas representações parciais. As vertentes de Ágape podem até simbolizá-lo em alguns aspectos, mas jamais podem substituí-lo, pois a representação nunca substitui o objeto representado.

Deus é Ágape e não Eros. Portanto, não faz muito sentido dizer Ele deseja que todos os seres humanos amem eroticamente qualquer um dos gêneros criados. Faz sentido sim dizer que Deus deseja que todos os seres humanos amem com amor Ágape a qualquer um dos gêneros. Assim, podemos dizer que a Bíblia não proíbe o amor entre duas pessoas do mesmo sexo. Na verdade, ela incentiva. Mas não se trata do amor “eros” e sim do amor “ágape”. O que a Bíblia deixa claro (e mostramos isso nas outras seis partes dessa série) é que o amor Eros (que inclui aí a relação sexual) foi criado para ocorrer entre um homem e uma mulher, dentro de um matrimônio.

A moral humanista

Outro desdobramento do argumento do amor sugere que uma moral baseada apenas no amor ao próximo. Trata-se de uma moral humanista. Sua suma é: “Se não estou fazendo mal a ninguém e estou feliz, então não é errado”. O problema é que a Bíblia não ensina uma moral humanista. Há uma série de comportamentos que não causam problemas ao próximo, nos trazem alguma felicidade, mas que são pecados. Sabemos, por exemplo, que práticas como a masturbação, o consumo de pornografia, sexo sem compromisso e “ficadas” são pecaminosas. Um não cristão, que baseia sua vida numa moral humanista, dirá: “Mas qual o problema? Não estou fazendo mal a ninguém”. Não está mesmo. Mas a moral bíblica condena. Se o Subversivo quer fazer uso de uma moral humanista, terá que concordar com o não cristão: nenhuma dessas práticas causa dano ao próximo, logo não há pecado nelas.

A moral humanista traz outras implicações. Se tudo o que precisamos é não causar mal a ninguém, não só o relacionamento homossexual é licito, como outras modalidades. Ou seja, o poliamor (relacionamentos entre três ou mais pessoas) também é licito. E um bacanal entre amigos que muito se amam também. Aliás, um dos argumentos usados pelo Subversivo para sustentar que a Bíblia não condena a prática homossexual é o de que os textos que parecem dizer isso, na verdade, estão condenando rituais pagãos idolátricos que faziam uso do sexo homossexual também ou, em outros casos, a violência. Isto é, o componente criticado não é o sexo homossexual, mas a idolatria ou agressividade gerada por sentimentos de exploração, inospitalidade, ódio, etc. Ora, da mesma forma, é possível argumentar que os componentes criticados nos bacanais e na vida promiscua pela Bíblia são a idolatria, a violência, o desrespeito, etc. Desde que você seja promiscuo com amor e respeito pelos seus parceiros, não há pecado. Daí pergunto: por qual razão amigos que muito se amam não poderiam marcar, vez ou outra, um bacanal, para expressarem seu amor uns pelos outros e encontrarem prazer juntos?

Os argumentos em relação à pedofilia, zoofilia e necrofilia que circulam pelo mundo através de seus partidários são idênticos. Geralmente, quando menciono isso, sou acusado de comparar práticas horrendas e doentias com a prática homossexual. O problema é que os defensores dessas práticas não pensam assim e os argumentos são os mesmos. Que o diga o Luis Mott, defensor da pedofilia, e citado pelo Subversivo. Para pessoas como Mott, pedofilia é “amor à criança”. O erro não está em amar a criança, mas em causar mal a ela. E, para eles, não necessariamente uma relação sexual lhe causará mal. Não causará se a criança gosta de seu parceiro. Percebe o tamanho do problema? Em suma, quando se assume a moral humanista, qualquer relacionamento pode ser sustentado como legítimo, desde que ninguém esteja (aparentemente) sendo lesado.

Considerações Finais

O Subversivo ainda irá, nos últimos parágrafos antes da conclusão, insistir na ideia de colocar no mesmo saco homofóbicos e pessoas que discordam da prática homossexual, rotulando-as de pessoas sem amor. Feito isso, inicia sua conclusão. Entre outras coisas, afirma que “depois do pecado, a natureza sofreu ‘modificações’ e que Jesus compreendia as diferenças e as peculiaridades de cada indivíduo em nível biológico e social, e dessa forma, mostrou que nem todos podem ‘aceitar’ ou viver uma vida ‘heteronormativa’”. O que o Subversivo faz aqui é sustentar que, se a natureza mudou e alguns passaram a desejar ser o que não são, não há problema moral nisso. Ora, se o Subversivo reconhece que a prática homossexual não é o ideal de Deus e que o descompasso entre o fisiológico e a psique é efeito do mundo de pecado, não seria mais coerente com o cristianismo advogar a abstenção de relacionamento erótico? A opção que a Bíblia dá em relação a matrimônio é casar-se com uma pessoa do sexo oposto, ou não casar-se e não ter relações sexuais. Não há margem, na Bíblia, para outra modalidade de casamento.

Deve-se ressaltar ainda que o fato de Deus nos amar, não implica que Ele ache bom que adquiramos comportamentos provenientes de descompassos causados pelo pecado. Mas para o Subversivo a hipótese de abstenção parece inadmissível. Ocorre que ser cristão implica ter de abster-se de muitas coisas. Isso pode ser doloroso, mas todos passam por esse problema em alguma área da vida. A saga do cristão é jogar fora aquilo que desagrada a Deus, mesmo que se trate de algo que sua carne almeja, mesmo que seja uma propensão natural. Por que deveria ser diferente com a prática homossexual? Esta posição nada tem de homofóbica. Ela apenas se baseia em argumentos bíblicos (demonstrados ao longo de toda a série) que mostram ser a prática homossexual um pecado aos olhos de Deus. E essa é a única razão que nos leva a dizer que é pecado.

O que fica claro aqui é que toda a argumentação do Subversivo nesse último texto se baseou em pressupostos evolucionistas, ideias secularistas, bordões ideológicos e falácias usadas por grupos de militância política. E nos textos anteriores, utilizou-se de uma interpretação frágil das Escrituras, buscando apontar sempre outras razões por de trás das passagens que condenam a prática homossexual e sem jamais mostrar uma passagem que estabeleça o relacionamento homossexual como uma opção ao matrimônio instituído por Deus.

O texto final do Subversivo demonstra, no fim das contas, que o fator motivador para a defesa da prática homossexual é a inadmissibilidade, para o autor, de que todos os pecadores, incluindo aí os homossexuais, devem abster-se de fugir aos padrões divinos, ainda que isso implique a negação de certos impulsos naturais. Por mais triste que essa situação humana possa ser, isso não muda aquilo que Deus afirma ser pecado. Cabe a cada cristão escolher se fará as coisas à sua maneira, ou à maneira do mundo. A liberdade existe. Que cada um escolha o que melhor lhe aprouver. E que seja digno o suficiente para encarar as consequências.

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Posts da Série “A Bíblia e a Homossexualidade”

Apresentação
Parte 1: A Criação
Parte 2: Sodoma e Gomorra
Parte 3: Os Cananeus e a prostituição cultural
Parte 4: Jesus e a Homossexualidade
Parte 5: Idolatria e ritos orgíacos (Rm 1:26-27)
Parte 6: Prostituição Masculina e Devassidão (1 Co 6:9 e 1 Tm 1:10)

Parte 7: Ciência, genética, psicologia e conclusão