Por Davi Caldas

No primeiro artigo dessa série trabalhamos a ideia de que a ortodoxia cristã está enraizada no judaico-cristianismo (no sentido religioso, não étnico) e que pelo menos nas três primeiras décadas da Igreja cristã mundial, a congregação sede era a de Jerusalém, não a de Roma. A tese defendida na série é que um gentio-cristianismo (no sentido religioso) surgirá no mundo após as primeiras décadas de Igreja, fazendo emergir a Igreja Romana como sede mundial. Conforme a tese proposta, a construção dessa nova religião não ocorre por ordem divina, mas por raciocínios e tradição humanas, o que implicará uma gradual distanciação da ortodoxia judaico-cristã dos apóstolos. O presente artigo desenvolve uma nova etapa desse estudo: a análise da passagem de Mateus 16:18-19. Esta passagem é a principal base utilizada por católicos romanos para sustentar a instituição da ICAR por Cristo, sua infalibilidade doutrinária (e também do Papa) e a sucessão papal a partir do apóstolo Pedro.

É importante ressaltar que a priorização das Sagradas Escrituras nessa série se constitui uma questão de metodologia histórica. Embora eu seja um defensor do princípio da Sola Scriptura (da qual ainda falarei no decorrer dos estudos), tenho ciência de que não posso tomar o princípio como correto antes de provar, do contrário esse estudo já se iniciaria tendencioso. Contudo, do ponto de vista histórico, deve-se primar pelas fontes mais antigas e as testemunhas oculares. As Escrituras Sagradas, indubitavelmente, são as fontes mais antigas que temos da Igreja primitiva, boa parte escrita por testemunhas oculares dos eventos narrados. Ademais, se a tese defendida aqui é justamente que após as primeiras décadas de Igreja, o cristianismo começou a se afastar da ortodoxia, não terá muito sentido priorizar escritos tardios. A metodologia é segura, pois se a ICAR foi instituída por Cristo, certamente haverá evidência disso também nas Escrituras e não apenas nos escritos posteriores.

2. A análise de Mateus 16

Vamos começar expondo o texto. Usarei uma Bíblia Católica que tenho em meu computador:

“E eu [Cristo] te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mateus 16:18-19).

Há quatro perguntas a serem respondidas nesse texto: (1) Quem ou o quê é a pedra sobre a qual Cristo edificará a sua Igreja? (2) O que isso significa e implica? (3) O que significa “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”? (4) O que o detentor das chaves do céu pode ligar e desligar?

Para as duas primeiras existem cinco interpretações possíveis e plausíveis. Vamos ver.

2.1. Interpretações sobre a pedra

A) Pedro como líder histórico

A primeira interpretação é que a pedra é Pedro. Logo, Jesus edificaria sua Igreja sobre o apóstolo. Essa interpretação não significa necessariamente que Pedro seria a base da Igreja no sentido atemporal, perpétuo, espiritual. A ideia mais provável é que ele seria a base no sentido histórico, temporal e prático. Qual a diferença? No primeiro caso, Pedro se torna uma figura transcendente que permanece sendo a base da Igreja por todos os séculos. Ele sustenta a Igreja no sentido espiritual, diária e ininterruptamente, mesmo depois de morto, sendo o responsável direto por ela continuar de pé. Aqui Pedro não foi a base da Igreja. Ele é.

No segundo caso, contudo, Pedro se torna a base da Igreja em um ponto muito bem determinado e delimitado no tempo. Como ser histórico e mortal, Pedro serve aos propósitos divinos de modo temporal, sendo feito o líder por meio do qual Cristo começa a construir sua Igreja. Aqui Pedro não é a base da Igreja. Ele foi.

Entender as palavras de Jesus a Pedro no sentido mais espiritual pode ser problemático. Afinal, nesse sentido quem sustenta a Igreja é Cristo. Ele o faz através da intercessão constante ao Pai, do perdão oferecido, da proteção, das bênçãos, do poder do Espírito Santo, do consolo, do conforto, do convencimento dos pecados, do lavar espiritual, da Sagrada Escritura, da divina providência. É Jesus Cristo quem diz que estará conosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mt 28:20). E, de fato, é o único que pode fazê-lo, já que é imortal, onipotente, onisciente e onipresente. Ele é a base da Igreja de maneira atemporal, diária, constante, perpétua e transcendente. Em suma, aqui a Igreja não foi (passado) edificada sobre Cristo; ela está (presente) edificada sobre Cristo.

O sentido histórico parece se encaixar melhor com a mensagem bíblica. Jesus estaria ressaltando a relevância de Pedro como personagem temporal no início da construção da Igreja. Essa relevância é inegável na Bíblia. Vamos mencionar alguns exemplos.

Em Atos 2, vemos que no dia em que discípulos receberam o Espírito Santo, o discípulo mais destacado nas palavras foi Pedro (At 2:14). Foi por meio de sua primeira pregação que três mil pessoas foram batizadas naquele dia de Pentecostes (At 2:37-41).

Foi também a Pedro que Deus deu o famoso sonho dos animais puros e impuros, que pretendia ensiná-lo que o evangelho deveria ser pregado aos gentios. Por causa desse sonho, Pedro pregou ao oficial romano Cornélio e sua família (At 10). E, em função dessa experiência foi que Pedro se tornou uma das vozes determinantes no Concílio de Jerusalém para decidir se a circuncisão deveria ser imposta aos gentios ou não (At 15).

Pedro era o mais impetuoso dos discípulos e, por isso, geralmente estava à frente de grandes eventos. Isso o levou a ser considerado um dos principais apóstolos juntamente com Tiago e João (Gl 2:9). Foi também Pedro (ao lado de João) quem foi comissionado pelos demais para ir à Samaria averiguar os primeiros trabalhos de conversão naquele lugar (At 8:14-25).

Então, nesta primeira interpretação, o que Jesus queria dizer era isso: que a Igreja começaria ser construída principalmente sobre o trabalho de Pedro. Ele seria a base humana para esse início. Além de expor a relevância de Pedro para o começo da Igreja e sua liderança natural, é possível que Jesus realmente tenha instituído o apóstolo como líder formal ali, embora a evidência neotestamentária pareça sustentar uma liderança mais informal e uma autoridade mais compartilhada entre os apóstolos. Essa primeira interpretação proposta poderia ser aceita por protestantes, católicos romanos e católicos ortodoxos. A diferença é que os romanos provavelmente entenderiam que Jesus utilizou os dois sentidos ao falar com Pedro.

B) Pedro como adjetivo/metáfora

Uma segunda interpretação plausível faz notar que o nome Pedro é uma metáfora. Obviamente Jesus não chama Simão de Pedro porque o apóstolo era literalmente uma pedra, mas porque era (ou seria) como uma pedra. Em que sentido? Presumivelmente, no sentido de ser firme ou consistente na fé. Se Pedro é um nome-metáfora, então, na frase “Tu és Pedro”, é possível que Jesus esteja chamando a atenção não apenas para o novo nome dado ao apóstolo, mas à razão do nome: “Tu és firme como uma pedra”. Neste caso, Pedro não funciona só como um substantivo, mas um adjetivo para firmeza, solidez ou força na fé. Se isto é correto, a ênfase da frase seguinte: “e sobre esta pedra edificarei minha igreja” recai sobre o adjetivo e não sobre o substantivo, sobre a metáfora e não sobre o nome. Era como se Jesus estivesse dizendo: “Tu és Pedro, firme na fé como uma pedra, e sobre essa firmeza na fé eu edificarei minha Igreja”. Pedro não é apenas um nome, mas uma característica. Não se pode descartar a hipótese de que é a característica “pedra” que esteja sendo anunciada como a base da Igreja.

Uma vez que a firmeza em Cristo não seria uma característica só de Pedro, então Cristo estava dizendo que edificaria sua Igreja através de homens firmes nele como Pedro. Era uma forma de mostrar a Pedro como essa firmeza era importante para toda a Igreja e de incentivá-lo a continuar firme.

C) Pedro como parte de Cristo

Uma terceira interpretação também plausível é a de que Jesus estava fazendo uma alusão ao relacionamento profundo que os cristãos deveriam ter para com ele. Cristo deseja de nós um relacionamento tão profundo para com ele que diz que fazemos parte dele. Ele é o cabeça e nós somos o seu corpo. Fazemos parte de Cristo. Desta maneira, se ele é pedra, nós somos parte dessa pedra. Por consequência, somos pedras também.

Essa não é uma figura incomum na mente de Cristo. Em João 15:5 ele diz ser a videira e os discípulos seus ramos. Em João 17:20-26, Jesus ora ao Pai expressando o desejo de que ser um com os discípulos. Os primeiros cristãos, por sua vez, se entendiam como sendo o corpo simbólico de Cristo, cuja cabeça é o próprio Jesus (I Co 6:15 e 12:27; Ef 1:22-23 e 4:12-16; Cl 1:18 e Cl 2:18-19). Ora, se era isso que Jesus tinha em mente em Mateus 16:18-19, então quando ele chamou Simão de Pedro, quis dizer que Pedro era parte dele mesmo, que é a pedra original.

Quando nos unimos a Cristo, passamos a fazer parte de sua natureza. Assim, Simão era pedra porque estava conectado, interligando, amalgamado, colado a Jesus Cristo (como na parábola da videira). Enquanto Pedro continuasse assim, seria pedra, como Cristo o era. E era sobre esta pedra, isto é, sobre a própria natureza firme de Cristo, da qual Pedro estava tomando parte naquele momento, que Ele edificaria sua Igreja. De modo semelhante à outra hipótese, aqui a ênfase recai sobre a característica pedra. Simão é pedra porque Cristo é pedra e Simão está em Cristo. Então, edificar a Igreja sobre a pedra que Simão se tornou é edificar a Igreja sobre a pedra que é Cristo, da qual tomamos parte quando estamos nele.

Esta terceira hipótese encontra muito apoio nos textos em que o próprio Pedro identifica Jesus como a Rocha e a Pedra Angular. Em Atos 4:11, o apóstolo afirma: “Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular”. Em sua primeira epístola, Pedro é ainda mais enfático:

“Chegando-vos para ele [Cristo], a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. Pois isso está na Escritura: ‘Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será, de modo algum, envergonhado’. Para vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade; mas, para os descrentes, ‘A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular’ e: ‘Pedra de tropeço e rocha de ofensa’. São estes os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos” (I Pd 2:4-8 – Ênfase minha).

Esse texto é uma forte evidência de que Pedro compreendeu a imagem usada por Jesus em Mateus 16:18-19 como uma referência a si mesmo como a pedra principal e aos demais cristãos, incluindo Simão, como pedras também, por estarem em Cristo. Não é só Pedro que parecia ter essa compreensão. Paulo afirma aos coríntios que os cristãos são “edifício de Deus” e que “ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (I Co 3:9-11). O apóstolo também explica que os hebreus no deserto “beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo” (I Co 10:4). Aos efésios dirá ainda:

“Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito” (Ef 2:19-22).

Pode se interpretar essa passagem de duas maneiras. A mais provável é que a Igreja está edificada sobre Cristo, que é o fundamento dos apóstolos e profetas. Mas também é possível que Paulo esteja dizendo que os apóstolos e profetas são o fundamento, mas que eles têm por pedra angular a Cristo. Nos dois casos fica claro que Cristo é a pedra que sustenta toda a Igreja e os membros da Igreja são pedras porque estão em Cristo.

A designação de Jesus como pedra angular e principal faz alusão à profecia relatada em Salmos 118:21-23. Essa profecia foi aplicada por Jesus a si mesmo, ao fim da parábola dos lavradores maus (Mt 21:42-44, Mc 12:10-11 e Lc 20:17-18). Ou seja, ideia de Jesus como rocha está diretamente ligada à ideias trabalhadas pelo próprio Cristo durante o seu ministério.

D) A confissão de Pedro

Uma quarta hipótese possível é a de que “esta pedra” é uma metáfora para a confissão de Pedro. No contexto de Mateus 16, Jesus quer saber quem seus discípulos creem que ele é. Simão toma a frente e diz: “Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo”. Esta confissão é elogiada por Cristo e então vem o texto que estamos analisando. Então, nessa hipótese, Jesus faz um jogo de palavras. Chama Simão de Pedro porque fez uma confissão pétrea, basilar, e depois afirma que sobre esta pedra, isto é, a confissão basilar que fez de Simão uma pedra, Ele edificaria a Igreja. A pedra, o fundamento, é o reconhecimento de Jesus como Cristo, Filho do Deus vivo.

Embora essa interpretação sempre tenha me parecido, pessoalmente, a menos forte das quatro, muitos pais da Igreja criam nela. Aqui cabem dois esclarecimentos importantes.

(I) Os chamados pais ou padres da Igreja (a patrística) são os primeiros grandes teólogos do cristianismo a partir do fim do primeiro século e início do segundo. Eles têm importância histórica para as igrejas protestantes, mas sua relevância é maior para as igrejas católicas romana e ortodoxa. Para a ICAR, seus escritos se constituem parte da santa tradição do catolicismo romano e, portanto, em pé de igualdade com a Bíblia.

(II) Quando digo que muitos pais da Igreja criam nessa interpretação, não quero com isso dizer que eles se opunham à interpretação de que Pedro foi o primeiro papa e que Roma detém o primado da Igreja mundial. Eles criam em ambas as interpretações e os apologistas católicos modernos reconhecem isso, não vendo as duas como mutuamente exclusivas. Isso nos leva a uma quinta e última interpretação: a de que todas elas estão corretas.

E) Interpretação mista

Nenhuma das Interpretações acima se excluem mutuamente, mas podem ser entendidas como complementares. Ao chamar Simão de pedra, Jesus podia sim estar apontando a firmeza de Pedro na fé, derivada da firmeza de Cristo (a Rocha original), expressa numa confissão pétrea. Assim, a Igreja seria edificada sobre Jesus que é pedra, sobre a ideia de Jesus como Cristo e Filho do Deus vivo, que também é pedra, sobre Simão (no sentido histórico), que é pedra por fazer parte de Cristo, e sobre a firmeza que Simão demonstrou em Cristo, que é pedra a ser compartilhada por todos os cristãos.

Aqui todos esses sentidos são válidos porque se baseiam em um elemento comum: Cristo. Ele é a pedra da qual deriva todas essas outras pedras. Assim, mesmo que Jesus estivesse falando de Pedro, por exemplo, estava falando de si próprio, pois Pedro só é Pedro em Cristo. Ou, mesmo que estivesse falando da confissão de Pedro, falava também de si, pois a confissão era sobre ele e sua natureza. Que o texto possui essa elasticidade, tanto o Catecismo da ICAR quanto os pais da Igreja estão de acordo. No Catecismo, em um dos parágrafos sobre o tema, lemos:

“Movidos pela graça do Espírito Santo e atraídos pelo Pai, cremos e confessamos acerca de Jesus: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo’ (Mt 16,16). Foi sobre a rocha desta fé, confessada por São Pedro, que Cristo construiu sua Igreja” (Parágrafo 424). [1]

Aqui a confissão de Pedro é entendida como a rocha sobre a qual Cristo edifica sua Igreja. Já em outros parágrafos relacionados, utiliza-se as interpretações de Pedro como a rocha e de Cristo como a Pedra viva (Parágrafos 153, 442, 552, 683, 880 e 881).

Santo Agostinho, embora tenha escrito dezenas de textos afirmando ser Pedro a pedra de Mateus 16, também afirmou em algumas ocasiões que a pedra era a confissão de Pedro ou o próprio Cristo (Sermões 26; 147.3; 229.P1, 270.6; 295.2; Comentário sobre o Salmo 60.3; Tratados sobre o Evangelho de São Lucas 124.5; Retratações, caps 20 e 21). Na obra Retratações, ele afirma:

“Em meu primeiro livro contra Donato mencionei em algum lugar uma referência ao apóstolo Pedro como ‘a igreja está fundada sobre ele como uma rocha’. Esta interpretação também soa em muitos lábios nas linhas de bênção de Santo Ambrósio, na qual falando de sua própria casa, ele diz: Quando ele canta, a rocha da Igreja absolve pecado. Mas eu me lembro que, frequentemente, explicou as palavras de Nosso Senhor a Pedro: ‘Sobre esta pedra edificarei a minha igreja’, de modo que deve ser entendida como referindo-se a confissão do próprio Pedro quando disse: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, no sentido de que Pedro tinha sido nomeado rocha, levou a figura da Igreja, que é construída sobre esta pedra e recebeu as chaves do reino dos céus. A partir do que foi dito sobre ele não disse “Você é Rocha,” mas “Tu és Pedro”, pois a pedra era Cristo, tendo sido confessado por Simão (e como toda a Igreja confessa), que foi chamado Pedro. Qual dessas interpretações é correta, decida o leitor”[2].

Em outro texto, diz:

“Cristo, como vês, edificou a sua Igreja não sobre um homem, mas sobre a confissão de Pedro. Qual é a confissão de Pedro? “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Aqui está a pedra para ti, aqui está o fundamento, aqui é onde a Igreja foi edificada, a qual as portas do inframundo não podem conquistar” [3].

Orígenes, outro pai da Igreja, também interpretava o texto de várias formas. Eis uma delas:

“E se nós também dissermos como Pedro, ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo’, não como se carne e sangue no-lo tivesse revelado, mas pela luz do Pai nos céus tendo resplandecido no nosso coração, nos tornamos um Pedro, e a nós nos poderia dizer o Verbo, ‘Tu és Pedro’, etc. Pois é uma pedra cada discípulo de Cristo de quem beberam aqueles que beberam da pedra espiritual que os seguia, e sobre cada pedra assim é edificada cada palavra da Igreja, e o governo de acordo com ela; pois em cada um dos perfeitos, que têm a combinação de palavras e atos e pensamentos que preenchem a bem-aventurança, é a Igreja edificada por Deus” [4].

Ele também dirá em outra passagem que “A promessa dada a Pedro não é restrita a ele, mas aplicável a todos os discípulos como ele”, explicando adiante que a Igreja é edificada sobre todos os apóstolos, que todos recebem as chaves dos céus e que as portas do inferno não prevalecem contra todos eles. Para Orígenes, “carregam o sobrenome de ‘pedra’ todos os que são imitadores de Cristo, isto é, da pedra espiritual”, o que torna cada cristão um Pedro [5]. Ambrósiaster afirma: “Pelo que o Senhor diz a Pedro: ‘Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja’, isto é, sobre a confissão de fé católica estabelecerei em vida os fiéis” [6]. Ambrósio de Milão diz:

“A fé, pois, é o fundamento da Igreja, pois não foi dito da carne de Pedro (da sua pessoa), mas da sua fé, que ‘as portas do Hades não prevaleceriam contra ela’ […] Faz um esforço, portanto, para ser uma pedra!” [7].

Eusébio de Cesaréia, após citar a passagem de Mateus 16 em conjunto com os textos paulinos que dizem ser Cristo a pedra e o fundamento da Igreja, expressa:

“Então, também, depois do próprio Salvador, podes retamente julgar que os fundamentos da Igreja são as palavras dos profetas e dos apóstolos, de acordo com a afirmação do Apóstolo: ‘Edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a pedra angular’” [8].

Nilo de Ancira argumenta: “Este é o mais alto dos Apóstolos, Pedro, também chamado Cefas, que forneceu na sua confissão de fé o fundamento para a edificação da Igreja” [9]. Cirilo de Alexandria, sobre a pedra de Mateus 16:18, argumenta: “Ora, pela palavra ‘pedra’ Jesus indicou, penso eu, a inamovível fé do discípulo” [10]. Em outra obra diz: “O apodo [apelido], creio, chama a nada mais senão à inabalável e mui firme fé do discípulo ‘uma pedra’, sobre a qual a Igreja foi fundada e feita firme e permanece continuamente inexpugnável mesmo em relação às próprias portas do inferno” [11].

Na visão de Basilio de Selêucida: “Ora Cristo chamou a esta confissão [de Simão] uma pedra, e nomeou quem a confessou ‘Pedro’, percebendo a alcunha como apropriada para o autor desta confissão. Pois esta é a pedra solene da religião, esta é a base da salvação, esta é o muro da fé e o fundamento da verdade: ‘Pois ninguém pode pôr outro fundamento senão o que está posto, o qual é Cristo Jesus’” [12].

Beda, o Venerável, fecha nossa breve seleção de exemplos: “Tu és Pedro e sobre esta pedra da qual tomaste o teu nome, ou seja, sobre mim mesmo, edificarei a minha Igreja, sobre essa perfeição de fé que tu confessaste edificarei a minha Igreja de cuja sociedade de confissão se alguém se desviar ainda que em si mesmo pareça fazer grandes coisas, ele não pertence ao edifício da minha Igreja. […] Metaforicamente é dito a ele que a Igreja há de ser edificada sobre esta pedra, ou seja, o Salvador que tu confessaste, que concedeu participação ao fiel confessor do seu nome” [13].

Como fica claro, portanto, diversos pais da Igreja e o próprio catecismo da ICAR reconhecem que a passagem de Mateus 16:18-19 pode possuir outras interpretações plausíveis e que elas não são autoexcludentes. A essa interpretação chamamos mista. E ela não pode ser acusada de ser uma invenção protestante ou algum tipo de malabarismo para fugir da interpretação romana basilar, como podemos ver.

F) Conclusões

Tendo elencado essas cinco interpretações possíveis e plausíveis, podemos agora fazer algumas considerações. Note que nenhum desses modos de interpretar dá suporte direto e indubitável à visão romana de que Jesus instituiu Pedro como um papa infalível, uma sucessão de papas inerrantes, uma Igreja também inerrante e que é romana. Mesmo que a interpretação de que Pedro é a pedra esteja correta, não se segue logicamente que ele e seus sucessores se tornam infalíveis e que seu papel vai além de uma base histórica e temporal. O texto de Mateus 16 sozinho não garante sequer que Jesus instituiu Pedro como líder formal, já que as promessas feitas a ele se estendem aos demais apóstolos e a toda a Igreja.

Isso não quer dizer, entretanto, que a interpretação católica não pode estar certa. Mas se é possível deduzir a doutrina católica romana de Mateus 16, não é a partir apenas desse trecho. Então, vamos analisar o restante da passagem.

2.2. A Igreja e as portas do inferno

Jesus continua seu discurso a Pedro dizendo que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja. Em muitos debates que tive com católicos, esse trecho foi usado como base para sustentar que a Igreja (a católica romana, no caso) seria infalível em matéria de doutrina. O raciocínio utilizado é que se a Igreja de Cristo pudesse sofrer um desvio doutrinário, isso significaria que as portas do inferno prevaleceram contra ela, o que contradiz a promessa de Jesus a Pedro. Ao que me parece, portanto, a expressão usada por Jesus é interpretada pelos romanistas como se referindo a qualquer obra do Diabo contra a Igreja, incluindo a disseminação de falsas doutrinas ao longo do tempo.

O problema dessa interpretação é que ela foge ao que o texto realmente diz. A palavra traduzida como inferno em nossas Bíblias é o termo grego Hades. Esse termo foi usado pelos autores da Septuaginta (a primeira versão em grego da Bíblia hebraica, o Antigo Testamento) para traduzir a palavra hebraica Sheol, que significa sepulcro, sepultura ou abismo. Segundo o Antigo Testamento, quando as pessoas morrem vão para o Sheol. O conceito de imortalidade da alma não fazia parte das crenças hebraicas antes do advento do helenismo (o movimento de disseminação da cultura grega pelo mundo). Uma vez que a Septuaginta foi feita à época do helenismo, a escolha do termo grego Hades para traduzir Sheol reflete, sem dúvida, uma influência grega sobre o pensamento judaico. O termo grego designava o submundo dos mortos, que na concepção grega, era um mundo com almas imateriais vivas.

Temos aqui, portanto, dois sentidos possíveis para o termo Hades usado por Jesus em Mateus 16: sepultura (sentido hebraico) ou submundo dos mortos (sentido grego). Sem querer entrar, neste artigo, na discussão sobre mortalidade ou imortalidade da alma à luz da Bíblia, o que devemos notar aqui é que os dois sentidos possíveis se relacionam à morte. Isso torna tudo muito claro. Se alguém me disser que as portas da sepultura ou do submundo dos mortos não prevalecerão contra mim, entenderei claramente que não vou morrer. Da mesma maneira, se Jesus promete que as portas da sepultura ou do submundo dos mortos não prevalecerão contra Igreja, isso quer dizer que a Igreja não será extinta, não morrerá.

O sentido do texto está claramente vinculado à morte. E isso tem muita coerência com o contexto histórico. O cristianismo se desenvolveria em meio à forte oposição de judeus descrentes em Jesus e romanos. Todos os apóstolos seriam perseguidos e quase todos martirizados. As perseguições continuariam por mais de duzentos anos, nem sempre de modo incessante, mas com bastante frequência. Nesse contexto difícil de perseguições frequentes e mortes violentas, muitos cristãos poderiam temer pela extinção completa da Igreja. A promessa de Jesus, portanto, intuía assegurar aos apóstolos e todos os demais cristãos que a Igreja jamais seria extinta, apesar das perseguições. De fato, a promessa tem sido cumprida. A Igreja continua viva após dois mil anos.

Sabemos agora o que Jesus queria dizer com “as portas do inferno”. Mas o que significa Igreja na visão de Jesus e seus apóstolos? As portas do inferno não prevalecem sobre qual Igreja? A ICAR? Ou outra? Há nesse trecho alguma margem para sustentar que a Igreja referida por Jesus, edificada sobre a rocha, é a ICAR? Vamos analisar.

Os romanistas parecem se apoiar na ideia de que Igreja é uma instituição formal. Uma instituição ou organização formal é como uma empresa ou um clube, com nome oficial, regras, liderança, cargos, hierarquia, documentos, sede e filiais físicas, setores, etc. Ela é formada por todos esses fatores organizacionais e não pode existir sem eles. Pense na Petrobras, por exemplo. Se todos esses elementos institucionais forem retirados dela, ela não só deixa de ser a Petrobras, como deixa de ser uma empresa. Romanistas entendem a Igreja mais ou menos nestes moldes. A Igreja instituída por Jesus Cristo, portanto, teria sido uma instituição formal, a saber, a ICAR.

Não obstante, existe também o conceito de Igreja como instituição não formal, às vezes chamada de invisível, informal ou mesmo não institucional. Segundo esse conceito, a Igreja edificada por Cristo é a união ou o somatório de todos os seguidores de Jesus espalhados pela face da terra, os quais formam o seu corpo simbólico. Embora essa união mundial tenha (e deva ter) regras de culto, liturgia, liderança, hierarquia e locais de adoração (fatores que organizam e dão contorno a essa união), tais fatores não são a Igreja. Dito de modo mais simples: a Igreja não é uma organização, mas sim tem uma organização.

A diferença é grande. Se organização eclesiástica é algo que a Igreja precisa ter e não o que ela é, isso significa que o ingresso na Igreja não se constitui, à priori, o ingresso numa instituição formal, mas sim no corpo de Cristo. Significa ainda que ao aceitar a Jesus como Senhor e Salvador, uma pessoa está se tornando parte da Igreja (o corpo de Cristo), independentemente de estar em uma instituição formal ou não. E se Igreja é congregação, a reunião de dois ou mais crentes já é uma igreja no sentido informal, ainda que a dupla ou o grupo apenas se assente para ler a Bíblia e orar.

Uma analogia demonstra a coerência dessa ideia. Imagine um homem ímpio e descrente que naufragou e foi parar em uma ilha deserta. Toda a tripulação morreu e só restou ele, solitário na ilha. Entre os destroços, o náufrago encontra uma Bíblia. Começa a ler os evangelhos, passa a crer em Jesus como Senhor e Salvador, muda seus pensamentos ímpios e inicia uma vida de oração e adoração a Deus.

Ora, mesmo não pertencendo a uma instituição formal, este náufrago se uniu a Cristo, aceitando-o como cabeça de sua vida. Se ele agora é um com Jesus, o qual passa a ser o cabeça de sua vida, então ele é um membro do corpo de Cristo, que é a Igreja, embora não faça parte de nenhuma instituição formal. Podemos postular uma analogia menos trágica. Toda a tripulação do navio sobrevive ao naufrágio, na ilha deserta. Lendo a Bíblia, todos se convertem. Não há uma instituição formal na ilha, mas os vários novos cristãos reunidos são uma pequena igreja só pelo fato de serem cristãos, fazendo parte assim da Igreja mundial.

Essas observações evidenciam que a aceitação de Cristo precede à formalização da Igreja e que, embora a organização eclesiástica seja importante, a Igreja não é essa organização, mas o coletivo de cristãos. Aparentemente era assim que Jesus entendia a Igreja. Ele afirma aos seus discípulos, por exemplo, que “onde estiverem dois ou mais, ali estarei no meio deles” (Mt 18:20). Quando uma mulher samaritana lhe pergunta qual seria o local correto para adorar, Samaria ou Jerusalém, Jesus dispensa o sentido mais geográfico e formal de adoração, dizendo que “está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4:23-24). Em outras palavras, na Nova Aliança, a adoração transcende as barreiras físicas e sistemáticas.

O conceito de Igreja informal se coaduna com a simplicidade no processo de integração cristã e surgimento de igrejas locais no primeiro século. Filipe, por exemplo, prega ao eunuco e logo depois o batiza. Em uma simples conversa o eunuco já sai dali cristão e, portanto, integrante do corpo de Cristo, a Igreja (At 8:26-40). Pedro inclui Cornélio e sua família no corpo de Cristo com a mesma rapidez e informalidade (At 10:17-48), o que também é feito por Paulo com um carcereiro e sua família (At 16:27-34). Nas cartas do apóstolo fica claro que existiam muitas igrejas que se reuniam em casas de irmãos, o que provavelmente configurava uma série de pequenos grupos de amigos cristãos, algo mais informal e simples.

Ademais, o conceito de Igreja informal enfatiza melhor a Cristo. Se a Igreja é entendida como uma instituição formal, o que torna uma pessoa parte da Igreja é a instituição. Se a Igreja, por outro lado, é entendida como a união dos crentes em Cristo, o que inclui uma pessoa na Igreja é a fé em Cristo. Faz mais sentido bíblico postular que Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, é quem nos inclui em seu próprio corpo simbólico, quando o aceitamos como cabeça. Certamente, não cabe à organização formal da Igreja, que é visível, nos incluir no corpo simbólico de Cristo, que é invisível. Tal visão não rebaixa a importância da Igreja, mas coloca cada coisa em seu lugar. Cristo nos inclui em seu corpo através da fé. A organização formal nos arruma dentro desse corpo.

Portanto, a discussão sobre qual é a Igreja verdadeira não é a mesma discussão sobre qual é a organização formal verdadeira. A Igreja edificada por Jesus Cristo não foi a romana, ou a ortodoxa, ou a protestante. Foi a invisível, somatório de todos os cristãos verdadeiros (o que inclui hoje romanistas, ortodoxos e protestantes). Qual organização formal, dentro do cristianismo, possui o corpo doutrinário apostólico (ou mais próximo disso) é outra questão.

Todas essas observações nos permitem concluir que o trecho “e as portas do inferno não prevalecerão contra ela [a Igreja]” não oferece nenhum argumento sólido que sirva para sustentar os pressupostos básicos do romanismo. Nem a promessa de Cristo implica a infalibilidade da Igreja, nem a Igreja referida é uma instituição formal, mas sim a união de todos os crentes. A passagem de Mateus 16:18-19, no entanto, ainda possui mais um trecho a ser analisado.

2.3. As chaves do céu

Argumentei no primeiro tópico desse artigo que Pedro poderia ser a pedra referida por Cristo num sentido histórico, o que é mais provável que uma pedra no sentido atemporal e transcendente (sentido mais aplicável a Cristo). Entretanto, Jesus continua o discurso dizendo que daria a Pedro as chaves do céu, com as quais ele poderia ligar e desligar coisas. Para os católicos, isso significa que a autoridade e importância que Jesus dá a Pedro são muito maiores que a de um mero personagem histórico. As chaves fazem dele um líder mundial formal e uma base atemporal. Uma vez que, evidentemente, Pedro não viveria para sempre, as chaves seriam passadas para o seus sucessores. E assim Pedro se faria vivo, simbolicamente, nos sucessivos papas. Aliás, foi isso que os bispos presentes no Concílio de Calcedônia afirmaram sobre o então Papa Leão: “Pedro nos fala por meio de Leão”. [14]

Esse argumento católico é muito interessante, mas esbarra em algumas dificuldades. A primeira e mais óbvia é que a mesma autoridade dada por Jesus a Pedro em Mateus 16 é dada aos demais apóstolos em Mateus 18:18-20. Diz o texto:

“Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu. Digo-vos ainda isto: se dois de vós se unirem sobre a terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão de meu Pai que está nos céus. Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”.

Nesse texto Jesus está falando para os discípulos. Não apenas para os doze, mas para todos os seus futuros seguidores (toda a Igreja), já que os discípulos não poderiam estar nas congregações de todas as cidades do mundo. Jesus estava dando conselhos práticos para os cristãos de cada cidade, de cada vilarejo, de cada ajuntamento de indivíduos que seguiam a Jesus. Então, a autoridade que Jesus outorgou a Pedro para ligar e desligar coisas com as chaves do céu não era diferente da autoridade que ele dera aos demais cristãos que faziam a vontade de Deus.

Aparentemente as “chaves dos céus” são uma metáfora para autoridade que elementos espirituais como a oração, a fé em Cristo, o jejum e a obediência à Palavra de Deus nos trazem. São esses os elementos que forjam nossas chaves para abrir as portas dos céus, nos dando acesso ao Espírito Santo, à proteção, à providência divina, ao perdão, à força, à coragem, à intrepidez, à sabedoria e ao discernimento espiritual. Tiago, por exemplo, afirma sobre o poder da oração:

“Muito pode, por sua eficácia, a súplica o justo. Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos, e o orou, com instância, para que não chovesse sobre a terra, e por três anos e seis meses, não choveu. E orou, de novo, e o céu deu chuva , e a terra fez germinar os seus frutos” (Tg 5:16-18).

Com essas chaves forjadas por tais elementos espirituais podemos tomar decisões para a Igreja em união com os demais irmãos. Essas chaves, portanto, não se constituem uma autoridade exclusiva de Pedro e de sucessivos líderes mundiais da Igreja, mas sim uma autoridade dada a cada cristão e que, para questões administrativas, devem ser usadas em união. Isso é o que o contexto de Mateus 18 afirma. Antes de dizer que os cristãos teriam autoridade para ligar e desligar coisas, Jesus dava instruções sobre como resolver um problema causado por um irmão. A decisão de considerar o irmão como gentio ou publicano (presumivelmente, uma exclusão da assembleia) só é tomada depois que o caso é levado a toda a igreja local (Mt 18:15-17).

Em segundo lugar, a lembrança de Jesus dando as chaves do céu a Pedro não figuram como um assunto relevante para os outros três evangelistas. Marcos e Lucas narram o mesmo episódio, mas omitem essa parte, como também a parte da pedra sobre a qual a Igreja é edificada e as portas do inferno que não prevalecem contra ela. O foco é apenas a confissão de Pedro (Mc 8:27-30 e Lc 9:18-22). Já o apóstolo João simplesmente não narra o evento. Isso é algo muito estranho se considerarmos que a interpretação católica é verdadeira. A infalibilidade de Pedro e da Igreja, a sucessão papal e o primado romano são as bases da ICAR, tão importantes quanto a crença em Jesus Cristo. Ora, se todos os apóstolos e primeiros cristãos eram católicos romanos (como a ICAR sustenta) era de se esperar que eles enfatizassem essas bases. Se Pedro era o papa e a base da Igreja que falaria perpetuamente através de sua sucessão, era de se esperar que a origem dessa autoridade fosse enfatizada nos quatro evangelhos.

Em terceiro lugar, Mateus, o único autor que narra o discurso inteiro de Jesus a Pedro, é justamente o evangelista mais judaico. É o autor que mais entendia o cristianismo como uma vertente do judaísmo, retratando Jesus não apenas como o Messias e Filho de Deus, mas como o maior dos rabinos, aquele que cumpria fielmente a lei e atacava as tradições que não estavam de acordo com as Escrituras. A julgar por esse perfil, é difícil sustentar a interpretação romana baseada apenas no relato de Mateus, pois como o mais judaico dos evangelistas, a sua tendência era se apegar às doutrinas judaicas e observar a cidade de Jerusalém como o centro do cristianismo.

Por outro lado, quem teria mais razões para enfatizar a visão romanista sobre Pedro e a Igreja (no caso de ela ser verdade) era o evangelista Marcos, que foi companheiro direto de Pedro. Lucas também tinha boas razões para tal, pois não era judeu de nascimento e foi companheiro direto de Paulo, apóstolo dos gentios e um dos mais proeminentes missionários a pregar em Roma. Ele tinha tudo para enfatizar a separação radical entre a religião judaica e a religião cristã, abraçando doutrinas distintivas. Já João tinha motivo de sobra para colocar ênfase na visão romanista porque escreveu seu evangelho após a destruição de Jerusalém (segundo a maioria dos teólogos sustenta), testemunhando já uma forte cisão entre judaísmo e cristianismo. A omissão desses três evangelistas em relação à narrativa completa da confissão de Pedro e uma ênfase maior sobre a visão romanista em demais passagens enfraquece a hipótese romanista. E o fato de Mateus ser o mais judaico dos evangelistas fortalece a ideia de que a passagem 16:18-19 não é uma base sólida para sustentar a doutrina católica romana.

Finalmente, não há qualquer passagem dos evangelhos que sustente indubitavelmente a ideia de Pedro como um futuro bispo mundial infalível, detentor de uma autoridade formal exclusiva. Quando, por exemplo, Jesus Cristo ordena a Pedro que apascente suas ovelhas (Jo 21:15-23), não há sinal de autoridade exclusiva aqui. Todos os apóstolos de Cristo foram chamados para apascentar as ovelhas. Na passagem em questão, Jesus apenas demonstra uma preocupação especial com Pedro, que o havia negado três vezes algumas semanas antes. A vergonha e o remorso poderiam matar o ministério de Pedro no futuro. Jesus impede esse cenário assegurando que queria ver Pedro como um pastor, tal como os demais discípulos. Mais uma vez, é possível até postular que Jesus fizera de Pedro um líder formal, porém o texto não diz mais que isso.

Quando também Jesus diz a Pedro para que ele confirme ou fortaleça seus irmãos na fé após se converter genuinamente (Lc 22:32), não há nada de exclusivo aqui. O que se espera de qualquer verdadeiro converso é que ele ajude seus irmãos na fé. Jesus diz a isso a Pedro não para oferecer a ele uma autoridade exclusiva, mas para incentivá-lo a ser um bom cristão depois de se converter genuinamente.

O que realmente vemos nos evangelhos e no livro de Atos é que Pedro se destacava entre os demais discípulos por ser mais impetuoso, falante e apaixonado. Por conta disso, Jesus parecia ter um carinho diferenciado por ele, além de ver no discípulo um grande potencial. Por outro lado, Jesus via grande potencial também nos irmãos Tiago e João, motivo pelo qual os escolheu para alguns momentos mais solenes (Mt 17:1-8 e 26:36-46). Simplesmente não há nada demais nessas passagens. Nenhuma grande prova das doutrinas básicas do catolicismo romano.

Deve-se ter em mente que o mesmo Pedro que reconheceu a Jesus como Cristo e Filho do Deus vivo – por revelação do Espírito Santo – tentou fazer Jesus desistir de sofrer e morrer pela humanidade – por influencia de Satanás (Mt 16:21-23). O mesmo Pedro foi usado por Deus e pelo Diabo, e Mateus faz questão de relatar isso em passagens bem próximas. É claro que alguém poderá argumentar que isso se deu antes do discípulo ser totalmente transformado por Cristo. Contudo, o conjunto da obra bíblica, de Gênesis até Apocalipse, demonstra sempre um ser humano falível em todas as áreas da vida. Não parece haver base, portanto, para sustentar que Pedro deixou de ser falível, ainda que só a nível doutrinário.

Diante das evidências, portanto, as chaves do céu dadas a Pedro por Jesus não parecem se constituir uma autoridade exclusiva que confere ao discípulo uma posição infalível e que se estenda à sua sucessão. Aqui fechamos a interpretação de todo o trecho. Cabem algumas considerações finais.

2.4. Considerações Finais

Como é visível, o objetivo desse segundo artigo não foi apresentar provas cabais de que a interpretação romanista está errada, mas sim que (1) ela é menos provável e plausível que outras e (2) só pode ser sustentada de maneira sólida com o auxílio de tradições extrabíblicas posteriores. Isso significa que a interpretação romanista ainda pode ser verdadeira, mas só é capaz de ser provada no caso da tradição extrabíblica em que ela também se baseia ter a mesma autoridade divina das Escrituras Sagradas.

A discussão, portanto, não está fechada. Abrem-se aqui as seguintes questões: somente o conteúdo bíblico deve ser considerado fonte infalível de doutrina para a Igreja? Ou há uma tradição perfeita, advinda de um magistério santo da Igreja, que possui a mesma infalibilidade doutrinária da Bíblia? Devemos nos guiar pelo tripé “Bíblia-Tradição-Magistério” ou pelo princípio da “Sola Scriptura”? A produção da Bíblia pela Igreja prova que a Sola Scriptura não é um princípio lógico? A Igreja deve ser infalível necessariamente? A tradição pode falhar? Se sim, ela falhou de fato? Essas perguntas serão abordadas no próximo artigo.

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Referências: 

  1. Disponível para baixar em: http://www.catequisar.com.br/dw/catecismo.pdf
  2. Retratações, I, 21.
  3. Sermão 229P.1
  4. Comentario sobre Mateo, 10 (ANF 10:456)
  5. Comentario sobre Mateo XII, 11 (ANF 10:456)
  6. Comentario sobre Efesios (PL 17:380)
  7. Comentário sobre Lucas VI,98 (CSEL 32:4)
  8. Comentario sobre los Salmos (PG 23:173, 176)
  9. Comentario sobre el Cantar de los Cantares (PG 87 [ii]: 1693)
  10. Comentario sobre Isaías IV,2 (PG 70:940)
  11. Diálogo sobre la Trinidad IV (PG 75:866)
  12. Oración XXV,4 (PG 85:297-298 )
  13. Homilías 23 (PL 94:260)
  14. Concilio de Calcedonia, Actas del Concilio, Sesión 2.

*Observação: Não consegui acesso direto a todas as citações da patrística utilizadas no texto. Alguns textos não estão disponíveis na internet. Assim sendo, utilizei-me apenas de citações presentes em artigos do site Apologistas Católicos. Os artigos são, inclusive, refutações a alguns textos de sites protestantes tendenciosos. Os links são os seguintes:

http://www.apologistascatolicos.com/index.php/apologetica/papado/504-pedro-a-rocha-ii1-testemunhos-patristicos

http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/apologetica/papado/483-pedro-a-rocha-parte-i

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