Por Davi Caldas

No terceiro artigo dessa série, avaliamos a viabilidade da Sola Scriptura em detrimento do tripé “Bíblia-Tradição-Magistério”. A análise abriu algumas questões importantes a respeito da necessidade ou não da Igreja ser infalível em matéria de doutrina. Vamos estudar essas questões hoje.

4. A falibilidade da Igreja e o livre exame

Boa parte da crença romanista se fundamenta na aversão a duas hipóteses sustentadas pelos protestantes: a falibilidade da Igreja e o livre exame da Bíblia. Quanto à primeira, argumenta-se que se a Igreja fosse falível não poderia gerar uma Bíblia infalível, nem conservar a verdade ao longo dos séculos. Além disso, a permissão por Deus de que a Igreja falhasse seria uma espécie de abandono e faria da noiva/corpo de Cristo algo impuro.

Quanto à segunda hipótese, argumenta-se que o livre exame da Bíblia por qualquer um geraria inevitavelmente um forte relativismo da verdade, muitas divisões, proliferação de erros e mentiras e inexistência de uma autoridade definitiva para interpretar a Bíblia, o que impediria que o evangelho chegasse até nós. As milhares de organizações protestantes diferentes que existem atualmente seriam a prova prática disso. Cada um crê no que quer, numa enorme confusão, observa o católico.

Há lógica nesses argumentos? Só na aparência. Mais uma vez a observação aprofundada revela incoerências. Vejamos.

4.1. A falibilidade e a providência

O católico romano parte do pressuposto de que a Igreja precisa ser infalível em matéria de doutrina para desempenhar certas funções. Uma delas é a escrita da Bíblia. O raciocínio é que se os autores bíblicos (liderança suprema da Igreja primitiva) podiam falhar, a Bíblia não é confiável. Mas esse não é um bom raciocínio. A possibilidade de o homem errar não significa que ele sempre errará em tudo, que nunca estará apto para fazer algo correto. E para distinguir entre os acertos e erros de alguém nos guiamos, é claro, pelas evidências.

Como vimos no artigo anterior, as evidências para a veracidade da mensagem bíblica são abundantes e sólidas. Há coerência interna, coerência histórica, testemunhas oculares, relatos que não geraram benefícios próprios e sim prejuízos, eventos públicos, milagres, registros escritos, artefatos arqueológicos, narrativas inseridas em contextos históricos bem especificados, uma teologia lógico-racional, etc. Qualquer bom apologista cristão sabe disso. O pensamento judaico-cristão foi todo construído de maneira lógica, deixando pilhas de evidências. Então, a infalibilidade da Escritura Sagrada pode ser aceita com segurança, mesmo os autores tendo sido homens passíveis de erros.

Ressalta-se ainda que Deus não precisa tornar um homem infalível para que ele escreva algo perfeito em matéria de doutrina. Isso é óbvio. Um aluno de qualquer disciplina que seja não precisa ser inerrante para que acerte todas as questões de uma prova. E o fato de ele conseguir um desempenho perfeito em uma determinada prova não implica que sua natureza é infalível e que ele terá o mesmo desempenho impecável em todas as provas da vida. Mesmo que isso ocorresse, ainda assim, ele é passível de erros. Não falhar em alguma ou muitas ocasiões não significa estar fora da possibilidade de falhar. Um homem pode passar a vida inteira sem nunca trair sua esposa, mas isso não quer dizer que era logicamente impossível que ele cometesse esse pecado.

Biblicamente falando, o ser humano é naturalmente inclinado à imperfeição em todas as áreas da vida: moral/espiritual, emocional, intelectual, administrativa, etc. A Bíblia diz que somos malditos quando confiarmos no ser humano (Jr 17:5), que nosso coração é desesperadamente enganoso (Jr 17:9), que não devemos depositar nossa confiança em príncipes e filhos de homens (Sl 146:3), que a justiça do povo pecador é como trapo de imundice (Is 64:6), que as misericórdias do Senhor são a única causa de não sermos consumidos (Lm 3:22-23), que não existe um justo sequer aos olhos de Deus (Sl 14:2-3, 53:2-3, Rm 3:9-12), que só Deus é bom (Mt 19:17), que a natureza do homem é má (Jo 3:23-25), que todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3:23), que somos mentirosos quando dissemos não ter pecado (I Jo 1:8-10), que somos carnais e há uma luta dentro de nós entre o bem e o mal (Rm 7:14-25).

Não há qualquer passagem bíblica que dê margem para a possibilidade de o homem se tornar infalível em alguma área. A mensagem é enfática: não confie no homem. O que vemos na Bíblia Sagrada é um constante incentivo à confiança por meio de evidências sólidas (Dt 18:20-22, Jz 6:17-40, Pv 14:15, Is 8:18-20, Sl 19:1-6, Mt 7:15-23, At 17:11, At 26:26,Rm 1:18-21, I Co 15:3-8, I Ts 5:21, II Pd 1:16-21) e não por meio de status e posições humanas. Se isso vale para indivíduos comuns, vale para líderes e para a Igreja como um todo. A Igreja pode errar, como também o povo de Israel podia errar.

Essa falibilidade torna inviável a preservação da mensagem? Não é o que a Bíblia diz. O povo de Israel não precisou de um papa infalível para que a mensagem de Deus fosse preservada durante 1500 anos. Não precisou de um magistério inerrante. Não precisou nem mesmo de um cânon formalmente fechado e completo. Podemos dizer que em matéria de perfeição Israel foi um fracasso retumbante. Ao longo dos séculos, possuiu líderes que se voltaram a outros deuses e defenderam práticas estranhas. Quando, enfim, se fecharam para a idolatria, transformaram sua religião em um sistema de fardos. Em nome da busca pela obediência perfeita, foram para outro extremo, criando tradições sem fundamento bíblico e se perdendo em interpretações errôneas.

Na época de Jesus, os judeus estavam divididos em pelo menos quatro facções (fariseus, saduceus, essênios e zelotes), cada qual com crenças distintas. Os saduceus não criam em ressurreição, nem em anjos. Os fariseus seguiam tradições errôneas a respeito da observância do sábado. A maior parte dos líderes defendia que o Messias esperado teria um caráter político-militar. Ninguém interpretava corretamente a passagem de Isaías 53 e outras mais. Havia quem defendesse a volta do profeta Elias. Alguns judeus helenistas contaminavam o judaísmo com filosofias pagãs sobre a alma. Líderes e a nação em peso rejeitaram Jesus como Messias. Doutrinas e interpretações essenciais foram rejeitadas ou maculadas por tradições humanas, legalismo, ascetismo, etc.

Apesar de tudo isso, o monoteísmo foi resguardado, as Escrituras permaneceram intactas, havia muitos judeus fieis e Jesus pode vir, pregar, morrer, ressuscitar e deixar seus discípulos aptos para a pregação do evangelho. Desse povo falível e falho em todos os sentidos, sem um líder inerrante, dividido em pelo menos quatro facções distintas e exposto a falhas interpretativas e tradições humanas, surgiu os judeus que levaram para todo o mundo o evangelho de Jesus Cristo. Isso demonstra que a falibilidade humana não é capaz de impedir os planos de Deus.

O que precisa ficar bem claro aqui é que Deus não estabeleceu um sistema de salvação baseado na perfeição doutrinária do ser humano. Por mais que defender e seguir todas as doutrinas verdadeiras seja extremamente importante, a salvação é oferecida por meio do sacrifício de Jesus. E tomamos parte dela quando aceitamos este fato e deixamos que o Espírito de Deus trabalhe em nosso viver. Embora a tendência de quem possui esse íntimo relacionamento com Cristo, seja de se aproximar cada vez mais da verdade, bem como ser cada vez mais santo moral e espiritualmente, esse processo dura a vida toda e, na maioria das áreas, não se conclui. Deus não cobra de nós a perfeição como um ponto fixo de inerrância no qual devemos chegar, mas como uma linha constante de melhora, de santificação, de crescimento em amor, de abandono de vícios; uma linha que não se finda até o nosso último suspiro.

Enquanto existe pecado, o homem perfeito não é definido por Deus como inerrante, mas como um pecador que não cessa de ser transformado pelo Espírito Santo. Se isso vale para a vida moral e espiritual, vale também para todas as outras áreas, o que inclui a área doutrinária. Um verdadeiro cristão pode entender sinceramente que há um inferno eterno, enquanto outro igualmente verdadeiro entende que não há. Cada um crê segundo a luz de conhecimento que lhe foi dada e pelo tanto que foi capaz de estudar dentro das circunstâncias que viveu. Embora só um deles esteja certo e descobrir qual é a verdade seja muito importante, morrendo ambos, cada qual na sua convicção, não será a crença ou descrença no inferno eterno que definirá a salvação deles, mas sim a aceitação genuína de Jesus como Cristo, Senhor e Salvador.

Isso nos ajuda a entender o motivo pelo qual a falibilidade da Igreja não é um abandono de Deus em relação ao ser humano. Deus trabalhou e trabalha incessantemente para que os homens não saiam da verdade ou se acheguem a ela caso estejam na mentira. Mas o processo é árduo e gradual. Deus lida com homens limitados, imperfeitos, inclinados ao mal, facilmente enganáveis, passíveis de confusão, ignorantes e altamente influenciáveis pela cultura ao redor. Ele poderia simplesmente nos purificar de modo instantâneo, num passe de mágica. Mas neste caso nossa transformação não seria verdadeira e livre, nem refletiria o que nós somos. Deus deseja algo mais real: um relacionamento conosco íntimo conosco. E por meio deste relacionamento, uma transformação genuína e trabalhosa, que envolve o agir dele e a nossa aceitação/participação consciente.

O resultado final, por incrível que pareça, não é o mais importante para Deus, mas sim o processo. Qual postura adotamos nesse processo? O quanto nos dispomos a mudar nessa trajetória? O quanto o nosso amor por Deus e pelo próximo crescem nesse meio tempo de luta? O quanto passamos a desejar ardentemente as coisas de Deus? Tudo isso vale mais para Deus porque é isso o que define se realmente queremos estar com Ele pela eternidade ou não. É essa decisão consciente e livre, em meio a falhas e problemas, que Deus precisa para, no dia do seu retorno, arrancar de nós a natureza pecaminosa e nos dar a eternidade.

Assim, nesse processo árduo e gradual, muitas pessoas podem vir a morrer com algumas crenças que não são verdadeiras. Deus não as abandonou. Ele agiu dentro do contexto, respeitando as limitações de cada uma. Fez o que coube dentro do tempo de vida de cada indivíduo. Primou pelo que era mais importante: mostrar à pessoa que Ele é Senhor e Salvador, resgatá-la das mãos de Satanás e iniciar um relacionamento vivo com ela.

Esse agir gradual de Deus na história de cada indivíduo e do povo como um todo é o mesmo desde sempre. No Antigo Testamento, por exemplo, havia sinceros homens de Deus casados com mais de uma esposa. Isso nunca foi moralmente correto, nem o ideal de Deus. Mas em função da cultura fortemente polígama do mundo da época, demorou muito tempo até que Deus conseguisse mudar a mentalidade do povo e criar uma nova cultura. Da mesma forma, Deus precisou esvaziar a prática da escravidão gradativamente para que chegassem à plena convicção intelectual e emocional de que a prática é errônea e repugnante. O agir de Deus na história de seu povo é um consertar de erros. Não há um ponto dessa história em que se encontre homens infalíveis.

É por essa razão que a noiva de Cristo só se torna totalmente pura no fim da história, quando todos os cristãos verdadeiros têm sua natureza transformada. É só ali que toda a Igreja, todo o corpo de Cristo, todo o povo de Deus ganha infalibilidade, inerrância em todas as áreas. Antes disso, a história do povo de Deus, na Antiga ou na Nova Aliança, é uma história de erros, onde Deus trabalha constantemente pela nossa santificação e pelo resgate da verdade. Em suma, os erros fazem parte da história da Igreja realmente, mas a providência divina também. E é isso o que dá sentido ao plano divino.

4.2. O livre exame e a verdade

 O último ponto a ser analisado nesse artigo é o livre exame da Bíblia. Este conceito é um desdobramento das ideias de Sola Scriptura e falibilidade da Igreja. Se só a Escritura é fonte autorizada de doutrina, fé e prática para os cristãos, é responsabilidade de cada um examinar a Bíblia para saber se o que qualquer pessoa está ensinando sobre a mensagem divina é verdade ou não. E se todos os homens são doutrinariamente falíveis, inclusive líderes da Igreja, então a responsabilidade de julgar qualquer ensino mediante a Bíblia se estende aos ensinos da liderança. Assim, um dos pilares defendidos pelo movimento protestante é o livre exame da Bíblia.

Os católicos discordam da validade do conceito. O argumento é que o livre exame daria a cada crente a possibilidade de interpretar a Bíblia de qualquer maneira. Isso geraria relativismo da verdade e divisões na Igreja, pois cada um poderia crer em interpretações errôneas próprias e espalhá-las. Sem uma autoridade central infalível para definir a verdade, o corpo simbólico de Cristo viraria uma grande confusão de teorias divergentes. Mais uma vez é comum que o argumento seja seguido de uma observação sobre a multiplicidade de igrejas protestantes, cada qual com uma doutrina distinta. Segundo a visão católica, tal fato teria como causa a propagação do livre exame pelo movimento iniciado por Lutero.

O argumento católico pode ser convincente à primeira vista, mas há pelo menos quatro grandes falhas nele. Vamos analisar.

A primeira falha do argumento é que sua crítica ao livre exame (e ao movimento protestante, por tabela) se baseia na existência de um mal que a própria ICAR e sua suposta infalibilidade não são, nem nunca foram capazes de evitar. Note: mesmo que exista autoridade infalível de interpretação na ICAR (e no Papa), isso não anula o fato de que desde o início do cristianismo sempre houve a possibilidade é de indivíduos e grupos criarem interpretações divergentes, heresias e divisões. E de fato as três coisas surgiram com frequência ao longo dos séculos. No que tange as heresias, por exemplo, podemos nomear correntes como donatismo, ebionismo, marcionismo, milenarismo, montanhismo, pelagianismo, arianismo, dentre muitas outras. Isso muitos séculos antes de Lutero nascer. Infalível ou não, a autoridade católica não foi capaz de impedir o surgimento dessas ideias, nem de grupos que as seguissem. Da mesma forma, não foi capaz de impedir o grande cisma com a Igreja Ortodoxa e o surgimento do movimento protestante. E continua não sendo capaz de impedir esses fenômenos hoje.

Interpretações divergentes, heresias e divisões, portanto, podem surgir mesmo que haja uma autoridade infalível no cristianismo. A hipótese da ICAR não errar em termos de interpretação das Escrituras não muda em nada a situação caótica que temos hoje (e sempre tivemos). As divisões, heresias e divergências continuarão, seja a hipótese verdadeira ou não.

Cabe aqui ressaltar que a ideia de que a ICAR nunca se dividiu (conforme defendem os católicos romanos) não faz sentido. Todas as vezes que um grupo criou uma heresia, por exemplo, uma divisão foi criada. Quando Marcião formulou sua heresia sobre o Deus do AT ser falso, gerou uma divisão. Ao excomungar o herege, a ICAR concordou com a divisão. Quando ocorreu o grande cisma entre a ICAR e a Ortodoxa, também se criou uma divisão. E ambas concordaram com isso ao decidirem que não mais seriam uma mesma organização. Aliás, tanto a ICAR, quanto a Ortodoxa, alegam ter autoridade infalível, mas a divisão entre elas e a manutenção de interpretações divergentes não foram evitadas por nenhuma das duas instituições. Ou seja, divergências doutrinárias e divisões não são uma novidade trazida pelo protestantismo.

Ora, se a infalibilidade não pode evitar heresias, divergências e divisões na Igreja, para que serve a infalibilidade? O católico dirá que com uma autoridade infalível, é possível ter certeza do que é correto em meio a tantos erros. Em outras palavras, podem surgir um milhão de interpretações, mas saberemos que a católica é correta porque há infalibilidade nela. O problema aqui é que isso só funciona se for possível termos certeza que o Papa e a ICAR são infalíveis. Mas, como temos visto no decorrer da série, não há evidência dessa infalibilidade. Ao contrário, há indícios de que a Igreja é falível. E se a única maneira de comprovar essa infalibilidade é recorrendo à própria suposta autoridade infalível da ICAR e do Papa, temos aqui um raciocínio circular.

Em suma, a infalibilidade, sem evidências para tal, não resolve o problema, mas empurra todos nós para uma fé sem fundamento racional, o que passa longe da definição correta de fé. Deixamos de ter uma crença evidencialista para ter uma personalista, uma que se baseia em cargos ocupados por homens, algo totalmente contrário à Bíblia. Então, note que a infalibilidade, que rivaliza diretamente com o livre exame, não consegue nem evitar divisões, divergências e heresias, tampouco apresentar evidências de que é real. Ora, se o principal argumento contra o livre exame é a suposta impossibilidade de garantir às pessoas o que é a verdade, o fato da infalibilidade não apresentar evidências de que é real nos joga de novo na estaca zero.

A segunda falha no argumento católico está na pressuposição de que o livre exame implica a inexistência de regras básicas de interpretação, de autoridades na Igreja e de concílios eclesiásticos. A argumentação católica gera uma imagem na cabeça do ouvinte de que a defesa do livre exame está atrelada à falta de ordem e hierarquia na Igreja, de métodos sérios de interpretação, de qualquer tipo de organização – uma total anarquia. Muitos católicos chegam a chamar o livre exame de livre interpretação, o que deturpa o sentido do conceito, já que cria a ideia de que qualquer interpretação é válida e cada um pode ter sua própria verdade. Toda essa visão do conceito está errada. Vamos elucidar.

Quanto à liderança e hierarquia na Igreja, eu expliquei, no segundo artigo, que embora a Igreja fundada por Cristo não seja uma organização, ela deve ter uma organização. E desde o princípio ela teve. Os onze apóstolos e Matias (substituto de Judas Icariotes) eram os líderes máximos da Igreja. E eles fizeram outros grandes líderes, como os sete primeiros diáconos de Jerusalém. O apóstolo Paulo também foi reconhecido grande líder pelos doze, ao perceberem seu chamado divino. Já no primeiro artigo expliquei que os doze passaram muito tempo concentrados em Jerusalém, e mesmo quando saíam em viagens missionárias, retornavam para lá ao fim delas. Assim, havia uma espécie de sede da Igreja primitiva em Jerusalém, onde se resolviam as principais questões. Os doze eram reputados colunas (Gl 2:9) e a base humana da Igreja, fundamentada em Cristo (Ef 2:20). Em suma, existia organização, com liderança e hirarquia, e tal fato não é contrário à ideia de livre exame.

A Bíblia Sagrada não diz se os doze discípulos tinham algum modelo de organização posterior para a Igreja. É possível que cada um tenha pensado em deixar um sucessor, mantendo sempre um padrão de administração geral por doze sucessores. Assim, com a morte de cada discípulo, alguém assumiria o seu lugar. As decisões continuariam sendo tomadas em concílio, não apenas entre os doze sucessores, mas outros nomes importantes na Igreja, seguindo o modelo do Concílio de Jerusalém, que contou com os doze, os diáconos e mais Paulo e Barnabé. Mas se esse modelo foi pensado ou não, nós não temos como saber.

Uma possibilidade forte é que os discípulos não tenham pensado em um modelo, mas deixado a questão para que a Igreja decidisse. Uma vez que não há regra na Bíblia para essa organização, entende-se que a Igreja teria autoridade para decidir o que ficaria melhor, de acordo com as necessidades futuras e as orientações de Deus. Nesse caso, vários modelos poderiam ser adotados. Uma opção seria a escolha de novos doze líderes para a Igreja mundial (preferencialmente discípulos diretos dos discípulos originais de Cristo), feita por meio de votação dos mais destacados. Outra opção não usaria como padrão a liderança por doze, mas faria um concílio mais igualitário formado pelos bispos e um ou dois leigos mais destacados de cada igreja.

Uma hipótese interessante de organização seria a de eleições periódicas para os cargos de liderança, observando critérios de espiritualidade, integridade e preparo intelectual dos escolhidos pela Igreja. É pouco provável, contudo, que esta opção fosse escolhida nos primeiros séculos de Igreja, tendo em vista que o modelo cultural de administração no mundo era o de monarquia (vitalício e sucessório), não o de república (temporário e eletivo).

Qualquer que fosse o modelo escolhido não haveria uma visão de liderança infalível. É óbvio que a Igreja estaria submissa às decisões dessa liderança e qualquer irmão que discordasse de alguma doutrina teria de provar seus pontos por meio de fortes evidências, em consonância com o espírito bíblico.

O dever de submissão a essa autoridade (enquanto a Bíblia permanece como norma) e a composição da liderança pelos mais aptos são dois fatores que oferecem estabilidade e rigidez doutrinária à Igreja. Já o reconhecimento da possibilidade da liderança cometer erros serve para formar um magistério equilibrado. Nessa estrutura, tanto o membro não se vê como seu próprio líder e a organização não fica sem uma liderança apta e confiável, como também o líder não se vê como infalível, o membro não cai no erro de pôr o líder acima da Bíblia e a Igreja, por consequência, não corre o risco de errar e não reconhecer seu erro. Isso não implica, contudo, a inexistência de divisões. Como vimos, divisões são inevitáveis. Com ou sem infalibilidade, sempre haverá divisões.

Quanto à interpretação das doutrinas, é óbvio que existem critérios básicos para esse exercício. Isso não se limita à Bíblia. Qualquer livro secular só pode ser interpretado à luz de determinados critérios lógicos. Assim, não estamos falando apenas de princípios espirituais, mas de princípios racionais. No caso da Bíblia, dentre os princípios mais conhecidos encontramos a observação do contexto da passagem e do contexto histórico, da coerência da interpretação proposta com o restante da Escritura, a consideração do estilo do livro analisado, a avaliação do autor e os destinatários da obra, etc. Aquele que não tem o domínio dessas ferramentas básicas (e lógicas), não pode, obviamente, discutir nada com a liderança da Igreja, tampouco suas ideias podem ser aceitas.

Como fica claro, a visão projetada pelos católicos romanos a respeito do livre exame não é verídica. O conceito nada tem a ver com anarquia e inexistência de critérios objetivos muito claros para a interpretação das Escrituras. Não se dispensa, de forma alguma, a existência de um magistério intelectualmente apto, espiritual e que domine as regras mais básicas de interpretação.

A terceira falha do argumento católico contra o conceito de livre exame (e por tabela, o protestantismo) está em considerá-lo a única causa logicamente possível para as divisões protestantes. Essa é uma visão simplista. Há pelo menos mais uma hipótese e ela precisa ser considerada: a causa do fenômeno pode ser a própria ICAR. Explico: o fator principal que possibilitou e motivou o grande cisma entre a ICAR e a Ortodoxa, bem como o advento da reforma protestante foi a pretensão de infalibilidade do cargo de papa e do sistema romanista. Se a infalibilidade é real, ortodoxos e protestantes são hereges por terem discordando disso e criado divisão. Mas se a infalibilidade é falsa e a ICAR realmente mantém erros doutrinários, as divisões só foram necessárias porque a ICAR não reconheceu seus erros. Se tivesse reconhecido, as divisões não ocorreriam. O sistema romanista seria deixado de lado e não haveria na historia um cristianismo dividido em romanos, ortodoxos e protestantes, tampouco as vertentes originadas do protestantismo.

Essa hipótese nos traz implicações muito mais amplas do que se pode pensar à primeira vista. Ao acumular falhas durante séculos e não reconhecê-las, a ICAR criou um caos doutrinário difícil de reorganizar e plantou as sementes de uma ruptura radical no seio do seu sistema. Um princípio administrativo básico nos ensina a arrumar e limpar nossa casa com freqüência para não acumular bagunça e sujeira. Seguindo o princípio, a rotina de limpeza e arrumação é sempre fácil, curta e pontual. Não seguindo o principio, a casa torna-se mais difícil de organizar. Despenderemos mais tempo, esforço e enfrentaremos um curioso paradoxo: para arrumar um cômodo muito bagunçado é preciso bagunçá-lo ainda mais.

Não é diferente em relação à ICAR. Para reorganizar uma instituição com séculos de falhas doutrinárias, seria necessário tempo e esforço num processo onde a bagunça é parte integrante. Natural e esperado. O protestantismo não seria capaz de mudar tudo da noite para o dia, de maneira perfeita, sem falhas, num processo suave e mágico. Não é assim que as coisas funcionam. Nesse contexto, o surgimento de diversas instituições é um efeito inconveniente desse processo difícil de reorganização.

Mas a reforma poderia ter sido menos dolorosa se de fato tivesse sido uma reforma. O problema é que o movimento pretendia reforma, mas a opção dada pela ICAR foi a de ruptura. E a ruptura com uma instituição monstruosamente grande, antiga, influente, solidificada e estável como a ICAR obviamente traria efeitos negativos, por mais que fosse necessária (dada a recusa da ICAR se reformar). Todos conhecemos exemplos de coisas necessárias e boas, mas que trazem alguns efeitos negativos. Para usar um exemplo bíblico, Jesus disse que não veio trazer paz, mas espada, divisão. Isso não quer dizer que a vinda dele é ruim. Não só é algo maravilhoso como necessário para a nossa redenção. No entanto, um dos efeitos de sua vinda é negativo. A culpa não está nele, mas no homem, claro.

Rupturas radicais, sobretudo em estruturas culturais, sociais e religiosa, sempre geram alguns efeitos negativos. A opção por reformas pequenas, mas constantes, em um ritmo mais gradual e sutil, quase sempre é mais benéfica. A recusa da ICAR por uma reforma, de fato, empurrou o protestantismo para a ruptura. Esse evento traumático gerou dois problemas: (1) os grupos que não pretendiam romper, mas reformar se viram colocados numa situação de instabilidade e perda de norte, onde toda uma estrutura nova precisava agora ser formada, bem como uma nova visão do movimento; (2) criou-se um espírito de ruptura em outros grupos diversos, que se viram também inspirados a formar suas proporias estruturas e identidades. O que se verá a partir daí é um efeito dominó.

A própria origem do protestantismo diante da ICAR é bastante desvantajosa. Quando falamos em reforma protestante, estamos falando literalmente de um punhado de grupos relativamente pequenos, sem origem comum, sem conexão formal entre si e espalhados por vários lugares distintos, reagindo contra uma instituição centralizada e monstruosa em termos de extensão, influência cultural e tempo de existência. A ICAR estava por toda a parte e era uma coisa só. Os grupos que pretendiam reformá-la, não. Se a reforma ocorresse, tudo estaria resolvido. Com a opção católica pela ruptura, cada um desses grupos desconexos tomou o seu rumo. Ou seja, a reforma foi uma reação necessária, mas descentralizada. Não foi a reação de uma instituição, mas de grupos diversos. Uma reação descentralizada e desconexa, sem pretensão inicial de ruptura, contra um império que não pretendia se deixar reformar. Divisões seriam inevitáveis.

Aceitando a hipótese, o que fica claro é que o fator preponderante para a multiplicidade de divisões a partir da reforma não é a propagação do livre exame, mas sim os efeitos negativos da ruptura proporcionada pela ICAR e do número de erros católicos que os protestantes precisariam reparar ao longo de séculos, num processo obviamente caótico de reorganização da casa.

Finalmente, o quarto problema do argumento católico é que culpar o livre exame pelas divisões, divergências e heresias é como culpar o livre arbítrio pelo pecado. O livre arbítrio é apenas a possibilidade de escolha. Não é algo ruim em si mesmo. Não nos influência ou impulsiona a pecar. Ele é neutro. A causa do pecado é nossa má escolha, não a possibilidade de escolher. Nesse sentido, o livre arbítrio gera as condições por meio das quais se pode pecar, mas não o pecado em si. Da mesma forma, o livre exame não é a causa de divisões, divergências e heresias. O que causa esse problema são más intenções ou limitações do ser humano (as quais são impulsionadas por Satanás e suas artimanhas). O livre exame, contudo, apenas gera as condições pelas quais se pode vir a cometer esses erros; não gera os erros em si.

Quando um católico culpa o livre exame pelos problemas supracitados, está obrigado intelectualmente a culpar o livre arbítrio pelo pecado, de onde se conclui que ou Deus é mal por nos dar a possibilidade de escolha, ou essa possibilidade de escolha não existe e somos predeterminados em todos os nossos atos. As duas conclusões são antibiblicas e, ademais, vão contra a própria doutrina católica. Ou seja, não faz sentido culpar o livre exame.

O que se pode dizer do livre arbítrio e do livre exame também se pode dizer da criação da imprensa, da crescente alfabetização das pessoas e da tradução das Bíblias. Foram coisas muito boas, mas ao mesmo tempo geram as condições para a maior disseminação de interpretações errôneas e heresias. Não se pode, contudo, condenar esses avanços e culpá-los por esses problemas. Eles geraram as condições, mas não os erros.

Isso nos deixa de lição que quando Deus concede algo bom, há sempre o risco daquilo ser mal utilizado, distorcido, deturpado. Mesmo assim, Deus concede, pois a coisa em si é boa e os benefícios de concedê-la são, em geral, maiores que os malefícios ou que os possíveis benefícios de não concedê-la. O Senhor poderia não ter dado livre arbítrio ao ser humano. Evitaria todo o pecado. Mas também faria do homem um autômato e de Deus um tirano ou ventríloquo. Aprouve a Deus fazer um homem livre para amá-lo de maneira genuína. Aprouve a Deus fazer, de fato, pessoas, não robôs.

Finda a análise dos problemas do argumento católico contra o livre exame, concluímos que a infalibilidade não consegue impedir o surgimento de divisões, divergências e heresias, nem oferecer evidência sólida de estar certa. O livre exame igualmente não pode impedir os problemas acima, mas é um conceito capaz de se harmonizar com as idéias de submissão à liderança e critérios básicos de interpretação, gerando potencial para um sistema equilibrado que impeça a anarquia sem cair na presunção errônea de infalibilidade.

A existência desse sistema seria o destino natural adotado pela Igreja de Cristo não fosse a romanização de sua estrutura. Quando a Igreja de Cristo se torna Igreja romana, apegando-se à presunção da infalibilidade e acumulando outros erros doutrinários com status de tradição santa, passa séculos na soberba e no autoritarismo e plantando com isso as sementes de violentas divisões. Os rompimentos traumáticos abririam espaço para debates diversos por instituições ainda presas a erros romanistas, expostos a erros novos, instáveis, desnorteadas, em busca reestruturação e identidade. Um caminho para reformas no cristianismo, mas também para aberrações.

É possível, como sempre foi, um sistema equilibrado de autoridade eclesiástica e livre exame. Essa é a tese defendida por esse artigo. Mas, como dito no tópico anterior, a história do agir de Deus é gradual. A presunção de infalibilidade da ICAR, os erros acumulados, as conseqüentes divisões traumáticas e os efeitos maléficos das divisões se constituíram circunstâncias a não permitir um curso mais natural em direção a esse equilíbrio. Apesar disso, Deus, em sua santa e eficiente providência, trabalha dentro dessas circunstâncias difíceis, guiando lentamente o processo até conseguir levantar um movimento com sistema equilibrado.

Aqui se findam as argumentações da série em relação às bases do catolicismo romano, a saber, o primado de Roma, a infalibilidade papal, o tripé Bíblia-Tradição-Magistério, a infalibilidade da Igreja e a crítica ao livre exame. No próximo artigo, vamos comentar especificamente sobre os erros de algumas doutrinas católicas. Em artigo posterior, iniciaremos a parte da série que falará sobre o surgimento do protestantismo, apontando também as falhas deste na busca pela ortodoxia. Mais para o fim da série, teremos um artigo versando sobre o catolicismo e o protestantismo nas profecias bíblicas, outro sobre o papel da IASD na história da Igreja Cristã e o derradeiro, que refletirá sobre a verdadeira ortodoxia e um conservadorismo mais bíblico.

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