Por Davi Caldas

Nos seis artigos anteriores dessa série, aprendemos sobre os argumentos cosmológico (parte 1 e parte 2), teleológico, da moral (parte 1 e parte 2) e da razão para a existência de Deus. A proposta desse sétimo artigo não é, propriamente, apresentar um argumento para a existência de Deus, mas preparar terreno para argumentos a favor de um Deus que intervém na história humana. Isso é importante, pois até o momento apenas chegamos à conclusão de que há um Deus. Tal Deus, contudo, poderia ser como sustentam os deístas: uma entidade distante, que criou a terra, mas não intervém jamais de modo sobrenatural, nem nunca se revelou por meio de profetas, Escrituras Sagradas ou vindo à terra em alguma forma.

Assim, pretendemos demonstrar nesse texto a possibilidade da existência de intervenções divinas na história e na natureza, as quais são geralmente chamadas de milagres. O objetivo primordial é evidenciar que milagres não são quebras da lógica, das leis naturais e da ciência, sendo aceitáveis do ponto de vista intelectual, sem necessidade de apelo à relativização da Bíblia e a uma teologia liberal.

Objeções aos milagres

Milagres tem sido definidos como intervenções sobrenaturais no curso da natureza, em geral de autoria divina, que alteram os resultados esperados pelo observador natural. As objeções mais comuns a possibilidade dessas intervenções existirem podem ser descritas mais ou menos assim: “Como pode ser possível que alguns eventos (milagres) quebrem as leis da natureza? Como podemos crer em algo que a ciência não pode explicar? Crer em milagres não é contrário à lógica, à razão e a ciência? Se realmente eles são possíveis, podemos dizer que eles são prováveis? Qual a probabilidade de milagres acontecerem? Por que milagres não ocorrem com mais frequência? Por que a maioria das pessoas não vê milagres?”.

Para responder essas perguntas é necessário primeiramente entender de maneira correta o que são as leis da natureza. Vamos começar por esse tópico.

As leis da natureza

O que são as leis da natureza? Podemos defini-las como fenômenos naturais fixos, isto é, fenômenos que ocorrem com uma constância determinada, que são parte inerente da ordem no mundo e que não podem mudar. Um exemplo de lei da natureza seria a força da gravidade que existe em nosso planeta. Em função dela, todas as coisas são puxadas constantemente para o centro da terra.

Bem, é justamente a partir desse entendimento sobre leis da natureza que os naturalistas, aqueles que só creem nas coisas naturais, chegam à conclusão de que não é possível existir milagres. Por exemplo, sabemos que um homem que se ponha de pé em cima das águas, afundará, porque as leis da natureza não permitem que alguém se firme em pé sobre algo em estado líquido. Então, quando lemos no Novo Testamento que Jesus andou por sobre as águas, a visão naturalista é que ele quebrou as leis da natureza. Mas se as leis são fixas, então a história de que Jesus as quebrou é falsa.

Mas a análise acima é, no mínimo, ingênua. Se de fato Cristo andou por sobre as águas, não houve absolutamente nenhuma quebra das leis da natureza. Vamos entender através de uma analogia. Suponha que eu lance uma maçã do quinto andar do um prédio, em linha reta, na direção do chão da calçada. Qual é a nossa previsão do que irá ocorrer? É a de que a maça cairá no chão. Por que prevemos isso? Porque há uma lei da natureza chamada força da gravidade, que puxa as coisas para baixo. Então, se jogo a maçã do quinto andar, em linha reta, na direção do chão, a previsão é de que ela caia no chão.

Contudo, imagine que eu jogue a maçã em linha reta, ela desça na direção do chão, mas no momento em que ela passa em frente ao apartamento do segundo andar, alguém coloca a mão pela janela e a segura. O que aconteceu? A maçã não caiu no chão como nós havíamos previsto. Podemos dizer então que a lei da gravidade foi quebrada? É claro que não. O que ocorreu foi uma quebra da previsão.

Prevíamos que a maçã cairia no chão porque tínhamos em mente apenas dois fatos: (1) a lei da gravidade e (2) a queda em linha reta da maçã. Se realmente apenas esses dois fatos ocorressem na situação, nossa previsão não seria quebrada. Porém, um terceiro fato, inteiramente novo, surgiu e modificou o resultado que esperávamos: (3) a mão de alguém interceptou a queda da maçã.

C. S. Lewis, em sua obra intitulada Milagres, apresenta uma analogia ainda melhor. Ele diz o seguinte:

Se coloco seis centavos em uma gaveta na segunda-feira e mais seis na terça, a lei determina que […] vou encontrar ali 12 centavos na quarta-feira. Se a gaveta, porém, for arrombada é possível que eu encontre apenas dois centavos. Algo terá sofrido alteração […], mas as leis da aritmética não se alterarão. A nova situação criada pelo ladrão demonstrará tão bem as leis da aritmética quanto a situação original [1].

O leitor percebe? Não houve quebra da lei da gravidade na situação da maçã, tal como não houve quebra das leis da matemática (aritmética) na situação do dinheiro na gaveta. A soma de seis mais seis continuou sendo doze e a gravidade continuou puxando as coisas para o centro da terra. O que mudou foi a previsão que fizemos, justamente porque um fato novo, com o qual não contávamos, interferiu na situação.

Portanto, se milagres existem, é tolice dizer que eles quebram as leis da natureza. O que eles quebram são as nossas previsões. “O milagre”, completa C. S. Lewis, “introduz um fator novo à situação: a força sobrenatural, com a qual o cientista não contava” [2]. Foi o que ocorreu no caso de Jesus. A previsão era de que um homem não poderia andar por sobre a água, pois eram considerados fatores como a lei da gravidade, a densidade que tinha um homem de pé e o estado físico do local em que estava pisando. Com apenas esses fatores em jogo, não haveria como um homem andar sobre a água. Mas com mais o fator sobrenatural, o resultado foi diferente.

É importante ressaltar ainda que é justamente por causa das leis da natureza que os milagres podem existir. Se não existissem leis naturais que determinassem que um homem não pode pisar na água sem afundar, não poderíamos dizer que Jesus operou um milagre. Da mesma forma, a existência de leis naturais assegura que milagres podem ocorrer se o elemento sobrenatural estiver operando. Não faria sentido que o curso natural das coisas produza o mesmo resultado que o curso natural somado a uma intervenção sobrenatural. Se um elemento novo é posto na situação, o resultado não poderá ser igual a se nada novo fosse adicionado. Em outras palavras, o milagre ocorre por questão de lógica: se Deus intervém, o resultado precisa sair diferente do previsto originalmente.

Os milagres e a ciência

Muito bem, nós já sabemos que os milagres, se existem, não quebram as leis da natureza. Contudo, isso não muda muito a situação para o naturalista. A natureza pode não ter as suas leis quebradas pelo elemento sobrenatural, porém o curso natural de seus eventos é alterado. E o maior problema disso, para o naturalista, é que o sobrenatural não poderá ser explicado através do natural. Por exemplo, se eu digo que Cristo andou por sobre as águas por que havia ali um elemento sobrenatural chamado fé, o naturalista questionará: “Como isso se dá? A fé gera algum tipo de prancha para que a pessoa flutue?”.

O naturalista sentirá uma terrível dificuldade de aceitar que haja qualquer tipo de interação entre a fé e a natureza. E isso ocorrerá porque o naturalista só consegue pensar no interior de sua perspectiva natural. Acontece que isso nem de longe prova que não seja possível haver tal interação. E se a interação entre a fé e a natureza é mesmo possível, é evidente que não poderemos entendê-la da perspectiva natural. Para citar outra vez o saudoso C. S. Lewis:

O comportamento dos peixes que estão sendo estudados em cativeiro torna o sistema relativamente fechado. Suponhamos, porém, que o tanque onde se encontram fosse abalado por uma bomba nas imediações do laboratório. O comportamento dos peixes não poderia mais ser explicado por aquilo que acontecia no tanque antes de a bomba cair, pois houve uma falha na interligação anterior. Todavia isso não significa que a bomba e a história anterior dos acontecimentos dentro da tanque estejam total e irremediavelmente desconectadas, e sim que, para encontrar a relação entre eles, será preciso voltar a uma realidade muito mais ampla, que inclui tanto o tanque quanto a bomba – a realidade da Inglaterra no tempo da guerra: as bombas estão caindo, mas alguns laboratórios continuam em atividade. Essa relação jamais seria encontrada na história do tanque.

O milagre, da mesma forma, não se acha naturalmente associado na direção retroativa. Para descobrir como ele se acha interligado com a história anterior da natureza, é necessário substituir tanto esta quanto o milagre em um contexto mais amplo: tudo está ligado com tudo o mais. Nem todas as coisas, porém, estão ligadas pelos caminhos curtos e diretos que esperávamos [3].

O erro do naturalista é querer entender tudo apenas pelo o que acontece dentro do “aquário”. Não consegue entender que se há mesmo uma “sobrenatureza”, uma realidade mais ampla que inclui o que conhecemos e o que não conhecemos, é necessário ter uma visão completa tanto do que acontece dentro da natureza, como o que ocorre fora; e qual é a relação entre as duas.

Talvez devêssemos lembrar aqui que a ciência estuda o mundo natural e nada tem a dizer sobre o que vai além. Então, é mais que certo que um milagre não esteja dentro da alçada da ciência. O dia em que a ciência natural puder explicar um milagre, então teremos certeza de que não houve um milagre, mas um fenômeno natural.

A raridade dos milagres

Supondo que milagres realmente existam (que é logicamente possível, já sabemos), o naturalista pode questionar a razão pela qual há poucos milagres. Não vemos milagres todos os dias por aí. Na verdade, a maioria de nós passa a vida inteira sem ver um. Os relatos de milagres modernos que existem quase nunca são de essência visível a muitas pessoas, de modo que as narrativas se tornam duvidosas para quem não viu. Haveria uma explicação para isso? Sim.

O universo foi estruturado de modo racional. Há uma ordem no mundo criado, a qual permite que possamos conhecer o funcionamento das coisas, prever fenômenos, calcular, conjecturar, estipular probabilidades, observar, deduzir, inferir, intuir, estudar, analisar, avaliar, propor ideias, teorias, hipóteses, inventar objetos, jogos, sistemas, etc. Todo o conhecimento só existe porque há ordem, lógica e razão nas coisas criadas. Para o teísta, essa ordem expressa a própria essência de Deus. Ele é racional, lógico e ordenado. A visão judaico-cristã, para ser mais específico, entende que as leis fixas do universo assim o são porque refletem a fixidez, imutabilidade e organização da essência divina. Por essa razão, os primeiros grandes cientistas do ocidente, cristãos devotos, entendiam que o estudo da ciência era uma forma de conhecer mais sobre Deus.

Desta forma, o curso natural das coisas é um desígnio divino. Faz parte de sua vontade que a natureza funcione de uma maneira previsível, onde causas e efeitos são observados com facilidade e geram convicções fortes. O mundo natural de Deus deve fazer sentido para nós. Foi projetado para fazer sentido dentro de nossa estrutura e limitações.

Portanto, os milagres, pelo menos no sentido de intervenções grandiosas e perceptíveis, devem ser raríssimos. Não são norma. São a exceção. Só sabemos o que é um milagre justamente porque ele não faz parte da regra, do comum, do rotineiro, do esperado, do calculado. Para haver milagre, é preciso haver uma rotina, porque o milagre é a quebra da rotina.

Esse tipo de milagre grandioso e incomum precisa ter um motivo igualmente grandioso e incomum para ocorrer. Se, como no exemplo de C. S. Lewis, guardo seis centavos na minha gaveta na segunda e na terça, mas não encontro doze centavos ali na quarta, não devo concluir que algum ser sobrenatural roubou minhas moedas. Nós sabemos que não é isso que normalmente acontece. Sempre vemos esse tipo de eventos não esperado ter uma explicação natural. E isso é óbvio. Que interesse Deus teria em interferir em algo tão pequeno e inútil? Que interesse Deus teria em pegar minhas moedas? Por que motivo eu deveria acreditar que um milagre, algo tão raro, ocorreria só para que meu dinheiro fosse arrancado?

Um milagre que ocorresse nesse tipo de situação tão pequena, comum e irrelevante, na verdade, iria embaralhar o mundo. Se minhas coisas podem sumir do nada, por milagre, sem nenhum objetivo, então não posso confiar no funcionamento da natureza, tampouco em Deus. Quem daria crédito a um Deus tão zombeteiro? Que tipo de confiança poderia ensejar um universo no qual qualquer coisa pode sumir e aparecer do nada? Que tipo de conhecimentos poderíamos ter num sistema desse? Qualquer coisa pode acontecer. Não há probabilidades. Não há previsões. É um mundo mágico. E em um mundo mágico, os milagres já não possuem qualquer relevância, pois há milagres o tempo todo. Um mundo mágico não reflete um Deus racional e ordeiro. Tal universo se enquadra melhor com a cosmovisão politeísta predominante do mundo antigo, onde a natureza é submissa aos devaneios, paixões e apetites loucos de deuses mutáveis, falíveis e desordeiros.

Não é, no entanto, o que Bíblia diz sobre o Deus Criador, por exemplo. A Bíblia conta sobre um Deus que fez leis fixas para que elas fossem a norma. Fez isso para que através da norma pudéssemos fazer nossas previsões e ter certeza dos resultados naturais. A importância que Deus dá a esse universo ordenado, cheio de leis naturais e que nos possibilita prever o curso natural dos acontecimentos é tão grande que ele compara a fixidez de sua promessa para com o rei Davi e Israel, no Antigo Testamento, com a fixidez dessas leis (Jr 33:20-25).

Deste modo, intervenções grandiosas e perceptíveis no curso normal só ocorrem quando a questão é relevante o suficiente, quando há uma ocasião ímpar que carece do milagre para possibilitar o sucesso de grandes planos divinos. Não há nada de ímpar em intervir na minha economia caseira de seis centavos ao dia. Mas existe algo de muito ímpar, grandioso, estupendo, incrível, fenomenal, importantíssimo em alguns eventos descritos na Bíblia. Podemos citar, como exemplo, a ressurreição de Jesus Cristo. Se o cristianismo é verdadeiro no que diz, de seu nascimento, morte e ressurreição dependem a salvação de bilhões de pessoas. De sua ressurreição depende a prova de que Jesus é um com Deus e Senhor Supremo; depende o surgimento do cristianismo, a maior religião do mundo; depende a imortalização dos ensinos de Cristo. Merece ou não merece um milagre um evento desse? Necessita ou não necessita?

O milagre como evento raríssimo serve para destacar a intervenção divina, testificar de modo confiável que Deus, embora ordeiro e racional, detém todo o poder. Se algo nunca ocorre naturalmente, o dia em que acontece é um fenômeno memorável e que deixa a convicção de que só Deus pode fazê-lo e que o fez apenas para enfatizar algo de muita relevância. Não podemos esperar, portanto, que milagres grandiosos ocorram a todo o momento. Isso descaracterizaria a função do milagre e desfiguraria o mundo estruturado por Deus para ser compreensível ao homem.

Não obstante, há outro tipo de milagre possível do qual podemos falar. São os milagres imperceptíveis, cuja função não é enfatizar nenhuma grande verdade ou fato, mas sim evitar alguns males ou direcionar eventos de acordo com planos maiores de Deus. Tais milagres podem ser muito comuns. Se realmente milagres existem, é provável que esse tipo de milagre ocorra todos os dias em nossas vidas, sem que percebamos. Eles não mudam perceptivelmente nossas projeções, pois são pequenos e lidam geralmente com fatos e eventos que estão além de nossa análise e visão. Um pensamento que Deus sopra, influenciando alguém a se demorar mais em casa, ou um anjo que sugere mentalmente uma rota mais segura para um transeunte, são intervenções sobrenaturais, milagres, mas que ninguém percebe, ninguém vê. Os resultados mudam, mas não são vistos, pois não foram previstos por nós.

Tanto em um caso como em outro, ver o milagre será algo raro. O mundo criado por Deus é bastante previsível. E é exatamente assim que Ele deseja que seja. Apenas assim, suas eventuais rupturas podem ser devidamente entendidas como sinais divinos. Isso nos deixa um gancho para o próximo artigo, que versará sobre o argumento histórico da ressurreição de Jesus. Veremos que existem evidências lógicas e históricas fortes que nos conduzem racionalmente à conclusão de que Ele ressuscitou dentre os mortos, comprovando assim, dentre outras coisas, que Deus existe e a religião verdadeira é o cristianismo.

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Referências:

1. Lewis, C. S. Milagres. São Paulo: Vida, 2006. Páginas 93 e 94.

2. Lewis, C. S. Milagres. São Paulo: Vida, 2006. Página 94

3. Lewis, C. S. Milagres. São Paulo: Vida, 2006. Páginas 97 e 98.