Por Davi Caldas

Há exatos 173 anos, Deus iniciou uma nova fase em seu juízo divino. Chamamos de juízo investigativo. Já ouviu falar? Não? Acha estranho o tema? Não se preocupe. Vamos fazer um resumo bem breve aqui.

Em Daniel 8:13-14, após uma série de revelações sobre nações e poderes que se sucederiam na terra, bem como de um poder que se arrogaria e jogaria verdades por terra, Daniel tem uma visão sobre a purificação do santuário: “Depois, ouvi um santo que falava; e disse outro santo àquele que falava: Até quando durará a visão do sacrifício diário e da transgressão assoladora, visão na qual é entregue o santuário e o exército, a fim de serem pisados? Ele me disse: Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado”.

Para entender o que esse texto significa é preciso entender que o livro de Daniel apresenta uma estrutura na qual cada profecia/visão nova explica e amplia a anterior. Assim, as visões do capítulo 8 explicam a do capítulo 7. O capítulo 7 fala, entre outras coisas, sobre um julgamento que ocorreria no tempo do fim. Nesse julgamento, livros seriam abertos (Dn 7:9-10). Esses livros, aparentemente, são os mesmos mencionados em Apocalipse 20:11-13 – os registros das obras de cada pessoa e o livro da vida. O livro de Eclesiastes dá testemunho que as obras de todas as pessoas serão trazidas à tona (Ec 12:13-14).

No Antigo Testamento, Deus ordenou a construção do santuário hebreu como uma forma de simbolizar justamente o seu julgamento em suas diversas fases. Os sacrifícios diários, por exemplo, eram figura do sacrifício de Jesus, válido diariamente e para sempre (Heb 9:11-14 e 24-28; 10:10-14). Simbolizavam, portanto, a primeira fase do juízo divino, a qual requer a fé em Jesus Cristo como Salvador. Aqueles que não aceitam a Cristo já estão julgados nessa primeira fase (Jo 3:17-19) e destinados à perdição.

O ritual do Yom Kippur (Dia da Expiação), por sua vez, representava uma segunda fase do juízo. Uma vez por ano, no dia dez do sétimo mês, o sumo sacerdote entrava no segundo compartimento do santuário – chamado “Santo dos Santos” – num ritual de purificação do próprio santuário. Simbolicamente, durante todo o ano, os pecados do povo eram expiados e transferidos para o santuário. O dia da expiação servia para retirar do santuário esses pecados registrados. Trata-se de uma analogia em relação ao julgamento descrito em Daniel. No julgamento, os pecados registrados nos livros de obras de cada pessoa (já perdoados durante sua vida) também são invalidados através dos méritos de Cristo. Essa segunda fase geralmente é chamada de juízo investigativo, pois são “investigados” os livros de registro. É a purificação do santuário celeste (Heb 8:1-5, 9:23-24, Ap 11:19) onde a salvação já concedida por Cristo aos que o aceitaram é ratificada oficialmente por meio de procedimento legal e de igual modo a condenação aos que o rejeitaram (Ap. 11:15-19).

A terceira e última fase do juízo é chamado de juízo executivo. Nessa fase, os livros são analisados pelos próprios salvos, a fim de que todos saibam que Deus foi justo em seu julgamento. Paulo afirma, de modo simbólico, que os salvos julgarão o mundo (I Co 6:2) e o Apocalipse retrata os santos com a autoridade de Cristo e cetros de ferro para dominar as nações e reduzi-las à pedaços (Ap 2:26-27). São símbolos claros do juízo executivo, onde Deus permite aos santos emitirem seu parecer sobre sua justiça. É o juízo final, por meio do qual a condenação, enfim, se abate sobre os injustos.

Aqui voltamos ao texto de Daniel 8:13-14. Pelo contexto do capítulo, sabemos que o julgamento ali descrito se refere ao tempo do fim. Sabemos também que se trata da segunda fase do juízo divino, que é a purificação do santuário celeste (simbolizada pela purificação do santuário terrestre no Yom Kippur). Isso implica que os 2300 dias mencionados são simbólicos, já que Daniel se encontrava há muitos anos do tempo do fim. O fato de a visão estar repleta de símbolos confirma esse entendimento de que os dias profetizados não são literais. Mas o que significam? E quando se iniciam? Já vamos descobrir.

Ao longo da história a primeira e a terceira fase do juízo divino sempre foram bem enfatizadas, mas a segunda foi ignorada. Não por acaso, Deus diz a Daniel, com relação a boa parte das visões que o profeta recebeu, que o sentido permaneceria selado até próximo ao tempo do fim, quando o saber se multiplicaria (Dn 12:4-10).

Pelas profecias presentes em Daniel 2 e 7 até 12, bem como os complementos em Apocalipse, sabe-se que o tempo do fim se inicia por volta do final do século XVIII. De fato, nesse período, muitos escritores em diversas partes do mundo passaram a se interessar pelas profecias de Daniel e Apocalipse e tecer interpretações que encontravam apoio no desenrolar da história até ali. Uma das pessoas a se dedicarem a esse estudo foi Guilherme Miller. Buscando explicação das passagens obscuras da Bíblia com base na própria Bíblia, Miller concluiu que algum grande evento ocorrer.

Uma das pessoas a se dedicarem a esse estudo foi Guilherme Miller. Buscando explicação das passagens obscuras da Bíblia com base na própria Bíblia, Miller concluiu que algum grande evento ocorreria no fim dos 2300 dias. Pressupondo que o santuário era um símbolo para a própria terra, Miller creu que fosse o retorno de Jesus. Um erro, evidentemente. Mas o método utilizado para descobrir o que significavam os 2300 dias e quando se iniciavam foi correto.

Ele acatou a sugestão bíblica de que um dia pode simbolizar um ano (Nm 14:34 e Ez 4:5-7). Assim, os 2300 dias seriam 2300 anos. Quando eles começariam? A visão de Daniel 8 não oferece a resposta. Mas Daniel 9, que explica e amplia a passagem anterior, apresenta a profecia das 70 semanas, uma profecia messiânica. Segundo essa profecia, o Messias viria no meio da última semana. A visão oferece informações cruciais: o seu sinal de início (a ordem para a reconstrução de Jerusalém – Dn 9:25) e a informação de que as 70 semanas são “cortadas” (o termo original hebraico) de um período de tempo maior, o que só pode se referir, contextualmente, aos 2300 anos. Assim, os dois períodos estavam interrelacionados e começariam juntos.

Obviamente, a tese precisava de comprovação histórica. E foi o que Miller procurou fazer. Ele descobriu, então, que o evento de início das 70 semanas declarado em Daniel 9 (a ordem para a reconstrução do templo) se iniciava em 457 a.C. conforme atesta a história. Se o princípio dia-ano estava correto, as 70 semanas (490 dias) simbolizavam 490 anos, o que leva ao ano 34 d.C. (considerando que não há ano zero), ou seja, um pouco depois do sacrifício de Cristo. Sabe-se que há um pequeno erro cronológico em relação ao nascimento de Jesus, que varia de 4 a 8 anos. Se o erro foi de quatro anos, isso coloca a crucificação de Jesus como tendo ocorrido por volta dos anos 30/31 d.C., o que se encaixa bem na descrição de que Jesus morreu no meio da última semana da profecia, restando três anos e meio depois. Essa meia semana simbólica após a morte de Jesus parece ser um tempo dado aos judeus como prioridade na pregação do evangelho. Parece se encaixar perfeitamente.

Ora, se os 2300 anos se iniciam na mesma data, isso leva à 1843 (ou 1844, considerando que não há ano zero). A conclusão de Miller foi que Jesus voltaria por volta desses anos. Miller relutou por anos para anunciar sua descoberta aos outros. Quando resolveu fazê-lo, em função de uma oração respondida com um sinal, comoveu muitas igrejas a se prepararem para o grande dia. O erro de Miller não foi quanto à interpretação de que algo especial ocorreria no fim dos 2300 dias, mas quanto ao evento. Ele não conseguiu, em seus estudos, perceber o que outros estudiosos perceberiam posteriormente: que o santuário não era símbolo da terra, mas símbolo da segunda fase do juízo divino. Cristo não retornaria ao fim dos 2300 anos, mas sim a segunda fase do juízo se iniciaria no céu.

A segunda fase do juízo divino marca não apenas uma nova obra de Jesus no céu, no sentido de purificar o santuário, mas o início de um novo movimento na terra, um movimento levantado por Deus do meio de erros humanos para purificar e tornar condutor de verdades redescobertas. A leitura acurada de Daniel 8 demonstra que a partir desse período, a purificação começaria a ocorrer no céu e na terra, paralelamente. Na terra, os efeitos do poder que jogou a verdade por terra (Dn 7:8 e 19-25; 8:9-12 e 22-26; Ap 2:20-25; Ap 13:1-10) começariam a ser revertidos. O juízo no céu se reflete na terra: as verdades corrompidas e esquecidas serão restabelecidas e o evangelho eterno será pregado (Ap 14:6-7, Mt 24:14, Ap 10:1-11, Ap 14:12, Ap 12:18, Ap 3:7-12, Ap 11:15-19). Cremos que esse movimento é a Igreja Adventista do Sétimo Dia, cuja missão não é prover salvação para ninguém, mas apenas espalhar verdades para todos os demais cristãos sinceros, independente de denominação. Não são as paredes ou o nome que salva, mas a aceitação da mensagem bíblica. No fim de tudo, na última perseguição a se abater sobre o mundo, não haverá mais denominações entre os cristãos genuínos, nem templos ou placas, mas apenas um único povo remanescente e fugitivo, caracterizado por guardar os mandamentos de Deus e a fé em Jesus (Ap 12:18 e 14:12).

O dia 22 de Outubro de 1844 foi o dia em que o símbolo encontrou o simbolizado. O dia, naquele ano, equivalia ao dia da expiação hebraico. Naquele dia, a segunda fase do juízo, simbolizado durante milênios pelo ritual hebraico, se iniciou, tanto no céu, como na terra. E isso é motivo de grande alegria. Em breve essa segunda fase findará e Jesus sairá da sala de julgamento, do santuário divino, para retornar gloriosamente à terra. O povo levantado naquele ano, e gradualmente purificado de seus próprios erros ao longo das décadas, enfatiza esse grande evento e convida a todos a aceitarem a Cristo como o único Senhor e Salvador de sua vida.