Por Davi Caldas

Tornou-se um mantra o dito de que a Trindade é ilógica. Curiosamente, um mantra repetido tanto por quem crê, quanto por quem não crê (como veremos posteriormente). Mas a verdade é que a Trindade é lógica sim. E é isso o que vamos ver nesse texto.

Em primeiro lugar, para que o plano de salvação do ser humano pudesse ser elaborado tal como a Bíblia nos diz, era necessário no mínimo que Deus fosse composto de duas pessoas divinas. Expus isso no texto “A necessidade da morte de Jesus Cristo“. Grosso modo, o pecado requer a punição da morte, a fim de que a justiça seja satisfeita. Deus deseja perdoar o homem, mas há dois tipos de perdão, o relacional (perdão que restabelece uma relação de amor) e o jurídico (que retira a penalidade do criminoso). O primeiro é o que se espera de um Pai amoroso, mas o segundo não é o que se espera de um juiz justo. Assim, para que Deus perdoe o ser humano, deve ter um plano por meio do qual Ele satisfaça tanto o amor paternal quanto a justiça legal. A única forma de fazer isso é arrumando um substituto que seja suficiente para receber a devida punição e cuja punição vicária tenha eficácia para restaurar o caráter dos reais criminosos.

O cristianismo afirma que Jesus é esse substituto. Ocorre que se Jesus não for o próprio Deus, seu sacrifício não tem autoridade para salvar. O raciocínio é simples: só quem pode perdoar uma ofensa é o próprio ofendido. Ninguém pode perdoar uma ofensa em relação a outra pessoa. Assim, só Deus pode perdoar os pecados cometidos contra Ele mesmo. Se Jesus não é Deus, seu sacrifício só poderia perdoar as ofensas em relação a ele, não a Deus. Deste modo, todos continuariam pecadores. Para que Jesus perdoe, por seu sacrifício, as ofensas contra Deus, Ele necessariamente deve ser o próprio Deus. Só neste caso, o próprio ofendido estará perdoando o ofensor.

Deus não poderia delegar a alguém de fora dele a responsabilidade de salvar o homem, pois isso não iria satisfazer a justiça. Ele estaria, na verdade, criando uma injustiça ao colocar o fardo da punição sobre os ombros de quem nada tem a ver com o assunto. E Ele mesmo não tomando parte na punição, não estaria de fato assumindo a culpa em nosso lugar. A salvação de fato só pertence a Deus se Ele mesmo se sacrifica.

É aqui que entra a necessidade de Deus ser ao menos duas pessoas em um só ser. Ele não poderia se tornar um homem como nós e se sacrificar sem que também houvesse no céu um Pai Celestial, cumprindo a função de Deus sobre todos e Diretor do Universo.

Note ainda que para o plano ter sentido, Ele não poderia ser operado por “dois” deuses, mas por um Deus que possua em si ao menos duas pessoas divinas. É necessário ao plano de redenção que as duas pessoas divinas sejam iguais em essência, poder, propósitos, honra, glória, caráter e existência. Em suma, apenas um ser. Uma salvação proposta por dois deuses careceria de lógica, visto que o sacrifício de um só serviria para perdoar as ofensas cometidas a si mesmo não ao outro.

O plano de redenção, tal como foi proposto, explícita que existe apenas um único ofendido supremo, contra o qual todas as ofensas que existem são dirigidas. Apenas esse próprio ofendido pode satisfazer a justiça no lugar do ofensor. Ninguém que não Ele mesmo poderia ser um substituto eficiente. Assim, Jesus não pode ser meramente Filho e Criatura do Pai. O plano de redenção é prova inconteste que Jesus é divino, que forma um único Deus com o Pai. Por isso, Paulo diz que Deus prova o seu amor enviando seu Filho para morrer por nós (Rm 5:6-8). Isso só é válido porque Jesus Cristo e o Pai são um em essência (Jo 10:30 e 14:7-9); e Cristo é tão eterno, salvador, grandioso e digno de ser adorado quanto o Pai (Is 9:6-7; Mq 5:2; Jo 3:16, 6:35, 11:25, 14:6; Tt 3:4-7; Hb 11:13-8; Ap 22:13; etc.). Essa equação será melhor explicada mais adiante.

Em segundo lugar, podemos postular a plausibilidade de que haja uma terceira pessoa compondo a divindade. Por que? Veja, que se o Pai e o Filho escolherem uma forma física e uma localização espacial, tem que haver uma parte divina que permaneça com o atributo da onipresença, já que isso é atributo intrínseco de Deus. Ao mesmo tempo, se o homem, em sua condição natural decaída, está morto espiritualmente, não podendo ir até Deus, apenas um Espirito onipresente poderia tornar a sua salvação possível e permanecer com Ele em sua santificação.

A ideia é plausível. Mas o que a  torna lógica é a Bíblia. De fato, Jesus só menciona o Pai sempre no céu, nunca em todos os lugares (Mt 5:16, 5:44; Mc 11:26; Lc 11:2; etc.). Mas menciona o Espírito Santo entre nós e dentro de nós (Jo 14:17). Há, portanto, uma clara distinção. Enquanto o Pai tem localização específica, no céu, porque assim escolheu, e Jesus também, o Espírito está em todos os lugares, mantendo a onisciência divina e cumprindo parte imprescindível no plano de redenção.

A primeira vinda de Jesus deixa a questão bem evidente. O Espírito não poderia ser Cristo, pois Cristo tornara-se homem e estava limitado espacialmente. Também não poderia ser o Pai, pois é mencionado sempre estando no céu. Por outro lado, o Espírito é citado como vindo do Pai e guiando Jesus. E prometido como guia dos discípulos e cristãos no lugar de Jesus (Jo 14:26, 15:26, 16:13; Lc 3:22, 4:18; At 1:8; etc.). A personalidade do Espírito é destacada. Ele ouve, testemunha, convence, guia, converte, intercede, fala, se entristece, ensina, sente-se ofendido (R 8:26-27, Ef 4:30, Tt 3:4-7, At 5:3-4, Ap 2:7). Montando o quebra-cabeça, na divisão de funções dentro da divindade, coube ao Espírito manter a função de onipresente e onisciente, funcionando de ponte ininterrupta entre o Pai e Cristo, o Pai e os homens e Cristo e os homens. Assim, o Pai e o Filho estão entre nós através do Espírito. Talvez por isso Paulo afirme que o Espírito perscruta e conhece as profundezas de Deus (I Co 2:9-10). É porque Ele possui a função de canal, de via de mão dupla.

A personalidade do Espírito Santo e sua divindade não são absurdos. Se Deus pode ser  (e pela lógica é) duas pessoas em uma mesma essência, pode também ser três. E da mesma forma, para o plano de redenção fazer sentido, não pode ser três deuses, mas apenas um, pois o Espírito só pode ser um substituto com igual autoridade e conhecer a Deus em sua plenitude se Ele for o mesmo Deus. No plano de redenção não há espaço para que a salvação e a santificação sejam operadas por alguém que não seja o próprio Deus. Assim, pois, a graça depende inteiramente da existência da Trindade.

O que parece fundir a cabeça das pessoas é que não temos exemplos análogos de Trindade. Nenhum ser que conhecemos possui três personalidades em uma única essência, motivo pelo qual geralmente consideramos sempre uma pessoa como um ser e mais de uma como mais de um ser. Mesmo uma criança dentro do útero de uma mãe não é o mesmo ser que a mãe. As duas pessoas possuem DNA, origens, idades e capacidades distintas; terão propósitos diferentes depois que a criança nascer; jamais conhecerão plenamente o interior de cada um.

Por falta de analogia, acabamos caindo em um erro tradicional: julgar pela aparência. Se eu não entendo, se não parece óbvio, então também não é lógico. Os que creem dirão que Deus está acima da lógica (ou acima da lógica humana). Os que não creem dirão que como não é lógico, não é verídico. Os dois grupos estão errados. Deus é lógico porque a lógica faz parte dEle assim como o amor, a moralidade e a justiça. Ele é lógico porque é Senhor de toda a razão, de toda a sabedoria, de toda a ordem e sentido. Ele é lógico precisamente porque é real. Nós é que não somos lógicos o suficiente. Por sermos criaturas, seres espaço-temporais, não conseguimos apreender ou imaginar totalmente determinados conceitos. Não porque eles sejam irracionais e ilógicos, mas simplesmente porque nós somos limitados.

A este tipo de conhecimento, eu chamo de supralógica. É algo lógico demais para que aprendamos, pois está no domínio de Deus. Isso se difere do que não faz sentido precisamente porque faz sentido. Explico com uma analogia. Pela lógica, conseguimos concluir que Deus está além de tempo, espaço e matéria, pois as criou. Logo, é atemporal. O que é atemporal não tem começo, pois começo é um fenômeno do tempo. O que não tem começo não tem causa, pois só carece de causa o que se inicia no tempo. Logo, pela lógica, Deus não tem causa nem começo.

Faz sentido? Faz. A lógica nos levou até aqui (e é exatamente o que a Bíblia ensina). Mas além daqui não conseguimos passar. Ninguém consegue entender plenamente e imaginar como é não ter começo é causa. Ninguém consegue imaginar a atemporalidade, a não existência de sucessão de eventos, a onisciência. Por que não é lógico? Não. Porque não somos atemporais. Nosso poder de apreensão e imaginação estão limitados à estrutura tempo-espaço. Não temos como entender mais. E isso também é lógico.

A Trindade está nesse campo. A lógica nos leva até ela. E ali paramos. Sabemos com certeza que atrás da porta está a Trindade. Mas não é possível passar dali com nossas mentes de criatura. E isso é o que se espera, considerando que só Deus é o criador.

Apesar da não haver uma analogia perfeita para tentar entender a Trindade, é possível entender até certo ponto por meio de analogias imperfeitas. E isso é suficiente. Gosto da analogia da laranja. Corte uma laranja em três pedaços. O que você tem? Três laranjas? Não. Uma só. Cada um dos pedaços tem a mesma essência e permanece sendo uma laranja. A Trindade é algo semelhante a isso. Um só Deus, uma só essência, três pessoas.

Renegar o conceito por não ser óbvio à primeira vista é julgar pela aparência e tomar nosso conhecimento pleno como régua para medir o que é lógico. Dois grandes erros. Nem tudo o que é lógico, é óbvio.