Por Davi Caldas

A história de Jó me ensina que os sofrimentos e dores que passamos não necessariamente são punições por pecados específicos que cometemos. Jó, ao sofrer tudo o que está relatado no livro que leva o seu nome, não estava sendo punido. Seu biógrafo afirma que ele era o homem mais justo da terra, temente a Deus e que se desviava do mal. E o próprio Deus confirmava isso. Nesse sentido, Jó sofreu sem nada ter feito de mau.

Afirmar que Jó era justo e não sofreu por punição, não significa dizer que ele não era pecador. Ele era homem como nós. Inclinado à imperfeição, limitado e sujeito à falhas diárias, ainda que pequenas. Mas tentar encontrar em Jó algum pecado que tivesse relação direta com seus sofrimentos é cair numa teologia mentirosa. No momento em que fazemos isso, construímos um mundo que não existe, no qual os mais justos nunca sofrem e os mais perversos sempre sucumbem. Nesse mundo irreal, ser rico, ter boa família e poucos problemas é sinal de extrema justiça. Um homem como Bill Gates deve ser mais santo que o apóstolo Paulo, se pensarmos por aí. E aquela família pobre e/ou desestruturada que mora no subúrbio está recebendo castigo por enormes pecados. Sabemos que no mundo real, as coisas estão longe de ser assim. Mas muitos se guiam por essa teologia. E os amigos de Jó criam profundamente nela.

O fato básico sobre os efeitos do pecado no mundo é que eles não fazem acepção de pessoas. Podem atingir à qualquer um, bom ou mal. Sim, a Bíblia fala sobre punições aos injustos e bençãos aos obedientes. Mas essas passagens não podem ser tomadas como regra para todas as pessoas e em todas as ocasiões. Há quem sofrerá condenação por maus atos ainda aqui na terra. E há justos que serão abençoados terrenamente por sua justiça. Mas esperar isso como algo certo é adotar a teologia dos amigos de Jó.

A história de Jó me ensina que o amor que Deus quer formar em nós por Ele não deve ser baseado na certeza de que seremos abençoados terrenamente se formos bons. Nosso amor por Ele deve se basear no fato de que Ele é Deus, bom e justo. Devemos ama-lo considerando a hipótese de não recebermos o que desejamos, mesmo mantendo a obediência. No fim das contas, Ele nos ama e nos salva sem que tenhamos mérito real, ou seja, de graça. Da mesma forma, devemos ama-lo sem esperar retribuição terrena – nesse sentido específico, de graça.

A aposta de Satanás era que esse tipo de amor não era possível. Por acaso Jó ama a Deus de graça? O Senhor não o cerca do bom e do melhor? Retira tudo o que ele tem e vamos ver se ele não blasfema na sua face. O desafio de Satanás lança dúvida em todo o Universo. Existe amor real por Deus? Para o diabo, suas criaturas só o amam por medo ou por interesse. Jó devia ser interesseiro.

É curioso, mas Satanás, o anjo das meias-verdades, estava certo em uma coisa: o homem caído não podia realmente amar a Deus. Mas a verdade plena tem um acréscimo: não sozinho. Não por si mesmo. Na verdade, para qualquer criatura, não há nada o que se possa fazer de bom sem Deus, pois tudo o que temos de bom provém dele. Se Ele se afasta, só nos resta imperfeição. A diferença entre a criatura pura e o pecador, é que a primeira permanece em Deus, podendo escolher o bem naturalmente. O pecador afastou-se, o que lhe tira essa capacidade natural. É aqui que entra o milagre. Deus anda com os pecadores para que, mesmo distantes, ainda tenham dele influência suficiente para escolherem o bem.

O que Deus prova, então, ao permitir que Jó sofresse é que aquele homem realmente andava com o Senhor. E que ao andar na luz de Deus, mesmo sendo pecador, escolheu ter um relacionamento real com o Criador. Seu amor, portanto, ia muito além de interesse. É óbvio que ele se sentia acabado com os sofrimentos, mas apesar de não entender e até se revoltar com a situação, continuava a ver Deus como soberano. Jó amava a Deus de graça.

A história de Jó me ensina que amar a Deus não implica ficar feliz com a dor e agir como se nada tivesse ocorrido. Jó foi intenso e sincero, usando palavras fortes em suas conversas com Deus. A diferença de Jó para um blasfemo está na força. Por mais revoltado que Jó ficasse, isso não o demovia da visão de Deus como soberano.

Há ainda mais duas lições que a história de Jó me deixa. A primeira é que mesmo quando somos justos, nossa justiça é relativa. Em comparação à justiça de Deus, ela é trapo. Assim, sempre é possível melhorar. Não há um ponto fixo de perfeição onde podemos dizer: Não dá pra ser melhor que isso. Sempre dá. Quem crê ter chegado ao ponto máximo, já deixou de ser bom. A perfeição é uma linha que não termina na terra. Se você parar, outros te passarão e você logo estará no nível de mundanos.

Jó era o melhor homem da terra. Mas a pressão que sofreu mostrou que ele não era perfeito. Em determinado ponto, passou a considerar que ele sabia não haver nenhum propósito para o seu sofrimento. Isso beirava a dizer que Deus tinha direito de fazê-lo sofrer, por ser Deus, mas era uma brincadeira de mal gosto.

É importante dizer que não foi isso que fez Jó sofrer. Ao contrário, foi o sofrimento que o levou a esse pensamento, justamente por ser ele pecador. Então, Deus demonstra ao próprio Jó como sua sabedoria divina era infinitamente superior.

Jó, que não sofreu por punição nenhuma e que era o melhor homem da terra, se humilhou diante de Deus reconhecendo que agora podia ter um relacionamento ainda mais profundo com Ele. Isso mostra que o padrão de Deus é inalcançável. O melhor homem do mundo ainda podia melhorar. Ao mesmo tempo, isso mostra o quanto a graça de Deus é enorme. Ninguém chega ao padrão divino e poucos alcançam o padrão de Jó. Mesmo assim, Deus aceita a todos que escolhem andar com Ele, mesmo com muitas limitações. Quem aceita andar com Ele, também por Ele é transformado. E se Jó, o melhor do mundo, se humilhou perante Deus e melhorou ainda mais, não há razão para nós, piores que Jó, não nos fazermos o mesmo também.

A última lição que a história de Jó me deixa é que Deus ama abençoar e mesmo que esse não seja o seu objetivo máximo nessa terra (o objetivo máximo é salvar pessoas para a vida eterna), Ele procurará fazê-lo. Jó teve sua sorte restabelecida. Há esperança de final feliz ainda nessa terra. Contudo, essa lição tem dois lados. Se o final feliz pode vir, também é verdade que ele pode não vir, ou não completo como gostaríamos. Aqui toda a Bíblia nos deixa um ensinamento: podemos e devemos ter sonhos terrenos e lutar por eles. Mas nunca colocá-los como o sentido máximo da vida. A alegria mais impactante, duradoura e ampla que existe é a de andar com Deus. Ela é uma alegria diferente de todas as outras, pois pode se manifestar mesmo em meio aos piores sofrimentos. Paulo e Silas se sentiram tão felizes por andar com Deus, que cantaram na prisão, com as costas arrebentadas de açoites. A alegria do Senhor não nos levará a um êxtase que impedirá a tristeza. O próprio Jesus chorou algumas vezes. Mas ela nos permitirá ter chão quando outras coisas nos forem tiradas. E nós dará a certeza de que é seu Espírito que nos capacitará a esse milagre e não mera força de vontade e pensamento positivo. Tudo o que precisamos fazer é nos abrir a Ele e o buscarmos com frequência e intensidade. Então, Ele mostrará o caminho e nos conduzirá.

No mundo passaremos por aflições, mas tenhamos bom ânimo. Temos a Cristo. Ele já venceu e quer nos ajudar a vencer também. Que como Jó, em meio a dor, digamos: Sabemos que o nosso Redentor vive e, por fim, se levantará sobre a terra. Então, os nossos olhos o verão.