Por Marcos Lannes*

Ontem [texto escrito dia 26 de Dezembro de 2017], como todos sabem, dia de Natal a data em que os cristãos (eu incluso) celebram o nascimento de Jesus Cristo, que veio a este mundo para salvar a humanidade. Época do ano em que as famílias geralmente se reúnem para uma ceia (ou almoço), troca presentes e que os tios aproveitam para contar aquelas piadas estilo Praça é Nossa, reservadas justamente para essa ocasião.

Mas nem todos – infelizmente – comemoram o Natal dessa forma. Alguns aproveitam a ocasião para transformar o Aniversariante do Dia (apenas avisando que não entrarei no mérito de discutir se foi ou não no dia 25 de dezembro) em um ícone de sua ideologia. Alguns dizem que, pelo fato de José e Maria terem fugido com o Salvador para o Egito, deveria ser motivo para apoiar a atual política de “refugiados” para a Europa. Outros dizem que, hoje, Jesus viria como mulher, negra e (talvez) trans para ser morta por “homens de bem”. Outros, ainda, dizem que, pelo fato de Maria, a mãe de Cristo, ter escolhido este nascer, isso justificaria defender o “direito” ao aborto. E há aqueles que defendem a ideia de um Cristo libertário, que foi caçado e morto pelo Estado (no caso, o Império Romano).

Um dos exemplos do que descrevi no parágrafo anterior está numa conhecida página de esquerda aqui no Facebook, a “Quebrando o Tabu”:

(Fonte: Reprodução/Facebook)

O intuito disso é bem simples: vender a imagem de Jesus como a de um Gandhi do primeiro século (apenas para constar, Gandhi tinha um lado bastante podre: era racista, misógino e já trocou correspondências com Hitler). Só há um pequeno, para não dizer enorme, problema: é uma imagem que, nem grosso modo, se aproxima da realidade.

Para começo de conversa, Jesus não era, nem de longe, um revolucionário. Ele não tinha nenhuma ambição em relação a este mundo na ocasião de sua vinda, fato esse evidente quando Pilatos, então governador da Judeia, inquiriu a Ele antes de sua crucificação:

“Replicou-lhe Pilatos: “Porventura sou judeu? A tua própria gente e os chefes dos sacerdotes é que te entregaram a mim. Que fizeste?”. Ao que lhe afirmou Jesus: “Meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas, agora, meu Reino não é daqui.”” (João 18: 35-36, KJA)

Ele não tinha nenhum plano de estabelecer o Reino de Deus na Terra naquele momento, ainda que o povo judeu estivesse sob o sufocante domínio do Império Romano. E mais: não só ele não tinha ambições em relação a este mundo, como defendia o respeito e a submissão às autoridades. Mais ainda: considerava as autoridades como poderes instituídos sob a permissão de Deus. O exemplo do primeiro ponto:

“E, assim, se afastaram os fariseus, tramando entre si como fariam para enredar a Jesus em suas próprias afirmações. Então, mandaram-lhe seus seguidores juntamente com alguns herodianos, que lhe questionaram: “Mestre, sabemos que és íntegro e que ensinas o caminho de Deus, de acordo com a verdade, sem te deixares induzir por quem quer que seja, pois não te seduzes pela aparência das pessoas. Sendo assim, dize-nos: que te pareces? É correto pagar impostos a César ou não?” Contudo, Jesus percebeu a má intenção deles e replicou-lhes: “Por que me tentais, hipócritas? Deixai-me ver a moeda com a qual se pagais os tributos”. E eles lhe mostraram um denário. Então lhes indagou: “De quem é esta figura e esta inscrição?” Responderam-lhe: “De César!” Então, lhes afirmou: “Portanto, dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus!” Ao ouvirem tal resposta, ficaram perplexos e, afastando-se dele, se retiraram. […]” (Mateus 22: 15-22, KJA)

E quanto ao segundo, o revelador diálogo entre Pilatos e Jesus:

“Entretanto, ao ouvir essa alegação, Pilatos ficou ainda mais atemorizado, e, voltando para dentro do Pretório, interrogou a Jesus: “De onde vens tu?” Todavia, Jesus não lhe deu qualquer resposta. Então Pilatos o advertiu: “Tu te negas a responder-me? Não sabes que eu tenho autoridade para te libertar e poder para te crucificar?” Ao que Jesus lhe afirmou: “Não terias qualquer poder sobre mim, se não te fosse dado de cima. Por isso, aquele que me entregou a ti é culpado de um pecado ainda maior.”” (João 19: 8-11, KJA)

Veja bem, Jesus estava prestes a ser injustamente condenado à morte – e ao tipo de execução mais cruel, reservado aos piores bandidos, no caso, à crucificação -, e, mesmo tendo poderes divinos para evitar essa situação, não só aceitou seu destino, como aceitou a autoridade de Pilatos. É bem provável que muitos que o chamam de “revolucionário” o considerariam um “otário” neste exato momento.

Segundo: Jesus não era radicalmente não violento, sabe-se lá o que isso quer dizer. Evidente que ele buscava agir pacificamente, e nem de longe agia de maneira semelhante a dos jihadistas islâmicos atuais (na época, quem mais se aproximava disso em métodos eram os zelotes, e um dos discípulos de Cristo, Simão – não o Simão Pedro – foi um deles). Mas, em uma única ocasião, a da purificação do templo em Jerusalém, ele precisou agir de maneira enérgica e que muitos a considerariam, hoje, como violenta. Como descrito no evangelho de Mateus:

“Tendo Jesus entrado no pátio do templo, expulsou todos os que ali estavam comprando e vendendo; também tombou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos comerciantes de pombas. E repreendeu-os: “Está escrito: ‘A minha casa será chamada casa de oração’; vós, ao contrário, estais fazendo dela um ‘covil de salteadores’”.” (Mateus 21: 12-13, KJA)

E no evangelho de João:

“A Páscoa dos judeus estava se aproximando, e Jesus subiu para Jerusalém. Encontrou no templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas, e cambistas assentados negociando; tendo feito um chicote de cordas, expulsou todos do templo, bem como as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos cambistas e virou as mesas; e disse aos que vendiam as pombas: “Tirai essas coisas daqui; não façais da casa de meu Pai, casa de comércio.”” (João 2: 13-16, KJA)

Convenhamos: derrubar cadeiras, virar mesas, derrubar dinheiro no chão e botar cambistas pra correr na base do chicote é tudo, menos um método “radicalmente não violento”.

É claro que alguns podem argumentar dizendo que os ensinamentos de Jesus pregavam a não violência, e de fato, na maioria das vezes, tem razão. Mas seus ensinamentos também eram polarizadores:

“Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois Eu vim para ser motivo de discórdia entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra. Assim os inimigos do homem serão os da sua própria família.” (Mateus 10: 34-36, KJA)

E, quanto ao uso da força para autodefesa, Jesus não era, necessariamente, um opositor:

“Então, Jesus os adverte: “Agora, porém, quem tem bolsa, pegue-a, assim como a mochila de viagem; e quem não tem espada, venda a própria capa e compre uma.” (Lucas 22:36, KJA)

Terceiro: de fato, Jesus andava com prostitutas e ladrões (entre outros considerados “párias” para a sociedade da época), mas tem dois poréns: geralmente, eram estes que buscavam andar com Ele e, além disso, eles abandonavam seu estilo de vida anterior para seguir a Cristo (Maria Madalena é o exemplo mais notório), algo que pode ser percebido por uma leitura, mesmo que superficial, dos Evangelhos. A ideia de um Salvador que tinha um estilo de vida underground passa a anos-luz de qualquer descrição existente da Bíblia.

Quarto: Jesus nunca se opôs ao acúmulo de riquezas. A propósito, ele foi sepultado no túmulo adquirido por José de Arimatéia, um homem rico e membro do Sinédrio (a mais alta corte judicial da lei judaica naquela época), como descrito no evangelho de Mateus:

“Ao pôr-do-sol chegou um homem rico, de Arimatéia, por nome José, o qual havia se tornado discípulo de Jesus. Teve ele uma audiência com Pilatos para pedir-lhe o corpo de Jesus, e Pilatos ordenou que lhe fosse entregue. Então, José tomou o corpo e o envolveu com um lençol limpo de linho. E o colocou em um sepulcro novo, o qual ele próprio havia mandado cavar na rocha. E, fazendo rolar uma grande pedra sobre a entrada do sepulcro, retirou-se.” (Mateus 27: 57-60, KJA)

É claro que alguns usarão a passagem do jovem rico (a narrativa completa está em Mateus 19: 16-26 e Lucas 18: 18-27) como argumento para isso, mas a passagem nem aborda a questão do acúmulo de riqueza em si, e sim o fato de que os ricos, não poucas vezes, colocam suas riquezas à frente de tudo, inclusive de Deus, algo condenado no primeiro dos Dez Mandamentos (Êxodo 20:3). Em diversas ocasiões, Jesus se valeu de situações envolvendo trabalho e acúmulo de riqueza a fim de transmitir seus ensinamentos (a parábola dos dez talentos, descrita em Mateus 25: 14-30, é o exemplo mais notório). Jesus enxergava, inclusive, uma gestão responsável dos recursos financeiros como um importante valor para ser discípulo dele:

“Porquanto, qual de vós, desejando construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o custo do empreendimento, e avalia se tem os recursos necessários para edificá-la? Para não acontecer que, havendo providenciado os alicerces, mas não podendo concluir a obra, todas as pessoas que a contemplarem inacabada zombem dele, proclamando: ‘Este homem começou grande construção, mas não foi capaz de terminá-la!’” (Lucas 14: 28-30)

Importante destacar que, no tempo dos apóstolos, grandes somas de dinheiro eram depositadas e propriedades eram vendidas justamente para a continuidade da obra (recomendo que leiam os primeiros capítulos do livro de Atos). Evidente que isso necessita de acúmulo de riqueza em um período anterior.

Quinto: Jesus nunca se opôs à pena de morte. Na verdade, ele sequer fez menção a ela. E sim, muitos usam o caso da mulher adúltera, relatado em João 8: 1-11 como exemplo disso, em que Jesus usou de misericórdia para evitar que ela sofresse as iras da Lei de Moisés. Só tem um grande porém: Jesus fez a lei ser cumprida justamente não levando ela à execução. O devido processo legal da época estabelecia que:

“Se um homem for pego em flagrante deitado com a mulher de outro, os dois deverão pagar por esse delito com pena de morte, o homem e a mulher com quem se deitou. […]” (Deuteronômio 22:22, KJA)

E:

“Contudo, é preciso que haja pelo menos duas testemunhas para que uma pessoa seja condenada à morte; ninguém pode ser morto se houver somente uma testemunha.” (Deuteronômio 17:6, KJA)

Não havia duas testemunhas na ocasião, e o amante da mulher não foi trazido, logo, o intuito de executar aquela mulher estava em oposição frontal à Lei de Moisés. Com o adendo de que a Judeia era domínio romano àquela época, logo nenhuma penalidade poderia ser aplicada sem à anuência das autoridades romanas. Evidente que os escribas e fariseus queriam colocar Cristo em desgraça, mas Este foi habilidoso e ainda aproveitou o momento para dar uma lição de moral nesses. E dentro da Lei.

Sexto: de fato, Jesus nunca chamou pobres de preguiçosos, até porque sequer foi feita alguma relação de causa e efeito nesse sentido. Não só defendeu, como praticou a caridade. Quanto a esta, só houve duas críticas: àqueles que faziam esta para se autopromover:

“Guardai-vos de fazer a vossa caridade e obras de justiça diante dos homens, com o fim de serem vistos por eles; caso contrário, não tereis qualquer recompensa do vosso Pai que está nos céus. Por essa razão, quando deres um donativo, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Com toda a certeza vos afirmo que eles já receberam o seu galardão. Tu, porém, quando deres uma esmola ou ajuda, não deixes tua mão esquerda saber o que faz a direita. Para que a tua obra de caridade fique em secreto: e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.” (Mateus 6: 1-4, KJA)

E àqueles que se diziam preocupados com os pobres, mas que queriam agir apenas em benefício próprio:

“Mas um de seus discípulos, Judas Iscariotes, filho de Simão, que mais tarde iria traí-lo, objetou: “Por que este bálsamo perfumado não foi vendido por trezentos denários e dado aos pobres?” Ele não disse isso por se importar com os pobres, mas porque era ladrão; sendo responsável pela bolsa de dinheiro, frequentemente tirava o que nela era depositado. Mas Jesus respondeu: “Deixa-a em paz; pois para o dia da minha sepultura foi que ela guardou isso. Quanto aos pobres, vós sempre os tereis convosco, mas a mim vós nem sempre tereis.”” (João 12: 4-8, KJA)

Aliás, nesta última passagem, Jesus deixou bem claro que desigualdades sociais sempre existiram e existirão enquanto o mundo em que conhecemos e cabe a nós, seres humanos, mitigar as consequências negativas.

Sétimo: Jesus nunca defendeu bandidos. Não há nenhuma passagem que mencione isso e, para qualquer efeito, vale a resposta da terceira observação.

Por fim, oitavo: em nenhum momento Jesus insinuou dizer que matar não fosse solução para alguma coisa. Mais ainda: na ocasião do Juízo Final, que ocorrerá após à segunda vinda, os bons (representados pelas ovelhas) e os maus (representados pelos bodes) serão separados por Ele, e, para estes últimos, dirá, agora como Rei:

“Mas o Rei ordenará aos que estiverem à sua esquerda: ‘Malditos! Apartai-vos de mim. Ide para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos.” (Mateus 25:41, KJA)

Importante lembrar que, como a própria passagem frisa, nenhum ser humano, em princípio, está destinado ao “fogo eterno”. Mas alguns destes, em função de suas escolhas, acabarão sendo punidos dessa forma. Sim, serão mortos, e, para os conhecedores um pouco mais profundos da Bíblia, se trata da pior morte de todas: a morte eterna. Como descrita pelo apóstolo João em Apocalipse:

“Porém, quanto aos covardes, os incrédulos, os depravados, os assassinos, os que praticam imoralidade sexual, os bruxos e ocultistas, os idólatras e todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago de fogo, que arde perpetuamente em meio ao enxofre. Esta é a segunda morte!” (Apocalipse 21:8, KJA)

Enfim, Jesus não era nem nunca quis ser um revolucionário. Sua missão foi muito superior às disputas ideológicas existentes nessa terra. Tentar encaixá-lo à esquerda ou à direita, divisão esta surgida dezoito séculos depois de seu nascimento, é de uma mesquinhez intelectual que só a disseminação disso e nada mais justifica essa resposta em forma de artigo. Finalizo este com duas observações: a primeira, é que não é Cristo que deve ser encaixado em prol de uma ou outra ideologia, e sim esta que deve se encaixar no que Ele ensinou; e a segunda, é que se você o acha legal, mas pensa que “o que mata é o fã-clube”, você não quer seguir a Cristo, mas sim ter um fã-clube que concorde com tudo o que faça. C’est fini.

That’s all, folks. Até a próxima.

P.S.: KJA = King James Atualizada.

*= Texto originalmente publicado no blog marcosaljr.com. Para ler por lá, clique aqui.