Por John Churchill

ATENÇÃO! Só leia este artigo, se você acredita mesmo que a Bíblia é infalível, fiel e verdadeira.

Vivemos numa época onde a igreja sofre uma veloz e progressiva apostasia, apesar de dizer que está em avivamento. Temos amado mais este mundo e as coisas dele, e disponibilizamos pouco tempo para o Autor e Consumador da nossa fé. Somos, assim, exemplos perfeitos de cristãos mornos. Não aceitamos ter nossas vidas transformadas de forma alguma, porque isso implica abrir mão de algo que julgamos precioso e que com certeza está nos impedindo de sermos justificados. A consequência disso é nosso afastamento de Deus.

Não obstante, como bons cristãos mornos que não querem largar o osso, desejamos ser salvos apesar da mornidão. Mas como fazer isso se valorizamos mais o mundo e o próprio eu do que a Deus? Simples: procuramos um texto bíblico que nos coloque no mesmo prisma de todos os outros pecadores, não importando se roubamos trilhões de reais ou furamos fila no banco; afinal “somos todos pecadores”. Agarrando-me a esse tipo de subterfúgio, posso viver da forma que estou, negando explicitamente o resultado do relacionamento com Deus que é a vida transformada; justificando minhas atitudes e inclinações pecaminosas de forma que ninguém possa me corrigir; porque, sim, somos todos pecadores. “Ninguém pode me julgar, somente Deus”.

Bom queridos, se somente Deus pode julgar (e isso por si só deveria nos causar temor), devemos pegar a sua Palavra e examiná-la para entendermos se Ele nos outorga tal direito e se sim, em quais condições. A passagem para a qual nos voltamos está em Mateus 7:1, onde lemos:

“Não julgueis, para que não sejais julgados”.

Eu fico perplexo só de pensar em quantas vezes já ouvi esse versículo (cheguei a pensar que este capítulo só tinha esse versículo), frequentemente utilizado com o objetivo de impedir que alguém seja corrigido (forma verbal ou punitiva por homens e até por Deus). Cheguei a pensar dezenas de vezes: “Existe certo ou errado, santo ou profano, verdade ou mentira?”. Comecei a perceber que o maior “efeito colateral” de tentar abraçar o mundo e a Deus culmina inevitavelmente na relativização da verdade e do próprio Deus em todas as coisas, principalmente no que diz respeito a moral.

Felizmente, Mateus 7 não se resume ao versículo 1, sendo assim, analisaremos o contexto inteiro para enfim entendermos o que Jesus quis dizer naquele momento sobre o juízo temerário.

“Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também. Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão” (Mt 7:2-5).

Fato é que no v.1, Jesus disse para que não julguemos uns aos outros. É uma verdade indiscutível. Mas e então, querido irmão? Observaremos o nosso irmão pecar (e viver em pecado) levando outros para o mesmo caminho e nada faremos? Não nos foi deixado um manual que nos ensina o que é certo ou errado? Será que só esse versículo é o suficiente para relativizar o que Deus quer para nós? Creio que não.

No versículo 2, Ele dá o motivo pelo qual eles não devem julgar: o padrão que eles usam para julgar os outros será o mesmo padrão que será usado para julgá-los. Eles não devem ignorar seus próprios pecados, enquanto condenam os mesmos pecados nos outros. Fazer isto resulta num julgamento injusto e hipócrita.

Querido, não é hipocrisia condenar o irmão por uma pequena falta, ou mesmo tentar ajudá-lo a sobrepujá-la, quando você mesmo é culpado de uma falta maior? Não é hipocrisia alguém cujo pecado é maior (como roubar milhões dos cofres públicos) condenar alguém cujo pecado é menor (como roubar um alimento), sendo em ambos os casos o mesmo tipo de pecado? (v. 5).

O contexto de Mateus 7 não proíbe todo julgamento e intolerância, mas somente o julgamento e intolerância hipócrita. Chamou-me ainda mais a atenção no contexto, o v.5, pois ele nos exorta ao arrependimento dos nossos próprios pecados, para que assim condenemos o pecado do irmão e ajudemo-lo a se voltar dele. “Tira primeiro a trave do teu olho”, diz Jesus, “e então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão” (Mt 7:5).

Mateus 7:5 mostra a base necessária para qualquer julgamento: a presença de uma referência correta (pelo menos no que diz respeito ao pecado específico a ser julgado, já que nenhum ser humano é impecável em todos os seus caminhos). Essa referência pode ser um juiz, quando se trata de julgamentos civis. E pode ser cada um de nós, quando se trata da vida cotidiana. Se um indivíduo não rouba, assassina, adultera, fornica, etc., é referência para julgar os erros dos outros nestes quesitos, pois não tem o mesmo argueiro nos olhos. Este indivíduo pode julgar alguém nessas faltas e ajudar a trazer a pessoa de volta ao caminho de Cristo.

Aliás, já observou os quesitos? Não fazem parte dos dez mandamentos deixados por Deus como referencia moral para o homem? Julgar é uma atribuição do cristão que obedece a Deus, porém ninguém, nem que seja o mais obediente a Deus, pode realizar qualquer julgamento segundo a sua própria opinião. Preste muita atenção: Deus não quer que julguemos as pessoas segundo o que pensamos. Ele espera que julguemos de acordo com a Palavra Dele, repreendendo a pessoa em amor a fim de que ela possa se arrepender. Para isso, devemos conhecer a Palavra de Deus e mostrar para essa pessoa qual é a vontade Dele em relação ao erro que ela cometeu.

A Bíblia nos ordena julgar

Percebemos, então, que não há problema em julgar. Na verdade, é o contrário. Não devemos permitir que a omissão em relação ao pecado permaneça em nossas vidas, mas precisamos assumir nossa posição em Jesus e ministrar a verdade (a Palavra de Deus) às pessoas. Por essa razão, há diversos textos na Bíblia que nos orientam e até ordenam a julgar. Vejamos alguns:

“Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça” (João 7.24).

O contexto dessa passagem é a discussão de Jesus com os judeus que questionaram Sua doutrina. Eles ainda o acusaram de ter um demônio (Jo 7.20) e de quebrar o dia do sábado ao curar um homem (Jo 5.1-16). “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça”, respondeu Jesus. Dizendo “não julgueis”, Jesus não pretendeu proibir o julgamento, mas proibir um tipo de julgamento: o julgamento imprudente.

O julgamento exterior e superficial, ou seja, julgar simplesmente sobre base do que parece ser o caso, sem conhecer todos os fatos – é um julgamento imprudente, injusto e sem discernimento, que é contrário ao nono mandamento da lei de Deus. Deus odeia tal julgamento. O julgamento justo é feito usando a lei de Deus como o padrão pelo qual discernimos se o que parece ser é realmente o caso.

“… não deveis vós julgar os que são de dentro?” (1 Co 5.12).

Paulo no v. 3, declara que ele tinha julgado um membro da igreja em Corinto que vivia no pecado da fornicação. Ele disse que “seja entregue [tal pessoa] a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no Dia do Senhor Jesus”.

Nos vs. 9-13, Paulo lembra aos santos do seu dever de julgar as pessoas que estão dentro da igreja, quanto ao fato destes estarem, ou não, obedecendo a lei de Deus.

Os que dizem ser cristãos e são membros da igreja, mas que são julgados como sendo impenitentemente desobedientes a qualquer mandamento da lei de Deus (vs. 9-10), devem ser excluídos da comunhão da Igreja. Paulo, sob a inspiração do Espírito, diz para a igreja não tolerar pecadores impenitentes!

Outras passagens também indicam que é nossa responsabilidade julgar. Jesus pergunta às pessoas em Lucas 12.57: “E por que não julgais também por vós mesmos o que é justo?”.

Jesus repreende os escribas e fariseus em Mateus 23.23 e Lucas 11.23, dizendo: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém fazer essas coisas e não omitir aquelas”. Era o dever deles, de acordo com a lei, julgar – mas eles tinham falhado neste dever.

“Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tiago 4:17).

Se você sabe que uma determinada atitude não está de acordo com a vontade de Deus, mas não se manifesta contra, você se torna cúmplice e também comete pecado.

Todas as vezes que você repreender um irmão, contudo, faça isso em amor, com o desejo de que esse irmão se arrependa e volte a andar no caminho correto. Paulo escreveu aos coríntios que tudo que eles fizessem deveria ser feito em amor. Também disse o mesmo em sua primeira carta a Timóteo:

“Não repreendas asperamente os anciãos, mas admoesta-os como a pais; aos moços como a irmãos; às mulheres idosas, como a mães, às moças, como a irmãs, em toda a pureza” (I Tm 5:1-2).

Em Provérbios também lemos o conselho:

“O que repreende o homem gozará depois mais amizade do que aquele que lisonjeia com a língua” (Provérbios 28:23).

Em outras palavras, Deus não quer que você seja cúmplice do pecado omitindo-se. O Senhor nos alerta em vários versículos sobre o pecado da omissão.

“O que rejeita a disciplina menospreza a sua alma, porém o que atende à repreensão adquire entendimento” (Provérbios 15:32).

“O insensato despreza a instrução de seu pai, mas o que atende à repreensão consegue a prudência” (Provérbios 15:5).

“Disciplina rigorosa há para o que deixa a vereda, e o que odeia a repreensão morrerá” (Provérbios 15:10).

“Melhor é ouvir a repreensão do sábio do que ouvir a canção do insensato” (Eclesiastes 7:5).

O Espírito Santo deu-nos a oportunidade de compreender o ato de julgar. Em 1 Coríntios 6, o apóstolo Paulo escreve aos coríntios repreendendo-os sobre a omissão deles em julgar as coisas pertencentes a esta vida.

Então, o proibido não é realmente o julgamento em si, mas sim um tipo errôneo de julgamento. Deus odeia o julgamento hipócrita! Mas Deus ama o julgamento justo da parte dos seus filhos. É dever de todo Cristão julgar!

“A verdade deve ser dita com amor, mas o amor nunca pode impedir a verdade de ser dita!” – Agostinho.