Por: Davi Boechat

O debate entre crentes e céticos a respeito do Eterno não vem de ontem. A ideia do transcendente, seja em louvor ou a negação, visitou as grandes e pequenas mentes da história, despertando fé e inspirando dúvida. O assunto é polêmico e conquistou espaço privilegiado nas três décadas de internet, onde tem sido discutido avidamente. Para muita gente, os bips do discador foram intróito para épicos debates (livres do gasto em impulsos telefônicos!) que seguiam madrugadas a dentro.

A discussão era badalada nas comunidades do finado Orkut, tema de salas de bate-papo e segue inflamada no Facebook e WhatsApp. Páginas e grupos que advogam a defesa da fé ou o ateísmo vivem trocando farpas. Lamentavelmente, via de regra, ficam de fora delas os posicionamentos mais elegantes, complexos e bem desenvolvidos. Estes remontam aos livros (clássicos e contemporâneos) e raramente saem de suas páginas. Conteúdo e autores são desconhecidos pela imensa maioria público militante. Nos conflitos travados online, memes acabam por ser o principal fomentador argumentativo.

Não obstante, se engana quem pensa que o cenário do debate público fora muito diferente em algum momento da história. Neste sentido, “não há nada que seja verdadeiramente novo; já tudo foi feito ou dito anteriormente” (Eclesiastes 1:9, O Livro). Discussões nos séculos passados também foram marcadas por superficialidade. As primeiras palavras de Blaise Pascal em seu “Pensamentos”, publicado em 1670, davam conta do tom das discussões em seu tempo. Pelo relato, desonestidade intelectual e o uso de falácias já eram comuns à época, especialmente entre os proponentes ateus. Entremeio em minhas mal traçadas linhas com as palavras do virtuoso físico, matemático, filósofo, inventor e teólogo, que desafiou os livres pensadores de seu tempo ao dizer:

“Saibam, ao menos, que religião combatem, antes de combatê-la. […] Para combatê-la, ser-lhes-ia preciso exclamar que fizeram todos os esforços em procurá-la por toda parte, mesmo naquilo que a Igreja propõe com o fim de nela se instruírem, mas sem nenhuma satisfação. […] Acreditam ter feito grandes esforços para instruir-se, por terem empregado algumas horas na leitura de um dos livros sagrados e por terem interrogado algum eclesiástico sobre as verdades da fé. Gabam-se, depois, de terem investigado em vão nos livros e entre os homens. Mas, na verdade, não posso deixar de lhes dizer o que frequentemente tenho dito: que essa negligência é inadmissível. Não se trata, no caso, do irrefletido interesse de um estranho, para assim proceder: trata-se de nós próprios e do nosso todo.” [1]

A citação supracitada indica que tal baixeza perpetuou-se como balizadora de debates apologéticos, especialmente para aqueles que pretensiosamente visam a destruição da fé. Mas o apelo também pode ser interpretado como um alerta aos cristãos que, muitas vezes, assim como os céticos, não dominam os rudimentos da fé. Conforme disse acertadamente C. S. Lewis:

“Ser ignorante e inocente nestes dias – tornando-se incapaz de confrontar os inimigos em seu próprio território – seria como lançar ao chão nossas armas e trair nossos irmãos de pouca formação, que não possuem, abaixo de Deus, nenhuma defesa, exceto nós, contra os ataques intelectuais dos descrentes. A boa filosofia tem de existir, se não houvesse outra razão, porque a má filosofia precisa ser contestada.” [2]

Encerro essa breve nota retornando às palavras de Pascal, uma perfeita constatação da superficialidade envernizada por arrogância ostentada pelos ateus de ontem e de hoje: “Na verdade, é glorioso, para a religião, ter como inimigos homens tão insensatos, pois a sua oposição lhe é tão pouco perigosa que serve, ao contrário, para o estabelecimento de suas principais verdades.”

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[1] PASCAL, Blaise, “Pensamentos”, Editora Monergismo, páginas 5, 6 e 8, <disponível em: http://monergismo.com/…/pensamentos_blaise-pascal.pdf&gt;)

[2] Citado em Racionalidade da Fé Cristã, Citado em Racionalidade da Fé Cristã, de J. P. Moreland e publicado em 2013 pela Hagnos.