Por Davi Boechat

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.” (Romanos 1:16, RA)

“Pregue o evangelho, se necessário use palavras.” Frequentemente, passeando pela minha timeline do Facebook, vejo essa frase. Por vezes, com variações pontuais, às vezes em banners, etc. Outra bem recorrente nas redes sociais – e também fora delas –, que expressa mensagem similar, é: “Você é a única Bíblia que muitos lerão.” Chega a ser difícil atribuir autoria para elas. A replicação de ambas é tão frequente que caíram em domínio público, dadas as publicações em livros, a incidência em pregações e citações informais.

Em comum elas têm a virtude de bons aforismos: surtem como efeito uma reflexão profunda, provocada por uma breve síntese. Ao me deparar com elas, já me coloquei a pensar se em minha vida manifestações compatíveis à fé, especialmente no trato com aqueles que não conhecem a Cristo, estão sendo dadas. Logo, em outras pessoas, as reflexões provenientes das sentenças poderão vir a ser estarte para uma vida cristã que evidencie transformação e manifeste frutos.

Entretanto, a maior virtude deste recurso literário é também sua maior fragilidade. Esses aforismos podem vir a ser interpretados de forma equivocada, no sentido de diminuir a importância da proclamação verbal do evangelho. Ou, ainda pior, limitar o ação do evangelho a apenas atos filantrópicos, de gentileza e altruísmo.

Paulo, em Gálatas 5, afirma que a metamorfose iniciada pelo Evangelho gera uma transformação centrífuga de caráter: começa pela operação do Espírito no indivíduo e manifesta-se externamente. Assim acontecendo, resultados nos relacionamentos são consequência. No entanto, ainda que essas sejam prova visível da transformação do Evangelho, não cumprem toda a função.

Os aforismos que começamos a abordar no primeiro parágrafo carecem de assertividade. As duas sentenças não resistem a uma análise mais profunda. Comecemos pela primeira frase.

“Pregue o evangelho, se necessário use palavras.”

Ironicamente, alguém disse que essa frase faz tanto sentido quanto dizer: “Coma, se necessário use a boca!” Acho a galhofa coerente. No livro “Contra a Idolatria ao Estado” (Vida Nova, 2016), o pastor batista Franklin Ferreira situa o uso da palavra “evangelho” no contexto sócio-político dos cristãos primeiro século, afirmando:

“[…] havia um ‘evangelho’ no mundo romano. Por exemplo, quando um imperador atravessava o mar Adriático para visitar alguma cidade na Grécia, antes de chegar à cidade, um mensageiro ia à frente do cortejo levar o ‘evangelho’, uma boa-nova. Essa boa notícia anunciava que aquele que detinha o poder, o imperador estava chegando. […] O Apóstolo [Paulo] está, de certa forma, apropriando-se de palavras chave da linguagem política de Roma e aplicando-as a Jesus para mostrar que Jesus, o Messias, aquele que ressurgiu dos mortos, Filho de Deus e filho de Davi, é o único que tem todo o poder e toda supremacia. Todos os ‘poderosos’ debaixo do céu são mera paródia de quem é o Senhor Jesus Cristo”. (Grifo nosso) [1]

No mesmo sentido, o “Dicionário Vine” define o verbete “evangelho” como “anunciar como um arauto” e “dar boas novas”, confirmando o exemplo dado por Ferreira. Mostra ainda expressões complementares, quase todas com conotação de anúncio público e verbal, tais como falar, testemunhar, proclamar, ministrar. [2]

Pedir uma proclamação silenciosa após o uso das palavras “pregar” e “evangelho” é, portanto, uma contradição de termos, afinal, o contexto histórico da expressão, conforme supracitado, indica proclamação pública, audível e até escandalosa.

Lembro de uma ocasião no início do meu curso de Direito que nos serve de ilustração. Na disciplina de Sociologia Jurídica, salvo engano, um trabalho foi passado para turma. A apresentação deste consistia na pesquisa a respeito da atuação e sustento de ONGs que prestam auxílio humanitário.

Em meu trabalho perfilei a beneficência social promovida pelo cristianismo desde o primeiro século, demostrada pela adoções de bebês abandonadas por romanos, até o aporte financeiro pobres e viúvas, deixando claro que tais atividades tinham como princípio ativo o amor e obediência a Deus. Defendi que esses atos altruístas tinham profundas motivações espirituais e que são realizadas até hoje pelo mesmo motivo. Em síntese, apresentei o cristianismo como catalizador de ações em benefício da sociedade: todas elas geradas pelas convicções espirituais dos fieis, que assim o fazem para alcançar a outros, especialmente aqueles assistidos por programas humanitários.

Na mesma ocasião, um outro grupo escolheu uma instituição confessional espírita que atuava na região da Baixada Fluminense. Em sua apresentação, repetidas vezes, um dos integrantes ressaltou que a organização não realizava atividades de caráter proselitista. Afirmava ele, com o vigor de quem não abre da especificidade em definições, que as reuniões religiosas que aconteciam no prédio eram realizadas fora do horário de expediente escolar – no instituto funcionava uma escola de ensino fundamental – e que os alunos sequer eram convidados para as atividades. Nitidamente, ele desejava desassociar aqueles atos da fé professada, tendência que parece ter replicado dos administradores da organização. O ambiente secularizado da universidade, certamente, potencializou a ênfase.

Valendo-me dessa experiência, penso que o evangelho sem palavras talvez seja adequado aos seguidores de Alan Kardek, mas é impraticável aos que professam Cristo.

“Você é a única Bíblia que muitos lerão.”

Nesta frase, o equivoco está em personificar a Palavra. Quem a replica, ignora que entre todas as formas de revelação divina, nenhuma delas é tão completa quanto a Bíblia. O testemunho pessoal pode conduzir a ela, mas de forma alguma a substitui. Considerando que a maior parte da população é alfabetizada e que, também em maioria, dispõem os lares de exemplares da Bíblia, fora o acesso via internet, não há desculpas para relegar o seu papel.

Alguns podem manifestar objeção neste ponto. Diriam que é difícil simplesmente abrir o livro e sair o recitando por aí. Para esses eu diria que nossas palavras podem ser doses homeopáticas da pregação Evangelho. Citações bíblicas bem contextualizados podem ser inseridas em nossas conversas cotidianas.

Por exemplo, também na faculdade, fiz um amigo que declara-se ateu. Mesmo inteligente, é inconsistente em sua descrença. Com ele, sempre que possível faço citações pertinentes a respeito do assunto que conversamos. Ultimamente, ainda que ironicamente, vez ou outra, ele diz: “A Bíblia fala algo a respeito disso?” Felizmente, até então ele nunca ficou sem uma resposta bem contextualizada! Só posso crer que isso é o Espírito agindo, atraindo-o à Palavra. Por isso já tive a oportunidade de ler uma epicope inteira de Provérbios, alguma coisa nos Evangelhos e diversas oportunidades para elucidar dúvidas. Manifesta-se assim o poder da Palavra!

Decorar versos e seus respectivos endereços, além do domínio básico de exegese e hermenêutica – ferramentas que nos equipam para esta missão – são necessários. Isso tudo exige ainda envolvimento com a Palavra, afinal: “Se não tivermos uma vida de relacionamento com Deus, falaremos de nós mesmos; se não conhecermos a Palavra de Deus, falaremos de nós mesmos; se não nos dedicarmos ao desenvolvimento do dom, falaremos de nós mesmos.” [3]

“Tão depressa uma pessoa se chegue para Cristo, nasce-lhe no coração o desejo de revelar aos outros que precioso amigo encontrou em Jesus; a salvadora e santificante verdade não lhe pode ficar encerrada no coração. Se nos achamos revestidos da justiça de Cristo, e cheios da alegria proveniente da habitação de Seu Espírito em nós, não nos será possível calar-nos. Se provamos e vimos que o Senhor é bom, teremos alguma coisa a dizer.” (Grifo nosso) [4]

Em nossas conversas, portanto, devemos proclamar a Palavra. Assim fazendo, podemos estar certos que elas alcançarão corações. Afinal, quando você fala a Palavra está abaixo da autoridade do Senhor que a inspirou.

Viver a Palavra não é uma opção. Falar dela, também não!


[1] FERREIRA, Franklin, Contra a Idolatria ao Estado: o papel do cristão na política, páginas 54 e 55, Vida Nova, 2016

[2] Dicionário Vine: o significado exegético e expositivo das palavras do Antigo e do Novo testamento, página 626, Casa Publicadora das Assembléias de Deus e Thomas Nelson Brasil, 2016

[3] Adoniran Melo e Paschoal Piragine Jr., A Arte de Pregar um Sermão Expositivo, página 30, editora A. D. Santos

[4] WHITE, Ellen Gold, Caminho a Cristo, página 51, EGW Estate, 2006