Por Davi Caldas

Há cerca de um mês li um texto na internet, escrito por um rabino judeu, que criticava a crença no inferno como um local de tormento eterno. O tom da postagem procurava explorar o que o autor entendia como uma superioridade moral do judaísmo rabínico (entendido hoje como ortodoxo) em relação ao cristianismo. A crítica do supracitado rabino é justa, porém míope em suas conclusões. De fato, a ideia de inferno eterno tem sido defendida pela maioria dos cristãos há muitos séculos, mas sem apoio bíblico e lógico. E isso tem sido denunciado de maneira crescente por número considerável de estudiosos cristãos desde os séculos 18 e 19. Assim, o problema não está (nem jamais esteve) na religião cristã, mas sim nas distorções que ela recebeu ao longo do tempo.

Essa percepção de que a doutrina do inferno eterno não faz parte do bojo de crenças ortodoxas defendidas pelos primeiros apóstolos é uma das marcas que distingue hoje o movimento adventista das demais denominações cristãs. O adventismo, portanto, é responsável sozinho hoje por pelo menos 20 milhões de cristãos que não sustentam o inferno eterno. Esse é um dos pontos que o movimento tem reformado no âmbito do cristianismo em sua missão profética (conforme explico em outros textos).

A questão que se levanta é: estaria o adventismo com razão ao rechaçar a ideia de inferno como um lugar onde os ímpios viverão eternamente sofrendo? Diversos cristãos tem chamado o movimento adventista de herético, antibíblico e até anticristão por esse posicionamento. Eles argumentam que a Bíblia claramente ensina essa doutrina e alguns chegam a sustentar que o inferno eterno seria uma necessidade lógica. Esse artigo e o próximo pretendem demonstrar o contrário, evidenciando que a doutrina do tormento infindo distorce o caráter de Deus apresentado nas Escrituras e não condiz com a verdade. Nesse primeiro texto, faremos uma análise bíblica e no segundo artigo, uma análise lógica

1. Sheol, Hades e Geena

A palavra inferno, derivada do latim, significa lugar inferior, baixo, profundo. Ela tem sido usada há séculos para traduzir três palavras presentes na Bíblia em seus idiomas originais: Sheol, Hades e Geena. O termo hebraico Sheol significa sepultura, sepulcro, cova. É usado em todo o Antigo Testamento sempre com esse sentido. A palavra grega Hades, pode ser entendida como sinônimo de sepultura ou mundo dos mortos. Ela foi escolhida pelos tradutores judeus da Septuaginta (a primeira tradução do AT hebraico para o grego, em cerca de 250 a.C.) para traduzir Sheol. Por fim, a palavra grega Geena, do hebraico, Geh Ben Hinom (Vale dos Filhos de Hinom) era o nome de um grande vale que existia em Israel. À época de Jesus, esse vale era usado para se jogar lixo e, por isso, estava sempre com focos de incêndio e muitos vermes.

Como se pode ver, nem Sheol, nem Hades carregavam originalmente, para os judeus, a conotação de um lugar de tomento eterno através do fogo. Sheol e Hades designam simplesmente o lugar para onde todos nós vamos quando morremos: a sepultura – ou, num sentido mais espiritual e dramático, um grande abismo escuro e profundo. A ideia de uma sobrevida após a morte num local de tormento talvez fosse mais natural para os judeus helenistas, por conta do contato com a filosofia e a mitologia gregas. Mas para o pensamento hebraico original, esse conceito não existia. A morte era vista como o fim da vida, de fato; um estado de inconsciência completa.

Esse pensamento de que a alma não permanece viva após a morte percorre toda a Bíblia, conforme pode ser visto nas passagens de Sl 146:3-4, Sl 115:17-18, Sl 17:15, Sl 6:4-5, Sl 49:12-20; Ec 3:18-20, Ec 9:5-6 e 10, Ec 12:1-7; Is 38:17-19; Dn 12:2; Jó 3:11-22, Jó 7:9, Jó 10:18-22, Jó 14:10-14, Jó 17:13-16; Ml 4:1-3; Mt 3:12; At 2:25-35; I Co 15:12-23; I Ts 4:16-17; Ap 20:14 e Ap 21:8. Segundo essas passagens, morremos de fato. E ficamos mortos até Deus nos ressuscitar no dia do juízo final. Nossa consciência, nesse meio tempo, é desativada. Falaremos mais detalhadamente sobre esse tema em outro texto específico. O que resta claro é que sem a noção de imortalidade da alma, a ideia de um tormento eterno é insustentável.

Com relação à Geena (o Vale dos Filhos de Hinom), essa região se localizava fora dos muros de Jerusalém (Js 15:8 e 18:16). Havia em Geena, no período dos reis de Israel, um local chamado Tofete, onde monarcas idólatras como Acaz e Manassés, e muitos súditos, praticaram o sacrifício de crianças ao deus Moloque (II Cr 28:1-3 e 33:6; II Rs 23:10; Jr 32:35). Por essa razão, Deus afirma que os praticantes de tais vilezas seriam enterrados nesse mesmo vale em grande quantidade (Jr 7:29-34 e 19:1-15). A partir de então, Tofete passa a ser uma palavra associada à destruição e sepultamento de ímpios por juízo divino, como fica claro em Jr 19:12 e Is 30:32-33 [Em Is 30:32-33, a palavra original Tofete aparece nas versões BJC e ACF].

Tal como os profetas registram Tofete como símbolo de extermínio e sepultamento de ímpios, Jesus faz o mesmo com Geena, onde ficava Tofete: transforma o local em uma metáfora para o fim dos injustos. Tal metáfora certamente levou os ouvintes de Jesus a se lembrarem das passagens sobre o juízo de Deus operado em Tofete/Geena e sobre o então atual uso do vale para descarte de lixo e corpos, motivo pelo qual a região estava sempre repleta de vermes, abutres e focos de incêndio.

Aqui também fica claro que Geena, à semelhança de Sheol e Hades, não trazia a ideia de um lugar de tormento eterno para almas vivas após a morte. Tal conceito não advém do pensamento hebraico original subjacente à Bíblia, mas de influências do helenismo, da filosofia dualista platônica, da mitologia greco-romana e de ecos de praticamente todas as religiões pagãs, que sustentavam alguma forma de sobrevida imaterial em outro plano. O ensino bíblico, contudo, apontava Geena como metáfora para degradação do corpo por meio de vermes e incineração, morte e sepultamento.

No AT a noção de destruição completa dos ímpios, em geral por meio de fogo, é bem comum. Em Malaquias 4:1-3, afirma-se que os injustos serão totalmente abrasados, não sobrando nem raiz, nem ramos; tornar-se-ão cinzas. Isaías faz bastante uso das ideias de redução dos ímpios a pó, destruição completa, desaparecimento e injustos incinerados como erva do campo (Is 1:28, 5:23-24, 29:5-6, 47:14, 66:16). A linguagem é muito semelhante em outros profetas (Os 13:3; Ob 1:16; Na 1:10; Sf 1:18) e nos Salmos (Sl 9:17, 21:9, 92:6-7, 104:35). No NT há reflexos dessa mesma linguagem em passagens como Mt 10:28; Lc 17:27-29; II Pd 2:6-12 e 3:7-13; Ap 20:9 e 14-15).

2. Aion e Olam

Como vimos, as palavras originais traduzidas para inferno não remetiam a uma ideia de tormento eterno para almas imortais conscientes após a morte. Os conceitos evocados por elas eram de sepultamento, destruição e punição final. Isso levanta uma pergunta importante: sobre que passagens bíblicas a doutrina do inferno eterno busca fincar suas bases? De que forma ela passou a ser legitimada por intérpretes bíblicos e permanece sendo sustentada hoje? A resposta está nos termos traduzidos por eterno, eternamente, eternidade, para sempre, inextinguível e séculos dos séculos – usadas em alguns textos bíblicos que falam sobre o castigo final dos ímpios. Interpreta-se que tais expressões deixam claro que a punição final não termina nunca.

Mais uma vez, uma análise das palavras originais ajuda a entender os textos. Temos no hebraico o termo olam e no grego o termo aion (e seus derivados aiones e aionio). Essas palavras expressam um tempo de duração indeterminada, podendo ser por muito tempo, para sempre enquanto algo dura ou infinitamente. Assim, o que determina o significado exato dos termos são o objeto ao qual eles se aplicam e o contexto da passagem.

Na verdade, essa flexibilidade da palavra também ocorre com alguma frequência na língua portuguesa. Quando dizemos, por exemplo, que um casal foi feliz para sempre, que fulano sempre foi irritado ou que beltrano sempre vai aos cultos, falando sobre atos eternos sem fim e/ou sem começo; não estamos querendo dizer que o casal foi feliz eternamente, que fulano é irritado desde a eternidade e beltrano vai eternamente aos cultos. O “sempre” aqui apenas versa sobre uma determinada quantidade de tempo em que os atos referidos foram constantes ou muito frequentes. Assim, podemos dizer que enquanto cicrano foi vivo, sempre foi prestativo. Esse sempre compreenderá o tempo de vida de cicrano (talvez uns setenta anos ou menos).

No AT podemos encontrar alguns exemplos interessantes. Deus afirma que a Páscoa devia ser celebrada como estatuto perpétuo (Êx 12:17). O menino Samuel deveria ficar no tabernáculo para sempre (I Sm 1:22). O profeta Jonas foi preso nos ferrolhos do abismo também para sempre (Jn 2:6). O servo que quisesse continuar escravo após os seis anos permitidos, deveria ser escravo para sempre (Êx 21:6). A lepra de Geazi se pegaria nele e na sua descendência para sempre (II Rs 5:27). Em todos esses casos, o conceito não é de infinitude, mas de processo contínuo e incessante até o término. Aqui o sempre acaba quando o indivíduo morre, quando a aliança finda, quando o tempo determinado para o processo cessa.

No pensamento hebraico, o uso dessas expressões para a destruição final dos ímpios era comum porque refletia bem o caráter implacável, irrevogável e plena da punição. Uma vez que o processo de punição final se iniciasse, não poderia ser revertido, parado ou terminado de modo parcial. Assim, nenhum ímpio poderia escapar dele, ter descanso ou, ao menos, morrer com a dignidade de ter seu corpo conservado. O fogo queimaria sem parar até o fim, deixando apenas as cinzas que o vento levará.

Seguindo a concepção hebraica, portanto, passagens como Ezequiel 20:47-48, Amós 5:5-6, Isaías 34:8-17, Mateus 3:12 e Judas 7 deixam claro é que não há algo como um purgatório (como aliás assevera o texto de Hb 9:27), o que implicaria uma destruição incompleta. Por isso Mt 3:12 usa o exemplo da palha, que lambida pelo fogo, não deixa sobrar nada. E por isso Jd 7 cita Sodoma e Gomorra como cidades que sofreram “a pena do fogo eterno [aionios]” (tradução correta, encontrada na ARC). Essas cidades não estão queimando até hoje. O fogo foi eterno enquanto havia o que queimar.

Neste ponto, devemos ressaltar como a visão dualista grega é fator determinante para a distorção dos textos. Quando interpretados pelo prisma hebraico original, os textos nos dizem que o fogo queima e a fumaça sobe incessantemente até que os injustos sejam totalmente destruídos, pois não há alma eterna, então não haverá o que queimar depois do aniquilamento. Já quando interpretados pelo prisma do dualismo grego, estranho à Bíblia, a alma passa a ser entendida como uma parte imaterial do homem que é eterna, permanecendo viva e consciente após a morte do corpo. Assim, o fogo continuará tendo o que queimar para sempre após a destruição do corpo (como o fogo causaria dano à alma imaterial, não me perguntem, pois nenhum imortalista explica).

O conceito de punição eterna pode se referir também às consequências da punição, o que também realça a ideia de destruição final, sem chance de retorno. Aquele que é punido com a morte eterna ocasionada pelo fogo recebeu uma punição eterna: ele nunca mais tornará a viver. Também nesse sentido a punição não cessa. Para que se interprete de outro modo é preciso rejeitar o conceito hebraico de ser humano holístico e aceitar o conceito grego (assimilado pelos judeus tardiamente) de ser humano dual (corpo moral, alma imortal). Em outro post, falaremos melhor dos problemas da concepção dual.

3. Hades no lago de fogo

O mesmo Apocalipse que usa termos como “séculos dos séculos” para a duração da punição final (o que, sob o prisma hebraico/bíblico original deve ser entendido como uma punição de processo constante enquanto durar e eterno em seu final), sustenta que o Hades (sepultura) e a morte serão lançados no lago de fogo (Ap 20:14). Se o próprio Hades será lançado no lago de fogo, então ele não pode ser o lago de fogo, como muitos cristãos acreditam. Ele é a sepultura.

Se a sepultura e a morte serão lançadas no lago de fogo, isso pode ser interpretado de duas maneiras plausíveis e mutuamente complementares: (1) existirá morte e sepultura para quem está no lago de fogo, pois essas duas “entidades” serão lançadas lá; e (2) a morte e a sepultura, elas mesmas, morrerão no lago de fogo – isso não só porque o lago de fogo é a punição final e a segunda morte (donde se depreende que o que for lançado lá será morto), mas porque após todos mortos/sepultados pelo fogo, logicamente não haverá mais ninguém para morrer e ser sepultado. Ao que tudo indica, portanto, o Hades morre e os ímpios também. Para sempre.

4. Hades na parábola do rico e do Lázaro

Como afirmando anteriormente, a palavra Hades foi usada na Septuaginta (primeira versão grega do AT) para traduzir Sheol, que significa sepultura. E no NT o único texto em que Hades é utilizado para expressar um lugar de tormento ou punição de fogo é a de Lucas 16:19-31. À exceção dessa passagem, Jesus sempre prefere a palavra Geena quando quer se referir à punição final dos ímpios. No trecho em questão, Jesus conta a parábola de um rico e um mendigo chamado Lázaro. Os dois morrem, o primeiro indo para as chamas do Hades e o segundo para o seio de Abraão. Defensores do inferno eterno argumentam que o relato comprova a imortalidade da alma, o Hades como um lugar de fogo e a existência de um tormento infinito para os perdidos. As conclusões possuem vários problemas.

Em primeiro lugar, o relato é uma parábola. Embora alguns sustentem o oposto, não há boas razões para crer nisso. Note: Lucas narra a história contada por Jesus após uma série de três parábolas seguidas e está agrupada a sete parábolas separadas por poucos versículos. No relato em questão, Jesus cria um cenário claramente fictício, cheio de elementos simbólicos, tais como (a) o mendigo querendo migalhas que caíam da mesa do rico; (b) o mendigo indo para o seio de Abraão após a morte; (c) o rico e o mendigo em uma sobrevida aparentemente corporal (o que contradiz a ideia de que seus corpos estavam na sepultura, que só os justos recebem novos corpos e que isso só ocorre na ressurreição – I Co 15:51-53); (d) o diálogo direto entre do rico, no tormento do Hades, com Lazaro e Abraão, num lugar bom oposto ao Hades; (e) o pedido do rico para que Lázaro molhasse a sua língua com a ponta do dedo para aliviar o calor; (f) a negativa de Abraão em relação a esse pedido com base na existência de um grande abismo entre eles (embora eles pudessem dialogar). Como é evidente, entender esses elementos como literais implicaria absurdos teológicos, além de criar um método interpretativo incapaz de discernir o concreto do simbólico.

Ora, se os elementos acima são simbólicos e a história é uma parábola, é errôneo supor que o relato pretende estabelecer como verdade que Hades é um lugar de fogo, que os mortos ímpios estão vivos lá e que os mortos justos estão no seio de Abraão. E isso fica mais claro quando percebemos que o objetivo da parábola de Jesus não era discursar sobre o estado do homem na morte ou a punição final de todos os ímpios, mas sobre o orgulho, a ganância e a dureza de alguns mestres judeus da época (representados pelo rico e seus irmãos na parábola).

Em segundo lugar, é bem provável que Jesus tenha feito uso de tom jocoso ao contar a alegoria. A parábola tem elementos cômicos como a já citada cena do rico pedindo para refrescar a língua. Seus elementos, além disso, não foram tirados da Torá e dos Profetas, mas de uma alegoria popular no Egito e que possuía uma versão oral entre os rabinos (a qual foi incluída no Talmude Palestino* anos depois). Uma vez que Jesus era bastante crítico da tradição oral dos anciãos (a Halacká), o uso dessa história pode ter tido um intuito irônico. Dado o contexto, para todos teria ficado bem claro que Cristo estava usando uma conhecida narrativa rabínica não bíblica, acentuado elementos absurdos e cômicos, para criticar os próprios rabinos. É pouco provável que o público presente não tenha notado que Jesus fez uso de um relato espúrio para ensinar algo maior.

Em terceiro lugar, Jesus usou outros relatos com elementos espúrios ao longo de seu ministério para compor parábolas. Uma vez que as pessoas estavam acostumadas com esse tipo de narrativa, sabiam que não deveriam entender os relatos literalmente, mas focar no ensino geral que se pretendeu. Isso vale para nós, leitores atuais. Se assim não o fizermos, tiraremos lições errôneas das parábolas de Cristo como, por exemplo, que a Deus é um juiz iníquo (Lc 18:2); que é duro e ilógico, ceifando onde não semeou e ajuntando onde não espalhou (Mt 25:24); que força os indivíduos a irem para o céu (Lc 14:23) e que apoia e elogia a prática da administração desonesta (Lc 16:8). É claro que tais interpretações são absurdas.

Em quarto lugar, a personificação de seres inanimados é comum em parábolas, poesias, fábulas, alegorias e expressões idiomáticas. E, de fato, encontramos muitos exemplos disso na própria Bíblia. Árvores conversam e escolhem um rei para si (Jz 9:8-15), um cardo negocia com um cedro o casamento de seus filhos (II Rs 14:9), pedras dialogam e clamam (Hc 2:11, Lc 10:40 e Mc 3:9), ferrugem e o dinheiro fraudado testemunham contra os corruptos (Tg 5:3-4), o sangue derramado de Abel grita (Gn 4:10), o sangue aspergido fala melhor que o sangue de Abel (Hb 12:24), os trovões e o altar também falam (Ap 10:3 e 16:7), árvores se alegram com o juízo do Senhor (I Cr 16:33), montes cantam e árvores batem palmas (Is 55:12), animais respondem (Jó 12:7-8), os rios batem palmas e as montanhas se regozijam (Sl 98:8), o preguiçoso deve conversar com a formiga (Pv 6:6) e a natureza declara, anuncia e conversa sobre a grandiosidade da obra de Deus (Sl 19:1-2). Assim como ninguém entende essas personificações como literais, também não se deve entender como literais a consciência e os diálogos entre pessoas mortas. Elas estão mortas. Não podem falar.

Em quinto e último lugar, se o próprio Hades é jogado no lago de fogo, é lógico que se trata de duas coisas diferentes, como já foi dito. Mas se o lago de fogo está reservado para o juízo final, como há pessoas queimando no Hades? Os ímpios já são punidos em no fogo antes do juízo final e da punição no lago de fogo? E os justos recebem o céu antes do juízo final e da ressurreição? Ambos os grupos ganham corpos (com línguas, dedos, mãos, pés, etc.) nesse estágio intermediário? Perceba que as respostas a essas perguntas entram em choque com ensinos do NT como a morte do Hades no lago de fogo (Ap 20:14), as bênçãos do céu sendo reservadas para depois da ressurreição dos justos (Hb 11:39-40, II Tm 4:8) e a aquisição de novos corpos também só depois da ressurreição e só para os justos (I Co 15:51-54). Além disso, cria ideias que não se encontram na Bíblia Sagrada, como a de que o ímpio é punido por fogo antes do juízo final, como se houvessem dois lagos.

Deve-se enfatizar ainda que o relato do rico e do Lázaro, além de ser uma parábola, só foi registrada por Lucas. Se essa for a evidência-chave para enxergar em outros textos a ideia do inferno eterno, trata-se de uma base bastante frágil. São regras interpretativas básicas não fundamentar doutrinas em parábolas e em uma passagem isolada, sobretudo quando esta for obscura, ambígua, incerta ou polêmica. Portanto, a passagem de Lucas 16:19-31 não tem como servir de base para interpretar outras passagens, mas sim deve ser interpretada à luz do restante da Bíblia.

Conclusão

Embora o assunto seja extenso e não seja possível abordá-lo detalhadamente em meia dúzia de páginas, resta claro por esse estudo que o conceito de inferno como lugar de tormento eterno não tem base primária nas Escrituras, mas em influências do dualismo grego e interpretações distorcidas proporcionadas por essa base extrabíblica. No artigo seguinte, trabalharemos a questão do inferno sobre um prisma lógico-moral. Será uma análise mais próxima da filosofia da religião.

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*Talmude: coletânea de comentários e discussões rabínicas que sobreviveram por muito tempo na tradição oral e começaram a ser organizadas por escrito entre o segundo e o terceiro século depois de Cristo.