Por Davi Caldas

A primeira coisa sobre o cristianismo que uma pessoa deveria saber é que ele é uma religião de fatos e não de meras crenças desligadas da realidade. Quando ele fala que Jesus existiu, pregou por três anos em Israel, foi crucificado e seus discípulos começaram a afirmar que ele ressuscitou (iniciando uma religião a partir daí), está amparado por mais de trinta fontes independentes do primeiro e do segundo séculos, entre elas apóstolos diretos de Cristo, os primeiros seguidores dos apóstolos, judeus que eram hostis ao cristianismo, pagãos que eram hostis ao cristianismo e historiadores judeus e pagãos. Todas essas fontes atestam esses mesmos fatos.

Nós poderíamos tirar todas as fontes cristãs e ainda sobrariam mais de uma dezena, contando a mesma história. Mas por que motivo tirar as fontes cristãs? Elas são tão ou mais confiáveis quanto as outras, pois se constituem de pessoas que aceitaram viver como miseráveis, sofrerem perseguição e morrerem por conta de sua fé. Nenhum benefício foi ganho por conta do que narraram. Apenas prejuízos. Se alguém se levanta para dizer que eles não podem ser considerados fontes porque eram partes interessadas em sustentar uma mentira, está querendo dizer: “Milhares de pessoas estavam interessadas em sofrer e morrer à toa por uma mentira”. Não faz sentido.

Critério básico para análise da veracidade de documentos históricos: “Se quem narra o fato não ganhou nenhum benefício narrando-o, isso aumenta a chance de ele ser verdadeiro. Se quem narra o fato ganhou prejuízos, isso aumenta ainda mais”.

Então, nós temos múltiplas fontes independentes, cristãs, judaicas e pagãs, do primeiro e do segundo século, atestando os mesmos fatos sobre um homem chamado Jesus; fontes estas que não tinham qualquer interesse em mentir sobre o que narravam. É o suficiente para provar a autenticidade desses fatos.

Mas há mais coisas. Boa parte das fontes cristãs afirmavam ser testemunhas oculares. E não só isso. Elas instigavam as pessoas a procurarem outras testemunhas. É o que Paulo faz em sua primeira epístola aos Coríntios, capítulo 15, versos de 1 à 8, citando o nome de várias testemunhas que viram Cristo ressurreto e mencionando que além das aparições individuais, Ele também apareceu à quinhentas pessoas de uma vez só, “dos quais a maioria sobrevive até agora”, ressalta.

Somente alguém que está muito convicto do que está falando forneceria uma lista de testemunhas, dizendo que a maioria vive. Ninguém inventa uma mentira e diz que centenas de pessoas são testemunhas. A não ser que tal mentira esteja beneficiando a todos esses (podemos imaginar aqui a Câmara dos Deputados). Mas sabemos que não é o caso.

Então, temos testemunhas oculares. Muitas testemunhas oculares. Testemunhas que estão sofrendo repressão, mas continuam sustentando que Jesus ressuscitou. No mínimo podemos dizer que elas acreditam mesmo no que estão falando, seja verdade ou não.

Os fatos estão estabelecidos. Existiu um homem chamado Jesus. Ele pregou em Israel. Morreu crucificado. Os discípulos começaram a afirmar que o viram ressurreto e que iniciaram o cristianismo, estando dispostos a sofrer e morrer pelo que diziam. Eles acreditavam mesmo no que estavam falando.

Resta saber: o que aconteceu para que essa crença na ressurreição surgisse e os primeiros seguidores tivessem tanta convicção nela? Descrentes tentam várias hipóteses para explicar os fatos. Alucinação é uma delas. Mas alucinações coletivas? Pessoas em lugares diferentes viram a mesma coisa? Depois centenas de pessoas juntas viram a mesma coisa ao mesmo tempo? E quem não viu, como veio a acreditar depois? Lembre-se que judeus e pagãos não gostavam do pensamento cristão. Convencê-los de que o cristianismo estava certo não era tão simples assim. E como explicar a tumba vazia? Aonde fora parar o corpo de Jesus? Se ele não ressuscitou, o corpo deveria estar lá, não? Alucinação não é uma hipótese muito forte.

Roubaram o corpo. Está bem. Explica a tumba vazia. Mas não explica a crença nas aparições. Além do mais, quem roubaria o corpo? Os discípulos não poderiam ser, porque eles acreditavam mesmo na ressurreição. Os romanos não teriam nenhum interesse em roubar o corpo de um judeu pobre morto. Pra quê? Romanos nem gostavam de judeus. Iriam se preocupar em roubar um judeu morto?

Os líderes judeus que eram contrários a Jesus não poderiam ser. Além de não terem nenhum interesse em roubar um corpo, se o tivessem feito, certamente o mostrariam ao público quando os discípulos começassem a pregar a ressurreição, a fim de desmenti-la. Mas eles não fizeram isso. Na verdade, a Bíblia diz que os líderes nunca desmentiram o fato da tumba vazia. Eles apenas explicaram o fato dizendo que os discípulos tinham roubado o corpo. Essa era a versão deles para tentar desmentir a ressurreição. Ou seja, a tumba realmente estava vazia e o corpo sumiu. Mas, como vimos, não pode ter sido os discípulos que pegaram.Quem pegou, então?

Eu poderia citar outras tentativas de explicar os fatos. Mas todas elas são inúteis, porque, ou não explicam tudo, ou criam cenários impossíveis ou extremamente improváveis.

Então, temos aqui um conjunto de fatos que precisam ser explicados. Por que a tumba estava vazia? Por que o corpo de Jesus não apareceu? Por que centenas de discípulos diziam ter visto Jesus ressurreto? Por que eles tinham tanta certeza nisso a ponto de aceitarem sofrer e morrer por esta crença? Por que muitos acreditaram neles? Por que essa religião surgida do nada, contando com perseguição de judeus e romanos, conseguiu ir para frente e se tornar a maior religião do mundo?

A única hipótese que explica bem tudo isso é a seguinte: Jesus realmente ressuscitou e seus seguidores o viram.

Qual seria a objeção à aceitação dessa hipótese? Mortos não podem ressuscitar? Quem falou? A Ciência? A sua própria observação de como as coisas acontecem no mundo?

Ora, isso tudo pode dizer respeito a como as coisas normalmente acontecem ou a como a natureza funciona quando não há um intervenção externa. Se eu coloco todos os dias dez reais na minha gaveta, sei que no fim de dez dias vou ter cem reais lá. Por que eu sei disso? Porque é o que me diz a lei da matemática. Porque é o que deve acontecer se não houver nenhuma intervenção. Mas e se meu irmão for lá e pegar dez reais no penúltimo dia? Quando eu for contar o dinheiro, terei cem reais? Não. Terei noventa. O que devo pensar? O que vocês acham que devo pensar??? “Ah! Isso é impossível! A matemática diz que eu preciso ter cem reais!”. É claro que não. Eu devo pensar que houve alguma intervenção. Alguém pegou o dinheiro.

Milagres nada mais são do que intervenções em processos que, se fossem deixados seguir seu curso, chegariam a um resultado esperado por nós, normativo, comum.

Então, mortos não podem ressuscitar? Por que não? Se houvesse uma intervenção sobrenatural, será que não poderiam? Por que descartar esta hipótese logo de cara? Se, de fato, existe um Deus que criou todo o universo, e criou as primeiras bactérias, protozoários, fungos, plantas, animais e seres humanos, dando-lhes condições de gerarem novas vidas, seria difícil para Ele ressuscitar um morto? Estamos nos baseando em que para supor isso? Em nossas capacidades humanas? Mas Ele não é Deus? Ele não transcende tudo? Por que então o limitamos?

Talvez você queira brincar com a minha analogia dos dez reais e dizer que seria idiota eu atribuir o resultado diferente no fim dos dez dias a uma ação sobrenatural. Assim, da mesma forma, seria idiota tentar explicar os fatos que expus através de um evento sobrenatural.

Mas eu respondo com uma pergunta: “Por que seria idiota atribuir o sumiço dos meus dez reais à ação sobrenatural?”. É porque nós dois sabemos que não é isso que normalmente acontece. É porque sempre vemos os eventos esquisitos do cotidiano terem uma explicação natural. E é isso, justamente isso, que faz do milagre um milagre.

Milagres, se existem, são raros. Raríssimos. Não são norma. São a exceção. Só sabemos o que é um milagre porque ele não faz parte da regra, do comum, do rotineiro, do esperado, do calculado. Para haver milagre, é preciso haver uma rotina, porque o milagre é a quebra da rotina.

Então, por que motivo eu deveria acreditar que algo tão raro ocorreria só para arrancar meu dinheiro? Se já é raro acontecer um milagre (e, por isso, devemos esgotar todas as possibilidades antes de apelar a ele como explicação), qual seria a probabilidade de um milagre ocorrer só para tirar o meu dinheiro? Que interesse Deus teria em interferir em algo tão pequeno e inútil? Que interesse Deus teria em pegar meus dez reais?

Um milagre que ocorresse nesse tipo de situação, na verdade, iria embaralhar o mundo. Se minhas coisas podem sumir do nada, por milagre, sem nenhum objetivo, então, não posso confiar no funcionamento da natureza. Tampouco em Deus. Quem daria crédito a um Deus zueiro desses? Qualquer coisa pode sumir e aparecer. Qualquer coisa pode acontecer.

Mas não é isso que a Bíblia diz sobre Deus. A Bíblia conta sobre um Deus que fez leis fixas para que elas fossem a norma. Fez isso para que através da norma pudéssemos fazer nossas previsões e ter certeza dos resultados naturais. A importância que Deus dá a esse universo ordenado, cheio de leis naturais e que nos possibilita prever o curso natural dos acontecimentos é tão grande que ele compara a fixidez de sua promessa para com o rei Davi e Israel, no Antigo Testamento, com a fixidez dessas leis (Jeremias 33:20-25).

Deste modo, intervenções no curso normal só ocorrem quando a questão é relevante o suficiente. Essas intervenções não são quebras nas leis, tal como a intervenção de meu irmão pegando dez reais da minha gaveta não é uma quebra da lei da matemática. A intervenção é apenas uma quebra na previsão final, pois um elemento a mais, com o qual não contávamos, entrou na equação. Ainda assim, isso só pode ocorrer em uma ocasião ímpar, em algo que carece do milagre para possibilitar o sucesso de grandes planos divinos.

Não há nada de ímpar em intervir na minha economia caseira de dez reais por dia. Mas há algo de muito ímpar, grandioso, estupendo, incrível, fenomenal, importantíssimo na morte e ressurreição de Jesus: disso depende a salvação de bilhões de pessoas. Disso depende a prova de que Jesus é um com Deus e Senhor Supremo. Disso depende o surgimento do cristianismo, a maior religião do mundo. Disso depende a imortalização dos ensinos de Jesus. Merece ou não merece um milagre um evento desse? Necessita ou não necessita? É incoerente acreditar na ressurreição dentro desse contexto?

Some isso ao fato de que o Antigo Testamento já havia dado, centenas de anos antes, dezenas de profecias sobre Jesus Cristo; profecias que foram cumpridas por Ele. Some ainda ao fato de que os mesmos seguidores que afirmavam convictamente que Ele ressuscitou, afirmavam que o viram curar pessoas, fazer milagres e até ressuscitar mortos durante três anos e meio. Então, me diga: por que a hipótese da ressurreição deveria ser excluída, à priori?

Ela não deveria. A ressurreição é uma hipótese perfeitamente plausível e que só pode ser derrubada se provarmos que Deus não existe. Caso contrário, não há qualquer razão para descrer e muitas razões para crer.

Lembre-se disso: o cristianismo é uma religião de fatos. E é isso que deveria ser dito pelos líderes cristãos. Chega de fazer o cristianismo parecer um conto de fadas, uma filosofia emocional para autoajuda, um conjunto de crenças sem evidências ou mera experiência pessoal. O cristianismo é a história de Deus passando pela terra como homem e deixando suas marcas. Isso é cristianismo. E a experiência pessoal com esse Deus se torna mais plena quando entendemos isso.

Se você é cristão, portanto, pregue o evangelho mostrando que você crê em fatos concretos e não em mera lista de doutrinas. E se você não é cristão, entenda que o cristianismo é uma religião de fatos. Sua busca pela verdade precisa começar deste ponto. Se começar a analisar o cristianismo partindo do pressuposto de que esta religião não tem nada a ver com acontecimentos reais que impactaram o mundo e precisam de explicação, não alcançará a essência da coisa.