Por Davi Caldas

Aprendi algo com a experiência em debates, estudos teológicos e lógica formal: um lindo edifício argumentativo pode ser erguido sob um fundamento errôneo. Quando isso acontece, olhar para o edifício como um todo nos engana. Ele parece fazer sentido, mas só o faz sob o fundamento errôneo. Uma vez que se perceba as falhas da sua base, fica claro que todo o edifício desabará tão logo a base seja retirada.

Exemplo clássico é o catolicismo romano. Todo o seu edifício argumentativo (que é muito belo e, aparentemente, sólido) se baseia num fundamento equivocado: a tradição da Igreja e o seu magistério (bispos e papa) possuem autoridade igual a da Bíblia. A partir dessa base qualquer ensino da tradição e do magistério, por mais que não se sustente pelos critérios básicos de interpretação da Bíblia, serão tidos como corretos. A interpretação correta da Bíblia não se definirá mais, primariamente, pelas ferramentas interpretativas lógicas, mas pela autoridade da Igreja.

O que se constrói a partir dessa base faz todo o sentido, mas só nessa base. Questione a base e todo o sentido se desfaz. Em outras palavras, o pressuposto determina se um conjunto de argumentos é realmente correto ou apenas parece correto a partir do pressuposto.

Questões como a guarda do sábado e da distinção entre alimentos puros e impuros são casos desses. O entendimento de que tais doutrinas foram abolidas são extraídas de interpretações da Escritura cujo fundamento é uma teologia antijudaica que surgiu ao fim do primeiro século. Dentro desse fundamento, as interpretações podem parecer corretas (mesmo que bastante forçadas e descontextualizadas). Mas se questionarmos o fundamento, todo o edifício desaba.

Antes de entrar na interpretação dos textos bíblicos em si, portanto, quero explicar como se deu a formação dessa teologia antijudaica e de que forma ele influencia na interpretação das passagens. Questionada a base, poderemos nos debruçar sobre os textos bíblicos e, através do uso dos critérios lógicos de interpretação, entender o que a Bíblia realmente diz.

Uma teologia antijudaica

Desde o fim do primeiro século, os cristãos passaram a não mais se enxergar como uma vertente da religião judaica. A antiga identidade de judeu, prosélito judeu ou adepto de uma forma de judaísmo foi se perdendo. A causa para essa perda foi o acirramento das disputas teológicas entre gentios conversos e judeus cristãos, bem como entre judeus cristãos e judeus incrédulos. Essas disputas geraram um gradual afastamento entre os crentes em Cristo de origem judaica e os crentes em Cristo de origem gentílica, o que resultou num distanciamento do cristianismo em relação às suas bases judaicas.

O processo descrito acima se acentuou, sobretudo, após a destruição de Jerusalém, no ano 70. A cidade era um ponto de contato do mundo cristão com suas origens e, nas primeiras décadas, a sede do movimento apostólico. Ela, portanto, mantinha viva as raízes judaicas do cristianismo. Sua destruição apaga um memorial relevante das raízes judaicas do cristianismo, reforçando uma busca por nova identidade religiosa entre os cristãos das mais diversas comunidades (principalmente as compostas majoritariamente por gentios). Com a morte e/ou isolamento da maioria dos primeiros apóstolos nas últimas décadas do primeiro século, esse caminho se tornou natural, posto que também o ponto de contato com as raízes judaicas dos discípulos também se esvaiu.

É esse pano de fundo que começa a forjar uma teologia antijudaica. E é essa teologia que começa a enxergar os textos de modo distorcido, distante do propósito original, buscando coerência apenas com o pressuposto antijudaico. Uso a palavra “antijudaico” não num sentido tão extremo como o que expressa a postura de Marcião (o herege que montou um Canon bíblico sem os livros do AT). Trata-se de um antijudaismo bem mais sutil. Nesse antijudaismo, Israel é visto como tendo sido renegado por Deus e a religião judaica abolida. Assim, a morte e ressurreição de Cristo criam um novo povo de Deus no lugar de Israel, com uma nova religião no lugar do judaísmo.

Esse estado de coisas torna quase que imperativo a rejeição de elementos externos que antes identificavam bem os judeus. Ora, os elementos que mais distinguiam os judeus no primeiro século eram a guarda do sábado, a separação entre os alimentos puros e impuros, as peregrinações à Jerusalém (no caso de quem não morava lá), os festivais religiosos, a circuncisão, o zelo pela Torá e os Profetas e a fé em um só Deus, chamado Yahweh. Um judeu poderia ser identificado de longe por esses hábitos e crenças.

A formação da nova identidade começou a esvaziar boa parte dessas crenças e hábitos, classificando-as como “coisas de judeu”. E se eram coisas de judeu, eram coisas velhas, ultrapassadas. Afinal, Deus criou uma nova religião e um novo povo.

Uma vez que se adote esse pressuposto, todo o NT passa a ser interpretado como um livro que ataca a religião judaica. E isso acaba mudando a forma como os textos são interpretados. Por exemplo, passagens que mostram Jesus repreendendo a maneira distorcida como os fariseus guardavam o sábado serão vistas como ataques ao sábado em si. Já textos que criticam a imposição do vegetarianismo e/ou a tradições humanas serão vistos como contrários à distinção entre alimentos puros e impuros.

Em suma, nesse tipo de interpretação, descarta-se o contexto da passagem, os demais textos da Bíblia Sagrada sobre o tema, o contexto histórico e diversos outros elementos importantes para uma interpretação correta. No lugar desses elementos fundamentais de interpretação, coloca-se um anacronismo baseado num pressuposto antijudaico. E assim se faz a Bíblia dizer o que ela nunca disse. Isso quase nunca não é feito de modo consciente. As pessoas, geralmente, apenas raciocinam sobre as bases antijudaicas infiltradas no evangelho há séculos sem pensar sobre, nem perceber. Por isso um texto como esse é importante.

O pressuposto correto

Mas qual seria, então, o pressuposto correto? E o que a Bíblia diz sobre Israel, judeus e judaísmo no NT? Saber o que grupos de judeus messiânicos pensam é um bom começo para responder tais questões. Eles afirmam que Israel ainda é povo de Deus e nunca deixará de ser. Dentro dessa visão, a Igreja não substituiu Israel na nova aliança. Ela se somou a Israel. Foi enxertada em Israel. E Israel, por sua vez, embora conte com uma maioria de descrentes em Jesus, ainda se converterá totalmente antes de seu retorno. As bases para essa interpretação estão, principalmente, em Romanos 11:11-29; 15:27; 4:16-25; Gn 12:1-4; além de diversos textos do AT em que Deus promete, em caráter eterno, fidelidade à nação israelita.

A teoria dos judeus messiânicos talvez não acerte em tudo. Mas acerta no fato de que Deus não criou outro povo, nem outra religião. Ele simplesmente cumpriu a promessa feita a Abraão de abençoar, através de sua descendência étnica, outros povos e famílias em toda a terra. Era o plano desde sempre e jamais dependeu de uma suposta rejeição de Israel. Independente de Israel se tornar amplamente crente em Jesus ou não, os gentios receberiam o evangelho dos judeus. Isso implica uma continuidade do povo de Deus e da religião, não uma quebra.

Em suma, aos olhos de Deus, os judeus naturais e os gentios conversos passam a fazer parte do mesmo povo e da mesma religião. Não um novo povo e uma nova religião, mas os mesmos de antes. Profecias como a de Isaías 56:1-8 e Zacarias 8:20-23 deixam clara a visão de Deus.

Tenho minhas discordâncias em relação ao status do Israel étnico como ainda sendo o povo de Deus. Mas não porque penso que a nação foi rejeitada. Sim porque a função só faz sentido em um mundo teocrático no qual apenas uma nação segue a Yahweh (oficialmente e em número de adoradores). Foi o caso de Israel durante muito tempo, mas isso começou a se modificar no NT.

A partir do momento em que judeus se tornam pregadores ostensivos em outras nações e os povos passam, de modo amplo, a fazerem parte de um “Israel da fé”, um Israel interétnico, falar em um povo étnico se torna sem sentido. A situação se assemelha a de um pai que promete a seu filho que sempre irá ajudá-lo nas lições de casa do colégio. A promessa só faz sentido, contudo, enquanto o filho ainda está na fase de ir à escola e voltar com lições. Quando essa fase terminar, a promessa não mais se aplica, ainda que possa haver uma essência aplicável a outras questões.

Independente de minha visão estar correta ou não (esse não é o foco aqui e não detalhei o assunto), o fato é que Deus não criou outro povo, nem outra religião. E a incredulidade de muitos judeus não foi elemento determinante nos planos de Deus para a pregação do evangelho, algo que poderia (e esse seria o ideal) ser feito se todos os judeus naturais tivessem aceitado Jesus.

Eis um fato interessante e que nos auxilia a observar melhor a questão proposta nesse texto: Se os judeus, em sua maioria, tivessem aceitado Jesus como Messias, haveria sinagogas espalhadas por todo mundo em vez de Igrejas; o sábado seria o dia mundial de descanso e de frequentar sua comunidade religiosa, em vez do domingo; os servos de Deus não se serviriam de alimentos impuros, mas provavelmente desenvolveriam cada vez mais uma consciência melhor em relação à saúde do corpo físico; santos não seriam venerados (no sentido católico), nem receberiam orações dos vivos; não existiria a divisão cristãos/judeus, cristianismo/judaísmo, pois os gentios conversos seriam uma extensão de Israel, parte integrante do Israel da fé; o judaísmo seria crente em Jesus; e, por conseguinte, todos nós, cristãos, seríamos judeus. Mas o que vemos no cristianismo não é uma aparência que aponta para suas raízes judaicas, mas uma aparência que aponta para as tradições da Igreja Romana. Israel foi substituído por Roma e o judaísmo pelo romanismo.

O pressuposto correto, portanto, envolve um retorno às raízes judaicas do movimento cristão. Não na intenção de resgatar rituais prefigurativos que chegaram ao seu término com o sacrifício de Cristo (como a circuncisão, os festivais e os sacrifícios de cordeiros, por exemplo). Mas na intenção de extirpar de nossa leitura a ideia de que se algo parece “coisa de judeu”, então foi abolido e qualquer contexto pode ser ignorado para que as passagens bíblicas concordem com essa ideia.

Para interpretar corretamente a Bíblia não se pode olhá-la como se ela fosse uma obra antijudaica, mas sim uma obra produzida por judeus. Não foi Roma e os pais da Igreja que nos deram a Bíblia, mas os profetas israelitas do AT, os discípulos judeus de Jesus e seus primeiros seguidores (a maioria, judeus). Nenhum desses autores tinha interesse em renegar o judaísmo (como foi o caso de alguns pais da Igreja Proto-Romana como Inácio, Barnabé e Justino Mártir), mas sim em anunciar e exaltar Jesus para judeus naturais e gentios, unindo todos em um só povo e religião. É sob esse pressuposto que devemos analisar o NT.

Analisando alguns textos

Seguindo o pressuposto errado de que Deus renegou Israel e fundou outra religião, a distinção entre alimentos puros e impuros é vista como “coisa de judeu”. Já aqui temos a primeira distorção. A Bíblia não liga a origem dessa distinção ao povo de Israel. Em Genesis 7:2-9, quando Deus ordena a Noé a construção da arca e separação de casais de animais, fala sobre animais puros e impuros. Ora, Deus não poderia falar com Noé sobre uma distinção que não existia ainda. O texto ensina, portanto, que os homens da época já sabiam que algumas carnes poderiam servir para alimento, enquanto outras não. Apenas muitos séculos depois, a distinção será incluída na lei mosaica.

Dizer que isso é coisa de judeu só porque se encontra no AT é tão errôneo quanto dizer que os dez mandamentos não existiam antes de Moisés. Confunde-se aqui a origem com a formalização escrita em Israel. A origem, tanto dos mandamentos do decálogo, quanto da distinção entre carnes próprias e impróprias para consumo é muito anterior a Moisés e, portanto, está além do judaísmo.

Contudo, ainda que não estivesse tal preceito estivesse ligado apenas ao judaísmo, sua abolição não poderia se dar apenas por conta disso, já que Deus não criou uma nova religião. A abolição só faz sentido se, em algum ponto do NT, Deus tiver dito que eliminou a distinção e que ela tinha simplesmente uma função ritualística temporária, como a circuncisão e os sacrifícios de animais (o que o NT diz claramente). O problema é que nenhuma das duas coisas são afirmadas no NT em relação aos alimentos puros e impuros. Os textos que falam sobre comida, no NT, são descontextualizados. Vejamos alguns deles e como o pressuposto antijudaico influencia na descontextualização feita pelos intérpretes.

– Marcos 7:14-23

O primeiro texto está em Marcos 7:14-23. Ele diz:

“Convocando ele [Jesus], de novo, a multidão, disse-lhes: ‘Ouvi-me, todos, e entendei. Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai do homem é o que o contamina. Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça’. Quando entrou em casa, deixando a multidão, os discípulos o interrogaram a cerca da parábola. Então, lhes disse:   Assim vós também não entendeis? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e sai para lugar escuso? 

E, assim, considerou ele puros todos os alimentos. E dizia: ‘O que sai do homem, isso é o que contamina. Porque dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos esses males vêm de dentro e contaminam o homem’”.

Não há como negar que o texto, à primeira vista, parece confirmar a ideia de que Jesus aboliu a distinção bíblica entre alimentos puros e impuros. O problema é que, por mais claro que um texto possa parecer, nunca podemos interpretá-lo fora de seu contexto. Se o contexto diz uma coisa, o trecho que tiramos dele deve ser interpretado à luz desse contexto. E é justamente o que não acontece aqui. Vamos analisar.

Nossa história começa no início do capítulo 7 do Evangelho de Marcos, quando os fariseus observam que os discípulos de Jesus comiam pão com as mãos impuras, ou seja, sem que as tivessem lavado. Segundo a tradição dos anciãos, uma pessoa que não lavasse as mãos cuidadosamente antes de comer qualquer coisa tornava o alimento impuro e, ao ingeri-lo, ficava impura também. Não no sentido físico da palavra, mas no sentido espiritual: um pecador, indigno, imoral, rebelde, transgressor. Também havia um jeito específico de se lavar as mãos, que deveria ser seguido fielmente, já que o ato era encarado como um ritual.

No versículo 3 podemos ler:

“[…] interpelaram-no os fariseus e os escribas: ‘Por que não andam os seus discípulos de conformidade com a tradição dos anciãos, mas comem com as mãos por lavar?’”.

Perceba, então, que o contexto da passagem é uma discussão sobre uma tradição dos anciãos. Era a tradição de lavar as mãos como um ritual religioso. Quando a Bíblia fala de tradição dos anciãos, tradição dos homens, rudimentos do mundo, opiniões, fábulas ou filosofias vãs, sempre está se referindo a crenças e práticas que não são Palavra do Senhor. Era o caso daquele ritual. Ele era apenas uma invenção dos rabinos e escribas fariseus antigos, a qual passou de geração em geração.

Por que os mestres antigos criaram esse ritual? Por medo (e talvez um pouco de arrogância). A seita dos fariseus havia surgido dois séculos antes de Cristo com a proposta de levar o povo a seguir as leis da Torá a todo o custo. Contanto tenham dado contribuições positivas ao judaísmo, passaram a criar e manter diversas regras que não constavam nas Escrituras Sagradas, a fim de dificultar possíveis desvios e de os fazerem mais santos aos olhos de Deus.

No que tange a tradição do lavar a mãos, os mestres fariseus temiam que alguém tivesse tocado em algo impuro durante o dia, o que poderia tornar impuro o alimento e fazer da pessoa que comia um impuro. Lavar as mãos evitava esse problema. Do ponto de vista higiênico, a ideia deles faz sentido. Contudo, eles entendiam tal tradição como espiritual e a sacralizavam, pondo-a no mesmo patamar que os mandamentos de Deus. E, agora, vendo que os discípulos de Jesus não faziam o mesmo, queriam condená-los por isso.

Jesus, então, responde apontando a hipocrisia dos fariseus em seguir inúmeras tradições inventadas por seres humanos e, ao mesmo tempo, deixarem de lado mandamentos de Deus. Só depois disso, ele fala sobre a questão de que todo o alimento que se ingere não contamina o homem.

Aqui vêm as perguntas fundamentais que todos os leitores devem fazer para interpretar a passagem: Qual é o tema central do texto? O conflito existente entre a tradição dos anciãos (inventada por homens) e a Palavra de Deus. Esse tema central emerge de que situação? Da acusação dos mestres fariseus de que os discípulos de Jesus estavam quebrando a tradição do “lavar as mãos”. Ou seja, o tema não é a distinção bíblica entre alimentos puros e impuros ou a revogação de leis do AT. Assim sendo, quando o texto diz: “considerou ele puro todos os alimentos”, não está falando de todos os alimentos existentes no mundo, mas sim dos alimentos que os judeus comiam sem passar pelo ritual farisaico do “lavar as mãos”. Moralmente falando, não lavar as mãos não faria o alimento ingerido tornar a pessoa impura. A impureza moral ocorria em relação ao que saía pela boca (palavras más), pois a boca expressa o que o coração (mente) nutre. Esse é o tema de Jesus.

Perceba que se entendermos, como a maioria dos intérpretes cristãos, que Jesus está anulando a distinção bíblica entre alimentos puros e impuros, a frase do autor Lucas fica totalmente fora de contexto. Como já vimos, não eram as leis dietéticas que estavam sendo discutidas. Muito menos Jesus estava falando contra a lei. Ao contrário, Jesus estava falando contra as tradições e a favor da lei de Deus. Então, é contextualmente claro que Jesus não está atacando a distinção bíblica entre alimentos.

A prova real bíblica do que estamos falando está no capítulo 15 de Mateus. A história narrada ali é a mesma, só que do ponto de vista de Mateus. A última coisa que Jesus diz neste relato é:

“Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias. São estas coisas que contaminam o homem; mas o comer sem lavar as mãos não o contamina” (Mt 15:19-20).

O leitor percebe? O assunto de Jesus não é alimentos puros e impuros da Bíblia, mas se a tradição dos anciãos está correta quando diz que comer com as mãos por lavar tem poder para nos contaminar moral e espiritualmente. E a resposta é não. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas por que mesmo o contexto não sendo sobre alimentos puros e impuros da Bíblia, a maioria dos cristãos interpreta desse modo? Por conta do pressuposto antijudaico. Se a distinção entre os alimentos é “coisa de judeu” e o judaísmo foi abolido, então TEM QUE haver um texto liberando os alimentos. Serve qualquer um, mesmo que o contexto seja outro.

– Atos 10:9-16

Outro texto interessante para nosso estudo está em Atos 10:9-16.  A passagem descreve a ocasião em que o discípulo Pedro teve um sonho no qual estava com fome e descia do céu um lençol com animais imundos. Veja o que acontece em seguida:

“E ouviu-se uma voz que se dirigia a ele: ‘Levanta-te, Pedro! Mata e come’. Mas Pedro replicou: ‘De modo nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa comum e imunda’. Segunda vez, a voz lhe falou: ‘Ao que Deus purificou não consideres comum’. Sucedeu isto por três vezes, e, logo, aquele objeto foi recolhido ao céu” (At 10:13-16).

Se pararmos por aqui, qualquer um dirá que Pedro ainda tinha costumes judaicos (como o de não comer alimentos impuros) e Deus resolveu mostrar a ele que aqueles costumes não precisavam mais ser seguidos. Só que a passagem continua, retomando algo que ela já tinha dito nos dos versos 1 a 8: um centurião romano desejava ouvir as palavras de Pedro sobre Jesus e enviou servos para chamá-lo. O sonho de Pedro é um parênteses nessa história, que é retomada no verso 17, quando os servos de Cornélio encontram Pedro e o chamam. O clímax do texto é quando Pedro chega à casa do centurião. Preste atenção no que o apóstolo vai dizer:

“Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de outra raça; mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou imundo; por isso, uma vez chamado, vim sem vacilar” (At 10:28-29).

Percebeu? Pedro consegue compreender que o sonho que teve era uma parábola e não uma mensagem literal. Os animais impuros simbolizavam quem não fazia parte do povo judeu no sentido étnico. Os judeus do primeiro século tinham tanto medo de se desviarem novamente de Deus (como no passado) e nutriam um orgulho tão grande de serem povo de Yahweh, que não se permitiam (nem eram permitidos pelos doutores da Torá) se juntarem aos gentios. Só que Deus queria espalhar o evangelho por todo o mundo. Aquele preconceito não era bíblico e sim mais uma tradição inventada por mestres antigos. Então, Deus mostra isso ao apóstolo através de uma metáfora que certamente iria impressioná-lo. Pedro continua depois:

“Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável. Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos” (At 10:34-36).

Agora, vamos amarrar as coisas. O discípulo Pedro, anos depois da assunção de Jesus, afirma que nunca comeu alimentos impuros e que ainda se considerava judeu no que tangia sua fé (At 10:28). Ele fica admirado com o sonho que teve, já que o sonho parecia ser contrário a lei de Deus. Procurando compreender o seu significado do sonho, acaba descobrindo que o mesmo era uma parábola que se referia aos gentios; era uma exortação a pregação do evangelho a todos os povos.

Mais um vez, precisamos fazer algumas perguntas básicas: o assunto da parábola era o ensino bíblico sobre carnes limpas e impuras? Não. Deus indica que a parábola tinha duplo sentido? Não. O texto indica que Pedro entendeu o sonho como um ensino literal sobre comer carnes impuras? Não. O que a passagem mostra, afinal? Mostra que Pedro continuava fiel às leis dietéticas e que o sonho que teve se referia apenas à pregação do evangelho aos gentios.

– I Coríntios 10:25-26

Outro texto que muitos intérpretes cristãos utilizam para dizer que Jesus aboliu as leis dietéticas se encontra em I Coríntios 10:25-26. Afirma:

“Comei de tudo o que se vende no mercado, sem nada perguntardes por motivo de consciência, porque do Senhor é a terra e a sua plenitude”.

A regra de interpretação é a mesma que devemos utilizar em todos os textos: descobrir de que assunto o autor está falando. Pergunto: era sobre uma disputa entre os cristãos a respeito dos alimentos puros e imundos? Era sobre a dúvida de se as leis dietéticas tinham sido abolidas ou permaneciam? Não, nada disso. O tema sobre o qual o apóstolo falava era o das carnes sacrificadas aos ídolos. Veja o que o autor, Paulo, continua dizendo logo a diante:

“Se algum dentre os incrédulos vos convidar, e quiserdes ir, comei de tudo o que for posto diante de vós, sem nada perguntardes por motivo de consciência. Porém, se alguém vos disser: ‘Isto é coisa sacrificada a ídolo’, não comais, por causa daquele que vos advertiu e por causa da consciência; consciência, digo, não a tua propriamente, mas a do outro”.

Então, já percebemos que Paulo não está interessado em falar sobre as leis de saúde, mas sim sobre alimentos oferecidos aos ídolos. Em sua linha de raciocínio, não havia problema em comer alimentos oferecidos aos ídolos porque o ídolo não é nada. Se a pessoa que comia era cristã e dava graças a Deus pelo alimento, não havia ali idolatria, tampouco aquele alimento poderia fazer mal físico ou espiritual. Contudo, havia cristãos que se escandalizavam com os que comiam alimentos sacrificados. Por isso, Paulo, por consideração a esses e para evitar problemas, afirmava que era bom se abster. Essa é a mensagem que Paulo quer passar.

Portanto, quando Paulo diz que podemos comer tudo o que se vende no mercado e tudo o que nos oferecerem na mesa, ele está pensando apenas na questão dos alimentos oferecidos aos ídolos. Tentar expandir esse “tudo” para absolutamente tudo o que existe é tão errôneo do ponto de vista do contexto que daria margem até para comermos carne humana numa aldeia de índios canibais ou estrume de cavalo. Se qualquer uma dessas coisas for colocada na mesa para eu comer ou forem vendidas num mercado, eu posso comer. Será que é isso que Paulo tem em mente? Claro que não. Esse “tudo” se refere aos “alimentos oferecidos”. O contexto é muito claro. Não há razão textual alguma para incluir aqui os alimentos impuros da Bíblia. Paulo não estava pensando nisso. Não era a problemática tratada.

– I Timóteo 4:1-4

“Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras e que tem cauterizado a própria consciência, que proíbem o casamento e exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade; pois tudo o que Deus criou é bom, e, recebível com ações de graças, nada é recusável, porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificado”.

Segundo a interpretação da maioria dos cristãos, o que esse texto está dizendo é que nós podemos comer todo o tipo de animal porque todo o tipo de animal foi criado por Deus para servir de alimento ao ser humano. E mais: qualquer coisa que se receba com ações de graça pode servir de alimento.

O primeiro ponto a ser notado aqui é que Paulo não está falando sobre preceitos bíblicos que supostamente caíram em desuso. Ele está falando sobre pessoas que defendiam (e defenderiam nos últimos tempos) doutrinas de demônios, dentre as quais menciona a proibição do casamento. Existe uma passagem bíblica que proíba o casamento? Não. O casamento foi criado por Deus para ser realizado. Por isso Paulo categoriza o ensino como doutrina de demônios. Logo, pelo contexto, a primeira conclusão a que se chega é que os alimentos proibidos por tais pessoas também não tinham sido proibidos pela Bíblia. Paulo está falando de invenções humanas. Por isso ele chama de doutrinas de demônios. Se o assunto fossem leis dietéticas da Bíblia, Paulo não usaria esse termo.

O segundo ponto a ser notado é que os judeus, os quais seguiam as leis dietéticas, nunca ensinaram que o casamento é errado. Essa era uma doutrina herética de alguns grupos minoritários. Não representava o pensamento judaico como um todo. Mas Paulo fala de grupos que mantinham essa doutrina, além de proibirem alguns alimentos. Ou seja, o apóstolo não está criticando o povo judeu no geral, mas algum grupo que ensinava doutrinas não bíblicas. Em suma, não era uma crítica a “coisas de judeu”, mas sim a invenções humanas – inspiradas por demônios. Sem dúvida, grupos ascéticos, que viam o mundo físico como algo mal. Tais grupos tendiam a não fazer uso de nenhum tipo de carne e olhar o sexo como algo pecaminoso. Pelo contexto, portanto, não dá para dizer que o apóstolo está tratando dos alimentos impuros da Bíblia. Isso nem passa na cabeça dele.

O terceiro ponto é que Paulo, de fato, especifica os alimentos dos quais está falando. Ele diz: “alimentos que Deus criou para serem recebidos”. Se Paulo faz essa ressalva, segue-se, pela lógica, que há alimentos que Deus não criou para serem recebidos. Assim, é óbvio que Paulo não está pensando no que não é próprio para alimentação. Tudo o que Deus criou é bom, mas cada coisa para a sua devida função. O que Deus não criou para ser recebido como alimento, não deve ser recebido como tal.

Continuando o raciocínio, vemos que o apóstolo afirma que “nada é recusável, porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificado”. Esse “nada” obviamente se refere aos alimentos que Deus criou para serem recebidos – e que os grupos heréticos que Paulo critica proibiam. Tanto que Paulo apresenta um argumento para mostrar o motivo pelo qual “nada” é recusável. O argumento pode ser transcrito assim:

(1) os alimentos criados por Deus para serem recebidos com ações de graças são os alimentos santificados pela Palavra de Deus (a Bíblia);

(2) tudo aquilo que é santificado pela Palavra de Deus (a Bíblia) e pela oração, não é recusável;

(3) logo, os alimentos que a Palavra de Deus aprova devem ser recebidos com ações de graça e não recusados, pois a Palavra e a sua oração os santificam.

Ou seja, existe uma condição para que um alimento não seja recusável: ser santificado pela oração e pela Bíblia. Então, é lógico que esse “nada é recusável” se refere ao tipo de alimento que “Deus criou para ser recebido”. Os que ele não criou para tal, não estão nessa lista. Os tipos de alimentos que servem para comer são listados em Levítico 11 e Deuteronômio 14, livros que compõem a Palavra de Deus.

O problema dos grupos heréticos que Paulo critica não é que eles seguiam as leis dietéticas da Bíblia. Isso não tem sentido. O problema era que eles proibiam coisas que eram santificadas pela Bíblia e abençoadas pela oração como o casamento e, no caso dos alimentos, provavelmente todos os tipos de carne. Como não são doutrinas bíblicas, Paulo as considera demoníacas e as rechaça. A única forma de interpretar esse texto como sendo uma discussão sobre alimentos puros e impuros da Bíblia é ignorando o contexto para se adequar ao pressuposto de que Paulo precisa estar falando algo contra as “coisas de judeu”.

– Romanos 14:14 

“Eu sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, de que nenhuma coisa é de si mesma impura, salvo para aquele que assim a considera; para esse é impura”. 

A maioria dos intérpretes cristãos compreende que, nesse texto, o apóstolo Paulo está anulando a distinção bíblica entre alimentos puros e impuros. O problema é que, mais uma vez, o texto está destacado de seu contexto. O capítulo 14 de Romanos se inicia da seguinte forma:

“Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões. Um crê que de tudo pode comer, mas o débil come legumes; quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu” (Rm 14:1-3). 

Note que Paulo inicia a passagem dizendo que os irmãos não deveriam se reunir para discutir opiniões. O apóstolo não está falando, portanto, sobre leis da Bíblia, mas sobre ideias humanas, extrabíblicas, que estavam servindo de discórdia. Como elas não eram imorais, Paulo diz que isso não faz diferença. A prova de que o texto fala de opiniões, não de algo que estivesse na Bíblia está no primeiro exemplo dado: comer legumes. Uns comiam legumes e carne. Outros eram vegetarianos, comendo só legumes. Ora, não há nenhuma passagem bíblica que diga: “Não comerás carne”, “Só comerás legumes” ou “Não comerás só legumes”. Ou seja, era uma discussão sobre opiniões humanas, não sobre interpretação bíblica das leis dietéticas.

Ademais, a oposição tratada por Paulo não era entre quem só comia carne limpa e quem comia também carne impura. A discussão era entre quem comia carne e legumes e quem só comia legumes. Era um problema com vegetarianos. Esse é o contexto. Mais adiante, no mesmo texto, Paulo vai dizer:

“É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar” (Rm 14:21).

Paulo cita o comer carne e o beber vinho. Nenhuma das duas coisas é proibida por algum mandamento bíblico (por mais que alguém possa argumentar que o ideal é se abster das duas coisas por conta da saúde). Ou seja, o texto todo de Paulo nada tem a ver com discussões a respeito das leis dietéticas. Carnes impuras não são o foco ali. A Bíblia não nos diz qual era a motivação dos irmãos vegetarianos de Roma. Talvez eles acreditassem que comer só legumes os tornava mais santos. Ou também é possível que tivessem medo de comprar carne que tivesse sido sacrificada aos ídolos pelo açougueiro pagão. Neste caso, o problema aqui seria o mesmo tratado por Paulo em I Co 10:25-26: carne oferecida. Qualquer que fosse a motivação, a questão não envolvia carnes impuras da Bíblia, mas sim o vegetarianismo – uma questão de opinião, não de Bíblia.

– Tito 1:15 

“Todas as coisas são puras para os puros; todavia, para os impuros e descrentes, nada é puro. Porque tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas”.

Já vi esse texto ser usado para afirmar que não há mais distinção entre alimentos puros e impuros. O problema é que o texto do qual esse trecho é extraído sequer fala de comida ou bebida. Paulo vem falando, na verdade, de como deveriam ser os presbíteros e os bispos. O apóstolo menciona diversas qualidades imprescindíveis e depois aponta que existiam muitos “insubordinados, palradores frívolos e enganadores, especialmente os da circuncisão” (v. 10). Discorrendo sobre como essas pessoas eram, Paulo arremata: 

“Tal testemunho é exato. Portanto, repreende-os severamente, para que sejam sadios na fé e não se ocupem com fábulas judaicas, nem com mandamentos de homens desviados da verdade” (Tito 1:13-14).

Fábulas judaicas e mandamentos de homens. A tônica de Paulo, mais uma vez, tem a ver com doutrinas extrabíblicas e distorções da Palavra. O mesmo problema que Jesus teve seu ministério inteiro com fariseus e mestres da Torá. Eram invenções humanas. É depois de dizer isso, que Paulo fala que todas as coisas são puras. Em outras palavras, se a regra não é bíblica, nem se pode deduzir explicitamente da Bíblia, não há razão para criar caso. Quem o faz, está a fim de contenda. Ele termina dizendo:

“No tocante a Deus, professam conhecê-lo; entretanto, o negam por suas obras; é por isso que são abomináveis, desobedientes e reprovados para toda boa obra” (Tito 1:16). 

Era exatamente o que faziam os fariseus da época de Jesus. Professavam conhecer a Deus, porém inventavam uma série de regulamentações extrabíblicas que distorciam a essência dos mandamentos de Deus e, então, acusavam quem não as cumpria (como no caso do ritual do lavar as mãos). Isso é, ao mesmo tempo, não amar a Deus e não amar ao próximo. Os que Paulo criticavam tinham essa postura.

Usar o texto de Tito com o pressuposto antijudaico é um tiro no pé. O intérprete que o faz, deseja incluir o que ele quiser no “todas as coisas são puras”, não apenas o que o contexto sugere. Para quê? Para colocar também as “coisas de judeu”. Mas ao fazer isso, acaba tendo que incluir qualquer outra coisa. Se a frase não precisa de contexto, então, podemos incluir bebedeira, adultério e mentira nesse “todas as coisas”, por exemplo. Se sou puro, esses pecados serão puros para mim também. É lógico que isso é ridículo. O apóstolo está falando apenas sobre invenções humanas.

Considerações Finais 

Se nenhum dos contextos das passagens do NT que falam sobre alimentos se refere à distinção bíblica entre alimentos puros e impuros, então por qual motivo a maioria dos cristãos ignora esse preceito? Por conta do pressuposto antijudaico. Pressupõe-se que isso é coisa de judeu e que, por isso, precisa ter sido abolido. Então, qualquer texto que fale sobre alimento precisa incluir o tema.

A mesma coisa é feita em relação ao sábado. Uma vez que o pressuposto antijudaico faz o sábado se tornar “coisa de judeu” e que “coisa de judeu” precisa ter sido abolida, então qualquer texto que fale sobre o sábado pode e deve ser descontextualizado. Assim, textos que criticam o modo legalista como o sábado era guardado por fariseus ou outros grupos serão interpretados como abolição do mandamento. Textos que mostram Jesus sendo acusado pelos mestres de quebrar o sábado serão entendidos como abolição do mandamento (como se o julgamento dos mestres sobre Jesus fosse a verdade). Textos que falam sobre os dias judaicos de festa (que realmente deixaram de ser obrigatórios) serão compreendidos como se referindo também ao sábado. Textos que mencionam qualquer coisa feita no primeiro dia da semana serão vistos como guarda do domingo e, consequentemente, abolição do sábado. A regra básica é ignorar o contexto em prol do pressuposto antijudaico. Não importa o que o contexto diz, mas sim que as “coisas de judeu” precisam ter sido abolidas.

O modelo é seguido em outros assuntos também. No caso da imortalidade da alma, o pressuposto adotado é o platonismo com o qual os pais da Igreja Católica interpretam o NT. E como o NT é usado por esses intérpretes para interpretar o AT, então todos os contextos são forçados para se adequar à ideia; mesmo o imortalismo não fazendo parte do pensamento hebraico bíblico e original. Edifícios bonitos e aparentemente resistentes podem estar fundamentados em solo e bases frágeis. Não adianta criar uma teoria bela, com coerência em seu sistema interno, mas que só foi erguida com base no assassinato de regras básicas de interpretação. Chute a base e o edifício todo desmorona.

O caso da distinção entre alimentos puros e impuros serve de símbolo para demonstrar a importância de uma boa interpretação dos textos bíblicos. O que acontece com esses textos pode acontecer com quaisquer outros. E é fácil não perceber. Os cristãos, em sua maioria, apenas agem de acordo com o hábito. Foram ensinados a interpretar de uma forma e nunca repararam que ela não faz sentido. Assim se criam tradições. E assim as tradições, por muito serem defendidas por muitos e durante séculos, acabam ganhando status de verdade inquestionável.

Quando a tradição se torna uma verdade inquestionável, o confronto dela se torna mais difícil. Sempre alguém dirá algo como: “A maioria dos cristãos defende isso há muitos séculos. Você ousa dizer que todos estão errados e só você seu grupinho esta certo?”. É o que Lutero e os primeiros reformadores ouviram. É o que quem se apega à Bíblia corre o risco de ouvir até a volta de Jesus Cristo. A reforma é (e deve ser) constante. A possibilidade de estar errado sempre existirá. Que estejamos, então, sempre abertos para viver à Sola Scriptura em nossa vida.