Por Davi Caldas

Um argumento muito comum utilizado contra os adventistas do sétimo dia é o de que quem guarda o sábado e crê na distinção entre alimentos puros e impuros, está obrigado a guardar todos os 613 mandamentos da Torá. O objetivo do argumento é chamar os adventistas de hipócritas ou, no mínimo, incoerentes, por não observarem a Torá por completo. O raciocínio está correto? Realmente, guardar o sábado e distinguir alimentos puros de impuros nos obriga a guardar toda a Torá? Não, não esse raciocínio não está correto. Vamos entender melhor a questão nesse texto.

A Torá não foi abolida no sacrifício de Jesus Cristo. O que ocorreu foi que alguns mandamentos de caráter temporário chegaram ao fim de suas funções. Existem duas formas de expressarmos essa verdade. A primeira é afirmando que esses mandamentos temporários agora são cumpridos de outras maneiras. No caso dos que existiam apenas para prefigurar aspectos do sacrifício de Cristo, não possuindo outra finalidade, passam a ser cumpridos no própria morte vicária de Jesus e sua ressurreição. Isso inclui todo o sistema de sacrifícios de animais, os festivais relacionados a esses sacrifícios e os serviços do templo que também tinham relação com os holocaustos (Hb 7:23-28; 9:9-14 e 23-28; 10:1-18). O mandamento da circuncisão, sendo símbolo da fé judaica na vinda do Messias e elemento de distinção enquanto a vinda não se concretizava (Rm 4:9-13), obedece à mesma lógica. Uma vez que esses mandamentos eram meios, não fins, então a morte de Jesus Cristo e sua ressurreição cumprem toda essa parte da Torá. Basta que creiamos nele.

No caso dos mandamentos cuja finalidade era reger civilmente a teocracia judaica, não possuindo outra finalidade, passam a ser cumpridos quando seguimos as leis civis de nosso contexto atual (Mt 22:15-22; Mc 12:13-17 e Lc 20:19-26). A teocracia judaica se torna desnecessária depois que Jesus nos salva na cruz e o Israel étnico, portanto, chega ao fim de sua missão.

Os mandamentos que sobram são aqueles que possuem origem anterior à Torá e não estão relacionados a nada temporário, como à teocracia judaica ou a prefiguração do sacrifício de Cristo. Em geral, esses mandamentos são chamados de morais, embora alguns possam se enquadrar melhor em outras definições. Eles têm a ver com a relação do homem com Deus, com o próximo e com a própria vida. Estão baseados diretamente no amor e em objetivos práticos; portanto, devem continuar sendo praticados por nós. O decálogo é um exemplo dessa espécie de mandamentos. Todos eles têm origem anterior à Torá (conquanto sua formalização escrita tenha sido dada a Moisés) e não possuem ligação exclusiva com a teocracia judaica ou o sacrifício de Cristo.

Assim, nesta primeira perspectiva, cumprimos toda a Torá quando cremos em Cristo e praticamos os mandamentos morais. Não são necessários os 613 mandamentos. De fato, esse é o argumento de Paulo (Rm 13:8-10 e Gl 5:14), o qual ecoa os próprios ensinos de Jesus sobre a essência da Torá e a essência da salvação em seu sacrifício (Mt 22:36-40; Mc 12:28-34; Lc 10:25-28; Jo 13:34-35; Mt 12:7; Jo 17:3; Jo 2:19-22; Jo 3:16).

A segunda maneira de expressar a verdade dos mandamentos temporários é que a Torá, enquanto sistema completo, foi abolida sim. Mas abolir o sistema não significa abolir todos os mandamentos. Um único mandamento abolido que fosse já seria a abolição do sistema, ainda que restassem de pé 612. De fato, muitos dos judeus do primeiro século entendiam a coisa dessa maneira. Para eles, falar que Jesus cumpria grande parte dos mandamentos não satisfazia. Se um único mandamento não é mais praticado, então não estamos mais seguindo o sistema da Torá.

Dentro dessa perspectiva, a aliança firmada por Jesus através de seu sacrifício anula o sistema completo da Torá por cumprir alguns mandamentos dela em si mesmo. Mas, ao mesmo tempo, cria um novo sistema baseado nos mandamentos que restaram. Assim, a Torá gera um novo sistema baseado nela própria. Ele é novo não por apresentar novos mandamentos, mas simplesmente por não possuir mais os mandamentos prefigurativos que foram cumpridos no próprio sacrifício de Cristo e os teocráticos que agora são cumpridos no contexto das leis civis de onde cada pessoa vive.

É essa perspectiva que o apóstolo Paulo usa quando diz que não estamos mais “debaixo da Torá” (Rm 3:19-20, Rm 6:14-15, Gl 3:23-29, Gl 4:1-5, Gl 4:21, Gl 5:18). Ele está se referindo ao sistema completo da Torá, ou ainda, ao contexto em que vigorava o sistema completo da Torá. Por isso, ele afirma em I Co 9:20 que não está debaixo da Torá, mas debaixo da lei de Cristo. A lei de Cristo é a Torá sem os mandamentos temporários. É, portanto, a Torá inscrita nos corações, conforme prometido no AT (Jr 31:31-34; Hb 8:1-13). Isso está em acordo com o fato de que Jesus Cristo retira da própria Torá a essência do seu evangelho (Dt 6:4-5; Lv 19:18; Mt 22:36-40; Mc 12:28-34; Lc 10:25-28) e até seu “novo” mandamento (Jo 13:34-35) é uma variante do que a Torá já ordenava.

Paradoxalmente, o sistema completo da Torá é incompleto, justamente porque seus mandamentos temporários são meios, não fins. O sacrifício do Messias é a finalidade desses rituais e, portanto, o que completa a Torá. É por isso que a volta a esse sistema significava, na prática, uma rejeição de que Jesus Cristo era a finalidade da Torá, não os sacrifícios e rituais com objetivo exclusivamente prefigurativo.

As duas maneiras de expressar estão corretas e não se contradizem. São apenas dois ângulos diferentes da questão. Olhando a Torá em sua casca, em sua superfície, naquilo que é mais visível, seu sistema foi abolido e gerou um novo feito do primeiro. Os 613 mandamentos se transformaram em um conjunto bem menor. Olhando, contudo, a Torá em sua essência, em seu âmago, naquilo que está por baixo da casca, seu sistema foi e está sendo cumprido diariamente, por meio do sacrifício de Jesus Cristo e dos preceitos restantes que nós, através do poder do Espírito Santo, procuramos cumprir.

Nas duas perspectivas, a Torá já nos deu os mandamentos temporários com finalidade temporária. Isso já era previsto. Já estava determinado na própria Torá, na essência dos mandamentos dados. Como Jesus diz, Moisés escreveu a respeito dele (Jo 5:45-47). Em outras palavras, assumir que alguns mandamentos já não serão mais observados como antes, pois chegaram ao seu termo, é seguir a Torá, já que ela mesma prevê e determina que assim devera ser no momento oportuno. É o que Paulo quer dizer quando afirma que pela Torá ele morreu para a Torá (Gl 2:19).

A Bíblia Judaica Completa, do judeu messiânico David H. Stern verte as palavras do apóstolo, em Gálatas 2:19, da seguinte forma: “Ao deixar a Torá falar por si mesma, morri para a interpretação legalista errônea, a fim de viver em um relacionamento sincero com Deus”. Stern está correto. O que Paulo discute no texto é uma interpretação legalista errônea, que entendia mandamentos temporários como fins em si mesmos e, ademais, colocava tradições humanas antibíblicas em pé de igualdade com a Torá (o debate gira em torno do hábito judaico de não comer com gentios, o qual não encontra apoio nas Escrituras, mas apenas na tradição rabínica – Gl 2:11-18).

O que isso tudo nos ensina? Ensina que o fato de guardar alguns mandamentos da Torá não implica a necessidade de guardar os 613 mandamentos. Paulo, de fato, argumenta em Gálatas 5:3 que quem se deixa circuncidar está obrigado a guardar toda a Torá. Mas isso se dá porque a circuncisão é um dos rituais de finalidade temporária. Por isso, no verso 2, ele diz que Cristo nada aproveita para quem crê na circuncisão como fim, não meio. Trocar a finalidade pelo meio é rejeitar a finalidade e idolatrar o meio.

Não obstante, o que se diz aqui da circuncisão não pode ser dito do sábado ou da distinção entre alimentos puros e impuros. Como temos visto em outros textos aqui no blog, o sábado não é, em sua origem, uma instituição civil da teocracia judaica ou um dia exclusivamente prefigurativo do sacrifício de Jesus Cristo. Antes disso, é um dia que foi instituído na criação, antes do pecado e, obviamente, antes de Israel e da Torá (Gn 2:1-3). Da mesma forma, distinção entre alimentos puros e impuros também é anterior a Israel e a Torá (Gn 7:2-9) e não tem relação com a teocracia judaica e o sacrifício de Jesus Cristo. Ademais, como também temos visto nos textos do blog, as passagens do Novo Testamento que supostamente anulam o sábado e a distinção entre alimentos são descontextualizadas pela maioria dos intérpretes anti sabatistas. A interpretação correta, seguindo as regras básicas de interpretação, demonstram que não há base alguma para pensar que tais mandamentos foram incluídos no rol de mandamentos temporários.

Em suma, os adventistas e nenhum outro cristão que siga o sábado e a distinção entre os alimentos puros e impuros está obrigado a guardar os 613 mandamentos. A Bíblia é bastante clara a esse respeito.