Por Davi Caldas

Kéfera Buchmann é uma youtuber que comenta sobre assuntos diversos há alguns anos. A moça foi ao programa “Encontro”, apresentado pela Fátima Bernandes, nesse mês. Lá falou sobre feminismo. Um rapaz da plateia, que não concorda com o modo feminista de lutar pelas suas pautas, foi convidado a dar sua opinião contrária. Normal. Debates são conversas em que se exige o contraditório. Mas o resultado foi lastimável: Kéfera foi grosseira, soberba e mal-educada. Com uma série de chavões feministas, interrompeu o convidado para dizer que ele praticava o maninterrupting (quando um homem interrompe uma mulher, no chavão feminista). Não satisfeita, quando o rapaz tentou explicar seu ponto de vista, ela o acusou de praticar o manexplaining (quando um homem explica algo para uma mulher de forma paternal) e passou a explica-lo de forma paternal (ora vejam!), o que significava o termo.

A cena foi interessante por diversas razões. Kéfera é branca e endinheirada. O rapaz da plateia é mestiço, quase mulato, pobre, morador de Nova Iguaçu. Kéfera reclamou de interrupção, interrompendo. Reclamou de explicação paternal e soberba, explicando paternal e soberbamente. Se colocou como uma heroína da luta pelas mulheres agindo como uma boçal com alguém que não discordava dos direitos femininos, mas da forma como feministas modernas lutam.

Esse é o modus operandi da chamada nova esquerda, a esquerda construída por Gramsci, Adorno, Marcuse, Alinsky, Freire, Foucalt. Temos um problema? Vamos “resolver” pagando na mesma moeda. Se há racismo contra negros, investimos no racismo contra brancos. Se há machismo, investimos em um feminismo que aja com os homens (e com as mulheres que discordam) de maneira tão ou mais tosca que o machismo. E por aí vai.

Na contramão dessa postura baseada apenas em uma luta política (e não na vontade real de resolver problemas), Jesus diz: “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas” (Mt 7:12). Não, isso não é uma postura a ser seguida pelo Estado ou pelo governo. Jesus não está falando de política ou de movimentos ideológicos. Ele está falando sobre nossa vida pessoal, sobre como cada um de nós, como indivíduos, tratamos uns aos outros.

Se desejo ser tratado como um adulto racional e capaz de entender as coisas, devo também dispensar esse tratamento aos outros. Se desejo ser ouvido, preciso ouvir. Se desejo ser respeitado, tenho de respeitar. Se não quero ser interrompido, não posso interromper. Se odeio o racismo e a discriminação, não posso eu mesmo praticar racismo e discriminação contra os outros, ainda que sejam meus oponentes. Se quero realmente debater algo, a ideia de “lugar de fala”, evocada por Kéfera e por tantas feministas, deve ser totalmente rechaçada. Debate implica discussão racional. E qualquer pessoa pode ter razão se souber construir um argumento lógico e verdadeiro.

O que Kéfera faz não é ajudar as mulheres, mas denegrir ainda mais os movimentos que se dizem feministas. Cada vez mais homens e mulheres rechaçam o feminismo por conta de tolices como as ditas por Kéfera. E, apesar disso, nossos jovens continuam caindo nas garras de quem pratica tais absurdos.

Quando fiz faculdade, lembro até hoje, comentei para uma professora que eu discordava da postura racista de alguns negros americanos em relação a brancos. Ela respondeu que às vezes o racismo só pode ser combatido com racismo. O pensamento de minha professora vem sendo ecoado por milênios. É uma das ideias mais populares que existe nesse mundo: lute contra seus inimigos com a mesma injustiça deles. O mundo está cheio de Kéferas por aí anunciando esse falso evangelho, essa falsa teologia. Temos, cada um, a Kéfera nossa de cada dia. Que cada um cuide para não fazer da sua mensagem o nosso evangelho e estilo de vida.