Davi Boechat

O clima festivo das cerimônias de posse do presidente do Brasil Jair Messias Bolsonaro (PSL) e de Wilson Witzel (PSC), governador do estado Rio de Janeiro, não alterou em nada o tom agressivo contra a criminalidade que ambos mantiveram durante as campanhas. Propostas, aliás, controvertidas pra muita gente. Mesmo entre os cristãos, público que em maioria se alinhou a Bolsonaro e Witzel – também professos a fé, sendo o presidente católico e o governador fluminense protestante – desde a campanha, há quem proteste contra medidas estatais que agravem a condição jurídica de criminosos.

Eles evocam a necessidade do perdão contra os malfeitores, muito bem expressa por Jesus em seu Sermão do Monte, onde é registrado: “Eu, porém, lhes digo que não se oponham ao perverso. Se alguém lhe der um tapa na face direita, ofereça também a outra” (Mateus 5:39, NVT). Seriam as medidas contra os criminosos, decisivas no resultado do conturbado segundo turno de outubro que conduziram os governantes aos mandatos assumidos nesta histórica terça-feira (1), incompatíveis com a fé cristã?

Fato é que, em suas respectivas esferas, eles querem que o estado volte a oferecer o prato principal em seu extenso cardápio constitucional: segurança. No sitiado estado do Rio, Witzel promete usar de táticas de guerra, como o ‘abatimento’ de criminosos que portam fuzis, algo comum nas comunidades dominadas pelo tráfico de drogas, além de utilizar aparato tecnológico, como drones israelenses, no combate ao crime. Bolsonaro, não obstante, promete relaxar o regime jurídico para policias que em trabalho venham deixar vítimas e reitera a flexibilização no porte de armas em todo o país.

Ainda candidatos, eles ganharam a simpatia de cristãos, desde simples fiéis até líderes, que expressaram apoio em massa. Não estariam os objetores pacifistas certos em seus apontamentos? Seria uma contradição óbvia e ululante o apoio a atos que supostamente são tão conflitantes com o maior discurso de Cristo?

George R. Knight, teólogo, professor e historiador da Igreja Adventista do Sétimo Dia, diz que não. Em seu livro “No Monte das Bem Aventuranças” (CPB, 2001), o devocional oficial da denominação no país em ano de lançamento, Knight afirma que ao estado não é dado, com base em Mateus 5:39, o dever da omissão. Comentando na página 157 uma das passagens “mais controvertidas do Novo Testamento”, ele explica as palavras de Jesus:

“Alguns acham que essa declaração se aplica ao governo. Assim, “não resistir ao mal” sugere que está errado ter polícia ou exército. […] Será que essa frase quer dizer que é errado resistir a pessoas como Hitler, Stalin ou criminosos secretos? Será que devemos deixar as pessoas cruéis fazer o que quiserem? Alguns acreditam ser assim. Mas é isso que a Bíblia ensina? […] A resposta é que Ele está falando a pessoas cristãs, que estão vivendo de acordo com as bem-aventuranças, e que portanto são mansas e pacificadoras. […] Ele não está falando a governos nacionais ou indivíduos não convertidos que não vivem de acordo com as bem-aventuranças”, diz Knight.

Após afirmar que os preceitos do Sermão do Monte são dirigidos aos indivíduos cristãos em suas consciências pessoais, Knight traz ainda a ideia de que as “autoridades são servos de Deus, para o seu bem” (Romanos 13:4, NVT), devem agir para assegurar a justiça e paz.

“Os governos, em suas funções legais e policiais, estão ainda debaixo da lei de talião. Isso está claro em Romanos 13, onde lemos que os governos não trazem a espada sem motivo. Eles devem “castigar o que pratica o mal” (Verso 4). O exército, a polícia e os tribunais de justiça são necessários em mundo de pecado. E, de acordo com Romanos 13, Deus se utiliza dos governantes para manter a ordem e resistir ao mal. Mas esse não é o papel de cristão individualmente. Não devemos impor a lei com as próprias mãos. Não devem viver uma vida de retaliação”, finaliza o historiador.

Ainda que seja legítima a colocação de pontos de vista divergentes e seja também, muitas vezes, necessária a oposição a planos de governos, ninguém tem licença para realizar para interpretações bíblicas descontextualizadas, parciais e irresponsáveis. De certa maneira, aliás, ao apresentar propostas que visam enrijecer o sistema penal, Bolsonaro e Witzel colocam-se “a serviço de Deus para castigar os que praticam o mal” (Romanos 13:4, NVT).

O título deste artigo, na realidade, não indica nenhum triunfalismo ou messianismo na eleição de Bolsonaro. Diferente do que afirmou a ministra Damares Alves, nomeada para a pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos, não é hora da igreja governar. A realidade é que no presente mundo, isso não acontecerá. Vale lembrar que também foram ministros de Deus para justiça os petistas Lula e Dilma, o tucano Fernando Henrique Cardoso, fisiologistas como Temer, Itamar Franco, Fernando Collor e José Sarney, bem como milhares de ex-deputados e senadores, ministros de governo e também do Superior Tribunal Federal, comandantes de polícias e outras autoridades constituídas em toda a história da República Federativa do Brasil. Todos eles, destaco, ministros de Deus. Agora, se desenvolveram os respectivos trabalhos com eficácia no quesito segurança, os 60 mil homicídios registrados ao ano, média no Brasil há anos, servem como avaliação. Governantes que apontam para as consequências para uma vida criminosa, independente de bandeira ideológica, estão honrando o título concedido pelo apóstolo Paulo em Romanos 13:4.


O Reação Adventista também já publicou a respeito da legítima defesa. Para este texto, podemos sintetizar os argumentos deles nas breves palavras do primeiro adventista B. F. Snook, ditas no contexto da Guerra de Secessão (1860-1865), nos Estados Unidos da América, disse: “Deus jamais disse que devemos ficar quietos e ser assassinados, ou ver nossas famílias massacradas pelas mãos cruéis de rebeldes profanos e ímpios” (salvo engano, a citação encontra-se no livro “Ellen White – Mulher de Visão”, de Arthur L. White).

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil