Davi Boechat

Você não precisa ser fã para saber quando uma banda chega ao fim. A imprensa publica com ênfase o anúncio da separação, apresentando especulações mirabolantes. Vazada de fontes dos bastidores ou saindo da cabeça criativa de jornalistas, os boatos dão conta de inveja, discórdia, problemas financeiros e outras trocas de farpas. Em todo caso, para alegria de alguns seguidores, um dos componentes cedo ou tarde avisa: “Vou seguir carreira solo”.

Acho que essa realidade no mundo artístico é uma boa ilustração para a vida na igreja. Isso porque atualmente, aqui no Brasil, pelo menos quatro milhões de evangélicos decidiram seguir o cristianismo sozinhos[1]. Vale destacar que eles não abandonaram a fé, apenas deixaram igreja.

Alerta Idauro Campos[2], especialista na analise do movimento desigrejado no Brasil, que este fenômeno de autonomia eclesiástica é bem diferente dos cristãos desviados, que deixam a igreja para se engajar na vida de apostasia. Na realidade, esse público numeroso é de cristão sem igreja, mas não sem fidelidade. Como bem expressou Dan Kimball, ex-pastor norte-americano, no título de um de seus livros, “Eles gostam de Jesus, mas não da igreja” (Vida, 2011).

Para efeitos comparativos, se somados, os desigregados – como ficaram conhecidos – chegam a ter quatro vezes o número de membros batizados na Igreja Adventista do Sétimo Dia em nosso país. Por não participarem de denominações nem compartilharem crenças oficialmente, são um fenômeno mais estatístico do que teológico. Apesar disso, os dados dessa anarquia eclesiástica me soam como grito: será mesmo necessário frequentar uma igreja?

É interessante perceber que enquanto os puritanos, alguns séculos atrás, consideravam a ausência no culto um crime, “como ocorreu na teocracia da Nova Inglaterra, onde a “ausência ao ‘ministério da palavra’ era punida com multa” – registrou A. T. Jones (1850–1923) – “Nessa época, quando as pessoas eram obrigadas, sob penalidade, a ir à igreja e ouvir a pregação”[3]. Hoje, desigrejados vão ao outro extremo, considerando a ausência da igreja institucional e seus cultos públicos uma regra.

Para que ir aos cultos?

Para abordar essa questão é necessário um exercício bíblico. Sem ser exaustivo, vou me ater a três versos de Hebreus 10:23-27. Eles não são os únicos em toda a Bíblia a abordar o assunto, mas trazem um bom resumo a respeito da importância da igreja, da reunião e do culto público, realidade não vivida por desigrejados. Para facilitar o entendimento, divido o argumento em três verbos, um contido em cada verso que lemos: apegar (v. 23), motivar (v. 24) e reunir (v. 25).

“Apeguemo-nos firmemente, sem vacilar, à esperança que professamos, porque Deus é fiel para cumprir sua promessa. Pensemos em como motivar uns aos outros na prática do amor e das boas obras. E não deixemos de nos reunir, como fazem alguns, mas encorajemo-nos mutuamente, sobretudo agora que o dia está próximo” (Hebreus 10:23-25, NVT).

Perceba que o autor de Hebreus destaca o fato de eles não deveriam negligenciar a reunião (v. 24), diferente do que alguns já vinham fazendo à época. O fenômeno de cristãos que fogem da reunião pública, portanto, não é novo. A razão para serem frequentes é que durante o encontro os cristãos são encorajados.

Outra coisa que me chama a atenção, em especial, é a ligação entre a comunhão com os irmãos estar relacionada a preparação para a vinda de Jesus. Quanto perto Ele estiver, mais valor deveríamos dar aos cultos públicos (v. 25). Devemos nos manter reunidos para que sejamos animados e dessa forma aguardarmos a volta de nosso Senhor.

O culto também nos torna cristãos melhores. Na medida nos submetemos às exortações, brechas em nossa santidade são reparadas e, como resultado, passamos a produzir frutos dignos de arrependimento. O processo de santificação, portanto, está ligado com a seriedade com que lidamos com o culto. A presença com outros crentes é parte fundamental do aperfeiçoamento da fé cristã.

Os cristãos hebreus, aqueles convertidos após terem vivido no contexto da religião judaica, enfrentavam profundo desânimo. As crescentes perseguições, os tornaram duplamente abatidos. De um lado, enfrentavam a reprovação dos antigos amigos de sinagoga que, após excluí-los do convívio os acusavam de idolatria por caracterizarem a adoração a Jesus como abandono a Yahweh. Entre as implicações da exclusão da sinagoga era a dificuldade financeira, uma vez que ex-integrantes eram proibidos de manter contatos comerciais estabelecidos com judeus.

Já o Império Romano, por não entenderem a dimensão simbólica da ceia, os consideravam canibais. Também por entenderem equivocadamente o uso da expressão “irmãos” quando aplicado a filhos e filhas, os acusavam de incesto. Mas a pior e mais perigosa de todas as acusações era a de traição contra o imperador, afinal, exaltavam um outro rei[4], o que tornava a expressão de sua fé um risco constante a vida.

Considerado que Hebreus tenha sido escrito por volta do ano 60 d.C, o sofrimento deles já durava 30 anos, no contexto da declaração de Hebreus 10 e eles seguiam vivendo sem nenhuma perspectiva para melhora. Em todo esse conturbado contexto, o autor de Hebreus – que não se identifica na carta – aponta a negligência com a adoração coletiva como sendo uma “séria fraqueza [que tornava as] oportunidades de estimular-se ao amor e às boas obras […] severamente limitadas”[5].

A reunião era colocada como importante para eles por fazer lembrar de sua esperança (v. 23). Para nos, ainda hoje, ela faz com que nos apeguemos a Deus e não percamos de vista a esperança depositada nele. Como já dizia Vinicius de Moraes, “é melhor se sofrer junto que viver feliz sozinho”[6].

Aqui vemos que a reunião cristã cumpre papéis papeis verticais e horizontais. Ele é realizado para cima, tendo Deus como alvo, mas causa implicações a quem está ao nosso lado. Fritz Laubach foi cirúrgico ao dizer: “O cristão solitário não tem condições de cumprir o mandamento de amor de Jesus. Por nos impelir à responsabilidade pelo irmão, o amor requer renúncia à liberdade e engajamento pessoal pelo outro. […] Quem se separa levianamente da comunhão dos fiéis tampouco poderá ir com alegria ao encontro do Senhor na volta de Jesus (cf. 1Jo 2.28)”[7].

Na reunião, juntos como unidos como corpo de Cristo, cultuando ao nosso Deus, temos a oportunidade de encorajamento mútuo, acompanhamos a transformação uns dos outros, relembramos de nossa esperança e nos preparamos para o dia da volta de nosso Senhor! A fé cristã tem uma dimensão profundamente coletiva. E precisa assim ser considerada.

Ainda sobre isso, Ellen White comenta: “Alguns tem apresentado a ideia de que, ao aproximarmo-nos do fim do tempo, cada filho de Deus agirá independentemente de qualquer organização religiosa. Mas fui instruída pelo Senhor de que nesta obra não há isso de cada qual ser independente. A medida que nos aproximamos da crise final, em vez de achar menos necessidade de ordem e de harmonia de ação, devemos ser mais sistemáticos do que temos sido agora”[8].

A reunião não é um fim em si mesma

Assim como no caso das bandas, aborrecimentos e decepções são as principais razões para o divórcio entre igreja e desigrejados. Ao menos é o que mostra a jornalista Marília de Camargo César, autora de “Feridos em nome de Deus” (Mundo Cristão, 2003). O livro é resultado de uma exaustiva reportagem que mostra o impacto do abuso espiritual sofrido por pessoas em igrejas que, via de regra, tinham ênfase no dinheiro. Eles enfrentam traumas que não os fizeram descrer em Deus, mas abalaram a relação com seus representantes na terra.

Igrejas como essas em nada cumprem a prescrição de Hebreus. As ênfases nas conquistas materiais direcionavam a esperança desses crentes para as efemeridades da vida, não para a volta de Jesus. A pregação dessas igrejas gerava uma animação que não estava voltada para o crescimento espiritual, mas para a conquista de bens. O apego que produziam não era as promessas de Deus, mas nos desejos do homem. Em situações como essa, pode-se dizer, de forma ainda mais dura, que não houve culto. Portanto, não poderá haver comunhão entre os irmãos, apenas encontro social. Encorajamento e crescimento na verdade, muito menos. Isso explica a razão do desânimo de muitos.

Entre os desigrejados há pessoas verdadeiramente calejadas com a religião. Foram apresentadas a um culto ilegítimo ao Senhor e, por isso, enfrentaram em suas vindas circunstancias que os levaram ao desânimo. Seu desencantamento é justo. No entanto, assim como os primeiros leitores de Hebreus, aqueles que foram motivados a não deixar a igreja, os desagregados precisam reaver a importância da adoração coletiva.

Resgatar a importância da adoração coletiva, da beleza do culto público, é uma necessidade urgente. É preciso que igrejas inteiras foquem no resgate dos desigrejados para igrejas saudáveis e bíblicas que se apeguem as verdadeiras promessas de Deus, em especial a Sua Volta (v. 23), motivem os cristãos a uma vida digna perante Deus (v. 24) e se reúnam para louvá-lo (v. 25).


[1] Tiago Chagas, “Desigrejados já são mais de 4 milhões no Brasil e suscitam debates teológicos entre lideranças”, disponível em: <https://noticias.gospelmais.com.br/desigrejados-milhoes-brasil-debates-96377.html>

[2] Idauro Campos, Desigrejados. Teoria, História e Contradições do Niilismo Eclesiástico, BV Books, 2017

[3] A. T. Jones, “A Lei Dominical Nacional”, Editora dos Pioneiros, p. 71, 2015

[4] Stephen M. Miller, Guia Completo da Bíblia, p. 463, BV Books, 2015

[5] Donald Guthrie, Hebreus: introdução e comentário, p. 202, Viva Nova, 1884

[6] Vinicius de Moraes, Tomara <Disponível em: https://www.letras.mus.br/vinicius-de-moraes/86596&gt;

[7] Fritz Laubach, Comentário Esperança: Carta Aos Hebreus, p. 210, Editora Esperança

[8] Ellen G. White, Eventos Finais, p. 30, Casa Publicadora Brasileira, 2013

Foto: Margory Collins/Library of Congress’s