Por Davi Caldas

O amigo e irmão (em Cristo) Raphael Meza gentilmente leu meu texto “Por que a maioria dos cristãos não crê na distinção bíblica entre alimentos puros e impuros?“. Leu e postou uma réplica, muito educada e bem construída, como é seu costume. Eu analisei o material e estou postando agora a minha tréplica. O leitor pode ler o texto que deu origem à discussão aqui. E a réplica aqui.

Uma distinção pré-mosaica

Meza começa criticando a interpretação que faço de Gênesis 2:2-7, onde concluo que a distinção entre alimentos é anterior à Torá. Ele aponta três problemas na interpretação, os quais passo a analisar agora.

1) A liberação de Gn 9:3

O primeiro problema é que em Gênesis 9:3, Deus afirma para Noé e sua família: “Tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento; como vos dei a erva verde, tudo vos dou agora”. Para Meza, o trecho contradiz meu entendimento de Gênesis 2:2-7. Mas essa é uma conclusão apressada. Vejamos.

Há duas formas possíveis de interpretar Gênesis 9:3. A primeira, que é coerente com outras passagens bíblicas sobre alimentos puros e impuros, incluindo Gn 7:2-9, é a de que o “tudo o que se move e vive” está relacionado ao que era puro. Esse conhecimento estaria pressuposto no texto como uma obviedade para quem já sabia que alguns tipos de carne não eram comestíveis. Um possível indício disso está em Gênesis 8:20, onde vemos que Noé tem o cuidado de sacrificar animais limpos a Deus, mesmo sem haver qualquer passagem anterior em que Deus ordenasse esse cuidado. Uma vez que Moisés, autor do livro de Gênesis, fala nos demais livros que os animais impuros eram inapropriados tanto para sacrifício a Deus, quanto para alimentação, é natural interpretar Gn 9:3 como já pressupondo este entendimento.

Corroborando com essa interpretação, podemos dizer aqui que é um erro clássico tomar assertivas bíblicas como absolutas só porque, isoladamente, os termos utilizados são absolutos. Por exemplo, Jesus Cristo afirma que TUDO o que pedirmos em oração, receberemos (Mt 21:22). A passagem de Tito 1:15 diz que TODAS as coisas são puras para os puros. Jó diz que o homem morre e JAMAIS levantará da sepultura (Jó 14:12). E eu poderia citar aqui mais dezenas de textos nesse sentido. Não os absolutizamos porque sabemos que eles pressupõem conhecimentos prévios alcançados por meio de uma leitura da Bíblia como um todo. Então, é perfeitamente possível que esse seja o caso de Gênesis 9:3.

A outra maneira de interpretar é a de que Deus liberou todos os alimentos (até os inapropriados para consumo) por um tempo, provavelmente porque havia ainda poucos animais disponíveis após o dilúvio. Às vezes, na Bíblia, Deus permitiu e tolerou práticas que não eram o seu ideal, tal como bigamia, poligamia, divórcio, escravidão, etc. O sistema monárquico em Israel também serve de exemplo, pois não era o ideal de Deus, embora Ele o tenha permitido e criado regras a respeito. Até o relacionamento entre irmãos de sangue só recebeu proibição de Deus centenas de anos depois da criação do ser humano. Assim, é perfeitamente possível que Deus tenha feito isso em relação aos alimentos, pretendendo iniciar um retorno ao ideal mais para frente. Devemos lembrar, aliás, que leis dietéticas são um meio para uma vida mais saudável, não um fim em si mesmo. Então, em determinadas circunstâncias, uma alimentação não ideal pode ser tolerável se isso for preservar a vida (que é a finalidade última).

Qualquer uma das duas hipóteses não destrói o entendimento de que Deus falou para Noé sobre animais puros e impuros, o que implica que Noé, em algum momento da vida, soube dessa distinção. E isso, evidentemente, ocorreu antes da Torá. Assim, a distinção já existia.

2) A relação entre Gênesis, Levítico e Deuteronômio

O segundo problema mencionado por Meza em minha interpretação de Gênesis 7:2-9 é que, segundo ele, não é possível afirmar que os alimentos puros e impuros de Gn 7 tem relação com a lista de alimentos puros e impuros de Lv 11 e Dt 14. A afirmação de Meza é estranha. Ele procura dissociar Gn 7 do restante da Torá com base na falta de explicação detalhada em Gn 7 do que eram os alimentos puros e impuros. Ocorre que os três livros foram escritos pelo mesmo autor (Moisés), em um mesmo idioma, período e contexto histórico-cultural, para um mesmo público e com um mesmo objetivo. Os três livros, mais Êxodo e Números, formam um compêndio integrado que é e sempre foi a base das Escrituras judaicas até os tempos de Jesus.

Ademais, o livro de Gênesis possui uma estrutura específica de resumo e apresentação das origens de alguns preceitos. Essa estrutura consiste em uma narrativa que não detalha muito, mas oferece pinceladas em temas que serão retomados posteriormente, em detalhe, nos demais livros. É o que ocorre nas narrativas da santificação do sétimo dia, dos sacrifícios, da circuncisão, dos dízimos sacerdotais, etc. Todos esses tópicos são mais bem explicados e elaborados nos demais livros.

Quando considerados esses pontos, é estranho dissociar Gn 7 de Lv 11e Dt 14. É muito mais natural entender que os alimentos puros e impuros que Moisés cita como já conhecidos por Noé em Gênesis 7:2-9 são os que ele detalha nos demais livros. É bem mais plausível sustentar que Moisés mencionou a distinção pensando no conteúdo que iria escrever em Levítico 11 e Deuteronômio 14. Essa é uma interpretação, aliás, baseada no princípio interpretativo de que a Bíblia explica a si mesmo e cada passagem deve ser entendida à luz de outras. Assim, Gênesis 7 é explicado e ampliado por Levítico 11 e Deuteronômio 14. Faz mais sentido interpretar Gn 7 à luz de Lv 11 e Dt 14 do que interpretar à luz de especulações. Ainda mais quando todos os textos foram escritos pelo mesmo autor, no mesmo idioma, época e contexto, para o mesmo público-alvo e com o mesmo objetivo.

Ora, o texto de Gn 7 nos permite concluir sem sombra de dúvida que (1) Noé aprendeu a distinção entre alimentos puros e impuros em algum momento da sua vida antes do dilúvio (talvez pela boca do próprio Deus, embora Moisés não forneça esse detalhe na narrativa de Gênesis) e (2) os leitores de Moisés tinham como saber do que ele estava falando em Gn 7, fosse porque a distinção já era conhecida desde a época de Noé, fosse porque Moisés detalhou o que eram os alimentos puros e impuros nos demais livros.

Meza conclui essa segunda critica da seguinte maneira:

“O uso dessa passagem para sustentar a obediência à dieta mosaica é um salto lógico infundado. No mais, a circuncisão também é anterior à Lei de Moisés, e já existia antes de Abraão; alguém ai quer entrar na faca?”.

Em primeiro lugar, não há nenhum salto lógico. Vamos pensar como hebreus da época de Moisés. Estamos lendo Gênesis. Se sabemos que existe distinção entre alimentos e o próprio Moisés fala sobre isso, obviamente entenderemos que é a essa distinção que Gn 7, escrito por Moisés, se refere. Se não sabemos que existe a distinção, nossa dúvida sobre a que se refere Moisés em Gn 7 será respondida quando lermos os demais livros do autor. Isso não só é lógico, como é assim que se estuda a Bíblia.

Em segundo lugar, Meza comete, de maneira sutil, a chamada “falácia do espantalho” ao insinuar que a razão para os adventistas crerem na distinção entre alimentos puros e impuros é tão somente ser anterior à Torá. Isso, evidentemente, daria legitimidade à imposição da circuncisão, já que ela também é anterior à Torá. Mas não é essa a base adventista. O que o adventismo afirma é que a distinção não pode ser tratada como lei exclusivamente mosaica. Assim, o ataque à sua vigência deve ser feito com base em algo além do que argumentos baseados na abolição da lei mosaica.

3) O significado de puro e impuro

O terceiro problema levantado por Meza é o de que os adventistas seriam ignorantes “em relação ao próprio significado de ‘puro’ e ‘impuro’ na Lei”. Ele cita um teólogo para dizer que a lei pode ser vista a partir de três aspectos: moral, civil e cerimonial. Ao explicar que tipos de lei se enquadrariam em cada aspecto, afirma:

“[…] a lei cerimonial se trata dos mandamentos relacionados à religião judaica. Ela inclui inúmeros sacrifícios, mas também o conceito de ‘puro’ e ‘impuro’. Ao tratar da dieta judaica, adventistas tendem a entender a pureza como sinônimo de limpeza, higiene, saúde ou até santidade. Mas uma leitura atenta às passagens que tratam de coisas consideradas puras e de coisas consideradas impuras claramente demonstra que o impuro não era necessariamente sujo, prejudicial ou pecaminoso. A pureza significava que o adorador estava cerimonialmente qualificado para participar do culto ao Senhor. Cuidar de mortos ou dar à luz, por exemplo, deixavam a pessoa impura. Se não devemos comer alimentos impuros porque a lei os torna impuros, nossas mulheres também não devem gerar filhos”. 

Há três pontos muito questionáveis aqui. O primeiro é que Meza faz uso de uma visão comum bastante arbitrária sobre a lei: a de que ela é dividida em três. Embora esse método tenha valor pedagógico e sirva para nos orientar em relação ao que da Torá foi cumprido na obra redentora de Cristo (tipo x antítipo) e o que permanece para nós observarmos, é arbitrário enxergar essas divisões como objetos muito bem definidos na e pela própria Bíblia. Tal visão tem sido questionada até mesmo por alguns reformados contemporâneos. O fato é que as leis da Torá eram muito variadas e bastante mescladas, de modo que é possível dividir a lei em diversos aspectos, não necessariamente três, ou quatro, ou cinco. Assim, fincar três aspectos, entender isso como um fato bíblico (ou quase isso) e jogar as leis dietéticas no saco das que foram abolidas é algo, no mínimo, perigoso em termos interpretativos.

O segundo ponto (e que complementa o primeiro) é que o fato de as leis da Torá serem descritas sempre com forte linguagem religiosa não implica que algumas delas não possuem objetivos voltados para saúde ou higiene. Os mandamentos da Torá eram geralmente revestidos de linguagem religiosa porque que Israel vivia numa teocracia e o conceito de Estado laico era totalmente estranho ao mundo da época. Assim, mesmo mandamentos civis ou higiênicos são revestidos de termos ritualísticos/espirituais e usados também como símbolos. As coisas espirituais andavam mescladas com assuntos do Estado e da vida privada. Um exemplo clássico está em Dt 23:12-14, que diz:

“Também haverá um lugar fora do acampamento, para onde irás. Dentre as tuas armas terás um porrete; e, quando te abaixares fora, cavarás com ele e, volvendo-te, cobrirás o que defecaste. Porquanto o SENHOR, teu Deus, anda no meio do teu acampamento para te livrar e para entregar-te os teus inimigos; portanto, o teu acampamento será santo, para que ele não veja em ti coisa indecente e se aparte de ti”.

Essa lei é claramente de cunho higiênico. Deus não queria que o exército fizesse suas necessidades de uma forma que pudesse levar contaminação às pessoas. Mas a linguagem do mandamento é totalmente religiosa, como se as fezes fossem algo que ofendessem o Senhor no sentido moral. É claro que a partir dessa essência higiênica é possível criar um símbolo espiritual com o objetivo de distinguir o povo hebreu dos demais e exaltar a santidade divina através de algo visível. Mas existe uma essência higiênica ali. O símbolo surge por conta dessa essência. Assim, em uma lei revestida de simbologias, pode haver sempre uma essência prática que deve continuar a ser seguida mesmo após a queda do símbolo. No caso dessa lei de Deuteronômio 23, o que fica para nós é que não devemos depositar nossas fezes em qualquer lugar. Isso pode nos contaminar. Embora não seja uma lei de caráter moral, é uma lei higiênica que todos deveriam seguir, pois nos expor à contaminações sem necessidade é algo que ataca o nosso corpo. E isso sim não é correto aos olhos de Deus.

O terceiro ponto é que quando falamos de leis de pureza e impureza na Torá, devemos perceber que há dois tipos de impureza: a adquirida e a permanente. O teólogo Elias Brasil de Souza, especialista em Antigo Testamento, explica:

“As impurezas derivadas de emissões corporais e de cadáveres pertencem, claramente, à categoria de impurezas adquiridas. Conforme o texto bíblico mostra, as impurezas de emissões corporais eram removidas pela passagem do tempo (cp. Lv 15:1–33; 12:1–8) ou por meio de algum ritual de purificação. Mesmo a impureza adquirida pelo contato com um cadáver poderia ser removida por meio de um ritual envolvendo as cinzas de uma novilha vermelha (Nm 19). Parece, claro, então, que essas impurezas eram cerimoniais por natureza. Sendo o caso, elas foram anuladas pelo sacrifício de Cristo na cruz. De fato, o sistema cerimonial como um todo, realizado em conexão com o tabernáculo, encontrava o seu cumprimento em Cristo e não está mais vigente aos filhos de Deus (Ef 2:15; Cl 2:13–14)” [1]. 

Ele continua adiante:

“Os animais impuros mencionados em Levítico 11, conforme destacado anteriormente, pertencem a uma categoria diferente de impureza. Esta última tem sido denominada, apropriadamente, de impureza ‘permanente’. Uma impureza permanente está fundamentada na ordem da criação. Consequentemente, animais impuros continuam eternamente impuros e são, portanto, impróprios para o consumo humano. Eles são impuros em razão da forma como eles foram criados. É importante destacar que não há rituais de purificação que foram prescritos para purificar um animal impuro. Tem sido demonstrado que a terminologia, e a estrutura conceitual de Levítico 11, vem desde a criação, conforme indicado por uma série de paralelos conceituais e verbais conjuntamente ao relato de Gênesis da criação. Portanto, podemos concluir que este tipo de impureza não é cerimonial, mas está fundamentada na ordem da criação. De fato, a distinção entre animais puros e impuros já estava vigente no tempo de Noé (Gn 7:2–3). E isto, obviamente, fora muito antes da criação do sistema cerimonial hebraico centrado no tabernáculo. Ademais, a legislação de alimentos impuros não fora revogada no Novo Testamento. De fato, Atos 15 confirma a validade das leis alimentares por meio da proibição de comer sangue” (Ênfase minha) [2]. 

É por essa razão que não faz sentido comparar a questão dos alimentos puros e impuros com impurezas do tipo “adquiridas” da Torá. São questões de natureza diferentes. E é por isso que a primeira distinção é pré-mosaica. Ela vai além dos mandamentos que foram projetados apenas como símbolos a serem cumpridos em Cristo.

O problema do “mas também”

Meza, após criticar minha interpretação de Gn 7:2-9, se volta para a minhas análises de Marcos 7. Sobre o texto de Marcos 7, ele afirma:

“Concordo que Jesus não esteja, de fato, abolindo as leis dietéticas do Antigo Testamento. Contudo, como diz o Expositor’s Bible Commentary, uma vez que Cristo diz que os alimentos não têm, em si mesmos, a capacidade de purificar ou poluir espiritualmente o homem, isso significa que certos aspectos da Lei são convencionais, não enraizados nas distinções eternas entre o certo e o errado, mas artificiais”. 

Aqui, o que se faz é exatamente o que combato no meu texto: descontextualização. A passagem fala sobre a tradição do lavar as mãos, em um contexto judaico de discussão da Halacká (o que era bem comum à época) e onde em nenhum momento a lei é o tema central do texto. Ainda assim, Meza e o comentário bíblico citado forçam a barra para o texto falar também sobre aspectos a Lei e concluir que alguns desses aspectos são “convencionais” e “artificiais”. Concluir isso de um texto que nem de Lei fala é um feito e tanto. A conclusão claramente não é tirada do texto, mas imputada no texto. A fala de Jesus é esticada para outros contextos distintos. Meza continua:

“Jesus está em um momento de transição entre o Antigo e o Novo Testamento, Ele está preparando a nova aliança. Portanto, devemos enxergar essa fala Dele no contexto imediato de conflito entre as tradições inventadas por homens e a Palavra de Deus, mas também devemos enxergá-la no contexto mais amplo da preocupação do Evangelho de Marcos em mostrar que o Reino de Deus está acima e além da Lei de Moisés”. 

O “mas também” é o grande problema em todas as interpretações que analisei no meu primeiro texto sobre o assunto. A passagem diz “X”. Mas por conta de um pressuposto, o intérprete enfia um “mas também Y”. O tema de Jesus em Marcos 7 (e, por tabela, Mateus 15) não é Lei de Moisés. Ao contrário, ele exalta a Lei de Deus (a qual oi formalizada para o povo de Israel por Moisés), citando o mandamento de honrar os pais e criticando os fariseus que não o faziam por conta de tradição. Então, não só não é o tema de Jesus “mostrar que o Reino de Deus está acima da Lei”, como ele faz questão de exaltar a Lei. Não dá para ir além do que o texto está dizendo.

O lugar das leis dietéticas

Mais adiante, depois de citar o caso da mulher gentia que teve sua filha possessa curada por Jesus – história narrada alguns versos depois, em Marcos, e também em Mateus –, Meza diz:

“Esse relato […] está demonstrando que a fé supera tudo. As leis dietéticas, e todos os mandamentos cerimoniais, eram apenas sombras comparadas com a realidade. Essa mulher entendeu a realidade. Deus agiu salvadoramente na vida dela, mesmo ela não seguindo as leis dietéticas ainda no Antigo Testamento”. 

Essa correlação é estranha. Meza parece supor que crer na distinção entre alimentos implica crer que quem não segue não pode receber a ação salvadora de Jesus em sua vida; que de alguma forma Jesus só poderia agir na vida daqueles que seguem as leis dietéticas. Mas não há razão para se pensar assim. Uma vez que (1) a salvação é pela graça, mediante a fé e que (2) a distinção entre alimentos é uma questão bem menos prioritária que questões morais, não faz sentido entender o preceito como condição para receber favor divino. Em outro ponto adiante, Meza diz:

“E, considerando o que Jesus diz sobre a alimentação em geral, podemos inferir que, ainda que a alimentação mosaica fosse recomendável, não poderíamos dizer que comer alimentos que a Lei considerasse impuros seja pecado na nova aliança, porque também não era pecado na antiga. Os alimentos impuros tornavam o crente impróprio para a adoração, mas não traziam, necessariamente, qualquer impureza física ou espiritual”. 

Percebe-se aqui uma aparente dificuldade de Meza em compreender de que forma não observar a distinção entre alimentos puros e impuros poderia ser um pecado ou tornar uma pessoa impura; e observar poderia ser um sinal de santidade. Ele vai repetir esse pensamento em um comentário mais à frente sobre o texto de Atos 15, dizendo:

“Nós podemos ver certas práticas como sinais de conversão, como manifestações de santidade em uma pessoa; por exemplo, podemos considerar um sujeito que tinha uma vida sexual ativa antes do casamento e depois deixa de as ter como um provável convertido. Alguém que adorava imagens e então as destrói, provavelmente é um convertido. Mas não há qualquer relação entre santidade e não comer esse ou aquele alimento. Os gentios que se convertessem a Deus e não seguissem a dieta judaica não perdiam nada. Isso foi consentido por ‘toda a Igreja’ (v.22) e confirmado pelo Espírito Santo com ‘sinais e prodígios’ (v.12)”. 

Dois pontos devem ser observados aqui. O primeiro é que qualquer ordem do Senhor, por mais bizarra que possa parecer a princípio, deve ser cumprida. Neste sentido, a manifestação de santidade está, em primeiro lugar, não no que se faz, mas na obediência a Deus (seja lá qual fora a ordem). Da mesma forma, o pecado está, em primeiro lugar, não na prática de um ato, mas na desobediência que o mesmo envolve. Assim, quando Deus ordenou que Adão e Eva não comessem do fruto da árvore do conhecimento do bem o do mal, o pecado não estava no ato de comer um fruto, mas de desobedecer uma ordem divina. A questão, portanto, não é se o ato tem diretamente alguma relevância moral, mas se há alguma ordem de Deus vigente sobre o ato.

Comer alimentos considerados impuros por Deus não é algo errado por se relacionar diretamente com questões morais. É errado porque Deus proibiu. Da mesma forma, ser batizado e tomar da santa ceia devem ser práticas observadas pelos cristãos não porque tenham relação direta com a moralidade, mas porque Deus ordenou. Isso não quer dizer que Deus dê ordens sem sentido, mas sim que não devemos descartar ordens divinas apenas por elas não terem relação direta com preceitos morais.

Isso modifica bastante o modo como entendemos pecado. Pecado não é só transgressão a leis morais. Pecado é qualquer transgressão a ordens divinas. Mais que isso: pecado é qualquer ato que fira a vontade de Deus. Portanto, comer alimentos impuros pode ser sim algo errado mesmo que não relacionado diretamente à moralidade – contanto que haja ordem divina nesse sentido. No Antigo Testamento havia. E Yahweh chamava de abominação a prática (Is 65:3-4 e 66:17).

Infelizmente, a constatação de que pecado é algo bem abrangente muitas vezes leva pessoas ao extremo do perfeccionismo. Estes criam um relacionamento com Deus baseado em paranoia, salvação pelas obras (na prática), listas mecânicas de certo e errado, preocupação excessiva com micropecados, julgamentos ao próximo, perda de senso das proporções, cegueira quanto à essência do evangelho e da Palavra de Deus e obliteração da graça divina. Essa era a postura de Martinho Lutero antes de se deparar com a maravilhosa mensagem da salvação pela graça, mediante a fé (e, por conseguinte, da santificação via poder do Espírito Santo).

Contra a postura perfeccionista, o teólogo George Knight explica que Deus não está muito preocupado com pecados (com p minúsculo), mas sim com o Pecado (com p maiúsculo). O Pecado é o afastamento de Deus, que causa e gera um amor distorcido. O amor distorcido é aquele que coloca a si mesmo acima de Deus (e muitas vezes, do próximo). É daí que surgem todos os pecados (com p minúsculo). Eles são efeitos. A causa é o que realmente preocupa.

Quando focamos nos efeitos, não na causa, tornamo-nos legalistas, paranoicos, inúteis e incapazes de entendemos a essência da salvação, da santificação e da Lei. Já quando focamos na causa e em quem pode resolver o problema (Cristo), então compreendemos que Deus nos salva da rebelião contra Ele, não de atos; que nos santifica a partir do macro, não do micro; que a essência da Lei é o amor a Deus e ao próximo. Isso livra o indivíduo da paranoia e de uma religião autocentrada. O indivíduo apenas busca amar mais. E o amor leva naturalmente a honrar mais a Deus, sem paranoia, dentro do seu tempo, consciência e sensibilidade progressiva – sempre na força do Espírito Santo.

Isso nos leva ao segundo ponto. Dentro do escopo da santificação, a alimentação não ocupa, nem deve ocupar lugar central. A comida não está relacionada diretamente à moral, tampouco é um condutor tal. Por outro lado, isso não tira sua importância. Uma vez que seu objetivo seja uma boa saúde, isso sem dúvida é uma maneira de honrar a Deus e possui uma relação indireta com a moral. Não é difícil enxergar isso. Qualquer cristão concordará que atos como se mutilar (sem razão plausível), cometer suicídio ou se colocar sob riscos desnecessários são formas de tentar a Deus e, por conseguinte, pecados. Isso porque nosso corpo não é nosso, mas pertence a nosso Senhor. O apóstolo Paulo utiliza argumento semelhante para enfatizar o pecado das relações sexuais com meretrizes: somos templos do Espírito Santo (I Co 6:18-20). Ou seja, não devemos destruir nosso corpo ou usá-lo de maneira que desonre a Deus.

Sem dúvida, uma má alimentação e/ou perigosa não é uma forma de honrar a Deus e cuidar bem do templo do Espírito Santo. E isso pode trazer consequências em diversas áreas mais importantes. Se nos alimentamos mal, estamos bem mais sujeitos a doenças, envelhecimento ruim e morte prematura. Isso pode afetar nossa vida de adoração, nossa capacidade e disposição para a obra de Deus e a felicidade dos nossos familiares e amigos próximos.

Não obstante, mesmo com essas implicações indiretas, ressalto que a questão da comida não é e jamais pode ser tratada como um fator moral. Há coisas muito mais importantes que a distinção entre alimentos e o cuidado com a saúde. Ademais, diversos ótimos cristãos passam a vida inteira com pouco ou nenhum cuidado com a saúde. Isso porque essa consciência exige uma sensibilidade muito específica e alta para o tema. Não só é algo difícil de se assimilar, como também o próprio Deus não coloca como prioridade na vida da maioria. O processo de santificação que Deus implementa em cada pessoa difere de caso para caso. Em cada indivíduo, Deus possui um conjunto de prioridades a serem perseguidas, além de uma ordem e tempo diferentes para o aprendizado.

Não tenho dúvidas de que para alguns, conscientizar sobre a saúde sequer esteve nos planos de Deus, pois seria um grande gasto de tempo e com pouco retorno. Não tenho dúvidas também que entre estimular formas diretas de amor a Deus e ao próximo e estimular o cuidado com a saúde, precisando escolher, Deus optará pelas formas mais diretas de amor. Um homem pode se cuidar muito bem, mas ser egoísta, ou rancoroso, ou blasfemo, ou idólatra. Já outro pode ter dificuldade com os cuidados do seu corpo, mas ser extremamente amoroso para com o próximo e temente a Deus. Se é preciso escolher, Deus tem, obviamente, senso de prioridade e proporção. Mas nada disso anula a importância de cuidar do corpo.

O mesmo pode ser dito em relação ao intelecto. Deus nos chama para cuidarmos do intelecto, sendo racionais, estudiosos, sábios. Isso traz proveito para a obra de Deus, para o nosso próximo e é uma forma de honrar ao Senhor (de quem somos imagem e semelhança), pois Ele é o Senhor da Razão. Mas entre estimular o cuidado com o estudo e outras formas mais diretas de amor, Deus optará pelas formas mais diretas de amor. É melhor um ignorante amoroso e humilde do que um intelectual soberbo e negligente.

Em suma, os cuidados com a mente e o corpo são e devem ser subservientes às formas mais diretas de amar a Deus e ao próximo. Por essa razão, mesmo elas sendo relevantes e devendo ser estimuladas pela Igreja, a fim de criarmos um povo mais saudável física e intelectualmente, honrando a Deus, tais questões não podem ser equiparadas a outras mais importantes. Feita essa distinção, podemos afirmar sem problemas que cuidar mal da saúde é pecado, mas não no mesmo nível de pecados diretamente morais.

Mais extrapolações

A seguir, Meza faz uma análise sobre Atos 10. Ele faz um resumo do capítulo e cita as palavras de Pedro nos versos 28-29:

“Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de outra raça; mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou imundo; por isso, uma vez chamado, vim sem vacilar”.

Em seu comentário sobre a passagem, Meza diz: 

“Esta afirmação de Pedro nos faz entender qual era, afinal, o propósito último das leis dietéticas. Elas apontavam para Cristo (como todas as cerimônias do Antigo Testamento) simbolizando a separação entre os judeus e os gentios. Os animais puros representavam os judeus (e, por isso, também podiam ser usado nos sacrifícios como representantes dos judeus) e os impuros representavam os gentios. Estes comiam todo tipo de animal, com poucas restrições, enquanto os judeus eram bastante separados deles por sua dieta. A dieta, como as outras cerimônias, distinguia claramente quem era judeu de verdade de quem não era, tal como, em alguns lugares na Idade Média, penduravam-se cabeças de porco para deixar bem claro que não havia nenhum judeu ali”. 

O problema da interpretação de Meza é que, mais uma vez, ela não se baseia no que o texto diz. Note: (1) o ensino central da passagem não é sobre alimentos puros e impuros, mas sobre a pregação do evangelho aos gentios; (2) o texto não diz, nem insinua, que em toda a história do sistema ritualístico judaico os animais impuros simbolizavam os gentios e foram instituídos com este fim – diz apenas que naquele sonho específico de Pedro, os animais impuros possuíam essa finalidade simbólica; (3) o ensino que Pedro recebe de Deus em sonho vem por meio de uma parábola. Parábolas não são textos doutrinários amplos, mas histórias nas quais alguns elementos são utilizados para sublinhar um ensino pontual. É altamente reprovável tentar interpretar cada detalhe de uma parábola, indo além do ensino central intentado.

Em resumo, pelas regras básicas de interpretação que qualquer estudante de seminário aprende nas primeiras aulas, não dá para extrair a teologia sistemática que Meza extrai a partir de Atos 10. Uma vez que o texto de Atos 10 deixa claro que o assunto não era alimentos puros e impuros, mas sim a visão preconceituosa de judeus em relação a gentios, não podemos extrapolar o que o texto diz e criar uma espécie de Epístola aos Hebreus 2.0 em cima do capítulo. Não devemos fazer uso do “mas também”.

O Concílio de Jerusalém

Mais adiante, Meza fala sobre o Concílio de Jerusalém (Atos 15) para endossar suas visões. Curiosamente, ao citar as quatro proibições apostólicas escritas para os gentios, afirma:

“Aqui temos um problema para a minha posição, porque a Igreja ordenou aos gentios que não comessem da carne de animais sufocados e do sangue, o que é uma lei dietética. Eu poderia considerar que essa lei dietética é moral, não cerimonial (a proibição de se comer o sangue realmente aparece de forma clara antes da lei, ao contrário da distinção de alimentos puros e impuros). Mas mesmo isso pode ter outras explicações. Talvez isso era necessário naquele momento de transição, para não escandalizar os judeus, como um tipo de misericórdia para irmãos mais fracos. “Destas coisas fareis bem se vos guardardes”, diz o versículo 29. Ainda que possamos considerar a abstinência imposta aos gentios uma ordem, quando o texto fala “pareceu bem” dá a entender que a necessidade disso estava relacionada ao estado daquele tempo, de modo que os gentios e os judeus pudessem viver juntos mais pacificamente, com menos oportunidade de brigar. 

Meza apresenta duas possíveis explicações para a questão do comer sangue ser proibido no Concílio. A primeira é que a proibição era moral. Mas fica difícil ver isso como moral dentro da concepção adotada por Meza. Afinal, o aspecto moral da lei incluía relacionamento com Deus e o próximo, tendo como resumo o decálogo. Comer ou não sangue não se enquadra bem aqui.

A segunda explicação é que a restrição era cerimonial, mas apenas um conselho para não escandalizar irmãos judeus. Um dos indícios seria o “pareceu bem” no texto da carta, que dá a impressão não de imposição, mas conselho. Uma dificuldade aqui é que dentre as restrições, há as relações sexuais ilícitas. E essas também estão dentro do “pareceu bem”. Não há como dissociar. Se relaxo para uma das regras, tenho que relaxar para todas. Outra dificuldade é que dificilmente os apóstolos resolveriam o problema da imposição de rituais impondo outros rituais. Se o problema incluía, como Meza prece crer, imposição de regras alimentares da Torá e todas essas são iguais em sua natureza, seria contraditório os apóstolos escolherem algumas para impor no lugar de outras. Ainda outra dificuldade é que não escandalizaria menos aos irmãos judeus um gentio que não comesse sangue, mas comesse porco. Daria no mesmo.

O mais natural é entender que realmente os apóstolos consideraram a lei ainda válida. E isso cria um problema para as teses de Meza, pois não comer sangue era lei alimentar tanto quanto a distinção entre alimentos. Por que uma seria preferível à outra? E por que ela não poderia ter sido citada como um exemplo, resumo, símbolo e ponto de partida para as demais? São bons questionamentos.

Contradições fictícias

Meza se esforça para emplacar a ideia de que a lei de Cristo (debaixo da qual estamos) é a lei do amor e que, não obstante, quando deixamos de comer algo impuro não estamos amando ninguém. Ele questiona: “A quem você está amando, quando deixa de comer algum alimento que considera impuro? A Deus certamente que não é, pois Paulo deixou bem claro que o alimento não pode nos recomendar a Deus”.

De forma direta, comida não causa bem nem mal no sentido moral/espiritual. E é nisso que Paulo está pensando. O contexto é sobre comida sacrificada aos ídolos. Paulo quer mostrar que comer ou não comer em si não altera em nada o caráter de uma pessoa. Até aí, tudo certo. O problema é quando tentamos expandir o que foi dito em um contexto e sentido para outros contextos e sentidos distintos do original. Acabamos fazendo o autor falar coisas que não tem lógica. De forma indireta, por exemplo, uma má alimentação pode causar mal físico. E se fazemos isso de maneira consciente, estamos com ciência causando mal a um corpo que não é nosso, mas do Senhor. E isso pode atrapalhar nosso trabalho para Deus, além de não honrá-lo como dono do nosso corpo. Temos aqui, então, uma contradição com Paulo? Não, pois não era sobre isso que Paulo falava em sua carta aos coríntios. Por isso, devemos respeitar os contextos de cada texto, caso contrário, criamos contradições fictícias.

É interessante notar que, embora a ciência e a medicina fossem pouco avançadas nas épocas bíblicas, motivo pelo qual os autores bíblicos praticamente não fazem análises sobre cuidados com o corpo físico e prevenção de doenças, a Bíblia parece vincular uma alimentação mais natural com a boa saúde. Em Daniel 1, quando o profeta e seus amigos resolvem não se contaminar com as comidas reais, provavelmente havia dois problemas ali: (1) comida sacrificada a ídolos e (2) carnes imundas. A intenção dos quatro hebreus era apenas obedecer a Deus num sentido espiritual. Contudo, o texto ensina que a prática alimentar adotada pelos quatro hebreus tinha maior potencial de oferecer boa saúde (Dn1:8-21). Por mais que se possa incluir o elemento sobrenatural na história, é fato que uma alimentação mais natural é mais saudável e se aproxima da dieta de Gênesis, ideal de Deus para o organismo humano.

O ensino de Daniel 1, portanto, é que quando confiamos em Deus, incluindo em suas prescrições alimentares, temos mais chance de desenvolvermos boa saúde. E isso pode ter ótimas implicações para nossa vida espiritual, testemunho diante dos homens e obra divina na terra. De fato, Daniel e seus amigos ganharam em todas essas áreas.

Santificados pela Palavra e ações de graças 

Ao avaliar minha interpretação de Tito, Meza afirma que fiz “uma interpretação desastrada dessa passagem” e que “Paulo não está dizendo que existem alimentos que Deus criou para serem recebidos e outros para não serem recebidos, pois isso é ignorar a sentença seguinte, ‘com ações de graças’”. Mas não há qualquer contradição aqui. Não se pode dar ações de graças por aquilo que não é para ser feito. Adão e Eva darem ações de graças pelo fruto proibido não mudaria o fato de que era proibido. Os gentios que receberam a carta apostólica de Atos 15 não mudariam o fato de que sangue era proibido para alimentação só porque deram ações de graça. É por isso que Paulo fala sobre dar graças e sobre o alimento ser santificado pela Palavra.

Meza continua:

“Como podemos notar, na Bíblia é muito mais importante você comer com gratidão do que comer de forma saudável”.

Para a Bíblia é muito mais importante obedecer a Deus do que contrariar sua vontade sob a justificativa de estar bem intencionado. Há diversas passagens na Bíblia que falam sobre o problema de desobedecer com “boa intenção” (Gn 4:1-7; Lv 10:1-2; I Sm 13:8-15; I Cr 13:8-10; I Sm 15:1-11; Mt 7:22-23). Isso nunca agrada a Deus.

“Apesar disso, não podemos ignorar a questão da saúde. Adventistas estão certos em enfatizar a necessidade de uma alimentação saudável. O problema é que eles precisam provar também que os alimentos impuros da Lei Mosaica são menos saudáveis hoje em dia no nosso contexto do que alimentos puros”. 

A questão da alimentação na Bíblia precisa ser vista não como uma lista completa de boa saúde, mas como uma lista-exemplo e um ponto de partida. Ela pretende criar uma consciência/sensibilidade inicial e progressiva de que o corpo deve ser bem tratado para a honra de seu dono (assim como nossos talentos, dinheiro, tempo, intelecto). Assim, nós deveríamos lê-la como um: “Comece por aqui e progrida”. E isso não pode, como já dito, tornar-se tão importante quanto questões morais, separar pessoas ou ser tratado como ponto de salvação. Por outro lado, continua sendo regra válida (e bíblica) e deve ser acatado na medida em que a consciência for desperta para tal. “Porque Moisés tem, em cada cidade, desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados” (At 15:21).

Certa vez assisti a um vídeo de um pastor explicando se o dizimo continuava vigente no Novo Testamento ou não. Ele defendeu que não. Eu discordo. Contudo, o interessante do vídeo é que ele afirmou que não deveríamos nos utilizar da liberdade em Cristo para sermos mesquinhos, para fazermos menos do que se fazia na Antiga Aliança. Se a Nova Aliança é superior – ele argumentava – e temos mais poder no Espírito Santo, não faz sentido fazermos menos. Na concepção dele, não por imposição, mas por coração, nós deveríamos dar até mais que o dizimo.

Mesmo não sustentando o dizimo como regra, julgo que o pastor em questão chegou mais próximo da essência da lei do que muitos que sustentam. Ele compreendeu o que é gratidão ao Senhor e como é agradável honrá-lo. A questão da alimentação deve, a meu ver, seguir o mesmo espírito. A lei na Torá é um mínimo, um ponto de partida. O amor e a gratidão a Deus nos deveria conduzir a fazer isso e mais. A Lei proibiu porco. Deixo o porco e também reduzo o açúcar gradualmente até um dia parar. Para ser salvo? Para ser mais santo que os outros? Para ter mérito diante de Deus? Não. Para cuidar bem de um corpo que não é meu, mas daquele que me salvou. Para honrar ao Criador e, obtendo saúde, poder trabalhar para Ele.

“De qualquer forma, esse é um ponto que podemos aprender com eles, a ênfase no cuidado do corpo. Por outro lado, não podemos ignorar a ênfase bíblica na gratidão em detrimento da saúde”. 

Como já dito, não se fala muito em saúde na Bíblia, pois que o conhecimento a respeito era bem precário nas épocas bíblicas. Mas lemos sobre obediência e honra a Deus por meio do corpo, o que já nos orienta nesse sentido. Ademais, uma forma de ser grato a Deus é cuidar de nossa saúde, já que isso ajuda a preservar a vida e o bem estar que Deus nos dá diariamente. Chamamos de ingrato quem não cuida daquilo que demos de presente para alguém, não é mesmo?

“Uma dificuldade que I Timóteo 4 levanta para a nossa posição é a necessidade de explicar o que significa o alimento ser santificado “pela palavra de Deus” (v.5). Caldas defende que os alimentos santificados pela Palavra são aqueles listados como puros na Lei de Moisés. Porém, é a própria Palavra de Deus que mostra que as leis relacionadas a pureza e impureza cerimoniais foram abolidas, de modo que essa interpretação dele é invalida. E agora?”. 

O problema é que a distinção entre alimentos puros e impuros não é meramente ritual, ainda que possa ter se revestido de linguagem religiosa e símbolos no AT. Então, não há como dizer que a Palavra aboliu a distinção.

Conclusão

Meza conclui sua réplica afirmando que o ensino do NT sobre a abolição da distinção entre alimentos puros e impuros é bem clara. E ainda:

“Não se trata de algum ‘pressuposto antijudaico’, mas do claro ensino bíblico. Se eles [os adventistas] acusam a Igreja de tirar versículos do Novo Testamento do contexto para justificar a abolição do sábado ou da dieta, podemos acusá-los de tirar tais mandamentos do seu contexto do Antigo Testamento para justificar sua permanência”. 

Não tiramos mandamentos do contexto do AT, uma vez que o sábado e a distinção de alimentos são anteriores à Torá, não se relacionam originalmente às leis cerimoniais prefigurativas de Cristo e/ou para o povo israelita e não são abolidos no NT (os textos que supostamente os anulam são, como mostrei, descontextualizados).

O parágrafo final de Meza diz:

“O assunto dos alimentos puros e impuros ilustra um problema que muitos protestantes enfrentam: ao questionar uma tradição, acabam contrariando a própria Bíblia. Nós tentamos não ser controlados, em nossa interpretação, por aquilo que a tradição diz, mas ignoramos que, assim como a tradição é falha, nós somos falhos também. Devemos, sim, seguir a sola scriptura, mas ouvir o que a tradição tem a dizer também pode ser útil para nos livrar de certos erros. Se a Igreja tem seguido alguma doutrina por tanto tempo, antes de tentar derrubá-la, precisamos examinar com mais cuidado as suas bases; ou então, ao invés de subir em ombros de gigantes, podemos nos assemelhar a formiguinhas tentando derrubar a poderosa rocha da Palavra de Deus”. 

Concordo com Meza. Mas as análises dos textos bíblicos também precisam estar dentro de seus contextos. Não é porque uma tradição antiga descontextualiza passagens, que devemos fazer o mesmo. Ainda que no panorama geral a teologia pareça, à principio, fazer sentido.

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Referências:

  1. SOUZA, Elias Brasil de. “Impureza Cerimonial e sua Aplicação Contemporânea” (artigo). Disponível em: http://estudosadventistas.com.br/impureza-cerimonial-e-sua-aplicacao-contemporanea/
  2. IBDEM