Davi Boechat

Caminhando por uma rua escura, você escuta gritos. Uma mulher está prestes a ser estuprada. Em um ato de coragem, o ímpeto de salvar uma vida lhe move a ação. Mesmo sem treinamento e habilidades, você entra em luta corporal. Depois de algum tempo, usando a arma do criminoso, que resistiu, o mata.

Esse é um relato hipotético, mas muito próximo de nossa realidade. Apesar de trágico, ele teve um final feliz. O saldo foi de duas vidas poupadas. Sangue inocente nenhum foi derramado.

Entretanto, há quem vá discordar disso. E entre eles há cristãos que arrotam erudição teológica tão profunda quanto uma poça. São os mesmos que, agora, questionam as convicções dos crentes que comemoram a flexibilização da posse de armas.

Em tese, dizem estar cumprindo o mandamento de amar ao próximo. Na realidade, saem em defesa do criminoso, seguindo um agenda nefasta de proteção do assassino. Tudo isso, é claro, envernizado de profunda piedade.

Ao supostamente defender a vida, eles parecem não dimensionar o amor que empenham. John Enson os classificou bem ao dizer que “embora não ativamente agressores, implicitamente aprovam a violência através de sua passividade. Não agir foi, em si, uma ação; decidir não tomar partido significou ficar do lado dos assassinos” (Sangue Inocente: qual o papel do cristão frente à opressão e à violência, p. 59).

Não entendem que fazer valer o “não matarás” vai além de deixar de matar, legitimando inclusive uma possível reação proporcional contra o criminoso que atenta conta a vida de outro. A legítima defesa de terceiros, mais do que uma excludente de ilicitude na seara o Direito Penal, é clara manifestação de hombridade e, para os cristãos, um dever espiritual na manifestação do amor.

Em outras palavras, impedir o derramamento de sangue inocente pode exigir o derramamento de sangue culpado. “O amor faz mais que lamentar o assassinato de alguém. Ele detém por meio de todo esforço prático […] Em certas ocasiões, amar o próximo será algo que tomará conta de mim, e talvez até poderá exigir que eu ajude a impedir que alguém seja assassinado” (Idem, p. 16 e 17). O uso legítimo da violência poderá neutralizar a força implacável da vileza.

Há amor ao próximo e obediência a lei de Deus quando se age pela preservação da vida. A passividade em situações como essa é abjeta, um desrespeito ao sexto mandamento. Amar o próximo exige medidas efetivas que o protejam, sedo admissível, portanto, a posse ou porte de armas.

B. F. Snook, proeminente pioneiro adventista, esboçou durante o século 19 um comentário conveniente para o cenário atual. Disse ele: “Deus jamais disse que devemos ficar quietos e ser assassinados, ou ver nossas famílias massacradas pelas mãos cruéis de rebeldes provamos e ímpios”.

O cristianismo Nutella é tão pernicioso, tão absurdo, que na defesa do amor ao próximo coloca a vida inocente abaixo da de seu algoz.


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