Por Davi Caldas

Tenho uma enorme simpatia pelos judeus, principalmente, os judeus messiânicos. Em primeiro lugar, porque, conforme disse Paulo:

“São israelitas. Pertence-lhes a adoção e também a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas; deles são os patriarcas, e também deles descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre. Amém!” (Rm 9:4-5).

Em segundo lugar, porque reconheço que a maior cisão que houve na história da Igreja de Cristo não foi entre Igreja Romana (Ocidente) e Igreja Ortodoxa (Oriente), nem entre Igreja Romana e Igrejas Protestantes. Essas divisões são meras filhas de uma divisão muito mais antiga, maior e mais venosa: a divisão entre judaísmo (no sentido religioso) e cristianismo. Sem dúvida, a separação entre judeus e cristãos, entre Israel e Igreja, entre – na analogia paulina – os ramos naturais da oliveira e os ramos enxertados, foi a maior desgraça da história. Ela criou uma fissura no povo espiritual de Deus e, por consequência, na religião.

Do lado judeu, o povo israelita rejeitou o seu próprio Messias e se prendeu a montanhas de rituais que só possuem sentido em Yeshua, bem como a tradições rabínicas extra e antibíblicas. Do lado cristão, princípios bíblicos como o sábado e a distinção entre alimentos foram descartados da fé; e coisas estranhas passaram a adentrar o rol de crenças cristãs, como veneração aos santos mortos, supervalorização do bispo de Roma, tormento eterno, purgatório, imortalidade da alma (essa já era crida por alguns judeus à época de Jesus, contradizendo o conceito holístico e mortalista registrado no Antigo Testamento), virgindade perpétua, impecabilidade e ascensão de Maria aos céus, etc. Foi essa cisão entre os dois povos, jamais desejada por Cristo, que tornou possível o surgimento de tais heresias.

Por essa razão, os judeus messiânicos são tão caros para mim. São pessoas que unem o que jamais deveria ter sido separado; que representam um retorno aos primórdios da Igreja, às raízes judaicas do cristianismo. E, sendo eu um cristão sabatista, descrente das doutrinas romanistas mencionadas há pouco e que se volta para o pano de fundo judaico das Escrituras, vejo com bons olhos o trabalho de alguns grupos judeus messiânicos no contexto da Igreja.

No entanto, há algo que discordo de boa parte dos grupos judeus messiânicos: muitos deles não acreditam na doutrina da Trindade. Com base na Shemá, a profissão de fé monoteísta expressa em Deuteronômio 6:4, esses judeus (tal como os judeus que não creem em Jesus), afirmam que Yahweh não pode ser uma Trindade. Tal ensino não seria proveniente da Bíblia, mas da Igreja Romanizada, sendo formalizado nos Concílios de Niceia (325) e Constantinopla (360 e 381). Com isso em mente, é comum ver alguns que sustentam essa crença acusando os cristãos e o cristianismo de idolatria, distorção das Escrituras e prostituição espiritual. Não são todos (como deixarei claro), mas uma parte considerável. Esse é meu ponto de divergência.

O que pretendo demonstrar nesse texto é que o ensino da Trindade é bíblico e a Shemá, de forma alguma, é contradita por ele. Proponho, portanto, uma análise bíblica e lógica sobre a Shemá, a concepção trinitariana e a concepção de divindade que alguns judeus messiânicos possuem (incluindo a natureza de Jesus).

A Shemá

Devemos começar nossas análises expondo a Shemá. No idioma original hebraico, ela diz: “Shemá Yisrael YHWH Elohênu YHWH Echad” (Dt 6:4). Esse pequeno verso tem sido geralmente traduzido como “Ouve Israel: Yahweh Deus é um Yahweh” ou “Ouve Israel: Yahweh Deus é o único Yahweh”, tendo a palavra “echad” o sentido de “um” ou “único”. Na concepção judaica que se tornou a tradicional (isto é, a descrente em Jesus), isso excluiria a possibilidade de Yahweh ser triúno. O texto, dizem, é claro: Ele é um, não três. Chamá-lo de três é criar um politeísmo ou triteísmo dentro do judaísmo.

O raciocínio parece fazer sentido à princípio. Mas há pelo menos dois pontos relevantes que precisam ser destacadas aqui. Primeiro: a Shemá, na verdade, não tem como foco ensinar sobre a natureza interna de Deus, mas sim ensinar que Ele não é um conjunto de deuses diferentes e que não existe outro Yahweh. Uma das razões para essa ênfase é o fato de que a Torá chama Yahweh de Elohim. Essa palavra é um termo genérico para divindade e senhorio. Também é um termo plural. O primeiro capítulo de Gênesis, aliás, não revela o nome Yahweh, mas apenas afirma que Elohim criou o mundo. Eis o x da questão: um indivíduo natural do antigo oriente médio que ouvisse o relato poderia interpretar a palavra Elohim, em Gênesis, como qualquer deus ou até mesmo um conjunto de deuses, um panteão. De fato, os pagãos costumavam a ter seu conjunto de deuses principais, o que poderia ser chamado de Elohim. Por outro lado, Elohim poderia ser usado como plural majestático para um só deus.

Assim, o primeiro capítulo de Gênesis poderia soar vago para qualquer ouvinte do antigo oriente médio. O relato apenas afirma, de forma genérica, que um Elohim (um deus ou panteão) criou o mundo. Estranho? Não. A forma vaga como Moisés escreve é intencional. Ele proporciona ao ouvinte a curiosidade de saber mais sobre quem é (ou quem são) o Elohim criador do primeiro capítulo. Permite ainda supor que este Elohim é o mesmo Criador Geral cuja maioria dos pagãos cria existir (o Deus dos deuses). Mas acima de tudo, a narrativa vaga de Moisés prepara o ouvinte para o ponto alto do texto: o nome do Elohim criador é revelado no momento em que a criação termina e o sétimo dia é santificado e abençoado por Ele (Gn 2:1-4). É ali que descobrimos: o Elohim criador mencionado em Gênesis se chama YHWH (Yahweh). Dessa forma, a criação, seu término e o sábado vinculam-se ao nome do Deus Criador e dão tanto ao sétimo dia quanto ao nome de Deus uma relação íntima com o fato de que Ele é o Criador do mundo.

Ora, é por isso que a Shemá precisa relembrar que esse Elohim chamado Yahweh é um só Deus, o único Deus, não um panteão. O plural não indicava vários deuses, mas um só Deus supremo. Esse é o foco da Shemá. Isso, contudo, nada fala sobre se Deus possui mais de uma manifestação, emanação, formas, pessoas dentro de si. Não fala nada sobre como é a natureza de Deus ou o que Ele pode fazer. Assim, é perfeitamente plausível que Deus, mesmo sendo um, possa ter mais de uma manifestação ou forma de si. E elas podem (por que não?) coexistirem concomitantemente.

Para ficar mais claro: posso cortar uma laranja em três pedaços e dizer para todos que essa laranja é uma só. Por mais que se veja três pedaços e que eles possam ser postos em locais diferentes (e até cumprir funções distintas), os três pedaços fazem parte de uma mesma laranja. É a mesma essência, a mesma natureza, a mesma origem, o mesmo sabor, a mesma cor, a mesma fruta, o mesmo código genético. Não são três laranjas.

Que Deus pode se manifestar de diversas formas e ao mesmo tempo, isso não deveria ser objeto de discussão. Ele é Deus; tem todo o poder. Se Ele, portanto, quiser subsistir entre suas criaturas de três formas distintas e simultâneas, inclusive dando a cada uma delas uma função distinta e uma sujeição interna, Ele pode. Não deixará de ser um único Deus. Portanto, a Shemá nada tem a dizer sobre a possibilidade ou não de Deus ter mais de uma forma, emanação, manifestação ou pessoa interna.

O segundo ponto relevante a ser considerado é que a palavra “echad”, traduzida como “um” ou “único” faz referência a um tipo de unidade que pode ser composta. Essa é, por exemplo, a palavra usada para expressar a união entre Adão e Eva (Gn 2:24). Os dois se tornaram “uma só [echad] carne”. Da mesma maneira, voltando ao exemplo anterior, três pedaços de uma mesma laranja formam apenas uma (echad). Em vez de usar a palavra “echad”, Moisés poderia ter usado o termo “yachid”, que se refere a uma unidade não composta (única, sozinha). O uso de Moisés da palavra “echad” abre margem para a possibilidade de que Yahweh, conquanto seja um só Deus, possui e/ou subsiste em mais de uma manifestação, emanação, forma ou pessoa.

Entendendo o Conceito da Trindade

Talvez a dificuldade de aceitar a Trindade se dê por uma questão semântica e outra de natureza imaginativa. A questão semântica consiste no seguinte: os cristãos preferiram o termo “pessoa” em vez de “forma”, “manifestação” ou “emanação” para explicar o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Isso dá a impressão de que são três deuses, pois normalmente entendemos a palavra “pessoa” como sinônima de “ser”. Assim, se existem três pessoas, imaginamos três seres diferentes, não três “partes” integrantes de um mesmo ser. No entanto, o conceito da Trindade jamais foi o de “três seres, cada pessoa um ser”. Isso seria politeísmo (ou triteísmo), justamente o que a Shemá condena como falso.

Em relação à questão imaginativa, eis o fato: é fácil imaginar três formas subsequentes de Deus e com origem temporal. Concebemos que Deus, em algum ponto do tempo, gera formas diferentes de si mesmo, uma após a outra. Esse é o conceito monarquista, onde Deus se manifesta como Pai num momento, Filho em outro e Espírito em outro. O ensino, contudo, foi considerado herético e sem sentido pela Igreja, já que, na Bíblia, há claro relacionamento entre o Pai, o Filho e o Espírito. Aqui começam os problemas, pois começa a ficar mais difícil ter de imaginar três formas concomitantes de Deus que interagem entre si. Tendemos a achar estranho, pois não há nenhum ser que conhecemos que gere formas concomitantes de si mesmo capazes de interagir entre si.

Como se não bastasse, é mais difícil ainda imaginar três formas concomitantes de Deus que interagem entre si desde sempre. Ou seja, não há um ponto no tempo em que YHWH cria essas emanações de si mesmo. Elas fazem parte de sua natureza eterna, existindo desde sempre, para além do tempo-espaço. Ainda mais complicado, para fechar a conta, é pensar que essas formas concomitantes, eternas e que interagem entre si, também possuem funções diferentes e criam submissão interna. Como Deus pode fazer isso dentro de si mesmo? O problema não é lógico. Ele pode. Não há contradição aqui. O problema é imaginativo. É difícil pensar nisso. Mas complexidade imaginativa não é um bom argumento para se refutar algo.

É por essa eternidade das formas de Deus que o cristianismo preferiu fazer uso do termo “pessoas” em vez de manifestações, emanações ou formas. Esses outros termos podiam não descrever bem a eternidade, a pessoalidade, a concomitância e a interação entre as partes internas do próprio Deus (Pai, Filho e Espírito Santo). Por outro lado, tudo tem seu lado ruim. A palavra “pessoa” pode não descrever bem a unicidade de Deus, dando a falsa impressão de que cada pessoa é um ser distinto.

Digno de nota ainda é que as tentativas de explicação de que as pessoas da Trindade não são seres diferentes pode gerar outro mal compreendido comum: o de que na doutrina da Trindade cada pessoa de Deus é a mesma pessoa. Assim, o Pai, o Filho e o Espírito Santo seriam uma pessoa só. É o extremo oposto do erro anterior. O que a doutrina real expressa é que Deus subsiste em três pessoas. As três pessoas não são três seres, mas um só (mesma essência, natureza e poder). Contudo, não deixam de ser partes distintas de um mesmo todo – se preferir manifestações concomitantes. Assim, a doutrina nem fere a unicidade de Deus, nem embaralha as manifestações. Como no exemplo da laranja, muito útil, não são três laranjas, são três pedaços de uma laranja só. Mas esses pedaços são distintos entre si, conquanto com a mesma essência e natureza.

Algumas concepções judaico-messiânicas 

Tendo entendido como a concepção trinitária não contradiz a Shemá e compreendido o que a doutrina da Trindade realmente diz, podemos analisar as concepções de divindade de alguns grupos judaico-messiânicos. Vamos trabalhar com mais detalhe apenas quatro delas: (1) teoria da manifestação; (2) teoria da representação; (3) teoria da filiação divina; (4) teoria da filiação humana.

(1) Teoria da Manifestação

A teoria da manifestação é bem explicada pelo site “Judaísmo Nazareno”. Antes de expor a explicação, cabe ressaltar que o movimento dos judeus nazarenos faz uma pequena distinção entre judaísmo messiânico e judaísmo nazareno. No entanto, para os propósitos desse texto, as diferenças são irrelevantes. Assim serão considerados como messiânicos também. Dito isso, leiamos um trecho da primeira crença de seu credo:

“Cremos que YHWH é UM (echad), ou seja, apenas 1 (uma) Pessoa, e não Três. Cremos que YHWH pode se manifestar de formas plurais, conforme atesta a Torá. Cremos que YHWH revela a si próprio pelas K’numeh ou Gaunin (essências, naturezas, manifestações) do PAI, do FILHO (= a Palavra/Memra) e da RUACH HAKODESH (Espírito de santidade/Espírito Santo). Cremos que o Pai, o Filho Yeshua (Palavra) e a Ruach HaKodesh são manifestações do mesmo YHWH, que é UM (echad), razão pela qual não cremos na existência de Três Pessoas distintas (politeísmo)” (Site: Judaísmo Nazareno).

Note: esse grupo de judeus messiânicos confunde o termo “pessoa” com “ser”. Por isso seria politeísmo crer na Trindade e uma contradição com a Shemá, já que Yahweh é um só ser. Trata-se, portanto, de um problema semântico e uma má compreensão do que a doutrina da Trindade realmente diz. Tanto é que a alternativa adotada por esse grupo para explicar a natureza de Deus é bem semelhante à doutrina da Trindade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são entendidos como “formas” ou “manifestações” do mesmo Yahweh. Isso é exatamente o que a doutrina da Trindade diz, só que usando o termo “pessoas” – são pessoas do mesmo Yahweh.

A terceira crença expressa no site é sobre o Messias. Ela nos ajuda a visualizar ainda melhor essa questão da má compreensão da doutrina da Trindade e da semelhança da alternativa escolhida. Diz um trecho dela:

“Cremos que, após a sua morte, YHWH ressuscitou corporalmente o Mashiach [Yeshua] ao terceiro dia, que ascendeu ao céu e, atualmente, está sentado à direita de YHWH. […] Cremos que Yeshua veio como homem, apesar de ser uma das gaunin/k’numeh (essências, naturezas, manifestações) de YHWH” (IBDEM).

Repare: o site concebe o Messias Jesus como tendo nascido como homem, mas sendo uma das manifestações de Yahweh; e que Jesus pode interagir com Yahweh (ou seja, há interação entre as três manifestações de Deus). É exatamente o que diz a doutrina da Trindade, mas usando o termo “pessoa”. O que não fica claro é se quando o site usa a palavra “manifestação” para o Pai, Jesus e o Espírito, entende que elas são eternas, sem origem temporal. Se assim creem, então são trinitarianos sem saber. Se não, então são arianos ou semiarianos (ou algo próximo a isso). Assim, mais uma vez: o termo “pessoa” é usado justamente para expressar melhor a eternidade e divindade das três “formas” concomitantes de Yahweh.

O livro escrito pelo autor do site traz informações mais detalhadas para entender a teoria da manifestação. Ele expõe cinco correntes principais a respeito da divindade de Jesus e a Trindade: (1) Yeshua foi só um profeta; (2) Yeshua foi o primeiro ser criado; Yeshua é parte da Trindade; (4) Yeshua é uma das manifestações de Deus, mas todas elas são iguais; (5) Yeshua é uma das manifestações de Deus, mas elas são distintas. A quinta é a que o autor defende. Explica:

“O ETERNO é UM e possui três distintas k’numeh (essências/naturezas). Esta corrente se distingue da doutrina da Trindade (3ª corrente), porque não crê em três pessoas com três personalidades distintas, mas tão somente em único ETERNO que se revela por meio de três manifestações/essências/naturezas (k’numeh). Também esta concepção não se confunde com a 4ª corrente, visto que esta última acha que o Pai, o Filho e o Espírito são iguais, inexistindo diferença quanto à essência/natureza” (ARAGÃO, 2013, p. 417) 

Como se nota, a crença é muito parecida com a da Trindade. Ela crê que Deus é um. A Trindade também. Ela crê que Deus tem três manifestações. A Trindade crê que Deus tem três pessoas. Ela crê que as manifestações são diferentes entre si. A Trindade crê que as pessoas são diferentes entre si. Mais adiante, o autor diz: 

“O ETERNO é o Todo-Poderoso e se manifesta quando e da forma que quiser. A Torá narra que YHWH apareceu para Avraham (Abraão) como homem (Bereshit/Gênesis 18). Inclusive, YHWH pode se manifestar simultaneamente como o Pai e como o Filho. Quando Yeshua estava no madeiro, o céu não estava vazio, sem a presença de YHWH, visto que o ETERNO é onipresente. Ou seja, YHWH se manifestava como homem e como Pai simultaneamente. Quando Sha’ul (Paulo) fala do Pai e de Yeshua (ex: I Ts 1:1), não está falando de ‘dois deuses’ ou de duas pessoas diferentes, como pensa a doutrina da Trindade, mas sim está se referindo a duas manifestações distintas do ETERNO, que é UM” (IBDEM). 

Mais uma semelhança: a Trindade crê que as pessoas da divindade existem de maneira simultânea. A teoria da manifestação também crê o mesmo em relação às manifestações, podendo elas até dialogar. Qual era a diferença entre as três manifestações? O autor diz:

“Se o ETERNO se manifestasse aos homens com a integralidade de sua glória, todos sucumbiriam, já que nem os céus e a terra conseguem conter a glória de YHWH. Esta é a razão pela qual ‘ninguém jamais viu Elohim’ (Yochanan/João 1:18). 

Assim, para se apresentar perante os homens, o ETERNO precisa reduzir o seu esplendor para que nós, meros mortais, suportemos a intensidade da emanação de YHWH no mundo existente. Yeshua é a manifestação do ETERNO com intensidade tolerável aos homens e, portanto, com uma k’numah diferente e reduzida. […] 

De maneira semelhante, a Ruach HaKodesh é outra forma de o ETERNO se apresentar no mundo existente. Sha’ul (Paulo) disse que somos templos da Ruach HaKodesh, que habita em nós (Curintayah Álef/1ª Coríntios 6:19). Obviamente, se todo o esplendor de YHWH estivesse dentro de nossos corpos perecíveis, morreríamos imediatamente. Então, a k’numah de YHWH em nós, ou seja, a Ruach HaKodesh, também é uma forma de emanação reduzida do ETERNO” (ARAGÃO, 2013, p. 423-424). 

Não é diferente da doutrina da Trindade. Cada membro da Trindade tem suas funções distintas justamente porque possuem características distintas. O Pai, em seu resplendor, fica no céu. O Filho, torna-se homem, morre e ressuscita pela humanidade. O Espírito, sendo Espírito, vive no meio do povo e passa a habitar o interior do homem. Ora, se as doutrinas são tão semelhantes, por que a Trindade é rejeitada? Por que a concepção que o autor tem do que é a Trindade é errônea e, posso dizer, ridícula. Vejamos: 

“Por razões óbvios, se Deus são Três Pessoas, então, a doutrina cristã da Trindade apregoa a existência de Três Deuses, típico exemplo de politeísmo. Para tentar disfarçar o politeísmo tão combatido pela Bíblia, o dogma trinitário sustenta que ‘Deus é um e que, por um mistério, ao mesmo tempo são Três Pessoas’” (ARAGÃO, 2013, p. 56).

Note que o autor comete o erro que mencionamos: ele entende “pessoa” como sinônimo de ser, de onde conclui que a doutrina crê em três deuses (o que seria três seres). Em outro ponto da obra (p. 60), ele diz que o conceito de três deuses permeou diversas culturas idólatras, como a babilônica, Egito, Grécia e Roma. Assim, a doutrina da Trindade teria suas raízes no paganismo. Contudo, podemos cogitar exatamente o contrário. Uma vez que houve um monoteísmo adâmico que foi se perdendo com o tempo, é possível que o diabo, conhecendo a natureza trina de Deus tenha criado distorções dessa ideia em diversas culturas, onde o conceito original de um Deus com três manifestações ou pessoas foi substituído por três seres distintos. Exatamente por isso que Yahweh afirma ser um só na Shemá. Mas isso, relembramos, nada diz sobre sua natureza interna. O autor consegue ser mais ridículo:

“O ETERNO é UM, isto é, uma Pessoa. Logo, dizer que ‘Deus consiste em três Pessoas’ é puro politeísmo, fruto do paganismo greco-romano que tão cedo se alastrou no Cristianismo. Quem crê em três Pessoas da Trindade está, na verdade, crendo em três deuses, o que é inconcebível à luz das Escrituras. De fato, não existe nenhum versículo na Bíblia em que apareça a palavra ‘Trindade’, bem como não há texto nas Escrituras prescrevendo que existem ‘Três Pessoas’” (ARAGÃO, 2013, p. 421)

Vê-se claramente que a rixa dele com a doutrina da Trindade é semântica. O argumento de que a palavra Trindade não existe na Bíblia Sagrada (se é que pode ser chamado de argumento) comprova isso. Um trecho curioso pode terminar o tópico:

“Pensavam os antigos cristãos com toda propriedade que o ETERNO é um, uma pessoa (prosopon), com três aspectos ou substâncias (hypostasis). Com os Concílios do século IV, instituidores da pagã Doutrina da Trindade, houve uma inversão da verdade em mentira: todos foram obrigados a crer, sob pena de serem considerados hereges, que o ETERNO são três Pessoas (prosopa) com um único aspecto ou substância (hypostasis). Infelizmente, o maligno e pagão pensamento trinitário permanece até hoje no Cristianismo” (ARAGÃO, 2013, p. 429). 

Por toda a obra, o autor usa as palavras com significados opostos aos usados na doutrina da Trindade. Por pessoa, ele entende ser. Na doutrina da Trindade, pessoa não é ser. Por essência, natureza e substância, ele entende aspecto ou forma de um mesmo ser. Já a doutrina da Trindade vê essas palavras como sinônimos de ser, âmago, interior. Assim, quando a doutrina da Trindade diz que as pessoas da Trindade tem uma mesma natureza, quer dizer que são o mesmo ser (a mesma coisa que o autor quer dizer quando afirma que as manifestações de Deus são a mesma pessoa). Mas ele entende que a doutrina está dizendo que as pessoas possuem a mesma forma. Já quando a doutrina da Trindade diz que Deus possui pessoas diferentes, isso pode ser entendido sem problemas como sinônimo de “manifestações concomitantes, distintas e eternas de um só ser”. Mas o autor entende que a doutrina está dizendo que são três seres, logo, três deuses. A distinção toda é toda ou quase toda semântica, ficando aberta a dúvida apenas da eternidade das “manifestações” ou “pessoas”.

(2) Teoria da Representação

O site “Ministério Ensinando de Sião”, que tem feito um excelente trabalho de resgate de verdades bíblicas, também expressa seu credo. Os termos são um pouco distintos, mas a análise é praticamente a mesma. Lemos:

“(1) Somos monoteístas e cremos em um só D’us ‒ um e único (Dt 6:4; Mc 12:29) ‒ criador de todas as coisas (Gn 1:1).

 (2) Cremos no Messias Yeshua e em sua divindade com base em sua identidade apregoada pelos profetas de Israel (Dt 18:15-16; Is 9:6-7; 11:1-5; Jr 23:5-6). Ao mesmo tempo em que tais passagens exprimem sua plena divindade, lemos e aprendemos também sobre sua submissão e obediência ao Eterno (Ex 23:20-23; Sl 2:7; Sl 110:1-7;  Is 53:1-12; Is 63:1-15; Jo 5:30; Jo 6:38; Jo 14:28; I Co 15:24). Tais passagens estão confirmadas também nos Escritos da Brit Chadashá, a saber, a plena divindade (Cl 2:9) de Yeshua haMashiach (Jesus, o Cristo), o Messias do D’us único, Seu Filho primogênito (Rm 8:29) e unigênito (Jo 3:16; Hb 11:17), o único representante e mediador do PAI perante a humanidade  (Rm 5:15), mas ao mesmo tempo submisso e obediente ao Pai. 

(3) Cremos no Espírito do D’us criador e na manifestação e diversidade de dons e ministérios (Ex 31:3; At 2; 1Co 12)” (Site: Ensinando de Sião).

Aqui, outra vez, vemos a Shemá sendo enfatizada. No entanto, o Ministério não exclui a crença na divindade do Messias Jesus e em sua interação com o Pai. Ou seja, crê-se em pelo menos duas manifestações ou pessoas divinas que formam o mesmo Deus. Não há explicação, neste credo, sobre como isso se coaduna com a Shemá, nem sobre se o Espírito seria uma manifestação impessoal ou pessoal.

Um interessante texto do professor e rabino messiânico Matheus Zandona, que faz parte da liderança do Ministério, nos oferece alguns outros pontos interessantes para análise da concepção de seu grupo. O título do artigo é: “A Identidade do Messias e os Falsos Ensinos”. O texto também está registrado no livro “Entendendo a restauração das raízes da fé”, uma coletânea de artigos do professor. No artigo, Zandona critica o que ele caracteriza como falsos judeus messiânicos, os quais julgam quem crê na Trindade e, em suas críticas, não reconhecem a divindade de Jesus. Zandona afirma também não crer na doutrina, mas se opõe à postura e entendimento desses grupos citados. Explica:

“Precisamos aprender como a Tanách e o judaísmo tradicional enxergam o Messias. Esses grupos extremistas presentes em nossos dias assumiram uma postura perigosa, desprovendo Yeshua (o verdadeiro Mashiach), da PLENA representação da divindade do Eterno. Vejamos o seguinte ensino do rabino Shaul (Apóstolo Paulo): ‘…porquanto, nele [YESHUA], habita, corporalmente, TODA E PLENITUDE da Divindade. Também, nele, estais aperfeiçoados. Ele é o cabeça de todo principado e potestade’ (Cl 2:9-10). 

Ou seja, Ele (Yeshua) não é o PAI, mas veio do PAI, possui a mesma natureza do PAI e representa o PAI a nós 100%. Ele é o único caminho, o único mediador. Através dele compreendemos o Eterno e nos relacionamos com Ele. Nem mesmo no judaísmo tradicional se despreza tanto a divindade do Mashiach como nestes grupos de falsos (ou “super”!) judeus-messiânicos. O Mashiach é tratado como D-us NO JUDAÍSMO TRADICIONAL pois representa D-us aos homens, e segundo a regra do apostolado (Shlichut), o enviado é 100% igual àquele que o enviou, perante as pessoas objetos de sua missão. Dessa forma, o judaísmo entende que ao mesmo tempo onde há igualdade, também pode existir hierarquia, e por isso a unidade de D-us jamais é ferida” (IBDEM).

Há dois acertos e um possível erro aqui. Zandona conclui que Yeshua não é o Pai, o que está correto. Os trinitarianos também creem que Yeshua não é o Pai, mas que Yeshua e o Pai são duas “pessoas” ou “manifestações” distintas do mesmo Yahweh. Duas partes da mesma laranja. Zandona também conclui que Yeshua representa em 100% o Pai. É verdade também. É o que ele diz e demonstra em todo o NT. E mais uma vez é a mesma crença dos trinitarianos. No entanto, ainda não fica claro (e esse é o possível erro) se Yeshua é só um representante ou também seria o próprio Deus por natureza. Zandona continua em outro ponto: 

“O Judaísmo é sim muito dogmático em relação ao Mashiach. Na doutrina Judaica, O Messias não é apenas o ‘grande profeta’ prometido na Torá, nem é apenas o ‘enviado’ de YHWH, nem simplesmente o “Filho de Elohim”. Na posição que assumiu de REPRESENTANTE do ETERNO (esta é a função do Mashiach no Judaísmo), ele é YHWH perante nós homens (Is 7:14 – mais uma vez, LEIAM as referências que comprovam os pontos elucidados). Sua missão (Messias) é representar o Eterno plenamente à nós (Cl 2:9). Vejam como os profetas de ISRAEL tratam o Mashiach: 

‘Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: יְהוָה׀ צִדְקֵנוּ׃ YHWH, Justiça Nossa’ (Jr 23:6). 

Um exemplo simplório, mas que consegue ajudar muitas pessoas a entenderem este conceito judaico da representatividade (Shlichut) é o seguinte: O vice-presidente, é presidente? A resposta judaica à essa pergunta é: Sim e Não! 

Sim! Pois quando incumbido pelo presidente para representá-LO em cerimônias, solenidades ou qualquer atividade oficial, ele representa 100% o presidente. Ele é tratado como se fosse o presidente e tem a autoridade presidencial para tal. Na posição de representante, sua assinatura equivale em gênero, número e grau à assinatura do presidente. Quando está representando o presidente, não há diferença alguma entre os dois!  

Não! Pois sua autoridade existe apenas, pois foi outorgada pelo próprio presidente. Ele (vice) responde e se submete ao presidente, apesar de representá-lo 100% perante a sociedade. O vice recebe sua autoridade e seu poder do próprio presidente. Ele não faz nada sem o aval do presidente e todas as suas decisões estão em consonância com a vontade presidencial” (IBDEM).

Zandona conclui seu texto dizendo que é isso que os profetas e a Torá ensinam ao afirmarem que pode existir igualdade e hierarquia ao mesmo tempo entre o Eterno e seu Ungido. Também ressalta que no esforço para se distanciarem dos erros de Roma, esses grupos de falsos judeus messiânicos “acabam por diminuir a importância e a natureza do Filho de D-us” (IBDEM).

O que Zandona deixa claro em relação à doutrina do seu ministério é que: (1) Jesus representa plenamente a divindade, sendo Deus entre os homens; (2) o Pai e Jesus são distintos; (3) Jesus é submisso ao Pai. O que Zandona não deixa claro, ao menos nesse artigo, é se Jesus foi criado pelo Pai ou sempre existiu com Ele, sendo um com o Pai em eternidade e essência. Se ele crê na eternidade/atemporalidade de Jesus com o Pai, então essa é a mesma crença que a doutrina da Trindade sustenta. Se, contudo, crê que Jesus foi criado pelo Pai, trata-se de arianismo, semiarianismo ou o que o valha.

Esse é o possível erro do qual falei agora há pouco. A teoria da representação, se apoia que Jesus é divino apenas por representação, não por natureza e eternidade, então sua implicação lógica é que Jesus é uma criatura. Das duas uma: ou um ser divino, anterior a todas as criaturas, que Deus criou para representá-lo ou um homem normal que Deus transformou em seu representante divino. Trataremos dessas duas opções adiante. O que podemos dizer aqui para fechar o tópico é que se Jesus é uma criatura, não pode ser chamado de Deus, muito menos adorado como um. A não ser, é claro, que se abra mão do monoteísmo. Daí passa-se a ter dois deuses: o Pai e Jesus. A Shemá e o monoteísmo vão às favas.

A teoria da representação, portanto, só funciona se Jesus for um com o Pai em natureza e essência divina. Então, ele se torna representante justamente por ser parte do próprio Deus. E se torna submisso por vir à terra como homem, representar a Deus na função de ser humano, logo, Filho de Deus.

(3) Teoria da Filiação Divina 

Não me esforcei por encontrar nenhum site ou livro que defendesse essa concepção, mas já observei bom número de indivíduos que, ao se aproximarem de ideias judaicas, passam a adotá-la. É a mesma crença das Testemunhas de Jeová. A teoria enxerga Jesus como sendo Filho de Deus, mas não Deus. Jesus seria a primeira criação de Deus, a que antecede todos os seres e coisas. E por meio de Jesus, Deus teria criado todas as demais coisas e seres. Por isso, Jesus seria a imagem de Deus e divino por filiação.

O problema dessa teoria é que, em geral, ela não deixa de crer nas Escrituras (Antigo e Novo Testamento) como corretas e inspiradas por Deus. E elas chamam com bastante clareza que o Messias Yeshua de: Deus Forte e Pai da Eternidade (Is 9:6); Emanuel [Deus Conosco] (Is 7:14; Mt 1:23); o Pão da Vida (Jo 6:35-51); a fonte da água que dá vida eterna (Jo 4:14); a Luz do Mundo (Jo 8:12, 12:46); a Ressurreição e a Vida (Jo 11:25); o Caminho, a Verdade, a Vida (Jo 14:6); o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim (Ap 1:8 e 11, 21:6, 22:13); o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e é adorado por seus feitos (Jo 1:29-36; Ap 5:1-14; Mq 5:2; Hb 1:3-8), o Eu Sou (Jo 8:58); um com o Pai (Jo 10:30, 14:7-9); a Porta das Ovelhas (Jo 10:7); Deus bendito (Rm 9:5); Verbo de Deus e Deus (Jo 1:1-2); Salvador do homem (Lc 2:11; At 4:12, 15:11; Ef 5:23; Fl 3:20; Tt 3:3-7; II Pd 1:11, 3:18).

Jesus não só é chamado por todos esses nomes e títulos, como é claramente exaltado, adorado e colocado no centro da fé apostólica (os próprios nomes e títulos já são um exemplo disso). É assim que Jesus se vê e que os autores do NT o veem. Isso é um reconhecimento óbvio de que Jesus é Deus. Da parte dos autores do NT, é claramente adoração. Não há como criar um jogo semântico e chamar isso de respeito, veneração ou admiração. Os títulos de Jesus, os ditos dele sobre si mesmo e a maneira como ele é referido pelos apóstolos e colocado no centro da fé não se coadunam com alguém que não seja Deus.

Aqui se encontra o paradoxo da teoria. Se a teoria sustenta a adoração a Deus e também a adoração a Jesus (seja na teoria ou na prática), mas não reconhece Jesus como Deus, a consequência lógica é que quem segue essa teoria adora a alguém além de Deus. Ou, no mínimo, atribui a alguém que não é Deus títulos, características e capacidades que só caberiam a Deus. Eu explico sobre isso, por exemplo, no texto “A necessidade do sacrifício de Jesus”, onde demonstro que a salvação não poderia ser operada por criatura alguma, mas unicamente por Deus.

O resultado prático é que se Jesus realmente não é Deus, a Teoria da Filiação nada mais é que uma forma de idolatria. Faz de Jesus uma espécie de Deus. Uma vez que Yahweh é grande demais para ter de dividir a adoração com qualquer outro ser que não Ele próprio, se Jesus não é Deus (nem o Espírito Santo), quem realmente pratica idolatria e politeísmo velado é quem não crê na Trindade. Por outro lado, se Jesus é Deus, a teoria faz esforço para negar a divindade de Jesus, mesmo atribuindo a ele o que só pode ser atribuído a Deus.

A teoria também é falha no que se refere ao Espírito Santo. Em geral, seus adeptos entendem que o Espírito é uma força, poder ou manifestação impessoal de Deus. Mas as Escrituras claramente retratam o Espírito Santo como tendo personalidade. O Espírito nos assiste em nossa fraqueza, sonda nossos corações e intercede por nós (Rm 8:26-27); reparte os dons como quer (I Co 12:11); guia e testifica (Rm 8:14 e 16); conhece as profundezas de Deus (I Co 2:9-10); ensina, convence, fala e anuncia coisas (Jo 14:25-27, 16:7-15; At 8:29, 13:2, 15:28, 16:6-7); pode receber blasfêmias dos homens e traições (Mt 12:31-32; At 5:3-4); participa do processo de santificação ao lado do Pai e de Cristo (Tt 3:4-7); nos oferece comunhão ao lado do Pai e de Cristo (II Co 13:13); se entristece (Ef 4:30); é chamado como Deus (At 5:3-4); não é o próprio Pai e o próprio Cristo, pois Cristo o pede ao Pai, o Pai envia e ele é chamado de “outro Consolador” (Jo 14:16-17 e 25-26, 16:7). Assim, também o Espírito acaba recebendo atribuições, nessa teoria, que contradizem a ideia de que não tem personalidade e não é também parte de Deus.

(4) Teoria da Filiação Humana

Alguns outros grupos de judeus messiânicos se aproximam mais do antigo ebionismo, descartando a divindade de Jesus. O site “Sinagoga Messiânica El-Shamah” afirma o seguinte sobre o Messias:

“Quem é Yeshua? Vamos responder primeiro dizendo quem ele não é. Ele não é um deus, nem uma manifestação de YD’us, nem é parte de uma trindade. Ele não anulou a lei e não fundou nenhuma igreja. Ieshua não é o nome de JC em hebraico como alguns afirmam. Ieshua é uma pessoa e o JC romano é um mito criado pelo sistema religioso romano. Então, Ieshua não é o JC romano. […]

Yeshua foi criado pelo Eterno, e em um sentido mais profundo, é uma alma que saiu da cabeça de Adam Kadmon. Diferente de nós, foi criado antes de Adam Rishon (o primeiro Adão terreno). Veio como um judeu, nascido de pai e mãe judeus, através de uma concepção natural e não da forma mitológica por intervenção angelical como o sistema religioso romano quis transmitir. Ele viveu como judeu, fez a circuncisão, foi resgatado como todo primogênito, seguiu a Torah e as demais tradições estabelecidas pelos sábios do povo judeu, e foi sepultado junto aos Justos na Galileia. Veio como Mashiach ben Yossef para oferecer uma expiação pelas almas da Casa de Israel, das 10 tribos do Norte que se dispersaram. Foi morto, como outros judeus, pelas mãos dos romanos. Ele, na qualidade de um Tsadik foi um mártir, e o seu mérito serve para ajudar as pessoas que se conectam ao seu testemunho, a fim de que façam Teshuvá, retornando ao Eterno e a Torah. […]” (Site: Sinagoga Messiânica El Shamah).

Num espectro de diferentes crenças judaico-messiânicas, que inclui judeus messiânicos que creem na Trindade, este último grupo estaria no extremo oposto. Yeshua é visto como apenas um homem, embora tenha papel importante para as pessoas retornarem à Torá e tenha sido criado pelo Eterno antes dos demais seres humanos. Seria um grupo que realmente se distancia (muito) do que a doutrina da Trindade afirma. Como se pode ver, assim como há várias vertentes de igrejas cristãs, também há várias vertentes de judeus messiânicos.

Essa é a visão mais problemática das quatro, em minha opinião. É até difícil chamá-la de uma visão judaico-messiânica. Para sustentá-la, ela precisa distorcer muito o Novo Testamento e até sustentar a falsidade de partes dele. Como já dito em outros tópicos, Jesus claramente é visto por si mesmo e pelos autores do NT como divino. E não há razão para crer que os escritos do NT forjaram essa visão, pois como já vimos em outros textos, o número de cópias antigas é gigantesca e atestam a mesma história. Ademais, a crença da divindade do Messias não é o tipo de doutrina que alguém criaria, já que tanto judeus como pagãos tinham razões culturais para não aceitá-la. Se, no entanto, ela foi a diante, isso evidencia sua veracidade à despeito das dificuldades e defendê-la.

Autores Judaico Messiânicos ponderados

Como afirmei no início do texto, não são todos os judeus messiânicos que sustentam a falsidade da doutrina da Trindade. Os que se abrem ao conceito geralmente são bastante ponderados, sabendo explicar as razões da discórdia e compreendendo os dois lados da questão. Cito alguns exemplos:

– David Harold Stern

Famoso teólogo judeu messiânico, David Harold Stern, é autor da “Bíblia Judaica Completa”, do “Comentário Judaico do Novo Testamento” e do “Manifesto Judeu Messiânico”. Ele afirma o seguinte em seu comentário de Mateus 28:19:

“A palavra ‘trindade’ não aparece em nenhum lugar do Novo Testamento; ela foi desenvolvida depois pelos teólogos que tentavam expressar ideias profundas que Deus tinha expressado sobre si mesmo. O Novo Testamento não ensina o triteísmo, que é a crença em três deuses. Ele não ensina o unitarianismo, que nega a divindade de Yeshua, o Filho, e do Espírito Santo. Não ensina o modalismo, que diz que Deus aparece às vezes como o Pai, às vezes como o Filho e às vezes como o Espírito Santo, como um ator trocando máscaras. É fácil recorrer ao erro ou ao nonsense ao pensar sobre Deus, uma vez que seus caminhos não são nossos caminhos e seus pensamentos não são nossos pensamentos (Isaías 55:8). Alguns judeus messiânicos usam o termo ‘triunidade’ para evitar conscientemente a palavra ‘trindade’, que tem um tom não-judaico, tradicionalmente cristão ligado a ela, e com o objetivo de enfatizar a unicidade de Deus como proclamado no Shemá, sem negligenciar o que esse versículo destaca. Mas a questão central é que é mais importante acreditar na Palavra de Deus e confiar nele do que argumentar a respeito de formas doutrinárias ou verbais em particular utilizadas numa tentativa de descrever a natureza de Deus” (STERN, 2007, p. 111)

No comentário sobre Marcos 12:29, onde Jesus menciona a Shemá como o maior dos mandamentos, Stern explica que a Tanack (Antigo Testamento) oferece vários indícios de que Deus, apesar de ser um ser, possui uma estrutura interior envolvendo Pai, Filho e Espírito Santo. Ele cita Isaías 48:16 e Gênesis 1:26. Também fala sobre a estrutura da Shemá e da palavra “echad”, que indica unidade composta. Ele também favorece a ideia de Trindade e divindade de Cristo e do Espírito nos comentários aos textos de Jo 8:58, 10:30, 14:9 e 16; II Co 13:14, dentre outros.

– Michael Brown

O judeu messiânico Michael Brown, PhD em língua hebraica, é autor de diversas obras em que argumenta com judeus incrédulos pela messiandade e divindade de Yeshua. Em sua trilogia “Respondendo objeções judaicas contra Jesus”, ele afirma que como a palavra Trindade não aparece nenhuma vez no Novo Testamento, pode gerar a ilusão de que cristãos creem em três deuses. Desmentindo essa ilusão, Brown passa a oferecer uma série de indícios no AT de que Yahweh, embora seja um só ser (como atesta a Shemá), possui uma natureza multifacetada. Dentre os indícios, o uso de echad em vez de yachid na Shemá, as conhecidas afirmações de judeus místicos a respeito das três manifestações distintas de Yahweh, além de analisar diversas passagens do AT em que as pessoas ou manifestações divinas são claramente distinguidas. Afirma:

“A Bíblia Hebraica não ensina – em nenhum lugar – que o único Deus verdadeiro seja uma unidade absoluta. Antes, já diversas indicações sugerindo que a unidade do todo poderoso seja, na verdade, complexa e composta” (BROWN, 2015, v. 2, p. 31).

Sobre Jesus Cristo, esclarece:

“Nós acreditamos que o Filho de Deus é tanto divino quanto eterno, e não criado. Quando ele veio ao mundo, vestiu-se de natureza humana, e, daquele ponto em diante, temo-lo conhecido como Yeshua – um carpinteiro, judeu, Messias e Salvador do mundo” (BROWN, 2015, p. 57).

E sobre o Espírito Santo, confirmando a ideia de que o Espírito não é meramente um poder, explica:

“Deus habita entre nós por meio do seu Espírito (de certa forma, como vemos em Sl 139:7, o Espírito de Deus é a sua presença, a qual se encontra em toda a Terra). Por um lado, o Eterno está assentado sobre o trono, nos altos Céus, separado da Terra. Por outro, está intimamente envolvido com os afazeres diários, bem aqui em nosso meio” (BROWN, 2015, p. 76).

– Daniel Juster

Autor da bela obra “Raízes Judaicas: entendendo as origens da nossa fé”, que explica e defende o judaísmo messiânico, Daniel Juster também possui uma visão equilibrada sobre o tema. Ele introduz o assunto comentando sobre a postura de cristãos e judeus ao longo dos séculos:

“Os cristãos se isolaram em definições da Trindade baseadas na filosofia grega. Os judeus perguntam: “Os cristãos creem em um Deus ou em três?”. Em reação ao que entendiam ser triteísmo (crença em três deuses), os judeus também definiram seu Deus nas categorias gregas opostas de unicidade.

Maimônides, que tem sido usado e citado como referência da doutrina judaica sobre Deus, definiu a unicidade de Deus como singularidade, informidade e simplicidade seguindo os preceitos de Aristóteles. O termo trindade ou tri-unidade não está na Bíblia. Assim, estamos menos preocupados com o termo em si o que com os aspctos da revelação bíblica que reflete” (JUSTER, 2018, p. 227-228).

Juster continua sua visão ponderada, falando um pouco de como a Bíblia aborda o tema, como ele entende e como a discussão tem se dado entre cristãos e judeus:

“É necessário começar pelo fato incontornável de que a própria literatura judaica reflete algo do mistério de Deus. Isso fica evidente quando se trata da Sheekenah (Shekinah), ou Espírito Santo. Referências a ele o tratam como Deus, porém separado de Deus. Quando o Templo foi destruído, o Shekeenah teria ido para o exílio juntamente com Israel. Também se diz que o Shekkenah se moveu do monte do Templo para o Muro Ocidental (Muro das Lamentações).

Este autor é da opinião de que a literatura do judaísmo e a Bíblia sempre refletiram este mistério de Deus, no qual Deus é um, ao mesmo tempo que suas manifestações são até certo ponto separadas dele. Os judeus falavam em termos práticos,, sem chegar a uma conclusão teológica firme sobre a unidade ou trindade durante todos os séculos da História até Yeshua. Os cristãos, porém, voltados para a cultura grega, tiraram conclusões teológicas (ontológicas) específicas a partir desta linguagem funcional. A reação judaica a essa doutrina cristã foi extrair conclusões exatamente opostas. Deus foi definido como yachid, um conceito completa e totalmente singular” (IBDEM, p. 228).

Juster, em seguida, também vai citar a questão de yachid x echad. Depois passa a expor e analisar passagens que demonstram a uni pluralidade divina, como Gn 18 e 32; Êx 14:24, 13:17, 13:21, 16:7-13, 22:11-12, 23:20-23, 33:9-16 e 40:36-38; Jz 13:9-22; Is 48:12-16. Juster destaca o último trecho de Isaías 48:16: “Agora, o SENHOR Deus me enviou a mim e o seu Espírito”. Ele comenta:

“Nessa passagem, é deus quem está falando, e no final, ele mesmo se distingue do SENHOR e do Espírito. E como se sabe, a literatura rabínica se refere regularmente ao Shekeenah, a presença do Espírito, como uma pessoa distinta com inteligência, vontade, propósito, emoções, etc.

Além do mais, há indicações de que o Messias seria mais do que somente humano. Em Isaías 9:6-7, o Messias é chamado pelos nomes de Deus – literalmente em hebraico “Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (IBDEM, p. 231-232).

Mais adiante, após outras ponderações, Juster escreve:

“A evidência do Tanach nos leva a crer num Deus com uma dimensão plural demonstrada nas suas manifestações. Essa revelação dá um fundamento para compreender a revelação do Novo Testamento e seus ensinamentos sobre Deus e Yeshua. No Tanach, encontramos o Anjo de Deus, Deus Pai e o Shekeenah bem distintos um do outro.

Nas Escrituras da Nova Aliança, a pluralidade de Deus é claramente manifesta num senso de triunidade. Mostram o Espírito como distinto de Deus, mas sendo Deus ao mesmo tempo. O Espírito será dado quando Yeshua partir (veja Jo 14:30-31). Ele será dado pelo Pai (repare no pronome pessoal ele aplicado ao Espírito).

Yeshua não é somente um homem, mas carrega singularmente o nome, a natureza ou a marca da divindade de uma forma que jamais ocorreu com outro” (IBDEM, p. 232).

A partir desse ponto, Juster passa a falar sobre as claras provas do Novo Testamento sobre a divindade de Jesus e do Espírito Santo, bem como da triunidade de Yahweh. Ele também explica como Jesus, ao se tornar humano, esvazia-se do poder pleno que, como Deus, possuía. Nesse sentido, na terra, Ele “não é a totalidade de Deus”.

“Ele é uma pessoa ou aspecto da manifestação plural de Deus (que vemos no Tanach) que se tornou um ser humano. Portanto, é um homem que depende do Espírito, ora ao Pai, sofre fadiga e morre. Sua natureza divina e sua pessoa nunca deixam de existir, mas ele é humano tanto quanto divino. É por isso que a oração no Novo Testamento não é dirigida a Yeshua em primeiro lugar, mas ao “Pai Nosso” no nome de Yeshua. Pois Yeshua é a revelação humana do Pai” (IBDEM, p. 233 – grifos meus).

Grifei esses trechos para mostrar que a visão ponderada de Juster revela como muitas vezes o problema da rejeição da Trindade é muito mais semântica do pela doutrina em si mesma. Em um só parágrafo ele intercambia os termos “pessoa” e “aspecto da manifestação plural de Deus”, ressalta a divindade e a humanidade de Yeshua e enfatiza que como homem Yeshua é sujeito ao Pai e dependente do Espírito. Tudo o que outras teorias sobre a divindade de Yeshua também afirmam.

Considerações Finais

Podemos concluir, ao fim dessa exposição, que a rejeição da doutrina da Trindade não se dá em função do conteúdo real dela. O que realmente cria a rejeição da mesma são confusões semânticas e más compreensões da doutrina. Uma boa análise das passagens bíblicas, o uso de regras básicas de interpretação (incluindo o raciocínio lógico) e um conhecimento correto do que a doutrina da Trindade diz são suficientes para demonstrar que se trata de um ensino pautado nas Escrituras. Independente de chamar as “partes” da divindade de “pessoas” ou “manifestações concomitantes e eternas”, o fato é que Deus é um só ser, mas formado por Pai, Filho e Espírito Santo. A dificuldade de achar o melhor jogo de palavras para expressar essa verdade não deve ser um entrave para a aceitação dela. Afinal, o conteúdo aqui vale mais que a linguagem.

____________________

Referências:

Site Ensinando de Sião – Sessão “Quem Somos”: http://ensinandodesiao.org.br/quem-somos/

Site Judaísmo Nazareno – Sessão “Nossa Fé”: https://www.judaismonazareno.org/nossa-fe

Site Sinagoga messiânica El Shamah – Sessão “Quem é Yeshua”: http://www.beitelshamh.com.br/p/quem-e-yeshua.html

ARAGÃO, Fabio Maraes de. “Judaísmo Nazareno: a religião de Yeshua e seus Talmidim”, Rio de Janeiro, 2013.

BROWN, M. L. “Respondendo objeções judaicas contra Jesus”, vl 1, São Paulo: Davar, 2014.

JUSTER, Daniel. “Raízes Judaicas: entendendo as origens da nossa fé”, São Paulo: Impacto Publicações, 2018.

STERN, David H. “Comentário Judaico do Novo Testamento”, São Paulo: Editora Atos, 2007.

ZANDONA, Matheus. “A indentidade do Messias e os falsos ensinos” (artigo): http://ensinandodesiao.org.br/artigos-e-estudos/a-identidade-do-messias-e-os-falsos-ensinos/