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Nascido em lar adventista, Samuel Melquíades, tinha 16 anos (Foto: Reprodução)

Davi Boechat

Ainda não se passaram completamente os três primeiros meses 2019 e o Brasil já acumula um saldo terrível de tragédias. Sem fazer uma lista exaustiva, podemos lembrar de quatro casos de grande repercussão. (1) Em janeiro ficamos perplexos com o rompimento da barragem da Vale em Minas Gerais, que vitimou centenas de pessoas, além dos desaparecidos, além do impacto ambiental. (2) Fevereiro nos trouxe a repentina morte do jornalista Ricardo Boechat, vitimado por uma queda de helicóptero. Horas antes do acidente, o âncora havia encerrado seu programa diário de rádio lamentando as (3) mortes ocasionadas por temporais no Rio de Janeiro. Nessa semana, já em março, (4) recebemos com dor a notícia massacre em uma escola estadual de Suzano, em São Paulo. Em um crime minuciosamente planejado, dois criminosos, assassinaram oito pessoas, entre alunos e funcionários, deixando muitos outros feridos.

Uma das vítimas fatais foi Samuel Melquíades, de 16 anos. Aluno do segundo ano do ensino médio, Samuel nasceu em lar adventista e desempenhava com afinco as funções na igreja, onde estava envolvidos com os departamentos de Ministério Pessoal e de Desbravadores. De acordo com o Metrópolis, “Samuel foi alvejado após se atirar na frente de uma colega que estava sob a mira do revólver do assassino adolescente. Os tiros dirigidos à menina acertaram a cabeça e o peito do estudante”. O pai da vítima, Gercialdo Melquiades, concedeu uma comovente entrevista à Record TV, que você pode assistir abaixo.

Visivelmente emocionada, uma repórter da Globo News comentou que o cortejo do corpo de Samuel havia sido o momento mais emocionante daquela cobertura, destacando o uso do característico lenço de Desbravadores por parte dos presentes. Uma bandeira do Clube esteve sobre o caixão desde o velório até o momento derradeiro do sepultamento.

Como repercussão a morte do jovem, bem como das demais tragédias que falamos no início do texto, muitos posts estão sendo feitos nas redes sociais. Por parte dos cristãos, as mensagens falam da ressureição com a da volta de Jesus, o consolo e soberania de Deus, o estado de inconsciência dos mortos dentre outros temas de inestimável valor teológico. Agora, entretanto, quero propor outra reflexão. É possível estabelecer um elo entre essas lamentáveis tragédias: vidas foram perdidas de forma repentina e banal, mostrando nossa impotência e vulnerabilidade.

Durante os anos em que trabalhei como repórter, não foram poucos os casos policiais escabrosos que acompanhei. O trabalho para o jornalista em situações como essa não é fácil. As imediações da cena de um crime, assim como o cemitério, são capazes de exaurir emocionalmente os mais corajosos, fortes e valentes. Além de assistir o choque dos familiares enlutados, somos obrigados a pedir algumas palavras sobre o momento difícil que enfrentam.  Em algumas dessas ocasiões algo que me chamou a atenção: a ausência de parentes. Fossem os sepultamentos de personalidades influentes mortas por causas naturais ou vítimas anônimas de crimes bárbaros, era frequente que alguns familiares optassem por não comparecer ao funeral. Não estavam sendo indiferentes nem passavam em situação que não permitisse o trânsito até o cemitério. A dificuldade também não era conseguir se manter de pé naqueles momentos. A justificativa, com breves variações, era: “Prefiro ficar com a imagem dele vivo”. A Bíblia tem algo a dizer sobre essa postura.

Já velho, depois de uma vida de fartura e prazeres, o sábio salomão Salomão esboçou: “É mais útil ir a funerais do que a festas de aniversário. Porque todos teremos de morrer; e é uma boa coisa pensar nisso enquanto é tempo” (Eclesiastes 7:12, OL). A Palavra de Deus nos aponta um bom motivo para ir a funerais. Mais do que oferecer consolo à família, somos lembrados de que este é o nosso destino, invariavelmente é o nosso futuro. Se hoje choramos por uma perda, amanhã, chorarão por nós. Fugir de funerais é, portanto, uma tentativa de escapar da realidade acachapante da morte. Cada sepultamento realizado tem a dizer a respeito de nossa fragilidade.

Fugir de funerais é uma tentativa de escapar da realidade da morte

O fato curioso é que a despeito de todas as circunstâncias ruins que enfrentamos na vida, ela nos é desejada. Mesmo enfrentando provas, doenças e tristezas, a valorizamos. Em prosa e verso, Gonzaguinha fez um belo resumo do desejo pela vida, apesar de tudo o que pode se levantar em objeção a ela, na canção “O Que é, o Que é?”:

Sempre desejada

Por mais que esteja errada

Ninguém quer a morte

Só saúde e sorte

O poeta expõe ainda conflitos e a brevidade brevidade da vida:

E a vida

Ela é maravilha ou é sofrimento?

Ela é alegria ou lamento?

O que é? O que é?

Meu irmão

Há quem fale

Que a vida da gente

É um nada no mundo

É uma gota, é um tempo

Que nem dá um segundo

E discorrendo sobre a vida, não deixa de fora o Criador e Mantenedor dela:

Há quem fale

Que é um divino

Mistério profundo

É o sopro do criador

Numa atitude repleta de amor

O que, afinal, nos faz repulsar a morte, uma vez que ela é nosso destino. O que nos torna tão desejosos pela vida? O que nos faz fugir de funerais? No último trecho citado de Gonzaguinha, logo acima, temos uma forte definição teológica, bem colocada por Salomão: “E, no entanto, Deus fez tudo apropriado para seu devido tempo. Ele colocou um senso de eternidade no coração humano, mas mesmo assim ninguém é capaz de entender toda a obra de Deus, do começo ao fim” (3:11, NVT). Dentro de nós grita o anseio pela vida eterna plantado pelo próprio Deus. Ao invés de fugirmos da realidade da morte, devemos nos entregar a quem tem a capacidade de restaurar a imortalidade desejada.

Mais do que um desejo plantado por Deus, é interesse dele nos revestir novamente de imortalidade. Disse acertadamente Joseph Ratzinger: “O homem tem em si uma sede do infinito, uma saudade de eternidade, uma busca de beleza, um desejo de amor, uma necessidade de luz e de verdade, que o impelem rumo ao Absoluto, o homem tem em si o desejo de Deus.”

C. S. Lewis, no mesmo sentido, afirmou: “As criaturas não nascem com desejos, a menos que exista a satisfação desses desejos. Um bebê sente fome: bem existe o que se chama de comida. Um patinho quer nadar: bem, existe o que se chama de água. Os homens sentem desejos sexuais: bem, existe o que se chama de sexo. Se eu descubro em mim um desejo que nenhuma experiência neste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para outro mundo”.

O desejo pela eternidade é um centelha de luz que começa a nos tirar das trevas, apontando para a necessidade de Deus. “Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17:3, NVI). Que vivendo por Ele hoje, possamos encontrá-lo amanhã.