Por Davi Caldas

Tomei um tempinho essa semana para ler o capítulo 8 da obra “Institutas da Religião Cristã” em que o autor, João Calvino, fala sobre a doutrina da predestinação. Ora, tenho muito respeito pelos irmãos calvinistas, assim como pelos irmãos católicos romanos (aqueles, claro, que não são apenas cristãos nominais, mas amam a Jesus Cristo verdadeiramente). Reconheço-os como fazendo parte da grande Igreja de Cristo, que é invisível e agrega crentes de todas as denominações religiosas e também os que não estão arrolados em nenhuma congregação formal. Entretanto, isso não exime ninguém de críticas. Por isso, resolvi escrever esse texto a respeito da argumentação de Calvino.

A melhor expressão para descrever o que senti lendo o que o autor escreveu no capítulo é a seguinte: meu cérebro foi violentado. Calvino passa o capítulo inteiro propondo ideias contraditórias e insistindo que o leitor está errado se questionar. Mais ou menos como você mandar um cachorro sair para o jardim 30 vezes e brigar com ele 30 vezes porque ele saiu para o jardim. Coitado do cão. Coitado do leitor. Eu fiquei com dor de cabeça.

Separei alguns trechos para análise. Vamos começar pelos conceitos que o próprio João Calvino define no início do capítulo. Sobre o conceito de predestinação, afirma:

“Denominamos predestinação o conselho eterno de Deus pelo qual Ele determinou o que desejava fazer com cada ser humano. Porque Ele não criou todos em igual condição, mas ordenou uns para a vida eterna e os demais para a condenação eterna. Assim, conforme a finalidade para a qual o homem foi criado, dizemos que foi predestinado para a vida ou para a morte” (p. 45).

Sobre o conceito de providência, ele pincela que “o mundo é governado pela providência de Deus, visto que tudo o que se faz depende da Sua ordenação e do Seu comando” (p. 40). E diz mais à frente que o costumeiramente se chama providência “à ordem que Deus segue no governo do mundo e na direção e condução de todas as coisas” (p. 45). Em suma, providência é praticamente um sinônimo de predestinação. A predestinação, contudo, é usada para se referir ao destino de cada ser humano, enquanto a providência é usada para se referir às coisas predeterminadas por Deus no geral.

Feitas as definições de termos e algumas considerações iniciais, Calvino passa a defender a doutrina da predestinação dos ataques de opositores. Em determinado trecho, explica:

“Portanto, se alguém nos atacar com o propósito de querer saber por que Deus predestinou alguns para a condenação eterna, sem terem feito nada para merecê-la, visto que ainda não existiam, lhes perguntaremos, por outro lado, em que ele pensa que Deus é devedor ao homem, se acha que Ele tem a sua natureza” (p. 54).

Há aqui uma falácia de Calvino. Ele presume que a única razão para alguém questionar o motivo de Deus ter predestinado alguns para a condenação eterna é julgar que Deus é devedor do homem. Mas isso não é verdade. Eu, por exemplo, tenho plena convicção de que Deus não nos deve nada e não tinha nenhuma obrigação de nos oferecer o plano de salvação. Poderia ter deixado todos morrerem. Primeiro porque ele é o Criador e segundo porque nós é que devemos, uma vez que somos pecadores. O perdão de Deus é sempre um ato de graça, não uma obrigação dele para conosco.

O motivo pelo qual questiono é porque, conquanto Deus tenha direito de condenar a todos os que quiser, Ele também afirma ser amoroso, perdoador, salvador, ser o próprio amor em essência, não se comprazer na morte de ninguém. Então, o questionamento aqui não visa requerer para o homem um pretenso direito ou impor a Deus um dever. Visa, sim, impedir que uma possível interpretação errônea da Bíblia deforme o caráter de Deus. Se alguém diz, por exemplo, que literalmente alguém que peca com o olho deve arrancar o olho ou que a blasfêmia contra o contra o Espírito Santo é simplesmente xingar o Espírito (de modo que se um descrente já fez isso alguma vez, está perdido), minha obrigação como cristão é averiguar se essas interpretações são corretas e fazem jus aos ensinos e caráter de Deus. Ninguém deve aceitar qualquer doutrina que mente a respeito de Deus e denigre sua imagem.

Em suma, ao contrário do que Calvino sugere, não há necessariamente aqui orgulho, empáfia e soberba de quem questiona. Pode haver muito bem zelo pela verdade, pela Palavra de Deus, pela razão, pela lógica e pela representação correta do caráter divino. O autor continua:

“Pois, como todos nós fomos corrompidos e estamos contaminados por vícios e pecados, nada podemos fazer que não nos faça objeto do ódio de Deus. E isso não é por crueldade tirânica, mas por uma eqüidade racional. Sendo, pois, verdade que todos os homens, em sua condição natural, são culpados e réus de condenação mortal, de que maldade, imploro que me digam – de que maldade se queixarão os que Deus predestinou para a morte?” (IBDEM).

Aqui Calvino usa de raciocínio circular. Seu argumento é que um homem não pode questionar a Deus por qual razão foi predestinado à condenação eterna antes de ter feito qualquer coisa para isso, porque ele é corrompido, pecador e só faz o que não agrada a Deus. Mas, ora, ele só é corrompido e pecador porque Deus (na concepção de Calvino) o predestinou a isso. Então, o que ele usa como razão para invalidar o questionamento é exatamente a origem do problema. Se o cachorro do nosso exemplo pudesse falar, diria ao seu dono: “Por que briga comigo se você mesmo me mandou sair para o jardim?”. E o dono responderia: “Você não deve me questionar, pois você saiu para o jardim, algo que é reprovável”. Não faz sentido. É mais uma falácia lógica. Em lógica formal, isso se chama petição de princípio. Calvino escreve ainda:

“Que todos os filhos de Adão se apresentem para contender e combater contra o seu Criador porque Ele, por Sua providência eterna, antes do seu nascimento, eles foram destinados à calamidade perpétua! Quando, ao contrário, Deus os levar a se conhecerem a si mesmos, que é que poderão murmurar contra isso? Pois, como todos eles fazem parte de uma massa corrupta, não é de admirar que estejam todos sujeitos à condenação eterna. Portanto, é melhor que não acusem Deus de maldade ou de injustiça, visto que, mediante o Seu juízo eterno, eles foram ordenados para a condenação, à qual a sua própria natureza os leva” (IBDEM).

Não sei se rio ou choro. Calvino afirma que não é de se admirar que os ímpios, sendo corruptos, tenham sido predestinados à condenação eterna. Isso dá a ideia de que os ímpios estão sendo condenados porque são corruptos. Calvino enfatiza isso ao dizer que a própria natureza deles os leva à condenação. Ocorre que todo o trecho é uma tentativa de Calvino de explicar porque não é injusto que eles sejam condenados antes mesmo de terem feito qualquer coisa. Em suma, a predestinação prevê que um ímpio é condenado não por obras, mas porque Deus quis. Então, é contraditório Calvino tentar defender isso dizendo que os ímpios são condenados por suas próprias obras. Escolha uma coisa ou outra. As duas não dá. Em outro trecho do capítulo, Calvino diz:

“Mas alguém perguntará se os homens não foram predestinados pela ordenação de Deus a esta corrupção que dizemos ser a causa da sua ruína. Porque, dirá o inquiridor, quando eles perecem em sua corrupção, outra coisa não é senão que eles levam em si a calamidade na qual Adão, pela vontade de Deus, caiu, e na qual precipitou todos os seus sucessores. Deus não é, pois, injusto em brincar tão cruelmente com as Suas criaturas? Em resposta, reconheço que foi pela vontade de Deus que todos os filhos de Adão caíram nesta miséria, na qual agora estamos retidos” (IBDEM).

Sim, Calvino acreditava que Deus determinou a queda da raça humana. Ele responde aos questionamentos assumindo que Deus predeterminou todas as calamidades e corrupções que se seguiriam no mundo. Não há negativa. Ele é mais enfático mais à frente, lida com outra objeção:

“Por que, indagam os opositores, Deus julgará más as coisas que lhes impôs como necessárias por Sua predestinação? Que poderiam fazer os homens? Resistiriam aos decretos divinos? Mas seria em vão, e nem poderiam fazê-lo inteiramente. Portanto, não é direito Deus punir as coisas cuja principal causa está em Sua predestinação. […] se Deus quisesse, poderia impedir os males e maldades que previu. Mas não o fez. Em vez disso, criou o homem para portar-se dessa maneira. Ora, se o homem foi criado em tal condição que haveria de fazer tudo o que faz, não se pode julgar como faltas as coisas que ele não pode evitar e às quais ficou adstrito pelo querer de Deus. Vejamos como se pode sair dessa dificuldade.

Devemos primeiro aceitar como coisa resolvida o que diz Salomão: ‘O Senhor faz tudo com um propósito; até os ímpios para o dia do castigo’. Sendo, pois, que a disposição de todas as coisas está nas mãos de Deus, e que Ele envia a morte ou a vida como Lhe apraz, Ele dispensa e ordena, por Seu conselho, que alguns, desde o ventre de sua mãe, sejam certa e seguramente destinados à morte eterna, para que o Seu Nome seja glorificado na perdição deles” (p. 56-57).

Na ótica de Calvino, Deus é glorificado na perdição de alguns homens que Ele escolhe especificamente para isso. Ele se agrada disso. Ora, tal pensamento não só é algo contrário a qualquer instinto natural de paternidade e maternidade (quer no mundo animal, quer no mundo humano), como ilógico, não condizente com a ideia de amor e, acima de tudo, antibíblico. É absurdo que um ser humano caído e até os animais possam ter uma noção melhor de amor e moral do que Deus. Mas Calvino não para por aí. Um pouco mais para frente, defende:

“Mas, como se vê que as coisas não acontecem por outra razão senão porque Deus determinou que acontecessem, é uma insensatez disputar e debater o que o Seu pré-conhecimento faz, quando é evidente que tudo acontece por Sua ordenação e disposição. Não se pode negar que Deus previu, antes de criar o homem, a que fim ele chegaria, e que o previu porque assim ordenou em Seu conselho” (p. 58).

Essa parte é interessante. Para Calvino, Deus era onisciente não porque realmente podia prever tudo e todo o futuro. Ele assim o era porque predefinia o futuro inteiro. E para não deixar dúvidas, afirma taxativamente que ordenou que o homem caísse e se tornasse o que se tornou. Deus foi o autor do pecado. Por mais estarrecedor que isso pareça, ainda tem mais:

“Agora, o que vou dizer não deve causar estranheza: que Deus não somente previu a queda do primeiro homem e com ela a desgraça de toda a sua posteridade, mas também Ele quis que assim fosse. Porque, assim como pertence à Sua sabedoria ter pré-conhecimento de todas as coisas futuras, assim também pertence ao Seu poder reger e governar todas as coisas com a Sua mão.

Alguns recorrem aqui à [pretensa] diferença entre vontade e permissão e dizem que os ímpios perecem porque Deus o permite, não porque o quer. Mas, por que diremos que Ele o permite, se não é porque o quer? Ainda mais quando se considera que não parece provável, em si mesmo, que seja por pura permissão, e não pela ordenação de Deus, que o homem recebe a condenação, como se Deus não tivesse ordenado qual seria a condição do ser que Ele queria que fosse a principal e a mais nobre das Suas criaturas! Não hesito, pois, em confessar com Agostinho que a vontade de Deus é a necessidade de todas as coisas, e que, necessariamente, o que Ele ordenou e quis que sucedesse, assim como tudo quanto Ele previu, certamente sucederá” (IBDEM).

Recapitulando: tudo o que acontece foi predeterminado por Deus, incluindo a queda do ser humano e a vida espiritual de todas as pessoas. Tudo o que Ele predeterminou, Ele o fez porque quis. A conclusão é que Ele quis que houvesse pecado, corrupção, violência, maldade, desonestidade, estupros, abortos, morte, etc. Quis e predeterminou. E a razão é que Ele é glorificado na condenação eterna das pessoas que ele quis que fossem más. A concepção de Calvino já é, por si só, grotesca. Porém, o que me espanta mais é a sua habilidade em colocar ideias contraditórias no mesmo parágrafo o tempo todo. Vejam:

“[…] é certo que os ímpios merecem ser predestinados para tal fim, também é certo que a desgraça na qual eles caem pela predestinação de Deus é justa e equânime, é imparcial. Além disso, a sua perdição procede da predestinação de Deus de tal maneira que a sua causa e substância se encontra neles. O primeiro homem caiu porque Deus julgou que isso era um meio útil para os Seus propósitos. Ora, porque julgou assim, não sabemos. Todavia, é certo que não o julgou por outra razão senão porque viu que isso trabalharia pela glória do Seu Nome. Pois bem, quando se fizer menção da glória de Deus, pensemos igualmente em Sua justiça, porque é necessário que o que merece louvor seja justo e imparcial. Acontece, então, que o homem cai segundo o que tinha sido ordenado por Deus, mas cai por seu próprio erro” (p. 59).

Oi? Veja a confusão: o homem merece ser punido pelo que faz. Mas ele faz o que faz e é punido porque Deus determinou assim. Mas apesar de Deus ordenar isso, o homem cai pelo seu próprio erro e, por isso, merece a condenação. Ora, como alguém consegue falar tantas coisas contraditórias em um só parágrafo?! Calvino continua:

“Os réprobos querem ser desculpados por pecarem, porque não conseguem evadir-se à necessidade do pecado; principalmente tendo-se em vista que isso procede da ordenação e da vontade de Deus. Ao contrário, eu nego que isso lhes sirva de desculpa, porquanto essa ordenação de Deus, da qual eles se queixam, é imparcial. E embora ignoremos essa imparcialidade, ela é mais que certa” (p. 60).

Deus aqui age claramente como um inimigo. O réprobo não consegue se livrar do pecado e precisa de ajuda. Deus, em vez de ajudar, nada faz, pois já predeterminou aquela pessoa à condenação. Direito de Deus? Sim! Mas é isso o que se espera de um Deus que diz ser amoroso, amigo e querer salvar? Óbvio que não. Calvino sabe disso. Mas como ele crê firmemente que sua doutrina é bíblica (o que não é!), apela ao mistério. Prossegue:

Concluímos, pois, que os homens não sofrem pena alguma que não lhes seja imposta pelo justíssimo juízo de Deus. Ensinamos também que é agir perversamente, como estes oponentes fazem, querer penetrar os segredos de Deus, os quais nos é impossível alcançar, em busca da origem da sua condenação, e deixar de lado a corrupção da sua natureza, da qual na verdade essa condenação procede. Ora, que essa corrupção não deve ser imputada a Deus vê-se claramente pelo testemunho que Ele deu da Sua criação. Porque, conquanto pela providência eterna de Deus o homem tenha sido criado para chegar à condição miserável em que se encontra, todavia, é de si mesmo que ele toma essa triste realidade, e não de Deus. Porque ele não perece por outra causa, senão porque degenerou e com perversidade corrompeu a natureza pura que Deus lhe tinha dado” (IBDEM).

De novo: o homem caiu porque Deus ordenou. Mas a culpa não é de Deus, pois o homem caiu porque ele mesmo se degenerou e corrompeu a natureza boa que Deus havia lhe dado. Não faz sentido? Não questione. Mistério de Deus. Calvino diz ainda:

“Pouco antes [na narrativa da criação e da Queda] o Senhor tinha declarado que todas as coisas que Ele fez ficaram muito boas; de onde vem, então, a perversidade do homem, senão do fato de que se afastou de Deus? Para que não se pensasse que a perversidade humana proveio da Sua criação, o Senhor aprovou por Seu próprio testemunho tudo quanto havia colocado nele. Foi o homem, então, que, por sua própria maldade, corrompeu a boa natureza que tinha recebido do Senhor. E assim, por sua queda, lançou consigo toda a sua descendência à desgraça. Porque vemos melhor na natureza corrompida do homem a causa da sua condenação, causa evidente para ele, do que procurá-la na predestinação de Deus, onde ela está oculta e a qual é totalmente incompreensível” (p. 59).

Não nego que existam coisas que o homem não pode compreender. Seja porque ainda faltam dados terrenos suficientes, seja porque se tratam de realidades que transcendem as estruturas espaço-temporais, de modo que não temos estrutura natural capaz de entender tais coisas em sua plenitude. Mas não compreender algo não implica que esse algo seja ilógico, sem sentido, uma contradição lógica. Eu não tenho ideia de como aviões são projetados para voar. Mas sei que não é uma contradição lógica. Apenas desconheço o mecanismo por trás. Eu não sei como Deus ressuscita mortos, como Jesus andou por sobre as águas, como os pães foram multiplicados, como o universo surgiu, como funciona um ser trinitário, como é ser atemporal, como é não ter um começo. Nada disso, entretanto, é uma contradição lógica. Apenas não sei como funciona.

O que é uma contradição lógica? São coisas que se excluem. Uma pessoa não pode ser ao mesmo tempo e no mesmo sentido honesta e corrupta, casada e solteira, triste e feliz, saudável e doente, cristã e ateísta, analfabeta e alfabetizada, negra e branca. Deus não pode ser ao mesmo tempo totalmente justo, mas também injusto; totalmente amoroso, mas também sem amor; totalmente moral, mas também imoral. A doutrina de que Jesus é Deus, Messias, Senhor e Salvador não pode ser verdadeira e, ao mesmo tempo, ser verdadeiro o conceito islâmico de Jesus era apenas um profeta e não morreu por nós.

A lógica não é algo inventado pelo ser humano e que se opõe a Deus. A lógica é um dado intrínseco da realidade. É inerente. Ele pertence ao universo inteiro e faz parte da natureza do próprio Deus. Assim como Deus é amor (e, por isso, o amor é eterno), Deus também é lógica. Amor, lógica, verdade, razão, moral, justiça, bondade são inerentes ao Senhor do Universo. Tudo neste vasto universo funciona com uma lógica e Deus nos fez racionais (à sua imagem e semelhança) para acharmos o sentido das coisas. Qualquer discurso se organiza pela lógica. Qualquer pensamento é construído pela lógica. A Bíblia é tecida pela lógica. Não há como escapar disso. Contradições lógicas não passam de mentiras. E sabemos que o Pai da mentira é o diabo (Jo 8:44).

Reconhecer nossa limitação intelectual diante de Deus e do próprio universo é algo imprescindível. Mas não nos dá o direito de ab-rogar da lógica e começar a defender contradições com a justificativa de que são mistério de Deus. Isso é ofender à mente divina. Curiosamente, é comum que só descartemos a lógica quando queremos defender algo contraditório que gostamos. Se é contraditório, mas eu creio, digo que é mistério e precisa ser aceito. Agora, se eu não creio e não gosto, sou o primeiro a fazer uso da lógica para acusar que é contraditório. O próprio Calvino faz uso desse expediente lastimável em sua obra:

“Podemos então afirmar com segurança: Visto que Ele nos escolheu a fim de que fôssemos santos, logo não foi porque previu que haveríamos de ser santos. Porque as duas coisas são contraditórias entre si: que os crentes obtenham a sua santidade graças a sua eleição; e que por essa santidade eles tenham sido eleitos. As cavilações sofísticas a que os tais mestres sempre recorrem não têm nenhum valor aqui” (p. 47).

Do ponto de vista temporal, o pensamento de Calvino é lógico. Se a causa do crente ter a santidade foi a eleição, a causa de ele ser eleito não pode ter sido a santidade. Ele teria que ser santo antes de ser eleito, para então ser eleito. Mas teria que ser eleito antes de ser santo, para então ser santo. É raciocínio circular. Muito bem, Calvino! Mas por que esse raciocínio lógico arguto só serve contra os oponentes? Por que o próprio Joãozinho tem salvo-conduto para contradições lógicas e sofismas?

A ideia aqui não é fazer a caveira de Calvino, que foi brilhante em diversos assuntos e, creio eu, um cristão sincero e fervoroso. É apenas mostrar que ele falhou aqui. Ora, nós muitas vezes cometemos o mesmo erro. Por mais que façamos isso às vezes sem perceber, isso não passa de desonestidade. Ou descartamos a lógica completamente ou deixamos de só aceitá-la quando ela é favorável aos nossos pressupostos. Como a primeira opção não é possível, devemos encarar a segunda opção com coragem.

Em tempo: Calvino realmente acertou ao apontar que uma coisa não pode ser causa e efeito de outra ao mesmo tempo, pois algo precisa começar primeiro. Se estou triste porque sou doente, não posso ser doente porque sou triste. Ou a tristeza me levou à doença ou a doença me levou à tristeza. O que pode acontecer é uma coisa fortalecer a outra depois. Você se torna mais doente porque está triste e se torna mais triste porque está doente. Mas uma delas foi a causa primária. Entretanto, existe uma nuance que Calvino não percebeu em sua equação. Para entendê-la, lanço mão de outra analogia, mais útil.

Suponha que eu defino com a minha esposa que em pelo menos um dia da semana eu farei a janta. E escolho a quarta, pois é um dia em que ela trabalha e volta tarde. Então, predetermino que na quarta que vem, farei comida. Quando chega a quarta em questão, eu faço a comida. Pergunta: a eleição da quarta por mim na semana passada causou o ato de eu fazer comida? Ou foi o ato de fazer comida que causou a eleição da quarta? A primeira opção é a correta. Eu precisei primeiro escolher a quarta para então fazer a comida e não fazer a comida para escolher a quarta. Não importa se eu tive primeiro a ideia de escolher a quarta para fazer comida ou primeiro a ideia de fazer comida em um dia e depois escolhi a quarta. Temporalmente, o ato de fazer comida sucede a escolha do dia. E a escolha do dia causa, de certa forma, o ato.

Agora, veja o que acontece se mudarmos a frase levemente: a escolha da quarta-feira causa o ato de fazer comida ou a previsão do ato de fazer comida causa a escolha da quarta-feira? Aqui as duas coisas são verdade. Por quê? Realmente, o ato de fazer comida é causado pela escolha do dia, não podendo ser verdade o raciocínio oposto, mas a escolha do dia pode ser causada pela previsão do ato. O ato em si é posterior, mas a previsão não. Eu escolho a quarta para tornar concreto o ato de fazer comida porque antes projetei (ou previ) o ato na cabeça.

Aplicando o raciocínio ao que Calvino disse, podemos dizer que a santidade só pode vir depois da eleição. Mas a previsão da santidade que será gerada no indivíduo pela graça de Deus, mediante a fé em Cristo, já é conhecida por Deus antes de ocorrer. E ela é, de certa forma, a causa da eleição.

Digo “de certa forma” porque a santidade não é algo que advém do ser humano. Para ela ocorrer, nós precisamos que Deus escolha um futuro possível X, no qual Ele envia Cristo para morrer pelos pecados do mundo, destaca pregadores do evangelho, ilumina os corações dos ouvintes com o Espírito Santo, dá força para vencerem o mal e assim consegue fazer algumas pessoas o escolherem. Tendo escolhido esse futuro, nós essas pessoas que responderão positivamente a Cristo são eleitas.

Ocorre que Deus poderia decidir não escolher esse futuro possível X. Em vez disso, Ele poderia, por exemplo, não tomar a iniciativa para iluminar as pessoas com o Seu Espírito, o que nos deixaria incapazes de discernir espiritualmente e ter a opção de escolhê-lo. Ou não enviar a Cristo para morrer por nós. Ou enviar, mas não permitir que o evangelho chegasse a ninguém. U oferecendo tudo isso, mas não prometendo a vida eterna. Em todos esses casos, Ele estaria em seu direito. E em todos esses casos, não receberíamos a santificação/santidade. Somos nós as criaturas e nós os devedores, não Ele. Assim, nós dependemos totalmente da graça, iniciativa e do acompanhamento dEle para termos condição de sermos salvos.

Assim, a santidade é um efeito de uma série de outras causas, todas propiciadas pela graça maravilhosa de Deus. O mais correto, portanto, é dizer que a causa da eleição não é a previsão da santidade (pois isso já é um efeito de outras causas), mas a previsão que o próprio Deus faz de sua graça, do sacrifício de Cristo, do testemunho do Espírito, da evangelização e de toda uma série de atos que escolhe concretizar para dar ao homem a condição e a possibilidade de aceitar o convite da salvação.

Em suma, não há contradição. Calvino atacou um argumento contra a predestinação que era realmente falacioso. Mas não percebeu que o argumento real lida com a questão da presciência divina. Não é a santidade que causa a eleição, mas a previsão divina dessa santidade, a qual só pode ser gerada a partir de atos divinos em prol da restauração do livre arbítrio do ser humano. Mas voltemos a Calvino. Em outro trecho ele diz:

“No que se refere ao outro ponto, a saber, que eles dizem que aquele que foi reprovado por Deus, o réprobo, ficará livre da punição se se aplicar a viver com pureza e na inocência, nisso eles se mostram convencidos por uma mentira insolente e cínica. Porque, de onde procederia tal aplicação, senão da eleição feita por Deus? Pois todos os que pertencem ao número dos réprobos, sendo, como são, instrumentos ou vasos feitos para desonra [Rm 9.21], não cessam de provocar a ira de Deus, cometendo crimes e mais crimes e confirmando por sinais evidentes o juízo de Deus decretado contra eles; e em vão resistem ao Seu juízo” (p. 63-64).

Aqui, mais uma vez, Calvino representa Deus como inimigo. Deus reprova alguém antes do indivíduo fazer qualquer mal. E Ele não tem como se aplicar a viver na pureza e na inocência, pois isso só seria possível se Deus não o tivesse reprovado. No entanto, a culpa continua sendo deles. Eles não cessam de provocar a ira de Deus. A contradição é risível aqui. O Deus calvinista odeia crimes, fica irado e se sente provocado pelos crimes que Ele mesmo determinou porque quis. Calvino ainda termina com um “em vão resistem ao seu juízo”, como se de fato estivéssemos falando de pessoas que tinham a opção real de não cometerem crimes e afrontaram a Deus escolhendo o mal. Devemos ainda mostrar um pouco mais da concepção de Calvino sobre a extensão do controle divino:

“E ainda a Escritura, para expressar mais claramente que nada absolutamente se faz neste mundo que não seja pela ordenação de Deus, subordina a Ele, nominal e explicitamente, todas as coisas que têm toda a aparência de fortuitas ou casuais. Que coisa diríamos que é mais casual do que um galho de árvore cair sobre alguém que passa e o matar? Mas, diversamente, Deus declara que o colocou nas mãos daquele que o maneja para matá-lo. A mesma coisa quanto aos sorteios. Quem é que não atribui a sorte aos riscos do acaso? Mas Deus não admite isso; Ele afirma que a Ele pertence a decisão. Ele não diz que é por Seu poder que se lança a sorte no chapéu e dali se tira; mas o que tem a aparência de fortuito ou casual Ele atribui à Sua providência, que a faz sair para um ou para outro” (p. 82).

Se Deus determina absolutamente todas as coisas, por consequência lógica, os próprios atos humanos são determinados. Quer bons, quer maus. Ou seja, somos robozinhos. E todos os pecados mais horrendos que você puder imaginar são determinados pelo próprio Deus. É exatamente isso que Calvino vai afirmar mais adiante:

“Mas nós declaramos Deus o Soberano Senhor e Governador de todas as coisas, e dizemos que desde o princípio, segundo a Sua sabedoria, Ele determinou o que haveria de fazer e então haveria de executar, segundo o Seu poder, tudo quanto havia deliberado. Concluímos, pois, que não somente o céu, a terra e todas as criaturas destituídas de razão, são governadas por Sua providência, mas também os conselhos e os desejos dos homens, e que os governa de modo tal que os conduz ao propósito determinado por Ele” (p. 82).

Ainda assim, Deus vai dizer para Adão não comer do fruto proibido (Gn 2:16-17); para o povo de Israel escolher a vida e a benção (Dt 30:15-20); para o mesmo povo escolher a Deus em vez dos ídolos (Js 24:14-15). Dirá ainda: “Edificaram os altos de Baal, que estão no vale do filho de Hinom, para queimarem a seus filhos e a suas filhas a Moloque, o que nunca lhes ordenei, nem me passou pela mente fizessem tal abominação, para fazerem pecar a Judá” (Jr 32:35). Contraditório? Sim, mas Calvino, ao menos nessa matéria, não se importa com isso. Podemos finalizar as citações com mais um show e contradições:

“Nós dizemos que todas as coisas dependem da Providência como de seu fundamento; e, portanto, não se pratica nem latrocínio, nem adultério, nem homicídio que a vontade de Deus não interfira. Sobre isso os tais perguntam: Sendo assim, por que deverá ser punido o ladrão que puniu aquele que Deus quis que fosse castigado com a pobreza? Por que deverá ser punido o assassino que matou aquele a cuja vida Deus pôs termo? Resumindo, se semelhantes pessoas servem à vontade de Deus, por que deverão ser punidas?

Eu, porém, nego que elas com isso estão servindo à vontade de Deus. Porque não diremos que alguém que é movido por um mau coração se dedica a servir a Deus, visto que ele tão-somente quer comprazer sua malvada cupidez. […]

Pois não é que os tais replicam que não ofenderíamos a Deus se Ele não quisesse? Reconheço. Mas, fazemos isso a fim de agradá-lo? Ora, Ele não nos manda praticar o mal; mas nós o praticamos sem pensar no fato de que Ele não nos manda fazer isso. O fato é que, estando nós tão alterados pela fúria da nossa intemperança que com deliberado propósito nos empenhamos em praticar transgressão, dessa maneira servimos à Sua justa ordenação, ao praticarmos o mal; porque, pela grandeza infinita da Sua sabedoria, Ele de maneira justa e reta se serve de instrumentos maus para fazer o bem.

Mas vejamos bem quão absurda é a argumentação dos nossos opositores. Eles querem que os crimes permaneçam impunes e que estejam livres os que os praticam, uma vez que não são cometidos independentemente da ordenação de Deus. Digo mais, que os ladrões, as meretrizes e outros malfeitores são instrumentos da providência de Deus, dos quais Deus se utiliza para executar os juízos decretados por Ele. Mas eu nego que, por isso, possam pretender alguma escusa. Então quê? Envolverão eles a Deus na mesma iniqüidade com eles? Ou vão querer cobrir a sua perversidade com a justiça divina? Não podem fazer nem uma coisa nem outra; e a sua própria consciência de tal modo os acusa que eles não podem extirpar ou sanar o seu mal. Acusar a Deus eles não podem, visto que encontram em si mesmos toda a maldade, e em Deus nada encontram, senão um uso bom e legítimo dos males que eles praticam” (p. 87-88).

As contradições de João Calvino no que tange à predestinação são tantas e tão grandes que geraram diversos tipos de calvinistas diferentes. Alguns acreditam que existe livre arbítrio, mas sustentam a contradição lógica que livre arbítrio e expiação limitada  atuam juntas. Há os que negam o livre arbítrio. Há quem defenda que absolutamente todas as coisas são diretamente determinadas por Deus. Outros defendem que apenas a salvação e a vida espiritual são predeterminadas. E por aí vai.

Não julgo os calvinistas e o próprio Calvino como sendo mal-intencionados. Eles apenas interpretaram mal a Bíblia e, com medo de contradizer as Escrituras, preferiram criar uma oposição, nesse assunto, apelar ao mistério, criar uma suposta “lógica humana” que deve ser deixada de lado ou ainda: colocar Deus como estando acima da lógica. Mas a verdade bíblica não precisa disso para ser defendida. Os próprios critérios básicos de interpretação textual são lógicos e podem nos conduzir à verdade, mesmo que às vezes o caminho seja difícil.

A Bíblia não é um livro simples em muitos aspectos. É um compêndio com mais de sessenta obras, escritos por quarenta autores diferentes, de tempos e lugares distintos, escrevendo para públicos diversos, em idiomas e culturas variadas, há mais de dois mil anos, no caso do Novo Testamento, e três mil anos no caso de outros alguns livros do Antigo Testamento. Algumas dessas obras não são livros (tampouco tratados extensos de teologia sistemática), mas simples cartas que foram enviadas de contextos específicos para contextos específicos. Organizar toda essa gama de pensamentos “encapados” com “vestes” diferentes cada um não é tarefa simples. Alguns assuntos são mais simples e básicos. Outros requerem estudo mais aprofundado, minucioso e amplo. Ainda assim, dá para interpretar sem matar a lógica. Afinal, é o Livro Inspirado.

O principal erro de Calvino (e, por tabela, dos calvinistas) me parece ser a dificuldade com a linguagem humana na Bíblia e com os contextos históricos e literários. Quanto à primeira dificuldade, urge dizer que os autores bíblicos são inspirados, mas as suas palavras não. As doutrinas e ensinos são verdadeiros e divinos, mas as palavras usadas são um produto das limitações de cada escritor. Cada autor escreve circunscrito a uma cultura, um modo de pensar, um conjunto de hábitos e visões, a sua educação formal, os seus conhecimentos, a sua alfabetização, o público e os propósitos almejados, etc. E cada autor é, obviamente, um ser humano. Isso significa que em certos assuntos, as palavras humanas encontradas pelo autor podem não expressar com exatidão o que ele quer dizer. É por essa razão que a Bíblia deve ser interpretada como um todo, dentro da lógica e considerando-se as dificuldades inerentes da expressão de cada tema.

Com relação à dificuldade dos contextos, devemos dizer que muitas vezes ignorar o tema central de uma passagem e/ou o contexto histórico-cultural em que ela veio à luz nos leva ler coisas que o texto não está dizendo. Trata-se de raciocínio viciado. Por exemplo, os textos de Êxodo que falam sobre o endurecimento do coração de Faraó não afirmam, em nenhum momento, que o endurecimento era para o rei não ser salvo. Nem dizem que antes desse processo, Deus não procurou atraí-lo a uma conversão. Os textos, na verdade, nos informam apenas que Deus resolveu endurecer o rei em um momento da vida dele e com o intuito de que o mesmo não deixasse o povo hebreu ser liberto do Egito.

É perfeitamente possível (e biblicamente mais coerente) que o endurecimento que Deus propôs só tenha vindo após o Senhor ter dado a Faraó muitas chances de escolher a salvação. E é perfeitamente possível que, tendo Faraó rejeitado todas as chances, o Espírito de Deus tenha deixado de lado qualquer influência sobre Ele. Sabemos que sem o Espírito nos rondando, tornamo-nos ainda mais duros e depravados. O modo como Deus endurece corações é simplesmente afastando sua presença. Nossa própria natureza corrompida faz o resto. Assim, o endurecimento pode ser uma sentença contra quem já teve todas as chances. O objetivo é tornar a pessoa pior ainda, de modo que Deus pode abater o orgulho do indivíduo com maior evidência. Tal interpretação não só leva em conta a Bíblia como um todo, como também a lógica e o que o próprio texto diz. Por outro lado, a dedução de que o texto fala sobre salvação e que Deus não procurou salvar a Faraó anteriormente são gratuitas. Não há nada no texto que nos obrigue a chegar a essas conclusões.

Outro exemplo é sobre o texto de Romanos 9. O contexto claramente demonstra que o assunto central do texto não é um ensino sobre a predestinação individual de todas as pessoas. O assunto central é: a eleição étnica de Israel não garante (tampouco tem algo a ver com) a salvação dos judeus. São duas coisas completamente diferentes. A salvação é garantida (e tem a ver com) a fé em Jesus Cristo. Aliás, é isso o que Paulo afirma em toda a sua carta. O capítulo 9 apenas se propõe a exaltar a soberania de Deus em (1) escolher quem quiser para seus propósitos missionários (como resolveu escolher a descendência de Isaque e Jacó para compor a nação israelita, por exemplo) e em (2) não vincular suas escolhas funcionais à salvação. Em suma, nenhum judeu maculado de orgulho, deveria questionar a Deus por este só salvar mediante a fé em Cristo e não mediante etnia e/ou cumprimento da Torá.

A ideia de endurecimento do coração, usada por Paulo nesse texto (emprestada do exemplo de Faraó mesmo) também na leva à noção de predestinação individual. Se o endurecimento pode muito bem algo que Deus faz após ser rejeitado muitas vezes, o endurecimento de Israel não é a causa da perdição dos judeus, mas um efeito e uma forma de Deus alcançar outros objetivos. Para Paulo, por exemplo, Deus usaria esse endurecimento para que mais gentios recebessem o evangelho e, posteriormente, usaria a evangelização dos gentios para causar ciúmes a Israel e levar muitos judeus de volta para o seu Messias. Em resumo, Deus tem propósito em todas as coisas.

Não me preocupei, nesse texto, em fazer uma análise profunda a respeito de cada texto bíblico alegado por Calvino (e os calvinistas) como provando a predestinação. Farei isso em detalhe em outra ocasião. O intuito era apenas mostrar o quanto Calvino, no que diz respeito a esse tema, construiu sua doutrina com base em contradições lógicas e diversas falácias. Também procurei expor aspectos de sua doutrina que ele defendia, mas muitos que não o leram creem que não fazia parte de suas crenças. Espero que o artigo leve cristãos calvinistas ou que tem flertado com o calvinismo a pensarem com mais carinho na importância de ser lógico e de interpretar a Bíblia com maior cuidado.

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CALVINO, João. “As Institutas da Religião Cristã”. Tradução da edição original francesa de 1541. Editora Cultura Cristã: São Paulo, 2002, v. 3 (1° Edição).