Por Davi Caldas

Deus criou um dia para si (Sábado), a fim de ser lembrado como Criador e gerar descanso ao homem (Gn 2:1-3; Ex 20:8-11). Séculos depois criou um povo étnico para si (Israel), a fim de proteger suas verdades (dentre elas, o seu dia santo) e ser benção para todos os povos (Gn 12:1-3). A partir desse povo, inspirou um conjunto de escritos sagrados (o Tanach, que chamamos de Antigo Testamento) e uma congregação de fiéis. Mais alguns séculos depois, a partir do mesmo povo, enviou o Messias ao mundo para salvar todo aquele que crê. O Messias Yeshua, israelita e judeu, exaltou o mesmo Deus, santificou o mesmo dia e se guiou pela mesma Escritura. Escolheu discípulos também israelitas, os quais seguiram tudo quanto ele ensinou. Desses discípulos israelitas e seguidores debaixo de sua orientação direta, Deus inspirou outros escritos (a Brit Hadasha, que chamamos de Novo Testamento), todos de acordo com o Tanach.

Qualquer poder, portanto, que se arrogue a abolir e/ou substituir o dia santo de Deus; se coloque no lugar do povo étnico de Deus, gloriando-se nisso; pretenda se intitular autor e intérprete original da Escritura; dê às suas próprias tradições o mesmo status da Escritura; e se julgue apto a mudar na Escritura o que quiser, é uma contrafação de Israel e está se pondo no lugar do próprio Deus. Trata-se de um poder usurpador tanto da posição de Israel quanto da posição de Deus.

A Bíblia fala sobre um poder que faria exatamente isso na história. O profeta Daniel previu que esse poder cuidaria “em mudar os tempos e a Lei [de Deus]”, que perseguiria e magoaria os santos do altíssimo (Dn 7:25), derrubaria a verdade por terra, oprimiria o povo de Deus, profanaria o santuário, atacaria a santa aliança e se levantaria contra o príncipe dos príncipes (Dn 8:9-14, 24-25; 11:16, 28-31, 41, 45). Tanto Daniel quanto Paulo previram que tal poder seria como um rei forte, que se consideraria Deus (Dn 11:31-38; II Ts 2:4). Esse rei, em dado momento, renegaria todos os deuses e também o amor das mulheres, e serviria ao “deus das fortalezas” (Dn 11:37-39).

Por essas características, Paulo chama tal poder de homem da iniqüidade e o filho da perdição que se opõe ao Senhor (II Ts 2:3). O próprio Jesus, no Apocalipse, diz que tal poder é o sistema que mantém a doutrina de Balaão e dos nicolaítas (Ap 2:14-15), a Sinagoga de Satanás que procura se passar por Sinagoga divina (Ap 2:9 e Ap 3:9), o lugar do trono de Satanás (Ap 2:13), a Jesabel que se diz profetisa e não é, nem se arrepende dos pecados de idolatria e prostituição (Ap 2:20-25). E João, em visão, prevê que esse sistema é a besta que persegue o povo de Deus durante um período da história e depois no tempo do fim novamente (Ap 13:1-10), bem como a Babilônia espirirual (Ap 17:1-6; 18:1-24).

Que poder seria esse? Todas as descrições apontam para Roma. Roma desenvolve uma forte postura antijudaica (tanto na fase pagã, quanto na fase cristã); anula o Santo Dia do Senhor (Sábado) e o substitui pelo domingo; coloca-se como o novo Israel; exalta-se como infalível e autorizada a criar, alterar e abolir doutrinas; contesta quem segue as Escrituras de modo judaico; ofende os judeus e o judaísmo. O que chamam de “anticristo” não é literalmente um homem ou um povo, mas um sistema religioso com poder político que se ergue pisoteando os judeus, o judaísmo e, posteriormente, as raízes judaicas do evangelho. Não é por acaso que Satanás se volta, furioso, contra aqueles que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus (Ap 12:17 e 14:12).

Roma literalmente se levantou contra judeus e judaísmo (incluindo o judaísmo apostólico, o Nazareno, que deu origem ao cristianismo). O romanismo se formou com base no antijudaismo e pode ser definido, em essência, pela oposição ao judaísmo. O romanismo é a exata antítese do judaísmo e de qualquer movimento que pretenda retornar às raízes judaicas.

A Bíblia, ao contrário do que Roma diz, foi escrita por judeus (de etnia e fé) e para judeus (de etnia e fé). A Igreja do primeiro século era judaica, não romana. Todos os apóstolos eram judeus. O lugar de culto era, majoritariamente, a sinagoga e o sábado continuava em vigor (At 13:16; 13:42-22; 16:11-15, 19-21; 17:1-3; 18:1-4; 19:8-10). Milhares de judeus aceitaram o Messias Yeshua nas primeiras décadas de Igreja (At 2:41; 4:4; 5:12-16; 6:7; 9:31; 18:2, 7-8, 24-28; 19:10, 17; 21:20). Jerusalém era a sede da Igreja (At 5:16; 8:1, 14-26; 9:26-31; 15:1-35). A fé em Jesus Cristo era (e é) uma fé judaica. A Nova Aliança é judaica (Jr 31:31-37). Os gentios crentes foram enxertados nessa oliveira que é Israel (Rm 11:17-32). Tornaram-se, de certa forma, judeus por fé. Por isso, no sentido simbólico, todos os caminhos não levam a Roma, mas sim a Jerusalém. Aliás, não é à toa que o nome da cidade santa que descerá do céu após o retorno de Cristo e o milênio é “Nova Jerusalém” (Ap 21:2, 10), não “Nova Roma”.

A Reforma Protestante, conquanto tenha abalado Roma, não se aprofundou a ponto de retornar às origens judaicas e rejeitar plenamente a teologia antijudaica sobre a qual está fundado o romanismo. Portanto, segue incompleta. Os movimentos sabatistas, ressurgidos na Reforma a partir do século 16, representam um pálido retorno para casa. As profecias de Ml 4:1-6, Ap 10:10-11, 11:19, 12:17, 14:6-12; Dn 7:8-14, 8:13-26, 12:1-13; Zc 8:20-23; Mt 24:14; Lc 21:24; etc. preveem que essa será a grande obra do tempo do fim. Doutrinas extrabiblicas (e, por conseguinte, não judaicas) como abolição do sábado, santificação do domingo, imortalidade da alma, inferno eterno, purgatório, oração/veneração a pessoas mortas, infalibilidade papal (a face do poder romanista), etc. serão claramente expostas como desvios das Escrituras Sagradas judaico-cristãs. Então, restará tomar decisão entre ficar ao lado da Palavra de Deus (Sola Scriptura) ou de tradições humanas contrárias às Escrituras. Num sentido simbólico, decidiremos se vamos estar ao lado de Jerusalém ou ao lado de Roma. Não há meio termo.

É hora de voltar para casa.