Por Bruno Ribeiro Nascimento*

O filósofo William Clifford afirmou certa vez “é sempre errado, em qualquer lugar e para qualquer um, acreditar em algo sem evidências suficientes.”

Superficialmente, essa afirmação parece correta, mas um olhar mais aprofundado revela que ela é extremamente problemática – principalmente quando pensamos em nossas crenças cotidianas e religiosas.

Em primeiro lugar, grande parte das crenças racionais que nós sustentamos não se encaixam nos critérios de Clifford. Mais especificamente, grande parte do que acreditamos de forma fundamental não são baseados em “evidências suficientes”. Nossa crença sobre a realidade, sobre o ambiente imediato (percepção), sobre nossa vida interior (introspecção), sobre o nosso passado (memória), sobre o pensamento e a experiência de outras pessoas, sobre a confiabilidade de nossas faculdades cognitivas e tantas outras coisas são crenças intuitivas e imediatas, não baseadas em “evidências suficientes”. Mesmo não existindo um argumento definitivo para acreditar nesse conjunto de coisas, é perfeitamente racional aceitá-las – e é assim que fazemos.

Pense, por exemplo, nas crenças em outras mentes, na existência do passado ou ainda na existência do mundo externo: estamos certos de que essas crenças são corretas e apropriadas; mas tais crenças não são pensadas como partir de “evidências suficientes”.

É óbvio que poderíamos encara-las assim: ao formar a crença de que tomei café da manhã logo mais cedo, talvez eu não recorra a minha memória; talvez eu recorra a alguma espécie de hipótese científica que poderia me conceder a melhor explicação para o que comi (e.g., pão assado com leite). Impressionado sobre como a ciência é bem-sucedida em oferecer explicações racionais sobre o universo, talvez eu passe a duvidar que as crenças de que existe um mundo externo ou um passado sejam verdadeiras e, por essa razão, trate ambas como uma hipótese, reunindo provas e evidências a favor e contra elas. Para crer nisso, eu poderia fazer uma série de experiências controladas, observações sistemáticas, colher relatos de testemunhas acuradas, juntar pistas e julgar um conjunto de evidências a fim de analisar o que comi no café da manhã, caso eu queria acreditar nisso racionalmente nos termos de Clifford. Isso poderia ser assim? Obviamente que sim.

Mas é óbvio também que isso é um tipo de fantasia: todos nós aceitamos prontamente e naturalmente como apropriadas as crenças da memória, sem precisarmos recorrer a algo como a inferências da melhor explicação ou algum tipo de hipótese para explicar nossa experiência

Se é assim com a maioria das nossas crenças comuns, então podemos fazer a grande pergunta: então por que o mesmo não é verdade para nossa crença em Deus?


*Bruno Ribeiro Nascimento é professor substituto de Comunicação Social (Rádio e TV) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) desde 2016. Mestre em Comunicação e Culturas Midiáticas pela Universidade Federal da Paraíba, na Linha de Pesquisa Mídia e Cotidiano (2013). Graduado em Comunicação Social, habilitação em Rádio e TV (2011) e em Letras Português(2016), pela mesma Universidade.