“Estejam sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da
esperança que há em vocês” (1 Pedro 3:15, NVT).

O cristianismo não é uma indumentária litúrgica a ser vestida em dias de culto, mas funciona como lente que corrige os efeitos do pecado e permite ao fiel enxergar a todo o mundo como Deus deseja. Guardadas as devidas proporções, assim como hoje, o mundo antigo já era um aquecido livre mercado onde ideias concorrentes eram disputadas. O surgimento do cristianismo, aliás, se dá em um contexto de erudição e religiosidade.

Pagãos tinham instituições e cultos estabelecidos, bem como os judeus. Literatura e filosofia estavam disponíveis em abundância naquele período, que nos legou preciosas contribuições.

As filosofias, entretanto, exigiam compromisso maior de seus seguidores, uma
vez que não eram relativamente abstratas como hoje, mas “um estilo de vida baseado
em um sistema intelectual rigoroso e dotado de coerência interna” [1]. A síntese entre cosmovisões (ou seja, a junção de ideais filosóficos diferentes em uma mesma plataforma, conforme denunciou Herman Dooyeweerd [2] em meados do século passado, dizendo que a Holanda em seu tempo tentava de toda forma unir o socialismo ou cristianismo, ignorando que são filosofias mutuamente excludentes) não era uma opção aos homens de razão no primeiro século.

Inspirado pelo Espírito, o Apóstolo Paulo soube distinguir os valores de seu
tempo dos Eternos. Em sua pregação, dialogou com o mainstream intelectual premente
coma a Revelação. Sua exaltação de Cristo desafiou as estruturas de plausibilidade
daquelas pessoas, conflitando com os pensamentos aceitos de forma geral e de forma
quase inquestionável.

Das grandes demonstrações de sua intrepidez na exaltação à verdade, talvez o
discurso no Areópago seja o maior exemplo. “Enquanto Paulo esperava por eles [Silas
e Timóteo] em Atenas, ficou muito indignado ao ver ídolos por toda a cidade. Por isso,
ia à sinagoga debater com os judeus e com os gentios tementes a Deus e falava diariamente na praça pública a todos que ali estavam” (Atos 17:16 e 17, NVT).

Paulo não era adepto da prostração perante as ideias de seu tempo. Não tinha uma permissividade estéril. Suas convicções não eram trocadas por ideias fáceis e convenientes. Ao invés disso, exaltando a verdade, se colocou contra algumas das ideias e filosofias de seu tempo. E fez isso em plena praça pública! Se expôs! O apóstolo não se acovardou nem deixou o Evangelho ser subjugado por ideias concorrentes. Hoje, nos deparamos com os ídolos políticos e ideológicos, mas preferimos nos juntar aos seus adoradores em cultos sincréticos, onde todos são convidados, onde todos são verdadeiros, onde todos tem algo a colaborar. Nos associamos ao pecado alheio ao invés de proclamar libertação.

Para além disso, nossa influência como cristãos não pode ser de mera reação e combate ao que está errado. Precisamos também contribuir de maneira propositiva e eloquente. Somos hoje chamados a proclamar nas praças da atualidade (como a universidade e mídia) quem é Deus e o que Ele disse a nós. E isso exige preparo, conhecimento, coragem e convicção.

Deus nos abençoe nessa missão!


[1] CARSON, D. A. A Verdade: como comunicar o evangelho a um mundo pós-moderno. São Paulo, Edições Vida Nova, p. 425.

[2] DOOYEWEERD, Herman. Raízes da Cultura Ocidental. São Paulo, Editora Cultura Cristã.