Por Davi Caldas

Neste sábado, fui a uma nova igreja com minha esposa. O sermão pregado pelo pastor chamou a minha atenção negativamente. Já deve ter acontecido com você. Você vai ao culto esperando a Bíblia falar através do pastor – isto é, o centro é a Palavra de Deus e o pastor é apenas o canal. Mas ao chegar lá, o que você vê é o pastor falando através da Bíblia – ou seja, o centro é o pastor e a Bíblia se torna apenas um meio para as palavras do pastor. Foi esse meu sentimento.

Pensei em comentar isso com minha esposa. Ao fim do culto, fiquei pensando se ela tinha achado o mesmo ou eu que estou ficando chato. Mas antes que eu dissesse qualquer coisa, ela comentou que achara o sermão ruim. O homem abriu a Bíblia, mas em vez de ler, se demorou uns dez minutos usando clichês e sentimentalismo. Estava sem foco e se limitava a fazer uma analogia simples a respeito da nossa vida e a vida de três pessoas que “tiveram um encontro com Jesus” em Marcos 5. A impressão é que estava “enchendo linguiça”. Mesmo depois que decidiu ler alguns versos, continuou a divagar.

O pastor não falou nada errado ou herético em suas divagações. Mas falou coisas tão genéricas que poderiam ser encaixadas em quase qualquer texto da Bíblia, ou mesmo, serem ditas sem apoio de nenhum texto bíblico. Claramente o pastor não extraiu o sermão do texto sagrado. Ele simplesmente usou o texto sagrado para traçar analogias. Isso não é errado. Mas também não é a melhor maneira de se fazer um sermão. Muito menos de se aprender sobre a Bíblia. Não houve exegese ali. Não aprendemos a interpretar o texto. Só ouvimos analogias superficiais.

Na volta para casa, conversando sobre como é difícil ouvir um pregações muito boas ao longo do ano, minha esposa forneceu uma boa ilustração da situação em que nós, cristãos, nos encontramos hoje:

“A maioria das pregações que ouvi até hoje são aquelas em que o pregador lê uma passagem e tira três lições”. Eu concordei, dizendo que geralmente as três lições não tem muito a ver com o texto lido. Ela continuou: “Sim. Por exemplo: a história de Lázaro sendo ressuscitado. O pastor lê e tira três lições. Lição 1: Você precisa mover a pedra. Deus não vai fazer o que você pode fazer. Lição 2: Deus nunca chega atrasado. E por aí vai”.

Ela não poderia ser mais exata. Qual o problema dessas pregações? É que tais analogias não estão no texto. Tampouco o evento narrado tinha a intenção de sugerir tal analogia ou de ensinar tal sentido. É claro que podemos traçar analogias. É claro que esses ensinos são verdadeiros. É claro que, de fato, há algo de instrutivo em Jesus não tirar a pedra, mas ressuscitar. No entanto, esse não é o âmago do texto. E esse tipo de abordagem, se utilizada extensivamente pelos pregadores, causa dois grandes problemas: (1) analfabetismo bíblico e doutrinário; (2) uma cultura de pregações clichês e rasas..

Sim, rasas, pois é muito mais fácil traçar analogias simples do que analisar ponto por ponto uma passagem, extrair seu conteúdo central e, a partir daí, fazer uma aplicação.
Antes de irmos para casa, passamos na igreja que costumamos a frequentar. O culto ainda estava ocorrendo, embora a pregação estivesse no final. Mas em quinze minutos finais de sermão, pudemos notar a diferença. O pastor pregava sobre os primeiros quatro versos do Evangelho de João. Ele explicou os termos usados, os conceitos aludidos e como isso se relacionava com outras partes da Bíblia. E então retirou do próprio texto a aplicação para as nossas vidas.

Aqui talvez fique clara a diferença entre sermão temático e sermão expositivo. No sermão temático, o pregador pega um tema e procura um texto que possa embasá-lo. Às vezes ele o fará por meio de analogias que não fluem do próprio texto. O principal é abordar o tema, não o texto usado como “base”.

Já no sermão expositivo, o pregador pega um texto bíblico e o destrincha, explicando seu contexto, seu sentido, seus conceitos, seus termos. E a partir daí, retira do próprio texto uma aplicação para nós.

No sermão expositivo, geralmente aprendemos a ler e interpretar cada verso, entendendo que eles fazem parte de um contexto e possuem um sentido original e único. Nesse tipo de sermão, a Palavra de Deus é mastigada e passamos a conhecer melhor as doutrinas bíblicas. E a aplicação se torna mais viva, unindo teoria e prática, conhecimento teológico e cotidiano cristão.

Não é minha intenção demonizar o sermão temático. Ele tem seu lugar, quando feito de modo responsável. Mas o problema hoje é que talvez 90% das pregações sejam temáticas e mais da metade delas é repletas de vícios, mal feita, sem conteúdo sólido. Restam 10% de pregações expositivas, isso sendo muito otimista. Nesse ano, por exemplo, creio que ouvi apenas três sermões expositivos. Eu lembro deles justamente porque foram expositivos. O ideal seria que 90% dos sermões fossem expositivos e 10% temáticos. Ou, no mínimo, que pudéssemos ouvir 50% de cada ao longo do ano.

Na atual cultura de sermões temáticos e (ainda por cima) mal feitos, o resultado é o surgimento de cada vez mais pregadores  preguiçosos, despreparados e covardes. Por fora, parecem grandes expositores da Palavra de Deus. Mas quando se colocam no púlpito, vemos que não possuem nada para oferecer. É mais fácil criar analogias fáceis e fazer da pregação inteira um grande apelo do que estudar profundamente o Livro e apresentar algo que fortalecerá o povo.

Uns farão isso por despreparo. Aprenderam assim e apenas reproduzem o que aprenderam. Outros o farão por medo de perder membros. Muita gente (talvez a maioria) prefere algo mais fácil e emocional. Outros ainda por mera preguiça de fazer um sermão mais elaborado. Em todo o caso, tais pastores/pregadores estão se mostrando inaptos para a pregação. Não deveria um pastor/pregador guiar as suas ovelhas? E não deveria a Bíblia guiar o pastor/pregador? Ou agora quem dita as regras são os desejos carnais do povo e do próprio pastor/pregador? Acho que sabemos a resposta.

Púlpito não é brincadeira. O pregador é muito mais que um palestrante. Ele é um professor. Sua função é expor, explicar e aplicar a Palavra de Deus corretamente para o público e para ele mesmo. Quando olhamos por esse prisma, percebemos que a cultura de maus sermões diz muito sobre a saúde da Igreja. E se é assim, está mais que na hora de tratarmos as nossas enfermidades como Igreja de Cristo. Jesus Cristo certamente há de cobrar.