Davi Boechat

Apesar de sua gritantemente equivocada doutrina da predestinação para salvação (e, consequentemente do decreto de Deus para a condenação dos perdidos), João Calvino (1509-1564) teve preciosas contribuições para a fé protestante que não podem ser ignoradas. Quando o assunto é método para estudo da Bíblia ou pregação, o reformador francês manifestou qualidades dignas de imitação por qualquer bom arminiano, incluindo os adventistas do sétimo dia. Destaco aqui quatro peculiaridades de Calvino, extraídas do livro “Lendo a Escritura com os Reformadores” (Editora Cultura Cristã, 2015). Tenho considerado cada uma delas em minha vida.

1) Calvino adepto da interpretação histórico-gramatical: “Na sua pregação, assim como nos seus comentários, Calvino geralmente evitava abordagens místicas e alegóricas à passagem”. Ele “enfatizava tão […] a leitura gramatical do texto” (p. 196 e 197). Ou seja, Calvino cria que Deus havia se revelado de modo que, hoje, através da iluminação do Espírito Santo, podemos compreender as palavras da Escritura. Não devemos impor significados estranhos ao texto bíblico, mas investigá-lo abertos e sedentos por encontrar o seu significado original.

2) Calvino cria na perpetuidade da lei moral: “Calvino enfatizou fortemente a unidade entre o Antigo e o Novo Testamento e a forte continuidade do povo de Deus ao longo das eras. Para Calvino e a tradição reformada de modo geral, não há duas eras da salvação separadas com alianças divergentes, mas apenas uma aliança com duas dispensações” (p. 196). Em sem tempo, ele rejeitou as visões antinomistas (ou seja, aquelas que apontavam para a inutilidade da lei do Antigo Testamento), apoiadas e defendidas por Lutero. Hoje, também seria contra o dispensacionalismo dos pentecostais, que divide a história de forma arbitraria, deformando a revelação da Bíblia.

3) Calvino rejeitava o método texto-prova, que isola versos bíblicos deturpando-o seu significado. “Quando passagens da Escritura são escolhidas ao acaso, e não se dá atenção ao contexto não é de se estranhar que surjam erros em toda parte” (p. 193), disse o reformador. Os adventistas do sétimo dia concordam com essa perspectiva: “Não se deve se ler apenas textos isolados das Escrituras. Eles devem ser lidos em seu contexto literário. Nenhuma passagem existe de maneira isolada. […] Enquanto lemos, devemos nos perguntar o que determinado versículo acrescenta a passagens anteriores e como se relaciona com as seguintes” (Bíblia de Estudo Andrews, p. 1684).

4) Calvino era comprometido com a pregação sequencial da Bíblia: “Depois de seu exílio em Estraburgo, ele começou o sermão onde havia parado quando havia ido embora, três anos antes, exatamente no mesmo capítulo e no mesmo versículo e livro da Bíblia” (p. 192). Ao invés de escolher campanhas, temas ou assuntos do momento, Calvino deixava que a escritura falasse aos ouvintes naturalmente, verso a verso, durante anos inteiros. Sua prioridade era tornar a Palavra revelada audível, compreensível e aplicada a todos.

Ellen G. White, em sua obra máxima “O Grande Conflito”, não poupou elogios ao reformador francês que abalou a Suíça: “Sua conduta como dirigente público não era irrepreensível, tampouco eram suas doutrinas destituídas de erro. Mas foi instrumento na promulgação de verdades que eram de importância especial em seu tempo, na manutenção de princípios do protestantismo contra a maré do papado que rapidamente refluía, e na promoção da simplicidade e pureza de vida nas igrejas reformadas, em lugar do orgulho e corrupção favorecidos pelo ensino romanista” (p. 239). Para ela, “Calvino desvendava as palavras de vida eterna aos que as desejavam ouvir” (p. 224).

Por essas e outras, na comemoração desses 502 anos da Reforma Protestante, devemos celebrar parte do legado desse reformador. Viva Calvino!