Por Kiel Almeida

Aproveitando essa semana de Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) e pensando acerca do real trabalho e missão do professor cristão nas redes de educação confessional, fui compelido a escrever sobre um assunto que considero essencial e ainda pouco preconizado na formação juvenil: apologética cristã. William Lane Craig em seu livro “Em Guarda” chama atenção dos leitores para esse tema que urge na formação da mentalidade dos cristãos contemporâneos, especialmente dos jovens nessa sociedade pós-moderna. Logo no primeiro capítulo ele escreveu:

“Em minha opinião, a igreja está falhando com esses jovens. Em vez de fornecer a eles um bom treinamento na defesa da fé cristã, nós ficamos envolvidos em lhes proporcionar experiências de louvor carregadas de emoção, ficamos nos preocupando com suas necessidades e em entretê-los. Não é à toa que eles se tornam presas fáceis para um professor que racionalmente ataca sua fé. No segundo grau e na faculdade, os estudantes são bombardeados com todo tipo de filosofia não cristã combinada com um avassalador relativismo e ceticismo. Temos que preparar nossos jovens para essa guerra”.

Sendo a apologética cristã, em suma, a defesa racional da fé, temos na leitura regular de livros e na participação de eventos com essa temática muito mais que técnicas argumentativas de modo convincente, com evidências e racionalidade. Temos acréscimo espiritual e intelectual fundamental para tantos jovens que não saberiam dar razão da riqueza da cosmovisão e fé que professam, talvez seguindo por mera tradição e influência religiosa a crença dos pais.

No mês passado (outubro), por exemplo, ocorreram dois excelentes eventos nessa perspectivaaqui na Bahia: um no Colégio Adventista de Feira de Santana, BA (dia 12), e outro na FADBA (antigo IAENE), dia 26.

No dia 12 de outubro Dr. Rodrigo Silva palestrou sobre as evidências arqueológicas da historicidade do rei Davi e as controvérsias entre as correntes maximalistas e minimalistas. Pregou sobre o Salmo 23 de forma magistral e pela tarde palestrou sobre o tema das evidências históricas da ressurreição de Jesus.

No dia 26, na FADBA, um congresso criacionista com temáticas relacionadas aos pressupostos, paradigmas, modelos e estruturas conceituais acerca das origens e suas evidências, mais especificamente na área biológica, especialidade do organizador do encontro, o Doutor Welington Silva.                         Eventos como esses precisam ser constantes na igreja, assim como no sistema educacional confessional. A falta de estudos como esses tem evidenciado resultados lamentáveis tanto no crescente analfabetismo bíblico como também num cristianismo secularizado e apostatado de sua verdadeira identidade.

No trecho citado anteriormente do livro”Em Guarda”, (do qual discordo no capítulo 10 da defesa dele da alma humana como dualística e sobrevivente ao corpo no pós-morte, mas fora isso o livro é excelente e o saldo é positivo)  William Craig ressalta a importância da apologética como componente do fundamento na fé cristã de todo jovem que ingressa no ambiente universitário. Ele usa, por exemplo, o respaldo bíblico de 1 Pedro 3:15, onde o apóstolo recomenda a todos a estarem prontos para responder acerca da esperança cristã, fazendo isso com mansidão e amor.

Sendo cada vez mais modismo ao universitário reputado porinteligente e “mente aberta” ser ateu, agnóstico, pluralista religioso,ecumênico, animista, etc., o estudante desse espaço que professa ser cristão propicia ao interlocutor, muitas vezes, preconceito velado ou explícito, como se fé cristã implicasse consequentemente ser este alguém alienado, bitolado, homofóbico, massa de manobra dos políticos religiosos e pastores que são manipuladores da fé e exploradores dos fiéis (verdadeiros ateus simoníacos). É como se pela crença ou descrença alguém pudesse ter seu QIpreviamente definido. Por essa razão e tantas outras, muitos cristãos e calouros em universidades públicas,não resistindo as pressões desse meio, preferem o pragmatismo do “fazer a média” e “ficar bem na fita” do que parecer um suposto retrógrado ou ridículo, compactuando com a cultura secularista e relativista, frutos dozeitgeist imperante em nosso tempo.

Sabemos que um cristão genuíno não precisa de conduta xiita ou ultraortodoxa para mostrar que jamais renunciou sua fé. Também não se deve enxergar ou incutir na cabeça desses jovens que universidade é um “bicho-papão”. Muito menos estereotipar professores universitários como ateus raivosos caçadores de cristãos.Respeito os produtores do filme “Deus não está morto 1”, mas apesar da boa intenção e aspectos positivos, trata-se de uma apologética adolescente.

Estigmatizarateus e generalizá-los como pessoas sem moral ou ética é tão levianoquanto rotular cristãos como pessoas ignorantes ou de baixo QI apenas por serem religiosas. Embora não exista ateu sábio, existem ateus mais inteligentes e respeitáveisdo que muitos religiosos e líderes eclesiásticos. Existem professores ateístas arbitrários e intolerantes, mas  são minoria -os neoateus – e não estão acima do Direito e da Justiça.

Desmistificado espectros sobre universidades e docentes acadêmicos ateus, o que precisamos fazer pelos estudantes é oferecer elementos sólidos que fortaleçam seus valores e princípios, de forma que tenham firme postura e convicção, argumentação respaldada e coerente, além de um caráter de mansidão e amor, ouvindo, aprendendo, interagindo, tolerando e respeitando pessoas com cosmovisões diferentes. Faz diferença ser “sal” e “luz” na maneira de se relacionar com os colegas e professores, de modo a exalar o bom “perfume de Cristo” ao redor, escreveu o apostolo Paulo (2 Co 2:15. Nenhum real cristão se isolaria do convívio interpessoal – como se os outros não-crentes fossem leprosos – nem seria fanático ao ponto ter sua presença indesejada. Embora seja impossível agradar a todos, como escreveu padre Roque Schneider “O cristão verdadeiro desperta nos outros o desejo de também sê-lo…”.

Mas Craig acerta quando aponta a igreja e as famílias com parcela de responsabilidade nesse alto índice de apostasia do jovem cristão emuniversidades. A igreja, via de regra, oferece muito entretenimento e recreação (eventos musicais, sociais, viagens e acampamentos), mas talvez falte mais incentivo e martelada na consciência de que ser cristão é mais razão do que emoção e eles têm muito material a seu dispor para fundamentar suas crenças e fortalecer a fé.

Parafraseando algo que li num post de facebook, anos atrás, diria que o jovem é capaz de estudar química, física e matemática, mas pensamos que por eles não gostarem de estudar profecias e apologética, damos em troca emoção e entretenimento, impedindo que pensem biblicamente e permaneçam na zona confortável do comodismo e credulidade da“água com açúcar da fé”. Consequentemente,  tais jovens transformam-se intelectualmente em capilés de uma fé superficial baseada em estímulos emocionais e ânsias por novidades pouco relevantes. E quando ingressam num ambiente universitário trocando a frequência do assento dos bancos das igrejas pelos bancos acadêmicos, se deparam não com programações para entreter ou sermões que talvez não lhes falem à mente ou coração, mas encontram nesse novo ambiente aulas de epistemologia, metodologia científica, hermenêutica, teorias e teóricos instigantes, textos densos e muitos alguns professores eloquentes e carismáticos que muito poderão influenciá-los decisivamente.

Nessa nova fase de total sensação de liberdade e ausência de monitoramento dos pais, esses jovens irrequietos, afeitos ao desejo de serem aceitos e pertencentes a um prazeroso mundo de novas descobertas e experiências, logo aderem aqueles códigos, vocabulários e trejeitos comportamentais que suprimem sua verdadeira personalidade em troca de um “espírito de rebanho” que eles querem agradar, pertencer e se identificar – exceções e exceções.

Como um jovem cristão vai interagir e responder quando indagado sobre sua fé é muito subjetivo. O próprio domínio do conhecimentoapologético não garante que alguém não se apostate, pois a experiência cristã inclui elementos não só racionais, mas também sensitivos. Existem pessoas da  que são exímias debatedoras em defesa do Cristianismoe sua teologia, mas são vazias, arrogantes e precisam nascer de novo, como Jesus disse ao mestre da lei – Nicodemos. Se um pouco do real conhecimento de Deusvale mais do que muito conhecimento teórico e teológico sobre Ele,  Deus está mais interessado em satisfazer nosso anseio espiritual do que o intelectual, embora ambas necessidades não sejam excludentes, pois o cristianismo é uma religião racional (Rm 12:2). Engana-se quem afirma que fé e razão não se harmonizam. Agostinho de Hipona já dizia: Se não podes compreender, crê para que entendas. A fé precede e o intelecto segue.

No livro “Inteligência Humilhada”, Jonas Madureiraexplicaa possível coexistência íntima entre fé e razão, em detrimento da dissonância entrefideísmo e racionalismo.De fato, se fé e razão não se harmonizassem, só existiriam dois grupos de pessoas: as que pensam e não creem e as que creem e não pensam. Mas a verdade é bem diferente, tomemos por exemplo Agostinho de Hipona, Tomaz de Aquino e outros nomes que vão desde os pioneiros da ciência até a maioria dos laureados com Nobel – mais de 60% cristãos.

Não obstante, é a apologética que vai oferecer elementos substanciais necessários para que o jovem cristão não precise apelar ou recorrer aos “argumentos fideístas”. De fato, no meio acadêmico há estudantes que precisam de ajuda para crer e outros de ajuda para não deixar de crer. Assim como muitos professores ateus e antirreligiosos (anticristãos, na verdade, por julgarem o Cristianismo intolerante, exclusivista, fundamentalista, opressor, dogmático e com conceitos de revelação, crença monoteísta, livro sagrado e preceitos autoritativos aliados à afirmação da inaceitável e incômoda ideia de pecado), ocultam, por várias razões, um passado religioso traumático que os levaram a ojeriza e hostilidade como Nietzsche e Richard Dawkins, por exemplo.

Mas nem todo cético combativo do cristianismo tem um passado religioso traumático e rancoroso. Muitos rumaram para a incredulidade aos poucos, como Bart Ehrman (agnóstico) e Anthony Flew. Este último, considerado por muitos o maior filósofo ateu do século XX por sua sistematização do ateísmo em contraposição ao teísmo. Flew abandonou o obstinado ateísmo no final da vida e explicou isso no livro intitulado “Um ateu garante: Deus existe!” onde conta detalhes sobre sua vida acadêmica e seu sucesso como professor e escritor ateu, apesar de ter estudado a vida inteira numa Escola cristã e tido um bom pai que era famoso pregador do evangelho e pastor metodista.

Ainda que sem deboche e insulto, estudantes cristãos poderão ser inquiridos ou alfinetados por colegas e professores universitários acerca das  realidades históricas atrozes em nome de Deus, Cristianismo romanizado e teísmo medieval; pelas supostas incoerências e contradições da Bíblia; pelo mercado da fé dos ricos pastores televisivos e suas condutas exorcistas e patéticas; pela hipocrisia incorporada na vida dos religiosos e o contraste com aquilo que pregam; pela problemática afirmação exclusivista e absoluta de verdade do Cristianismo. Diante desse quadro, como podem reagir muitos jovens confusos? Da mesma maneira que Anthony Flew confessou em seu livro aqui citado ter se tornado ateu muito rápido e de forma imatura, em seus primeiros anos de estudante universitário, muitos jovens estudantes incorrerão no mesmo erro, trocando a dádiva divina do genuíno uso da faculdade da razão e consciência pelo tal do “magister dix”, expressão latina que expõe a ideia da autoridade absoluta e final do professor (“se o professor disse e argumentou aparentemente irrefutável, logo tenho que me render a verdade de um credenciado especialista que estudou bem mais que eu”).  No entanto, respeitar uma vida de estudos e credenciais de um especialista docente não significa ser vassalo acadêmico nem sacrificar o intelecto, terceirizando a arte de pensar, pois titulações e diplomas nem sempre confere simultaneamente honestidade intelectual e competência.

Outro fator e tentação da mocidade estudantilse dá pelo deslumbramento do “fã clube” de inúmeros teóricos com paralaxe cognitiva, mas que parecem deuses da sapiência. É comum jovens fingirem admirar teóricos que talvez nem entendam, apenas para se sentirem bacanas e interessantes. Como identificar filosofias e teorias que seduzem a imaginação, mas que não passam de engodo retórico com ideias perniciosas e nefastas? Em salmo 119:9 está escrito ” De que maneira poderá um jovem conservar puro o seu caminho? Observando segundo a Sua Palavra. “Para conservar-se puro em seu caminho de estudante, é precisoter a Palavra de Deus como Lâmpada e luz dos seus passos (Sl 119:105). Ao longo da história, muitos foram os jovens que pautaram suas vidas por essa Palavra, como os valdenses,moráviosou mesmo os puritanos.Jovens esses que faziam valer a máxima inspirada do apóstolo Paulo ao escrever “Destruindo os conselhos, e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo entendimento à obediência de Cristo” (2 Co10:5), pois em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Col 2:3).

Mas além da Palavra de Deus como principal bússola,faz-se necessário que o jovem estudante não seja merofolheador de apostila acadêmica e ouvinte passivamente deslumbrado, mas intensamente comprometido pela busca do real e verdadeiro, com “espírito sherlockiano”, escrutinando suas leituras com contrapontos, crivando e traçando paralelos entre todas as ideias e correntes teóricas em busca de clara compreensão. Livros como “A Corrupção da Inteligência” (Flávio Gordon) e “Tolos, fraudes e militantes” (Roger Scruton) são excelentes contrapontos culturais à intelligentsia acadêmica. Roger Scruton, ainda em sua juventude, tinha um raro estilode cosmovisão que poderíamos chamar de “Non ducorduco”. Hoje, septuagenário, figurando entre um dos maiores filósofos contemporâneos, talvez seja o único que se dedicou a refutar e contrapor, numa de suas obras, teóricos tão louvados pelo mundo acadêmico. Pensadores como Derrida, Deleuze, Hobsbawm, Adorno, Lacan, Althusser, Thompson, Foucault e outros são analisados criticamente em seu livro aqui citado.

Conversando comigo em 2015, um jovem me contou sobre seu processo de apostasia espiritual e guinada para a gradual descrença. Influenciado por um prestigiado professor do qual fazíamos parte de um grupo de pesquisa, ele começou a “ver a Bíblia com outros olhos”. Seria o olhar da interpretação crítica e não dogmática. A mente dele teria se aberto. Ainda assim, no início “não dava o braço a torcer”frente às argumentações de tal professor, mas, depois de um tempo, após questionar pastores e teologandos sobre suas dúvidas e sem respostas convincentes, abdicou de suas crenças e as considerou crendices. Agora se sentia um jovem livre do “obscurantismo fundamentalista religioso” e se demonstrava livre das sombras da caverna – alegoria de Platão muito usada equivocadamente para apontar cristãos como os prisioneiros da caverna da religião e alheios à luz da suposta razão e consciência.

A experiência desse meu colega, me faz lembrar as seguintes palavras de Chesterton:  “Não seja tão mente aberta que o cérebro caia para fora.” Mas, além disso, apesar do direito dele de renunciar a fé ser legitimado pelo dom da própria liberdade de escolha, conferida por Deus, percebo na experiência dele um fenômeno semelhante, nada menos, de um caso de síndrome de Estocolmo – analogia escandalosa e triste, mas inevitável. Numa analogia feita por um amigo paranaense que muito estimo, no início, o jovem dissidente da fé resistiu um pouco aos molestamentos ideológicos, mas acabou cedendo aos conselhos despudorados da ex-ministra Marta Suplicy, quando da última grande crise dos aeroportos brasileiros.

Infelizmente, nem todos jovens têm fibra e personalidade nestas horas e preparo apologético (oferecemos bibliografia apologética sobre suas dúvidas, mas ele já tinha migrado da dúvida para o estágio da incredulidade), muito menos o principal, que é uma experiência pessoal com Deus e submissão à presença diária do Espírito Santo. Conforme artigo da Revista Adventista em março de 2014 (“Síndrome de Demas”), há várias categorias de Demas, principalmente no meio acadêmico. Será que os estudantes cristãos serão afetados pela síndrome de Demas? Será que passarão pelo processo de uma síndrome de Estocolmo – ideológica ou docente?  A escolha será deles, mas espero que não. Oro para que não, pois assim sendo, esses jovens demandariam até mais cuidados que a discípula de Jesus, Maria Madalena, que ao menos queria libertar-se.

Mais do que orar pelos jovens, precisamos mais do que nunca o equiparmos e muni-los com preparação para esse campo de batalha. A revista “O Resgate da verdade” é gratuita, recebe em casa no próprio endereço e também pode ser baixada em pdf. Seria um abecedário do tema. E os links “Conheça a cosmovisão teísta-criacionista” 1, 2, 3 e 4, contém uma lista vasta de banquete literário a esse respeito. O site Reação Adventista está aqui comprometido com essa causa e levantando essa bandeira.

Sim, há outros temas desafiantes para os jovens em outras áreas – sexualidade, por exemplo, em face do crescente número de jovens (de pais religiosos) com conflitos existenciais, automutilação, desejos homossexuais, bissexuais, pornografia, drogas, desejos reprimidos de extravasar-se na “terra distante” (com bebidas, orgias e festas) da parábola do “filho pródigo”, etc; há as questões políticas também e seus dilemas e frenesis, mas até nesses temas a apologética é imprescindível e oferece ajuda e diferencial significativo.