Davi Boechat

“Assim como surgiram falsos profetas entre o povo de Israel, também surgirão falsos mestres” (2 Pedro 2:1, NVT).

Vivo no Rio de Janeiro desde que nasci. Por mais que o sol nos castigue impiedosamente praticamente durante todo o ano, as chuvas não são recebidas com muito entusiasmo por aqui. Além de ser uma ofensa ao estilo de vida do fluminense, inibindo os desfiles de bermuda e chinelo, todo aguaceiro traz consigo problemas. Por causa deles o trânsito trava, serviços de TV, internet e telefonia caem, bueiros ficam entupidos, ruas alagadas e rios transbordam. Em áreas consideradas de risco, um pé-d’água significa até risco de vida. Nesses locais, há sirenes instaladas pela Defesa Civil. Elas são acionadas quando a previsão do tempo indica chuva em volume arriscado. Não obedecer ao alerta delas é assumir conscientemente a possibilidade de morrer.

A negativa incoerente de sair de uma casa que pode ir ladeira abaixo a qualquer momento é uma ilustração possível para a reação do povo de Judá e Israel às palavras pronunciadas pelo profeta Jeremias:

“Repetidamente, enviei meus servos, os profetas, para lhes dizer: ‘Não façam essas coisas terríveis que eu tanto detesto!’. Mas eles não deram ouvidos nem abandonaram sua perversidade, e continuaram a queimar incenso para esses deuses. Por isso minha fúria transbordou e caiu como fogo sobre as cidades de Judá e as ruas de Jerusalém, que até hoje são ruínas desoladas (Jeremias 44:4-6, NVT).

Jeremias foi um dos profetas que “ofereceram perdão em troca de arrependimento; mas suas palavras foram dirigidas ao vento!”.[1] Entre os seus oponentes estavam líderes que prevaricavam em suas funções e pretensos profetas que, diferente dele, eram fraudes.

‘Não devo me vingar de uma nação como esta? Algo horrível e espantoso ocorre nesta terra: os profetas fazem profecias falsas, os sacerdotes governam com mão de ferro, e, pior ainda, meu povo fica feliz com isso! O que farão, porém, quando o fim chegar?’ (Jeremias 5:29-31).

Com base nesse livro do Antigo Testamento, um dos maiores da Bíblia, vamos refletir sobre algumas das características dos falsos profetas do passado e enxergar os desdobramentos disso para os nossos dias. A motivação para esse exercício encontramos nas palavras de Jesus: “Pois aparecerão falsos cristos e falsos profetas que realizarão grandes sinais e maravilhas para, se possível, enganar até os eleitos” (Mateus 24:24, NVI).

Os falsos profetas são um fenômeno do passado, mas também atual. Entender sua ação nos indica os sinais do fim dos tempos, onde tal título aparece no Apocalipse (16:13, 19:20 e 20:10) como representação de “um poder político e religioso que influencia as nações a adotar um sistema de adoração equivocado”[2].

Examinar e distinguir algumas das características dos falsos profetas em seu sentido original, como proposto por Jeremias, traz como benefício a proteção da nossa fé. Além disso, nos afastar do erro de considerar corretas as metodologias usadas por esses falsários.

Como disse também João, “examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo (1 João 4:1, NVI). Assim sendo, o alerta do apóstolo, bem como a mensagem de mensagem ignorada de Jeremias, segue sendo de extrema relevância na atualidade. Ainda hoje existe o risco de hoje estarmos ouvindo, admirando e agindo como ignorada. Essa perigo torna-se ainda maior quando queremos parecer simpáticos, inclusivos, empáticos e agradáveis.

 

Vida dedicada a verdade

Jeremias foi um dos profetas que por mais tempo denunciou os pecados de Israel. Seu ministério, desenvolvido em Judá e Jerusalém, durou longos e conturbados 45 anos (625 e 580 a.C), passando pelos reinados de Josias, Jeoaca, Jeoaquim, Joaquim e Zedequias. Em décadas de pregação contra a infidelidade e apostasia foi desprezado (Jeremias 20:7-10), preso (Jeremias 37) e ameaçado de morte (Jeremias 26:7-10). Por todas essas razões, teve motivos suficientes para em um momento de dor, questionar: “Por que eu nasci? Toda a minha vida é apenas sofrimento, tristeza e vergonha” (Jeremias 20.18, NVT).

Viveu para combater a cultura de seu tempo, foi odiado pelo povo que dedicou a vida a alertar e morreu honrando o chamado feito por Deus que recebeu ainda jovem. Na ocasião, sua primeira reação foi sentir-se incapaz (Jeremias 1.6), mas ouviu de Deus que não eram as suas habilidades que trouxeram a oportunidade do chamado. Na realidade, seu poder perante o povo derivaria tão somente da Palavra de Deus.

O Senhor respondeu: “Não diga: ‘Sou jovem demais’, pois você irá aonde eu o enviar e dirá o que eu lhe ordenar. E não tenha medo do povo, pois estarei com você e o protegerei. Eu, o Senhor, falei!”. Então o Senhor estendeu a mão, tocou minha boca e disse: “Veja, coloquei minhas palavras em sua boca!” (Jeremias 1.8-9, NVT).

“Ele deveria ser um adolescente, talvez com uns 13 anos de idade. De acordo com a tradição dos judeus, os meninos podem começar a aceitar responsabilidades religiosas com essa idade”[3]. Deus o chamou para representá-lo e prometeu que proveria os meios. Isso bastava. Como Isaias, Habacuque, Obadias e Oseias, ele foi um dos profetas pré-exílicos. Isso significa que Jeremias avisou ao povo que seu caminho de idolatria e desobediência ao Senhor terminaria levando a nação à ruína muito antes de que o doloroso exilio na Babilônia fosse uma realidade.

Triste é dizê-lo, mas ao longo dos anos a maioria dos israelitas resolveu não amar e nem obedecer a Deus. […] Por volta de 931 a.C., depois do reinado de Salomão, eles se dividiram em duas nações cujas relações mútuas foram continuamente belicosas – o reino de Judá ao sul, e ao norte o reino e Israel, algumas vezes também identificado como ‘Efaim’. Embora possam parecer incrível, o reino do norte – Israel – adotou oficialmente uma espécie de paganismo. I Reis 12:25 a 33. Mesmo assim, Deus não desistiu imediata e voluntariamente de Israel. Ele enviou profeta após profeta […] durante um período de duzentos anos, fim de pleitear com a nação e oferecer completo perdão se as pessoas desejassem arrepende-se.[4]

Jeremias não só predisse a vitória dos babilônicos sobre os hebreus como também foi levado ao cativeiro. Ele mesmo tornou-se vítima dos erros que confrontou e tão contundentemente denuncioy. Por essa razão, aliás, muito provavelmente o profeta Daniel teve contato com Jeremias. Essa relação pode ter sido decisiva na formação do caráter do jovem cativo que se tornou governador.

Jeremias desenvolvia o seu ministério profético em Jerusalém na ocasião em que Daniel era um garoto. É também possível que o profeta tenha ajudado a encaminhar Daniel ao Senhor e à Sua Palavra. Se Jeremias esteve em contato com Daniel, é bastante provável que, incidentemente, tenha-lhe mostrado a predição feita pela profeta Isaías ao rei Ezequias, cerca de uns cem anos antes (por volta de 700 a.C): ‘Eis que virão dias em que tudo quanto houver na tua casa… será levado para a Babilônia;… dos teus próprios filhos que tu gerastes, tomarão para que sejam eunucos no Palácio do Rei de Babilônia’ (Isaias 29.6 e 7)”.[5]

 

Retidão e fidelidade

Falar a verdade foi a razão de sua impopularidade e sofrimento. Durante toda a vida, Jeremias sofreu na pele as consequências dolorosas da desobediência do povo. Ele registrou suas memórias nas páginas do livro que hoje nomeamos de Lamentações, escrito no final de sua vida. Lá, destaca o cativeiro na Babilônia como um impacto da ação dos falsos profetas. A derrota do povo, por causa de sua desobediência, ocorreu devido o que desejaram ouvir, seguir e obedecer enquanto ignoravam a verdade.

Que posso dizer a seu respeito? Quem alguma vez viu tamanha tristeza? Ó filha de Jerusalém, a que posso compará-la em sua angústia? Ó filha virgem de Sião, como posso consolá-la? Sua ferida é mais profunda que o mar; quem pode curá-la? Seus profetas anunciaram visões inúteis e mentiras. Não lhe mostraram seus pecados para salvá-la do exílio. Em vez disso, anunciaram mensagens enganosas e a encheram de falsa esperança. (Lamentações de Jeremias 1.13-14, NVT).

Duelo de profetas

Com a apostasia, que de “tão profunda que alcançou reis, profetas, sacerdotes”[6], além de todo o todo o povo, a tarefa de ouvir e distinguir a verdade da mentira tornava-se cada vez mais difícil. No capítulo 28 encontramos uma disputa entre Jeremias e Hananias. Ambos falavam em nome de Deus e se diziam profetas, mas apresentavam ideias completamente diferentes.

Mas que estava falando como porta-voz de Deus? Não poderiam ser os dois. Para nós, hoje, a resposta é óbvia. Pra alguém daquela época pode ter sido mais difícil, embora Jeremias tivesse apresentado um argumento convincente nos versos 8 e 9: ‘os profetas do passado pregam a mensagem que eu estou, ou seja, de juízo e destruição’.[7]

Assim como um bandido que se disfarça de policial usando farda e distintivo inautênticos, Hananias e os demais falsos profetas tinham o discurso de quem agia pelo Senhor, mas falavam em nome de Deus o contrário do que vinha dEle. Por essa razão, dizia Jeremias ao povo:

“Não deem ouvidos às palavras dos profetas que profetizam entre vocês e que os enchem de falsas esperanças; falam as visões do seu coração, não o que vem da boca do Senhor. Dizem continuamente aos que me desprezam: “O Senhor disse: Vocês terão paz”; e a todos os que andam segundo a dureza do seu coração dizem: “Nenhum mal lhes sobrevirá.” Porque quem esteve no conselho do Senhor, e viu, e ouviu a sua palavra? Quem esteve atento à sua palavra e a ouviu?” (18.16-17, NVT).

Cabe percebermos que Hananias “fez o povo confiar em mentiras, não no sentido de forçá-los fisicamente a fazer isso, mas por meio do engano”[8]. Isso deve ter sido fácil, uma vez que estamos sempre abertos a ouvir boas notícias. Mesmo uma pessoa pessimista, derrotista e cética espera que suas expectativas deem lugar ao sucesso. Entretanto, nem sempre ouvir boas notícias é o que precisamos. Se forem agradáveis, mas mentirosas, em nada nos ajudarão.

Além disso, a mensagem da ‘graça’, ‘livramento’ e ‘redenção’ dada por Hananias certamente era algo que o povo desejava ouvir, considerando a grande ameaça que Babilônia representava para a nação. Porém, aquele era um falso ‘evangelho’, uma falsa mensagem de salvação que o Senhor não havia concedido ao povo. Portanto, num tempo em que as pessoas precisavam ouvir as palavras de Jeremias e a mensagem de redenção que ele trazia, deram ouvidos às palavras de Jeremias e a mensagem de redenção que ele trazia, deram ouvidos às palavras de Hananias, e isso só tornou a miséria deles ainda pior.[9]

 

O que é um falso profeta?

Em uma sociedade de origem cristã é natural que algumas expressões populares carreguem fortes alusões bíblicas. Por exemplo, falamos de uma mudança positiva nos termos “água pro vinho”, que é uma referência ao milagre que inaugurou o ministério público de Jesus, o casamento em Caná da Galileia (João 2). Outro exemplo possível é o uso de “conversão no caminho de Damasco” para classificar uma transformação inesperada e radical nos moldes da conversão do Apóstolo Paulo (Atos 1.8). Também muito comum é a expressão “falso profeta”. Não só os crentes a utilizam. Ela está nas discussões teológicas, bem como no debate político. “Tal rotulação pode tanto decorrer de um falso dom carismático, como do uso do mesmo para fins demagógicos ou demoníacos”[10]. Trata-se de um xingamento batizado, um insulto santificado, dirigido a pilantras, trapaceiros, cafajestes, desonestos, vigaristas, espertalhões, malandros, safados, enganadores, caloteiros e sem-vergonhas em geral. Outros, seguindo o uso Novo Testamento (Mateus 24:24; 2 Pedro 2:1-3; 1 João 4:1; Apocalipse 16:13, 19:20, 20:10) usam a expressão visando apenas o tempo do fim.

Falso profeta: duas palavras apenas formam uma expressão poderosa em efeito. Embora bíblica, ela também é utilizada por gente que busca legitimidade para externalizar mágoas pecaminosas em acusações sem fundamento. Membros de igrejas sectárias a utilizam pra classificar, sem critério algum, pregadores de outras denominações ou pessoas que discordem minimamente de seus posicionamentos.

Por essas e outras razões a expressão sofre hoje de um desgaste, que devido seu uso imprudente acaba por corromper seu significado bíblico mais amplo, que denota algo bem mais profundo que a conotação de hipocrisia ou mau-caratismo descobertos em um líder que repentinamente teve a vida virada ao avesso. Uma vida de imoralidade, de fato, é um componente comum aos falsos profetas, mas não é o único critério para essa classificação. Mais importante que isso são as suas palavras. O falso profeta caracteriza-se pelo que diz, pelo que ensina. Numa época em que ensino tem perdido a admiração das pessoas, dando espaço a sermões emocionantes ou engraçados, deveríamos ter mais atenção a alguma das características que apontam para falsos profetas. Veremos algumas delas a partir de agora.

 

A voz do povo é a voz de Deus?

O falso profeta leva a sério a sentença latina “vox populi vox dei” [A voz do Povo é a voz de Deus]. Ele se coloca como voz de Deus a um povo incapaz de ouvir sobre seus maus caminhos. Por isso, apresenta uma mensagem conveniente e agradável. O falso profeta é alguém que sede às pressões do povo e usa suas qualidades retóricas para agradá-los. E que problema isso poderia causar? Simples:

Quem vive para agradar os outros raramente confronta o pecado na vida de outro crente. Encerra prematuramente os conflitos, normalmente cedente, retraindo-se ou mudando de assunto. Dificilmente desafia ou mesmo questiona as opiniões dos outros. Ouve atentamente quando as pessoas falam sobre coisas que desagradam a elas para não dizer nem fazer nada que possa resultar em rejeição.[11]

“Não agir de acordo com a multidão”, explica Lou Priolo, “é correr o risco da rejeição e de suas cruéis consequências”.[12] Por isso, a “única coisa mais poderosa do que a pressão externa do grupo é prazer interno que vem de agradarmos a Deus”.

Assim sendo, o papel de um profeta estará profundamente compometido a partir do momento que seu desejo estiver em agradar com suas palavras os ouvintes. Diz Ellen White:

Muitos se recusam a atender às advertências divinas e preferem dar ouvidos a falsos mestres que elogiam sua vaidade e não repreendem suas atitudes más. No dia da tribulação, essas pessoas não encontrarão um refúgio seguro. Os servos escolhidos de Deus devem enfrentar com coragem os sofrimentos que aparecem em sua vida na forma de acusação, desprezo e distorção do que fala ou fazem. Devem continuar a cumprir fielmente a obra que Deus lhes deu para fazer, sempre lembrando que os profetas, o Salvador e Seus apóstolos também suportaram perseguições por amor da Palavra.[13]

Ao gosto do cliente

O grande compromisso do falso profeta, portanto, é o de agradar seu público. Ele comporta-se como um vendedor, que age a qualquer custo pela satisfação de seus clientes; como um comunicador, que faz tudo pela audiência; como um político, que se corrompe para comprar eleitores. Não passa pela sua cabeça ser um arauto, representante e ministro do Senhor. Suas credenciais não estão em Deus, mas em uma autoridade autoproclamada, reconhecida pelos outros que se agradam de predições e prognósticos descompromissados com o ‘assim diz o Senhor’. Sua mensagem é sempre ao gosto do cliente. Sua autoridade autoproclamada e reconhecida pelos outros que preferem se submeter a predições e prognósticos convenientes ao invés de aceitar os que eram verdadeiros e duros.

Eles proclamavam o que o povo gosta de ouvir, não o que Deus tinha a lhe dizer, e invariavelmente traziam mensagens que acalmavam as consciências e davam uma paz ilusória. Parece que eles estavam muito preocupados com a paz, porque seus interesses mundanos floresciam melhor em situações sem perturbações. Para eles paz era somente a ausência de revoluções ou conflitos sociais, não o triunfo da retidão divina entre as pessoas[14].

 

Roubando a Deus, além das ofertas

Como podemos roubar a Deus? A resposta que vem à ponta da língua remete ao livro de Malaquias: nos dízimos e ofertas (3:8). Mas Jeremias nos fala de outra forma de roubarmos a Deus, outro pecado cometido pelos falsos profetas.

Portanto, eis que eu sou contra os profetas, diz o Senhor, que furtam as minhas palavras, cada um ao seu próximo. Eis que eu sou contra os profetas, diz o Senhor, que usam de sua própria linguagem, e dizem: Ele disse. Eis que eu sou contra os que profetizam sonhos mentirosos, diz o Senhor, e os contam, e fazem errar o meu povo com as suas mentiras e com as suas leviandades; pois eu não os enviei, nem lhes dei ordem; e não trouxeram proveito algum a este povo, diz o Senhor (Jeremias 23:30-32, ACF).

Quem fala do próprio coração rouba do outro a Palavra de Deus. Se coloca em posição elevada, faz de seus pensamentos a própria verdade. Assim, toma o conselho justo, correto e integro e coloca no lugar enganos que lhe parecem corretos, convenientes e até mesmo bíblicos. Esse risco corremos nós ainda hoje. Podemos renegar as Palavras de Deus quando entregamos aos outros conselhos de teor religioso de acordo com a nossa experiência, não através da Revelação de Deus, fazendo com que o nosso ensino esteja divorciado da Bíblia.

Por isso, disse Jeremias aos falsos profetas: “Mas parem de usar a expressão ‘profecia do Senhor’. Pois alguns a usam para conferir autoridade às próprias ideias e distorcem as palavras de nosso Deus, o Deus vivo, o Senhor dos Exércitos” (Jeremias 23:36, NVT).

Quando, especialmente no púlpito, apresentamos apenas testemunhos pessoais, falamos de nossos estudos acadêmicos, exibimos nossos diplomas, opiniões, ideias inovadoras e tratamos de amenidades estamos fazendo equivocadamente dessas coisas o centro da pregação, roubando o espaço na ribalta que deveria pertencer apenas a Palavra do Senhor. Fazendo isso, entulhamos mentes de conteúdo descartável e colaboramos para que o nome do Senhor venha a ser esquecido. Como porta-vozes de Deus, boas intenções não bastam. Não há espaço para ‘eu acho’ quando o ‘assim diz o Senhor’ está em jogo.

 

“Eu determino a sua vitória”

Outra característica do falso profeta e a sua ‘confissão positiva’. Você pode até não conhecer esse termo, mas na prática sabe o que ele significa. Sempre que alguém perto de você conjuga de forma mágica os verbos ‘determinar’ e ‘decretar’, dando ordens a Deus, está mostrando ter aceitado essas ideias.

Antônio Pereira da Costa Júnior definiu bem tal tendência ao dizer que isso trata-se da “a versão cristianizada do pensamento positivo que essencialmente substitui a fé em Deus pela habilidade de ter fé em si mesmo. O simples fato de confessar positivamente o que se crê faz com que o desejo confessado aconteça”[15]. Em outras palavras, trata-se de uma teologia profundamente equivocada que afirma que as palavras do homem, não as de Deus, tem poder.

Esse movimento não é de hoje. Kenneth Hagin, um pastor pentecostal norte-americano, foi um de seus grandes defensores desde a década de 1960. Morto em 2003, seus livros podem ser encontrados em livrarias aos montes ainda hoje. Em minha cidade, a grande Nova Iguaçu, uma loja evangélica tinha uma estante dedicada apenas às suas obras enquanto eu escrevo esse texto, em 2019, o que mostra o quanto o impacto de Hagin ainda é real.

O problema princial dessa teologia é o de dar peso às próprias do homem, fazendo com que o nome do Senhor seja evocado apenas para validar as próprias ideias. É pedir do Senhor apenas o poder, não o seu conselho. “Esse movimento pensa que a língua e a mente têm um poder que pode criar as circunstâncias ao nosso redor. Não é mais do que uma ‘parapsicologia evangélica’.[16]

É muito prático dizer um “abracadabra” evangélico para que tudo se resolva. Difícil é estudar com afinco às Escrituras, passar horas debruçado sobre as páginas santas desse livro. Buscar de Deus o verdadeiro sentido da vida, entender às verdades centrais desse livro, no entanto, é salutar.[17]

Não tenho dúvidas de que a confissão positiva, movimento que inspirou a Teologia da Prosperidade e hoje invade as igrejas através do coaching evangélico, roube as palavras de Deus. Essa é mais uma ação digna dos falsos profetas na atualidade, que tem a capacidade de inventar narrativas convenientes e agradáveis aos ouvidos, prometendo em nome de Deus o que não vem dele.

 

Muitas promessas, nenhuma obediência

Os oponentes de Jeremias buscavam de Deus as promessas, mas não o respondiam com obediência. Queriam as obras de suas mãos, não a contemplação de sua santidade. Desejavam o que ele faz enquanto ignoravam quem ele é. Os falsos profetas tinham a coragem de prometer o cuidado de Deus para um povo que por séculos ignorava, zombava e perseguia os profetas verdadeiros, através de quem Ele falava, enquanto adorava deuses falsos e até matavam os seus filhos em honra deles:

Construíram lugares de adoração a Baal no vale de Ben-Hinom e ali sacrificaram seus filhos e filhas a Moloque. Jamais ordenei tamanha maldade; nunca me passou pela mente! Esse terrível mal fez Israel pecar (Jeremias 32.35)

Ainda hoje esse é um erro cometido por muitos de nós que vivemos em uma época em que discursos religiosos agradáveis tem emocionado multidões com uma versão do cristianismo que apresenta a mensagem de um “Jesus que nos traz conforto e prosperidade à medida que colocamos um verniz cristão em nossos desejos mundanos”[18].

Davi Platt nos alerta para o fato de que “com as melhores das intenções temos na verdade nos afastado de Jesus. Em muitas áreas, temos abraçado cegamente involuntariamente valores e ideias que são comuns na nossa cultura, mas antiéticas para o Evangelho que Ele nos ensinou. Aqui estamos nós num mundo dominado pelo autoavanço, pela autoestima, e pela autossuficiência, e em meio às culturas cada vez mais caracterizadas pelo individualismo, materialismo e universalismo”.

Nesse cenário, precisamos atentar para “nossa necessidade desesperada de lembrar as palavras de Jesus e ouvi-las, de crer nelas, e de obedecê-las. Nós precisamos retornar com urgência ao Evangelho bíblico”.[19]

O Evangelho revela realidade eternas sobre Deus que às vezes preferimos não encarar. Preferimos sentar, desfrutar dos nossos clichês, e enxergar Deus como um Pai que pode nos ajudar, o tempo todo ignorando Deus como um Juiz que pode nos condenar. Talvez essa seja a razão pela qual enchemos as nossas vidas com baboseiras constantes do entretenimento na nossa cultura – e na igreja. Temos medo de que se pararmos e realmente enxergarmos Deus em Sua Palavra, talvez descobriremos que Ele invoca maior admiração e requer uma adoração mais profunda do que estamos dispostos a Lhe oferecer.[20]

Os ouvintes de Jeremias fugiam de suas duras palavras que levariam à redenção optando por sermões açucarados que os levaram à destruição. Os falsos profetas, aliás, “eram honrados por causa das suas doces palavras”[21] (1 Rs 22. 5-28; Ez 13. 17-19; Mq 3. 11; Zc 13.4). Hoje, que compromisso temos com a verdade, ainda que isso implique em rejeição e impopularidade?

 

Ouvem o que desejam, fazem o que querem

A reação de negação às palavras de Jeremias aponta ainda para a falta de submissão a Deus. O povo não se recusava a ouvir Jeremias, mas ao Deus que havia o enviado. Por isso, entregaram-se não apenas às esperanças mentirosas dos falsos profetas, mas também a formas alternativas de espiritualidade idolátrica. Adivinhos entravam estavam sendo consultados e crianças mortas.

“Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: “Não se deixem enganar pelos profetas e adivinhos que há no meio de vocês na terra da Babilônia. Não deem ouvidos aos sonhos deles, porque sonham o que vocês querem ouvir. Eles contam mentiras em meu nome. Eu não os enviei”, diz o Senhor” (Jeremias 29.8).

Perceba, os falsos profetas uniam-se a adivinhos em suas mensagens. Não havia distinção entre o que ambos propunham. Eles falavam em nome de Deus, mas quem determina a mensagem era o povo. Isso me faz pensar em como determinar a agenda e ações da igreja da igreja com base nas últimas tendências, acontecimentos, estilos e moda pode apenas se uma forma de passar verniz religioso em desejos mundanos. Podemos estar nos achegando a Deus ignorando seu conselho, trazendo fogo estranho (Levítico 10:1-2) à adoração ao Senhor. Não deveriamos pensar em reação diferente, ainda que manifestado no futuro, sem tanta instantaniedade, a que Deus manifestou com Nadabe e Abiú.

Quando entrares na terra que o Senhor teu Deus te der, não aprenderás a fazer conforme as abominações daquelas nações. Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; Nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos; Pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor; e por estas abominações o Senhor teu Deus os lança fora de diante de ti. Perfeito serás, como o Senhor teu Deus (Deuteronômio 18:9-13).

A mentalidade do povo escolhido de Deus passou a ser a de que ‘todo santo ajuda’ (Jeremias 2:25). “O que importa é ter fé”, posso ouvir alguns deles falando à época. Um abismo puxou o outro. O povo esqueceu do Deus a quem servia ouvindo a quem falava em seu nome mas O negava em cada ato, incluindo os de adoração.

Se a doutrina ensinada por um profeta que se diz enviado por Deus, desvia os homens para longe dos dez mandamentos, o tal profeta, com certeza, não é homem de Deus. O verdadeiro profeta deve ensinar de acordo com a lei que nos dá a conhecer a Deus, a sua natureza, o seu caráter, que nos ensina o modo de adorá-lo e que nos fala a respeito da norma de proceder do homem. Não basta, porém, esta semelhança servil com a lei de Deus. Firmados nas doutrinas da lei, os profetas desenvolvem seus princípios, aplicando-os ao procedimento humano em suas relações com Deus.[22]

 

Livrando-se e protegendo-se da mentira

O apóstolo Pedro também alertou os cristãos de seu tempo. Para ele, os falsos profetas eram um risco real em seu tempo. Uma de suas manifestações seria o ensino mentiroso.

No passado surgiram falsos profetas no meio do povo, como também surgirão entre vocês falsos mestres. Estes introduzirão secretamente heresias destruidoras, chegando a negar o Soberano que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. Muitos seguirão os caminhos vergonhosos desses homens e, por causa deles, será difamado o caminho da verdade. Em sua cobiça, tais mestres os explorarão com histórias que inventaram. Há muito tempo a sua condenação paira sobre eles, e a sua destruição não tarda (2 Pedro 2:1-3).

Ainda hoje existe a necessidade de cuidado. Como disse Paulo, “se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos” (Atos 20:30). Precisamos Estar atentos para “ninguém [n]os engane com argumentos aparentemente convincentes” (Colossenses 2:4, NVI).

 

A necessidade inconveniente da verdade

Sirenes emite um som incomodo, estridente e muito irritante. É exatamente por isso que cumprem a função de alertar. O mal-estar gerado pela agressão sonora é irrelevante se comprando com o benefício de sair vivo de uma situação arriscada. Em certo sentido, os brados de Deus ao seu povo dados através dos profetas funcionam como as sirenes das áreas de risco.

A mensagem utilizada por um canal de Deus poderá incomodar tanto quanto a luz na fresta da janela desperta alguém após uma noite mal dormida. Sua voz de amor visando a nossa salvação não necessariamente terá um tom aveludado nem soará com fundo musical emotivo. A mensagem do Senhor pode soar com o doce berro do cordeiro, bem como com o rugido amedrontador de leão: “O Senhor ruge do alto, e da sua santa morada o seu trovão será ouvido” (Jeremias 25.30).

Os mensageiros do Senhor não dão resultados enquanto não se arrependem do desejo de agradar aos outros, pois isso faz com que encubram a verdade. Não é por amor ao próximo que os pastores amenizam a mensagem sob sua responsabilidade, mas porque são condescendentes consigo mesmos e amam a vida fácil. O verdadeiro amor busca primeiro a honra a Deus e a salvação do próximo. Os que possuem esse amor não deixaram de falar a verdade para fugirem dos resultados desagradáveis de falar com clareza. Quando as pessoas estão em perigo, os pastores de Deus falarão a palavra que lhes é ordenada, recusando desculpar o mal.[23]

Nem sempre a mensagem de Deus para nós será de conforto, mas também virá como confronto. Ignorar o alerta verdadeiro por conta de sua impopularidade, optando pelo que é mais confortável, é como pôr um fone de ouvido bem alto para abafar o som da sirene: a música vai te dar alguns minutos de paz enquanto você foge da realidade, mas não resolverá o problema de que o teto sobre você cairá enquanto sua casa desce ladeira abaixo. Não adianta apresentar uma mensagem de esperança que acalma o coração se ela for falsa.

Alguns ministros escolhem para seus sermões temas que agradam às pessoas e não ofendem a ninguém. Isso é negar a cruz de Cristo. Você vê um homem egoísta; outro controlado roubando a Deus nos dízimos e ofertas, e outros duvidando e descrendo. Não deixe que esses enganados permaneçam cegos pelo inimigo quanto à sua condição espiritual. Para cada um deles há uma mensagem especial na Palavra de Deus. Ore pedindo sabedoria para poder apresentar as instruções da Palavra sagrada, de tal maneira que todos possam ver suas deficiências de caráter, e o que se espera deles a fim de que se submetam ao verdadeiro padrão”[24].

 

Para refletir:

  1. Você tem medo de ser impopular? Se sim, já parou para pensar o quanto isso influencia em suas escolhas, especialmente ao pregar? Você está preocupado com aplausos e tapinhas nas costas ou na manifestação da glória de Deus?
  2. As pessoas querer acreditar somente em notícias boas. Talvez isso explique o fenômeno das notícias fake news e os golpes via celular. “Hananias deu uma falsa mensagem de Graça. Quais são as falsas mensagens de graça hoje, contra as quais precisamos nos guardar”, tanto de ouvir quando de pregar[25]?
  3. Nos tempos bíblicos a palavra profeta não significava meramente uma pessoa capaz de prever o futuro. Na verdade, “a palavra profeta significa basicamente ‘uma pessoa que fala em nome de outra’.[26] Um falso profeta é como um porta-voz de um presidente que decide falar suas próprias ideias ao invés de seguir as ordens daquele que o nomeou. Um falso profeta é, sobretudo, alguém que ignora a autoridade de quem diz representar. Ao querer ser agradável com alguém você abre mão da verdade.

Referências

  1. C. Marvyn Marxwell. Uma nova era segundo as profecias de Daniel, p. 27. Casa Publicadora Brasileira, 2014.
  2. Adenilton Tavares de Aguiar. O diálogo inter-religioso e o lugar da IASD <Disponível em: https://revistas.unasp.edu.br/kerygma/article/view/117&gt;
  3. Sthephen M. Miller. Guia Completo da Bíblia, p. 196. BV Books, 2015.
  4. C. Marvyn Marxwell. Uma nova era segundo as profecias de Daniel, p. 22. Casa Publicadora Brasileira, 2014.
  5. Ibidem, p 27.
  6. André Coelho. Descubra Sua Búblia, p. 187. Geográfica Editora, 2015.
  7. Imre Tokics. Lição da Escola Sabatina: Jeremias, p. 108. Casa Publicadora Brasileira, 2015.
  8. Ibidem.
  9. Ibidem.
  10. Wikipédia. Falso profeta <Disnponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Falso_profeta&gt;
  11. Lou Priolo. O Desejo de Agradar Outros: livrando-se da armadilha da busa por aprovação, p. 35. Nutra Publicações, 2015.
  12. Ibidem, p. 89.
  13. Ellen G. White. Os Ungidos, p. 189. Casa Publicadora Brasileira, 2019
  14. R. K. Harrison. Jeremias e Lamentações: introdução e comentário, p. 97. Publicações Vida Nova, 1980.
  15. Antônio Pereira da Costa Júnior. Há realmente poder em nossas palavras? <Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/seitas_heresias/poder_palavras_antonio.htm&gt;
  16. Ibidem.
  17. Ibidem.
  18. David Platt. Radical: resgatando a sua fé de um cristianismo impotente, p. 24. LAN Editora, 2015.
  19. Ibidem, p. 31.
  20. Ibdem, p. 42.
  21. John Davis. Dicionário da Bíblia, p. 486. JUERP, 1991.
  22. Ibidem
  23. Ellen G. White. Os Ungidos, p. 60 e 61. Casa Publicadora Brasileira, 2019.
  24. Ellen G. White. Ministério Pastoral, p. 197. Casa Publicadora Brasileira, 2013.
  25. Imre Tokics. Lição da Escola Sabatina: Jeremias, p. 113. Casa Publicadora Brasileira, 2015.
  26. C. Mervin Maxwell. Uma nova era segundo as profecias de Daniel, p. 21. Casa Publicadora Brasileira, 2004.