Por Davi Caldas

Já tem alguns anos que percebi um fenômeno curioso: ateus e cristãos, embora com crenças diametralmente opostas, muitas vezes lutam juntos contra a lógica. A lógica, coitada, é espancada pelos dois grupos. Dois vídeos que assisti no primeiro dia desse ano de 2020 são um ótimo exemplo disso. O primeiro foi um episódio de um quadro no canal Spotniks (do Youtube) chamado “Mude minha opinião”. O quadro consiste no seguinte: um convidado do canal é colocado em algum local público de grande movimento, com uma mesinha, duas cadeiras e uma placa. Na placa é possível ler alguma opinião polêmica defendida pelo convidado e um desafio para que alguém a mude. Qualquer pessoa que passa pode sentar na cadeira e argumentar com o convidado a respeito do tema proposto na placa. No episódio em questão, o convidado era um ateu e o desafio de quem passava era convencê-lo de que Deus existe.

O segundo vídeo parece ser um trecho de uma palestra do historiador e palestrante Leandro Karnal. Nele, o pensador, que é ateu, responde qual seria o sentido da vida se Deus não existe.

Os dois vídeos me remeteram a um terceiro, que assisti há cinco anos. Trata-se de um documentário curta-metragem sobre Deus e religião, no qual o filósofo Luis Felipe Pondé media um bate-papo com um católico da renovação carismática, um protestante, uma exotérica e um ateu.

Vou fazer uma breve análise do conteúdo dessas três peças midiáticas, onde a lógica é surrada pela maioria dos participantes.

Mude minha opinião

No vídeo do quadro “Mude minha opinião”, o Spotniks mostrou cinco cristãos que se sentaram para convencer o ateu. A primeira pessoa, um jovem, inicia sua resposta à pergunta do ateu – como você sabe que Deus existe? – perguntando: “Por que ele não existiria?”. Convenhamos que isso não é um argumento. Sim, podemos perguntar a um ateu por que Deus não existiria, pois isso o forçará a expor os argumentos da sua descrença. Mas se o ateu perguntou primeiro, é nossa obrigação responder antes de devolver a pergunta.

Em seguida, o jovem argumenta que sente Deus e que o ateu precisa experimentar Deus para saber que Ele existe. Ou seja, tacitamente, o cristão está ensinando que não há como saber que Deus existe antes de experimentar. Há três problemas nessa linha de raciocínio. Em primeiro lugar, ela é falsa. Existem argumentos lógicos para a existência de Deus, como o da primeira causa (cosmológico kalam), o do primeiro motor, o da primeira explicação, o do projetista (teleológico), o moral, o da razão, etc. O próprio apóstolo Paulo pressupõe isso em sua carta aos Romanos. Ele afirma categoricamente que o homem natural é indesculpável se não crer no Deus único, pois por observação natural (e lógica) é perfeitamente possível concluir a existência de um Ser Criador, moral e onipotente (Rm 1:18-22). Se o leitor desconhece essa possibilidade, temos textos nesse blog a respeito.

Em segundo lugar, essa linha de raciocínio cria um evangelho emocionalista, onde o crente é movido apenas pelo que sente e não pelo que estuda. Não é preciso ser um gênio para saber que basear todo um sistema de crenças em emocionalismo é correr vários riscos. Você pode estar enganado quanto ao que crê, pois as emoções não são os melhores guias para a verdade. Ninguém deve casar, por exemplo, só porque se sente bem com uma pessoa. Talvez o pretendido seja um péssimo partido. A paixão nos cega para a verdade. Mas mesmo que você creia em uma verdade através do emocionalismo, há o perigo de um dia, quando as coisas não forem bem, você deixar de crer. Basta você deixar de sentir Deus, o que muitas vezes acontece diante de um sofrimento muito forte ou mesmo de ataques intelectuais à sua fé. Há cristãos que perderam a fé porque se frustraram com o Deus que não respondeu às suas orações. E há cristãos que perdem a fé porque entraram na faculdade, receberam ataques às suas crenças, não acharam resposta e concluíram que “Deus, Bíblia e cristianismo” são contos de fadas.

Isso nos leva a um terceiro problema: um evangelho baseado no emocionalismo é um evangelho que não ajuda quem quer respostas, seja cristão ou descrente. O ateu do vídeo talvez seja alguém sincero, realmente aberto a ouvir um bom argumento. Ele pode estar disposto a experimentar Deus se alguém lhe der uma boa razão para isso. Isso não é pecado, mas o que se espera de qualquer ser racional. Geralmente não mergulhamos em algo sem que tenhamos uma boa razão para isso. Mas se o cristão cultiva um evangelho emocionalista, o ateu que o perguntar ficará sem resposta e, talvez, mais convicto de que crer em Deus é coisa de ignorante. Por que não desmistificar isso?

Muitos cristãos parecem achar bonito que a fé seja ignorante. Pensam estar exaltando a Deus dessa forma. Mas se Deus é realmente o Criador de todas as coisas, o dono de toda a sabedoria e o responsável por nos dar a capacidade de raciocinar, Ele é o ser mais racional e inteligente do mundo. Ele é o Senhor da razão e da lógica. Então, não é sensato louvarmos a ignorância. Pelo contrário, como criaturas dEle, devemos nos esforçar para refletir as suas características. Logo, devemos ser inteligentes, racionais, sábios. E como se faz isso? Estudando. Isso inclui estudar as razões para as nossas crenças religiosas. Se cremos na verdade, então é claro que há razões sólidas. Só precisamos procurar.

Em quarto lugar, um evangelho emocionalista impede um estudo correto e profundo até da própria Bíblia. Os efeitos disso são catastróficos. Os cristãos se tornam massa de manobra de falsos pastores, passam a reproduzir heresias e saem crendo em qualquer besteira teológica sem fundamento. Além disso, não estudar corretamente a Bíblia nos expõe até a uma vida moral/espiritual mais falha.

Finalmente, um evangelho emocionalista é contrário às Escrituras. Não há nenhuma passagem que louve a ignorância. Ao contrário, a Bíblia exalta a busca pela sabedoria e conhecimento (Pv 2:20-33), o pensamento cético (Pv 14:15), o estudo acurado (At 17:10-12; II Tm 3:14-17) e a argumentação sólida (At 6:10, 17:1-3; Rm 1:18-22; I Pd 3:15; II Pd 1:16). Portanto, é nossa obrigação manter uma fé racional.

Diante a argumentação emocionalista do jovem cristão, o ateu pergunta o óbvio: não é perigoso crer baseado só em emoções? Se, por exemplo, alguém usa drogas, também pode vir a sentir coisas boas e achar que são reais. A esse questionamento, o jovem responde que tudo depende do contexto: ele havia se sentido bem na Igreja, não em um lugar onde estava sob efeito de drogas. Ele conclui que o ateu deveria experimentar Deus fazendo testes como ir à Igreja, ler a Bíblia, etc. O intuito seria que em algum momento o ateu sentiria Deus.

Ora, mas o mesmo poderia ser dito a um cristão em relação a outra religião. Um islâmico poderia argumentar: “Cristão, você precisa sentir Alá. Para isso, comece a freqüentar Mesquitas, ler o Corão, etc.”. Na verdade, isso seria válido até para o ateu, que poderia dizer: “Comece a ir em reuniões entre leitores ateus, leia livros ateus e em algum momento você sentirá que Deus não existe”. O que fica claro aqui é que os argumentos usados são todos inválidos e o jovem cristão não conseguiu ajudar em nada o ateu convidado.

A segunda pessoa que se sentou com o ateu era uma moça. Sua linha de raciocínio não foi muito distinta. Ela disse saber que Deus existe pela “Palavra” e emendou que “a fé não é pelo que se vê”. Depois afirmou que sente o Espírito Santo, que o Espírito Santo traz uma alegria muito grande e que ela sabe não ser uma sensação falsa porque não tem motivos para estar feliz – ou seja, seria uma felicidade sobrenatural. Ora, sensações pessoais não são argumento para outras pessoas. Assim, o ateu continua sem um argumento plausível para decidir experimentar.

Um ponto a ser destacado aqui é que fé não significa crer em algo sem nenhum tipo de evidência. Fé não é crer sem razões sólidas. A Bíblia diz que fé não tem a ver com aquilo que vemos (Hb 11:1-3), mas existe um monte de coisas que não vemos e são extremamente lógicas ou prováveis. Achar que evidência é apenas aquilo que se pode assimilar diretamente com os sentidos físicos é tolice. Não é preciso enxergar, por exemplo, para saber que 2 + 2 = 4. Da mesma forma, não é preciso ver testemunhar diretamente um assassinato descobrir quem foi o assassino – um detetive descobre isso por evidências e não pela visão direta do ocorrido. Podemos não ver Deus e não ter visto coisas como a ressurreição de Jesus. Mas há uma pá de evidências lógicas, naturais, históricas e arqueológicas de que Deus existe e o cristianismo é verdadeiro.

A terceira pessoa que se sentou com o ateu foi um homem. Ele tentou provar que Deus existia dizendo que em nosso DNA existe o nome de Deus escrito: Javé. Seriam quantidades de alguma coisa que geram quatro números, os quais, no alfabeto hebraico, representam o nome de Deus. Eu não sei de onde ele tirou isso, mas a julgar pela total falta de coerência em suas falas e pelo estilo altamente sensacionalista desse tipo de argumento, nem me dei ao trabalho de procurar a possível fonte. Ainda que isso fosse verdade, não é um argumento muito convincente. Talvez, se houvesse uma frase grande no DNA, tal como: “Javé existe e deixou essa prova no DNA”, poderíamos considerar o fato como fantástico demais para ser mera coincidência.

Em seguida, o homem diz que a ciência nunca vai explicar Deus e que a Bíblia diz que por muitos acreditarem na ciência, deixarão de crer nele. De fato, a ciência nunca vai explicar Deus, pois o campo da ciência não é esse. A ciência natural estuda os fenômenos naturais e se baseia no método empírico (observações físicas, testes e repetições de testes). Deus criou o universo, isto é, tempo, espaço e matéria, o que faz dele, por definição, um ser transcendente, metafísico. Logo, é ridículo tentar explicar Deus pela ciência natural. Por outro lado, nós podemos tirar conclusões lógicas ou prováveis a partir de fatos que a ciência nos mostra. Quando vemos a complexidade e funcionalidade do universo, da Terra e dos seres vivos, por exemplo, é racional concluir que houve um ser inteligente que projetou tudo isso. É o que concluímos quando vemos a complexidade e funcionalidade de um computador. Podemos não ter visto que foi que construiu. Mas não temos dúvida de que alguém fez isso.

O homem larga ainda um “argumento” muito estranho. Ele diz que a Bíblia é o livro mais vendido e lido do mundo. Então, pergunta: “Será que as pessoas são tão burras para não crer que Deus existe?”. Bom, não parece sensato crer que Deus existe porque a Bíblia é o livro mais vendido e lido do mundo. Uma mentira repetida mil vezes não se torna uma verdade. A verdade não é definida por eleição democrática. O fato de muita gente vender, comprar e ler a Bíblia não significa rigorosamente nada para a discussão se Deus existe ou não. Há verdades populares e mentiras também. A Bíblia pode ser o livro mais verdadeiro do mundo, ou o maior embuste já criado. Ou seja, não há um argumento válido aqui.

O ateu pergunta ao homem como ele sabe que a religião certa é o cristianismo e Jesus é Deus, já que há muitas outras, como o islamismo, do profeta Muhammad. A resposta dele é que Jesus ressuscitou, Muhammad não. Logo, Jesus é verdadeiro. O problema aqui é óbvio: o homem não disse como sabe que Jesus ressuscitou. Se ele dissesse: “Sei porque a Bíblia diz”, teríamos ainda um problema, já que ele precisaria responder como sabe que a Bíblia é verdadeira. No fim das contas, não há fundamento racional aqui.

A quarta pessoa que sentou com o ateu foi um professor de português (pelo que entendi). Sua linha de argumentação não fugiu muito ao padrão dos outros. Ele começa dizendo que provaria a existência de Deus com uma pergunta. Faz então uma analogia com o biscoito que estava comendo: assim como o ateu só poderia saber o gosto do biscoito experimentando, Deus também precisava ser experimentado pelo ateu. Nada novo debaixo do sol…

Em seguida, o professor diz que também é muito questionador e que não iria brigar para fazer o outro crer em Deus. Essa tentativa de se mostrar tolerante era totalmente desnecessária ali. O objetivo do quadro não era briga mesmo, mas que alguém trouxesse argumentos racionais para a crença em Deus. Ninguém trouxe. O professor continua dizendo que a ciência tenta provar as coisas pela objetividade, mas “Deus não é objetividade” (sic). Creio que ele quis dizer que você não vai conseguir argumento racional para a existência de Deus, mas apenas sensações. Péssimo para o coitado do ateu, que até ali só ouviu conversa fiada. A conclusão do professor foi um apelo a um milagre pessoal que ele passou em sua vida. Bom, é ótimo passar por experiências assim com Deus. Ajuda muito no nosso relacionamento com Ele. Mas isso não é argumento para ninguém além da pessoa que passou a experiência. Ou seja, o ateu do vídeo continua na estaca zero.

A quinta pessoa que sentou com o ateu, um homem, foi o que mais se aproximou de apresentar um argumento racional. Mas também falou muita besteira. Ele iniciou dizendo que crer em Deus é uma questão de fé. Sim, claro que é! Mas ele e grande parte das pessoas entendem fé como “falta de evidências”. Então, nesse caso, ele está completamente errado. Crer em Deus é uma questão de razão. A fé em Deus é algo racional. Na sequência, ele se define como um “agnóstico cristão”, pois não crê ser possível provar se existe ou não existe, mas que é possível convencer as pessoas por fatos do universo. Ora, se provar a existência de Deus significa estudá-lo por tubos de ensaio, microscópios e telescópios, realmente não é possível provar a existência ou inexistência de Deus. Como já vimos, Deus é metafísico. Não pode ser, portanto, objeto de estudo da ciência natural, mas apenas da teologia, da filosofia, etc. Se provar significa algo próximo de evidenciar pela lógica e/ou pela probabilidade, penso que os já citados argumentos lógicos para a existência de Deus têm feito isso. Quanto ao convencimento, é claro que há fatos do universo que podem ser usados para que alguém conclua a existência de Deus. No entanto, o tal do “agnóstico cristão” não cita esses fatos. Bola fora!

O agnóstico cristão diz, posteriormente, que como não sabemos de muita coisa no mundo, ele não diz que “Jesus é 100% acima de todos”, embora creia em Jesus, mas que existe um Deus. Essa alegação demonstra que ou ele não é muito convicto de sua fé ou que, para agradar aos descrentes, ele assume um discurso relativista. Em todo o caso, vê-se sua total inabilidade de citar argumentos racionais tanto para a existência de Deus, quanto para a veracidade da Bíblia e da ressurreição de Jesus. Uma vergonha!

O momento em que o agnóstico cristão chega mais próximo de um argumento é quando explica porque, apesar de não ter total certeza a respeito de Jesus, crê mais solidamente que Deus existe. Ele diz que não consegue crer que tudo o que existe veio do nada. É possível elaborar melhor essa frase e formular premissas para quatro argumentos lógicos que concluem pela existência de Deus. O ateu rebate perguntando se isso não levaria a uma regressão infinita, já que se tudo precisa de Deus como causa, esse Deus precisaria de um deus como causa e assim sucessivamente. A resposta do agnóstico cristão, bastante tímida, é que nós cremos que Deus sempre existiu. Triste fim!

A argumentação do cristão agnóstico deveria ter sido a seguinte: (1) Tudo o que começa a existir tem uma causa; (2) O universo começou a existir; (3) Logo, o universo teve uma causa. Como essa causa não pode ser o próprio universo, tem que ser algo além do universo (além do tempo, espaço e matéria). Isso se encaixa perfeitamente à ideia de Deus, um ser além do universo e que o criou. Esse ser precisa de uma causa? Não, pois o argumento não diz que tudo tem uma causa, mas que tudo o que começa a existir tem uma causa. Se Deus não tem começo, não precisa, nem pode ter uma causa. E é possível algo não ter começo? Sim. Na verdade, do ponto de vista lógico, se Deus está além do tempo, não pode ter tido começo, pois “começos” são fenômenos que só podem ocorrer dentro do tempo. Logo, Deus, como criador, necessariamente não pode ter começo, nem causa. Não é questão de crença cega. É questão de lógica.

A saída do ateu seria tentar refutar a premissa 1 ou a premissa 2. Só que a premissa 1 é inquestionável. A própria ciência existe porque pressupõe que tudo o que começa a existir tem uma causa. Toda a nossa vida cotidiana e todo o nosso conhecimento se baseia nesse principio lógico. Então, negar isso é insano. Quanto à premissa 2, tanto a ciência quanto a própria lógica demonstram que o universo teve um começo [ler sobre isso aqui]. Assim, com as duas premissas corretas, a conclusão de que há um ente que criou o universo é inevitável. Se o homem tivesse argumentado dessa forma, o ateu teria uma ótima razão para dar um passo à frente e experimentar Deus. Poderia não dar, é claro. Quem convence é o Espírito Santo, no interior da pessoa. E nem sempre a pessoa está disposta a abrir o coração. Mas o argumento seria um convite muito poderoso.

O vídeo termina e o resultado é alarmante: de cinco cristãos, nenhum conseguiu dar sequer um argumento racional e bem formulado para a existência de Deus. Isso, sem dúvida, apenas fortaleceu o ateísmo do convidado para o quadro. Não só o ateísmo, mas a concepção de que os cristãos são um bando de ignorantes.

Qual é o sentido da vida?

O leitor talvez esteja pensando: “Poxa, os ateus devem ser, então, pessoas muito mais racionais e lógicas que os cristãos”. Na verdade, não é bem assim. O segundo vídeo que assisti, com Leandro Karnal, mostra que a lógica pode ser surrada também por ateus, incluindo intelectuais.

Karnal começa o vídeo dizendo que muitas pessoas perguntam para ele, sobretudo em cursos de filosofia, qual seria o sentido da vida se Deus não existe. Ele responde que é dramático responder isso, pois ele acredita, como Sartre, que a vida não tem sentido nenhum. Ela seria apenas uma peça medíocre, encenada por um ator não muito bom, cheia de ruído e furor. No entanto, Karnal continua, se não há um sentido, algo que eu devo descobrir, uma essência, um modelo de vida, então é válido que eu construa o meu próprio modelo de vida. Até aqui, tudo certo. Se Deus não existe, não há mesmo um roteiro a ser seguido. Logo, qualquer um pode fazer o que quiser. Karnal vai ilustrar isso com a famosa frase presente no clássico russo “Irmãos Karamazov”, livro de Fiodor Dostoiévski: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.

O problema da visão de Karnal começa na sequência. Ele afirma que tudo é permitido, mas nem tudo é licito (parafraseando Paulo, que disse: “Tudo é licito, mas nem tudo me convém” – I Co 10:23). E retoma esse raciocínio, em outro ponto do vídeo, dizendo que embora cada um seja livre para estabelecer seu próprio plano (pois não existe um plano maior determinado para todos), esse plano precisa dialogar com os outros, porque senão é “má-fé” (sic). Karnal ainda afirma categoricamente que não podemos passar por cima dos outros. Ou seja, para o historiador, tudo é permitido, mas nem tudo é permitido.

Há outro grande problema nessa linha de raciocínio. Karnal simplesmente não trata o problema completo. Em filosofia, quando tratamos o problema da “falta de sentido num mundo sem Deus”, não estamos apenas falando da falta de um sentido existencial para a vida. Na verdade, esse é um problema mais simples de enfrentar. Um ateu pode encontrar sentido existencial para a sua vida em diversas coisas: numa esposa (ou esposo), nos filhos, nos amigos, na faculdade, no trabalho, na música, nos esportes, na ajuda ao próximo, em viagens pelo mundo, na balada, na promiscuidade, na bebida, nas drogas, etc. Mesmo que vez ou outra ele se sinta vazio e angustiado porque um dia vai morrer e tudo vai acabar, é possível ir amenizando isso com doses cavalares de prazer em seus objetivos pessoais. Alguns talvez até consigam esquecer. Ateus como Karnal parecem estar muito felizes e tranqüilos com seu ateísmo, pois vivem seus sonhos e não pensam muito sobre o fato de que todos estão aqui por nada, para nada e irão para o nada, onde tudo acabará.

Mas o problema completo da falta de sentido num mundo sem Deus é muito mais profundo e complexo, pois envolve a dimensão moral. O mundo sem Deus é destituído de sentido moral. Certo e errado, justo e injusto, bem e mal são conceitos que só podem ser objetivos, absolutos, em suma, verdadeiros, se transcenderem todas as coisas. Ou seja, só existe certo e errado, justo e injusto, bem e mal se tais conceitos estiverem além de tempos, lugares, cultura, convenções sociais, gostos e genética. Para esses conceitos estarem além desses campos, eles precisam emanar de um padrão que transcenda o universo. Este padrão não pode ser algo abstrato ou inanimado, pois moralidade é característica de seres pessoais, não de coisas. Logo, para que exista moral e valores reais é preciso existir Deus. Se não há Deus, não há moral, mas apenas uma ficção, um conjunto de regras que o homem inventou, talvez, para proteger a si mesmo.

A implicação disso é óbvia: roubar, matar um inocente, estuprar, torturar não são atos errados, nem certos. Dar água ao sedento e ajudar os pobres também não são atitudes nem boas, nem más. Explorar alguém não é justo, nem injusto. No máximo, podemos falar em coisas fora da lei. Mas como leis são apenas convenções sociais, então o “fora da lei” não é imoral. Logo, burlar a lei e conseguir que ninguém descubra também não é nada de moralmente horrível. Com isso em mente, a ideia de Karnal de que não podemos passar por cima dos outros e que nosso plano precisa dialogar com as demais pessoas não passa de uma ficção. Ninguém deve nada a ninguém. Tudo é permitido.

O que Karnal faz aqui, portanto, é se apropriar de algo que não pertence logicamente (e não pode pertencer) ao ateísmo: a moral. Ele precisa dela para dizer que há certas coisas que devem e outras que não devem ser feitas. Ele precisa de um padrão de valores, de um padrão de certo e errado. Então, a pergunta feita ao historiador, na verdade não é tratada completamente por ele. Ele responde como pessoalmente encontrar um sentido existencial subjetivo (ou seja, individual) na vida. Mas não responde como pode encontrar sentido moral na vida sem Deus. E não responde porque não pode. Ele simplesmente finge para si mesmo que esse sentido existe, sem explicá-lo, e o impõe aos outros como fato absoluto. É o que a maioria dos ateus acaba fazendo. Afinal, quem está preparado para um mundo absolutamente sem sentido moral?

Outro erro de Karnal é que ele confunde sentido existencial com determinismo. Ele diz achar libertador não ter um plano predefinido por um deus para ele. Mas sentido existencial não tem a ver com determinismo. Embora Deus possa conduzir pessoas para determinados contextos, não necessariamente Ele escolhe tudo para nós. Ora, se Deus existe, isso não muda o fato, por exemplo, de que Karnal escolheu virar ateu, cursar história, fazer mestrado e doutorado, se tornar palestrante e escritor, etc. São escolhas nas quais ele sente prazer e deposita grande valor. Deus existir não muda nenhuma delas. Portanto, sentido existencial e determinismo não são sinônimos. Se Karnal está preocupado com o livre arbítrio, não há razão para crer que, existindo Deus, o livre arbítrio dele está em cheque. Agora, claro, se por um lado somos livres para escolher, por outro lado, somos prisioneiros das conseqüências. É questão de causa e efeito. Se Karnal quer apenas descrer em Deus sem ser condenado, isso não é temer a falta de livre arbítrio, mas a impossibilidade de burlar conseqüências. Não é racional.

Voltando um pouco no vídeo, Karnal diz logo no inicio desejar muito que quando morrer tudo acabe para ele mesmo, pois viver dá trabalho. Ele afirma que o que dá graça à vida é a morte e faz uma analogia com a flor: ele ama a flor natural porque ela morre, mas odeia a de plástico porque ela não morre, fica lá pegando poeira. Essa é uma versão romantizada de algo que já ouvi outras vezes de ateus: a eternidade será chata. O problema dessa concepção é que ela pressupõe uma eternidade com elementos maus que existem em nosso mundo pecaminoso, tais como cansaço, tédio, monotonia, angústia, ansiedade, insatisfação, vazio, incompletude, insegurança e medo. Ora, de fato, se a eternidade contar com esses elementos, será chata e pesada mesmo. Mas quais são as razões para se crer que, existindo mesmo uma vida eterna, esses fatores farão parte dela? Não parece haver motivo plausível para crer nisso. Há apenas a pressuposição infundada de que será como é hoje.

A Bíblia, no entanto, diz exatamente o oposto: tudo se fará novo. O pecado, que trouxe todas as coisas ruins que conhecemos (incluindo cansaço, tédio, monotonia, angústia, ansiedade, insatisfação, vazio, incompletude, insegurança e medo), não mais existirá no universo. Logo, nenhum de seus efeitos também haverá. Se, portanto, Deus existe e a Bíblia é verdadeira, a eternidade virá juntamente com a intensa alegria de viver sem jamais morrer. A vida não vai mais “dar trabalho”. Não vamos mais “pegar poeira”.

O historiador também conta que acha sua visão leve, mas que sabe que muitos quando chegam na hora da morte se borram de medo. Admite, então, a possibilidade de acabar mudando sua visão quando chegar a sua vez. Ou seja, Karnal sabe que a morte é algo que dá medo. E dá medo porque, no fim das contas, ninguém quer morrer, salvo se estiver com depressão. Podemos depreender, portanto, que o próprio Karnal não deseja morrer. Pelo menos, não agora. Posso estar enganado, mas apostaria que se alguém desse a opção à Karnal de morrer agora ou continuar vivo, ele escolheria viver. E se a ciência descobrisse uma fórmula para dar à Karnal mais 100 anos de vida com a qualidade que ela tem hoje, bem como aos seus mais próximos, ele escolheria essa opção. E se, passados 99 anos desse tempo, a ciência descobrisse como dar ainda mais 100 anos de vida a ele e seus próximos, ele também escolheria a vida. Isso, mesmo em um mundo mau, onde existem todas aquelas coisas ruins que Karnal teme que existam na eternidade. Em suma, provavelmente ninguém realmente quer morrer, o que inclui Leandro Karnal.

Karnal termina sua resposta dizendo que entende que sua visão da vida sem um sentido existencial é difícil e que, por isso, a maioria das pessoas crê em Deus. Ele se mostra bastante respeitador das religiões e nem um pouco combativo. Mas expõe sua visão de que não consegue crer em algo como um céu depois da morte, pois desconfia sempre que aquilo que agrada provavelmente é falso, uma criação do próprio ego. Em outras palavras, se alguém acalenta a esperança de uma vida eterna, provavelmente isso é apenas uma crença emocional para não sucumbir. Evidentemente, isso não é um bom argumento. A verdade independe de gostarmos dela ou não. Há verdades agradáveis e desagradáveis ao nosso emocional. Assim, a desconfiança de Karnal não deveria ser termômetro para estabelecer confiança ou desconfiança prévias. Isso nada mais é que um emocionalismo fantasiado de academicismo.

O que o vídeo deixa claro é que não só os ateus cometem também erros lógicos, como que grandes intelectuais podem falar coisas incoerentes com linguagem acadêmica, de modo que a maioria das pessoas não percebe. Mas besteiras não deixam de ser besteiras quando ditas com palavras rebuscadas e citações de grandes mentes.

O debate no fundo do poço

Como eu disse no inicio do texto, os dois vídeos me lembraram um terceiro, que na verdade eu assisti há cinco anos. Nele, quatro pessoas conversam entre si sobre fé e religião, tendo como mediador e entrevistador o filósofo Luiz Felipe Pondé. Os convidados para as discussões são: Ed René Kivitz, um cristão protestante adepto da Teologia da Missão Integral; Italo Fasanella, um cristão católico do movimento carismático; Ma Dhyan Bhavya, uma esotérica que não acredita em Deus, mas crê em energias e força interior; e Jaime Alves, um ateu que trabalha na área de TI.

Na época, o vídeo me deixou chateado pelo nível baixo de racionalidade que os quatro demonstraram em suas discussões. O que melhor se saiu foi o mediador (Pondé), que embora seja alguma coisa entre ateu, agnóstico e deísta, gosta muito de estudar Deus, a Bíblia e o cristianismo. Revendo o vídeo nesse ano, vejo que minha opinião sobre o que foi dito no vídeo não mudou. Exponho alguns trechos.

O ateu Jaime Alves contou que quando tinha uns cinco ou seis anos de idade, começou a ler a Bíblia em um curso de férias da Igreja e achou algumas coisas estranhas. Então, resolver perguntar ao pastor. A resposta foi: “Mistério de Deus”. Aqui, não fiquei com raiva de Jaime, mas do pastor, é claro. A obrigação de um pastor é ensinar os membros de sua igreja. Ele se formou para isso. Não importa se a pergunta é difícil ou tola, se quem perguntou é adulto ou criança, se é recém convertido ou tem trinta anos de Igreja, se é homem ou mulher – o pastor precisa estar preparado para responder. Se ele não souber, deve pedir um tempo para estudar e dar a resposta. É indesculpável que um pastor, por ignorância, simplesmente apele ao “mistério de Deus”.

A experiência de Jaime com o pastor do mistério infelizmente é comum. Diversos cristãos, quando manifestam suas dúvidas ao pastor, ou mesmo a outros membros leigos da Igreja, não recebem respostas plausíveis. Essas dúvidas, então, vão minando a fé do indivíduo. Quando não o tiram da Igreja, o tornam tão ignorante quanto àqueles que não puderam respondê-lo. E assim eternizamos a tolice no meio cristão. O resultado é uma visão distorcida do evangelho por parte dos descrentes: coisa de ignorante.

Fasanela, por sua vez, demonstrou ser um cristão melindroso, com medo de afirmar suas crenças de modo contundente. Em certo ponto, perguntado por Pondé se toda a religião é certa, ele responde que não é uma questão de certo ou errado quando partimos do ponto da família humana. Ora, que raio de resposta é essa? As religiões, conquanto tenham semelhanças, possuem também crenças diametralmente opostos. Então, é claro que nem todos podem estar certos. Pondé consegue ser mais assertivo que Fasanela, ao dizer, mais tarde que ou todas as religiões estão erradas ou apenas uma. Fasanela sabe disso. Ele não consegue esconder seu desconforto quando Pondé pergunta qual seria seu sentimento se a filha dele fizesse um culto de candomblé em sua casa. Mas tenta sair pela tangente dizendo que apesar de não concordar doutrinariamente, respeitaria. Isso explica outra observação de Pondé de que querendo não arrumar conflito, brincamos de relativistas.

Como Fasanela, muitos cristãos brincam de relativistas por não desejarem ser vistos como intolerantes e intransigentes. O problema é que isso não apenas solapa a lógica (já que visões contrárias não podem estar todas certas ao mesmo tempo) e contraria o evangelho de Jesus (que afirma ser o único caminho para o Pai, a verdade e a vida), como também é ineficaz. O mundo verá os cristãos como intolerantes e intransigentes em qualquer que seja o contexto. Para o mundo, dizer coisas como “a salvação está apenas em Jesus” ou “fornicação, divórcio e homossexualidade são pecados” é evidência clara de fundamentalismo e fanatismo. A fé cristã é ofensiva e/ou desconfortável à maioria dos descrentes. Tentar brincar de relativista, portanto, é inútil.

Renê Kivitz, por incrível que pareça, nesse ponto, demonstra coragem para dizer o óbvio: há religiões em choque e há religiões ruins. Isso, vindo de um cristão adepto da Missão Integral e fortemente admirador de Caio Fábio (em sua versão guru dos desigrejados), é surpreendente. Ele conta que uma vez participou de um encontro interreligioso e que criticou o sincretismo. Resultado: foi chamado de intolerante e outras coisas. Aqui fica claro porque muitos cristãos preferem fingir que doutrina não importa: evitam esse tipo de reação.

É admirável que Kivitz tenha agido, nessa ocasião, como um cristão corajoso. E mencionar está experiência para defender que o evangelho tem sim uma mensagem que contraria o relativismo e o sincretismo é o seu ponto alto no vídeo. Entretanto, os acertos de Kivitz no documentário terminam aqui. Em outro ponto, Kivitz vai dizer que a discussão racional a respeito da fé é uma perfumaria, uma distração, uma evidência de busca. E ainda em outro ponto, dirá que ele convive com dúvidas, mas as suas dúvidas não o impedem de crer, que ele tem tudo para ser ateu, mas não consegue. O que Kivitz parece querer dizer é que a busca por Deus não é racional, mas mística/emocional. Assim, discutir racionalmente sobre Deus apenas teria o efeito de nos distrair. E é essa a razão pela qual ele não consegue ser ateu.

Darei o benefício da dúvida ao pastor Kivitz. Ele provavelmente disse isso por entender que argumentos racionais não convertem ninguém. E isso é verdade. O papel de converter cabe ao Espírito Santo, o qual age no interior (intelecto e emoção) da pessoa que ouve o evangelho. É um processo interno que só o Espírito pode fazer. É por isso que muitas vezes descrentes ouvem bons argumentos para crer em Deus, na Bíblia e no evangelho, mas mesmo assim não se entregam a Jesus. Bons argumentos não tem o poder de forçar um teimoso a dar o braço a torcer. Se quem ouve o evangelho decide que não quer Jesus, inventará mil justificativas que pareçam racionais para enterrar o assunto e seguir adiante. Então, se Kivitz pensa dessa forma, está correto neste ponto em específico. Mas, se é assim, para que servem os argumentos racionais? Este é o x da questão.

Os argumentos racionais são uma porta de entrada, um convite, um chamariz. Como eu disse há pouco, ninguém mergulha em algo sem ter uma boa razão para isso. Descrentes sinceros querem uma boa razão para que iniciem o processo de caminhar até Deus. Enquanto Deus parecer apenas uma crença tosca e fantasiosa no mesmo nível de duendes, Ele não verá motivo para mergulhar nisso. E não está errado. Agir diferente é um insulto à inteligência e racionalidade humanas. Deus, portanto, deve ser bem apresentado aos incrédulos. Nós devemos mostrar Deus como Ele é, e não como o descrente o imagina. Isso é pregar o evangelho. Portanto, Kivitz erra ao concluir que a discussão racional é perfumaria, distração, e que a verdadeira busca só envolve emoção e misticismo.

Kivitz também erra em suas estratégia retórica. Eu sempre digo que não basta dizer a verdade, é preciso fazer parecer verdade. Bons argumentos às vezes não são convincentes porque são mal apresentados. E mensagens mal formuladas frequentemente geram interpretações distorcidas. O pastor Kivitz cai nesse erro ao escolher dizer ao ateu coisas desnecessárias. Todos tem dúvidas? Sim. Mas se o ateu está atrás de respostas, por que Kivitz prefere falar que possui dúvidas a falar sobre suas certezas e as razões para elas? Até porque, mesmo que todos nós sempre tenhamos dúvidas, o cristianismo nos oferece respostas concretas e racionais para aquilo que é básico. Ou seja, Kivitz não precisava falar que possui dúvidas.

Quando, no entanto, Kivitz resolve focar nas dúvidas e dizer que ainda assim não consegue ser ateu, o efeito psicológico que ele causa no ateu Jaime Alves é: “O cristianismo é apenas uma série de incoerências lógicas. Esse cara só continua crendo por emocionalismo”. E quando Kivitz diz que a discussão racional é perfumaria e distração, apenas reforça a ideia distorcida de que não há fundamento racional para crer. Para um ateu, isso é certeza de que o ateísmo está certo.

O problema de Kivitz, a meu ver, é que ele estudou bastante, mas não viu relevância em usar argumentos mais racionais nas discussões. Mas ninguém escapa disso. Em algum momento, precisamos parar de ver Deus e a experiência religiosa como algo mágico. E isso fica claro em dois pontos do vídeo onde Kivitz e Jaime tem embates. Descrevo.

No primeiro, Jaime diz que religião não define caráter. Kivitz rebate perguntando se define Q.I. Então, Jaime, em tom irônico, responde que ele não acha que uma pessoa é burra por crer em algo como um grande pão de mel cósmico que vive na nebulosa de um cavalo.

A comparação de Jaime é imbecil, claro. Ele possui a visão comum entre neoateus de que a crença em Deus não difere em nada de seres presentes em contos de fadas, lendas e mitologias. Na verdade, a diferença é bem gritante. Os seres dessas histórias fictícias não são logicamente necessários para o surgimento do universo, o ajuste fino das leis da física, a complexidade do organismo humano, a existência da moral e a validade da razão humana. Logo, a sua existência não é algo que se pode deduzir pela lógica. Como também não há outro tipo de evidências de que eles existem, não há porque crer neles. Não é o caso de Deus. A existência de Deus se deduz logicamente. Portanto, a comparação entre Deus e um grande pão de mel cósmico é ridícula. Além disso, Deus é, por definição, um ser que transcende tempo, espaço e matéria. Um pão de mel não tem essas características. Você pode até chamar Deus de pão de mel, mas ele não terá as características de pão de mel.

A ironia de Jaime é velha. É uma reciclagem do Grande Monstro do Espaguete Voador, de Bobby Henderson, e do Dragão Invisível na garagem, de Carl Sagan. Ambos, ateus, procuraram comparar a crença em Deus a qualquer coisa ridícula. Ambos falham em perceber que o dragão invisível e o monstro de espaguete voador não são transcendentes (antes, são temporais, espaciais e materiais), logo, não são logicamente necessários ao universo. Deus o é. Também falham em perceber que, por definição, as criaturas que eles inventaram possuem características que não batem com as de Deus. Logo, a comparação é forçada. A Arença em Deus é a crença em um ser logicamente necessário. Qualquer crença que não seja logicamente necessária, não pode ser comparada à crença em Deus.

Embora a comparação de Jaime seja tola e risível a qualquer um que tenha estudado um pouco de apologética, filosofia e lógica formal, ela existe justamente porque pessoas como Kivitz tratam a discussão racional a respeito de Deus como “perfumaria” e “distração”. Kivitz não precisaria ouvir tais tolices se desde o início demonstrasse que a crença em Deus é lógica.

Tais besteiras, no entanto, tem o ponto positivo de chamar a atenção de volta para a necessidade de discutir racionalmente. É o que acontece em um segundo ponto de embate. Kivitz é perguntado por Pondé sobre o que achou da comparação de Jaime. Ele diz que achou forçada, pergunta se não foi uma brincadeira, e em seguida ensaia um argumento racional: há civilizações que crêem em Deus, processos históricos e argumentos plausíveis. Por isso não caberia a comparação. Mas é tarde, Kivitz. Voce já gravou em Jaime a impressão de que Deus é história para boi dormir, conto da carochinha, crendice. Ainda assim, diante desse quadro, o pastor termina onde comecou. Diz que a discussão sobre isso acaba sendo infrutífera. Bom, acaba sendo porque pessoas como Kivitz não querem apresentar Deus de modo racional. Aí as discussões que se sucedem serão infrutíferas mesmo.

Jaime solta ainda outros clichês típicos de neoateus, como a ideia de que todos são ateus em relação aos deuses do outro. Assim, a diferença dele é que ele seria ateu em relação a mais um. Para além da clara distorção de sentido da palavra ateu, há aqui uma tentativa sutil de dizer que todos os deuses são iguais. Assim, o ateu é mais coerente ao rejeitar todos, enquanto cristãos ainda ficam com um. Mas a ideia de que todos os deuses são iguais é falsa. Há deuses que nasceram, deuses que morrem, deuses com paixões humanas e por aí vai. Estes são claramente falsos, pois suas características não são de Deus no sentido lógico (um ser que transcende tempo, espaço e matéria, não tendo, assim, início, nem causa). Então, a tentativa de Jaime de deslegitimar a crença em Deus mais uma vez é falha.

Em outro exemplo de clichê, Jaime diz que a religião é fruto da falta de conhecimento. Faz uma analogia de um avião passando no céu de uma tribo isolada do Quênia e seus membros explicando isso de modo mágico. Mais uma vez, a comparação é espúria. Deus não é uma explicação para algo que pode ser explicado sem Ele. Deus é uma explicação que envolve considerações lógicas como “todo efeito tem uma causa”, “o tempo não pode ser infinito para trás, exigindo uma causa sem começo para o tempo”, “a razão não pode surgir de causas não naturais”, “o acaso não constrói ordem complexa”, “a moral não pode ser objetiva se não for transcendente”, etc. Então, Deus é uma hipótese racional, baseada em considerações racionais.

Para além disso jogar todas as religiões no mesmo saco é ignorar, por exemplo, que o cristianismo é uma religião baseada em relatos históricos, não boatos e mitos sem historicidade. Nas páginas da Bíblia encontramos fatos descritos dentro de contextos sócio-culturais detalhados, podendo ser averiguados e comprovados no conhecimento histórico mundial. Jaime ignora isso. Mas nem dá para culpa-lo plenamente. A maioria dos cristãos não sabe ou não se dispõe a explicar essas coisas. Não há muita gente para pregar aos ateus.

Para não deixar de citar, a exotérica também diz suas besteiras no vídeo. Ela não crê em um Deus pessoal, diz que não segue uma religião, mas um caminho para conhecer a si mesma e controlar os instintos. Afirma ainda que crê numa “alma” do mundo, um universo meio místico. Ora, tal tipo de crença é apenas uma tentativa de negar Deus, sem porém cair no caos moral e de sentido que é o ateísmo materialista. Assim, o exotérico reveste o universo de sentido e moral, ao mesmo tempo que escapa de uma crença teísta cheia de responsabilidades.

No fim das contas, esse tipo de exotérico é igual ao ateu que crê em certo e errado, justo e injusto, bem e mal: procura fugir das consequências lógicas de se negar Deus.

Pondé, arguto, diz que pelo que todos eles disseram, a impressão que fica é que religião é só autoajuda. E eu digo: Fasanela e Kivitz deveriam sentir vergonha de ajudar a deixar essa impressão em um descrente como Pondé. Pior: deveriam ter vergonha do fato de um descrente como Pondé entender mais da relação entre razão e teologia do que eles.

Já no fim do vídeo, respondendo a uma pergunta de Pondé, Kivitz fecha seu arsenal de besteiras dizendo que a angústia não só é um caminho para Deus, é o único. Isso só reforça seu senso místico de fé. Para ele, a razão não desempenha quase papel nenhum no processo.

A conclusão que tiro ao fim do vídeo é que, ele representa a realidade da maioria das pessoas, então ateus e cristãos, no geral, estão despreparados para um debate racional.

Considerações Finais

Os três vídeos formam um importante alerta para nós, cristãos: não estamos desempenhando bem o nosso trabalho intelectual. Isso é verdade, inclusive, em relação ao vídeo de Leandro Karnal. Os erros que ele comete em seu discurso são comuns entre ateus. Talvez não fossem se discutissemos mais racionalmente sobre Deus.

Outra conclusão a que podemos chegar é que temos deixado os ateus ganharem a fama de lógicos, quando eles também cometem erros de raciocínio bastante infantis. Isso também é culpa nossa. Se sujeitos falam besteira sobre Deus e ainda assim são vistos como inteligentes nestes assuntos, isso demonstra que não estamos apresentando Deus corretamente ao mundo.

É comum ouvir que Deus não precisa de advogados. Talvez, quem diga isso, pense que quando defendemos a fé com argumentos racionais, estamos querendo proteger Deus. E é claro que Deus não precisa de protetores. Mas o real intuito de ser um advogado das coisas de Deus é outro: fortalecer a fé dos nossos irmãos e dar aos descrentes sinceros uma boa razão para se aproximarem de Deus. Se isso não é obrigação de todo cristão, então eu não sei mais o que é evangelho.