Por Davi Caldas

Quais as semelhanças e diferenças entre as escatologias adventista, católica, calvinista e protestantes em geral? Um estudo que responda a essas perguntas pode ser muito útil para que o leitor decida, de modo equilibrado, qual delas está mais perto da verdade bíblica. Obviamente, o tema é grande e jamais poderá ser totalmente abarcado em breves artigos na internet. Ainda assim é possível fornecer algumas informações que servem de norte para o leitor continuar os estudos.

Pensando nisso, separei alguns materiais não adventistas aos quais tenho acesso para fazer uma breve análise comparativa. São seis fontes principais:

(1) dois volumes de comentários de João Calvino sobre o livro de Daniel, publicados em português pela Parakletos, em 2002;

(2) uma tradução da “New Geneva Study Bible” [Nova Bíblia de Estudo de Genebra], originalmente publicada em 1995, com edição geral do conhecido R. C. Sproul e comentários de teólogos calvinistas do século XX;

(3) a católica “Bíblia de Jerusalém”, publicada pela editora Paulus em 2002, com comentários de teólogos católicos;

(4) “A Bíblia de Estudo Apologia”, publicada pela CPAD (Casa Publicadora das Assembléias de Deus), em 2015, e comentada por eruditos protestantes de diversas denominações;

(5) o “Comentário Bíblico Moody”, editado pelos teólogos protestantes Charles F. Pfeiffer (vol 1) e Everett F. Harrison (vol 2);

(6) a obra “Observações sobre as profecias de Daniel e o Apocalipse de São João”, de Isaac Newton, publicado originalmente em 1733.

Com essas obras, conseguimos abarcar as interpretações mais conhecidas de teólogos católicos, calvinistas, de outras igrejas protestantes históricas, de igrejas pentecostais e de ministérios evangélicos mais recentes historicamente.

A metodologia que vou seguir será a seguinte: vou expor as semelhanças e divergências entre a interpretação de cada um desses materiais a respeito de Daniel e Apocalipse, explicando em quais pontos eles parecem se afastar da Bíblia e da interpretação mais natural das passagens. Ao fim de todas as análises, avaliarei se às conclusões com as quais chegamos são compatíveis com a escatologia adventista.

Inicialmente, eu havia optado por transcrever cada interpretação. Além disso, a ideia era fazer um texto só. Mas logo vi que isso faria o artigo ficar gigantesco (seguramente, mais de 80 páginas). Então, resolvi usar menos transcrições diretas (à exceção daquelas em que preciso fazer uma análise mais detida) e dividir o artigo em várias partes. Os capítulos que irei analisar serão, a principio, Daniel 2, 7, 8, 9, 10, 11 e 12; e Apocalipse 2, 3, 11, 12, 13, 19 e 20. Acredito que darão umas 8, 9 ou 10 postagens. Na de hoje, vamos começar com Daniel 2.

Alguns podem se perguntar por que não escolhi mais materiais, ou ainda, por que não escolhi talvez outros materiais melhores (sempre há alguém para dizer que poderíamos ter feito escolhas de maior qualidade). A resposta é simples: falta de dinheiro. Material teológico é caro. Então, não tenho acesso a tudo o que eu gostaria de ler. Por outro lado, sei, por pesquisas, que estes materiais escolhidos conseguem abarcar bem a maior parte das principais interpretações escatológicas no meio cristão. Assim, para os propósitos dessa série, o material está de bom tamanho.

Os quatro reinos de Daniel 2

Conforme já dito, comecemos pelo capítulo 2 de Daniel. Neste capítulo, Daniel interpreta o sonho do rei babilônico Nabucodonosor a respeito de uma estátua. A estátua tinha cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre e quadris de bronze, pernas de ferro e pés feitos de ferro e barro. Em determinado momento do sonho, uma pedra cortada sem auxílio de mãos humanas acerta os pés da estátua e a reduz a pó. Então, a pedra se torna grande e enche toda a terra (Dn 2:31-36).

Daniel explica que cada parte da estátua representava um rei, isto é, um reino, império, poder, governo. A cabeça de ouro simbolizava a própria Babilônia (Dn 2:37-38), que seria derrubada por outro reino no futuro e assim subsequentemente. O último reino dessa sucessão (o quarto reino) é representado pelas pernas de ferro, porque é dito que ele seria forte como o ferro, que quebra e esmiúça (Dn 2:39-40). O mesmo seria sucedido não mais por um império coeso, porém por um conjunto de reinos pequenos (os dedos dos pés da estátua). Tais reinos, Daniel diz, teriam algo da força do ferro e tentariam se unir mediante casamentos. Mas assim como ferro e barro não se misturam, eles também não conseguiriam formar um grande império único e coeso novamente (Dn 2:41-43). Na sequência, esses reinos seriam destruídos pelo Reino de Deus, que se estabeleceria eternamente (Dn 2:44-46).

Como cada vertente do cristianismo interpreta essa profecia? Tanto Calvino, como os calvinistas da Nova Bíblia de Estudo de Genebra, os comentaristas da Bíblia de Estudo Apologia, o Comentário Bíblico Moody e Sir Isaac Newton interpretam da mesma maneira: os reinos representados são o babilônico, o medo-persa, o grego (também chamado de macedônico ou greco-macedônico) e o romano. Na interpretação dos quatro reinos de Daniel 2, portanto, os principais ramos protestantes tradicionais concordam entre si. A diferença fica por conta dos católicos romanos. Na Bíblia de Jerusalém, lemos o seguinte comentário sobre o sonho com a estátua:

“É o anúncio da primeira das alegorias de Dn, que descrevem misteriosamente a sucessão dos grandes impérios históricos (neobabilônios, medos e persas, e gregos, herdeiros do império asiático de Alexandre)”. 

A interpretação católica não faz sentido bíblico pela mesma razão exposta em todos esses materiais protestantes: a Medo-Pérsia é encarada em Daniel, Esdras e II Crônicas como um império só, embora contendo duas etnias. Isso fica claro em passagens citadas pelos referidos comentaristas protestantes (Dn 5:28, 6:8-15, 8:20; II Cr 36.22,23; Ed 1.1-4), como também pela passagem de Daniel 7:5, em que a Medo-Pérsia é representada por um urso com um lado maior que o outro. Uma vez que cada animal era um reino (Dn 7:17 e 23), então o urso sugere a representação de um reino com etnia dupla. É exatamente o mesmo tipo de símbolo presente em Daniel 8:3 e 20, com a descrição do carneiro com dois chifres, um maior que o outro. O Comentário Bíblico Moody lembrará ainda que no sonho de Nabucodonosor, os braços da estátua sugerem a dualidade da Medo-Pérsia também. Assim, dentre os protestantes analisados, a questão é unânime.

A profecia de Daniel 2 reinos subsequentes dá a tônica do restante do livro. A obra inteira segue descrevendo mais detalhes sobre a sequência desses mesmos reinos. Guarde essa informação, pois é importante.

Os pés de barro

Se a interpretação da maioria dos protestantes é coerente em relação aos quatro grandes reinos representados pela estátua, a interpretação sobre os pés da estátua já possui problemas. Os calvinistas da Bíblia de Genebra afirmam:

2:44 ‘esses reis’. A interpretação mais natural é que os reis são os governantes dos quatro poderes que compõem a imagem que acabamos de descrever. A outra possibilidade é que eles são uma sequência de vários governantes do quarto reino”. 

Na verdade, uma vez que a estátua é um símbolo de grandes impérios sucessivos e separados por séculos, a interpretação mais natural de “nos dias destes reis” não pode ser “os governantes dos quatro poderes que compõem a imagem” da estátua. Os dias dos reis de cada parte da estátua não são os mesmos. Logo, é mais natural que “esses reis” sejam os representados pelos pés da estátua.

Ademais, seguindo a estrutura da estátua, é mais natural concluir que os pés de ferro e barro não são Roma. Afinal, cada parte da estátua é um reino distinto. Se as pernas e os pés não fossem coisas distintas na estátua, a descrição terminaria nas pernas. Se ela prossegue para os pés, é sinal de que o reino representado pelas pernas também teve fim e foi sucedido (desta vez, por vários reis). Também é digno de nota que o termo “reis” é usado para “reinos” no capítulo 2. Assim, é natural concluir que os reis representados pelos pés de ferro e barro são reinos fragmentados que surgiram após o Império Romano. Isso confere com a história, já que Roma Ocidental foi fragmentada após as invasões bárbaras, o que gerou posteriormente os países europeus.

A interpretação errônea dos calvinistas da Nova Bíblia de Genebra segue as concepções de Calvino. O autor não fazia distinção entre as pernas de ferro e os pés de ferro e barro da estátua. Ele entendia que as duas coisas são uma descrição do quarto império. Diz ainda:

“E é por isso que o profeta dirá que aquela monarquia era composta em parte de ferro e em parte de barro. São notórias as desavenças internas sob as quais lutavam. E, nesse aspecto, o profeta não precisa de mais interpretação, pois afirma que essa mistura de ferro e barro, a qual se liga muito mal, era um sinal de dissidência; nunca haveria um acordo. Portanto, ‘o reino será dividido’. […]. 

Em seguida, apesar de alguns serem parentes ou sócios, isso não impediria que lutassem selvagemente entre si, ao ponto de destruírem seu próprio império. Desse modo, um vivo retrato do império romano nos é pintado aqui pelo profeta quando diz que ‘era como o ferro’, ainda que ‘estava misturado com o tijolo’, ou barro. Pois, através de suas guerras civis, eles destruíram a si próprios após haver alcançado os píncaros da fortuna. No momento basta sobre as quatro monarquias”.

As notas da Bíblia de Estudo Apologia e da Bíblia de Jerusalém sobre Daniel 2 não se aprofundam na questão dos pés da estátua. Então, eu não sei qual seriam as posições desses comentaristas. É provável que os comentaristas católicos entendam os pés da estátua como parte do império grego, já que eles entendem as pernas de ferro como a Macedônia/Grécia.

O Comentário Bíblico Moody é dúbio quanto a essa questão. Ele afirma: “Embora dividido em pernas de ferro e pés e artelhos de ferro misturado com barro, era um reino”. Isso sugere uma opinião semelhante a de Calvino. Mas na continuação do texto, lemos: “É a forma de domínio mundial, conhecido na Bíblia e na história por Roma, e que, através de progressiva ocidentalização da humanidade, parece prevalecer até o dia de hoje”. Isso parece indicar uma visão dos reinos fragmentados a partir de Roma como uma continuidade, o que é mais correto. Isaac Newton, por sua vez, entende que os pés da estátua foram reinos que surgiram a partir da fragmentação do império romano pelas tribos bárbaras. É a interpretação mais coerente, como vimos.

Resumo e Conclusão

Protestantes tendem a concordar que os quatro reinos representados pela estátua de Nabucodonosor em Daniel 2 são Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma. Mas muitos não vêem os reinos posteriores como aqueles que surgiram da fragmentação de Roma após as invasões bárbaras, o que parece se afastar da interpretação mais natural das Escrituras. Os católicos são os que possuem a interpretação mais divergente, dividindo artificialmente a Média da Pérsia e vendo, portanto, as pernas de ferro da estátua e os pés como sendo a Grécia.

Como é a interpretação adventista? A Igreja Adventista concorda com a maioria dos protestantes na interpretação dos quatro reinos. No entanto, discorda que os pés da estátua sejam o mesmo reino que Roma. Entendemos que esse reino dividido são os reinos que surgiriam após a fragmentação de Roma, como a estrutura da profecia e o testemunho da história parecem confirmar.

No próximo post, vamos analisar as interpretações a respeito de Daniel 7. Essa será um pouco mais extensa.