Por Davi Caldas

Embora o projeto Reação Adventista tenha surgido com o intuito central de combater filosofias progressistas antibíblicas, tais como o marxismo, o feminismo moderno, as teologias da libertação e da missão integral, o relativismo da verdade e da moral, a idolatria política, dentre outras, sempre tivemos em mente que nosso trabalho poderia e deveria abarcar outras áreas próximas. Por isso, desde o início, trabalhamos com apologética e conteúdo teológico voltado para universitários e pré-universitários. Isso nos levou mergulhar cada vez mais na necessidade de uma teologia sólida e saudável, o que significa necessariamente bíblica e de acordo com os princípios básicos (e lógicos) de exegese. Nessa toada, passamos a abordar também as questões da interpretação bíblica e do sermão expositivo. O resultado é que o Reação Adventista se tornou um projeto de teologia sólida para leigos (e que conta com a contribuição de amigos teólogos, diga-se de passagem). Sendo assim, seria um caminho bastante natural passar a combater também o chamado perfeccionismo.

Mas o que é “perfeccionismo”? Em linhas gerais, perfeccionismo é um conjunto de interpretações a respeito do pecado, da justificação, da santificação e da perfeição que entende que o ser humano, uma vez justificado pelo sacrifício de Cristo, pode e deve prosseguir para um estágio de impecabilidade (ainda aqui na Terra). Essa visão é uma distorção do conceito bíblico sobre perfeição e, mais precisamente, uma distorção da ênfase wesleyana na perfeição bíblica, que era reproduzida por Ellen White. Dentro dos muros adventistas, essa distorção acabou por desembocar na Teologia da Última Geração (TUG), a qual defende que a última geração de crentes nesse planeta alcançará o estágio de impecabilidade antes de Jesus voltar.

Em um próximo artigo, o amigo Davi Boechat fará um retrospecto histórico sobre como essa visão distorcida de perfeição se infiltrou no pensamento de muitos adventistas. Para os propósitos desse artigo, no entanto, vamos analisar quais bases bíblicas os chamados “perfeccionistas” se utilizam para defender seu pensamento e porque estão errados em sua interpretação, contradizendo a Bíblia e, por conseguinte, o líder metodista John Wesley, a irmã White e a doutrina adventista. Também veremos quais conseqüências a disseminação dessa distorção causou e causa em nosso meio.

Três textos bíblicos

Há pelo menos três textos bíblicos principais usados pelos perfeccionistas para sustentar a sua visão. O primeiro está em Mateus 5:48 e diz: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste”. O texto é bem claro: devemos ser perfeitos. Se devemos, podemos. Deus não nos ordenaria ser algo que não podemos ser. A questão aqui é: o que a Bíblia quer dizer com a palavra “perfeito”? É a mesma definição que nós temos de perfeição? Vamos analisar.

Em geral, pensamos no termo “perfeito” como significando a ausência de qualquer falha. E quando aplicamos a palavra “perfeito” em referência uma pessoa, pensamos em impecabilidade, inerrância absoluta. Mas há três problemas em imputar esse sentido no texto bíblico. Primeiro: o termo grego original para a palavra “perfeito” é “teleios”, proveniente da palavra “telos”, que significa finalidade, objetivo. Teleios não significa impecabilidade ou inerrância absoluta, mas sim maduro, inteiro, indiviso, completo, coerente com a sua finalidade.

Segundo: nossa compreensão comum de perfeição se baseia mais na filosofia platônica do que na Bíblia Sagrada. Na filosofia platônica, perfeito era aquilo que não precisa, nem pode mudar, pois está em um ponto máximo. Aplicar esse sentido a Deus é correto. Aplicar ao homem é blásfemo. E uma vez que o texto ainda usa a comparação “como perfeito é o vosso Pai”, isso reforça que a perfeição aqui não pode ser a “platônica”.

Terceiro: o contexto de Mateus 5:48 sequer fala de impecabilidade absoluta. Dos versos 43 a 48, Jesus está falando sobre amar os inimigos. Ele argumenta que devemos amar para demonstrar que somos filhos de Deus. O filho se assemelha ao seu pai. Se somos filhos espirituais de Deus, devemos manifestar semelhanças com o Pai em nossas vidas práticas. E uma das características de Deus é amar tanto bons, quanto maus. Logo, o verso 48 tem a ver com ser amoroso para com os inimigos como Deus é. Ou seja, ser “teleios” é ser amoroso, pois nossa finalidade é amar, assim como o Pai que, por ser amor, também tem por finalidade amar.

Essa interpretação está de acordo não apenas com o contexto de Mateus 5:43-48, mas com o contexto da passagem paralela: Lucas 6:27-35. Ela narra o mesmo ensino de Jesus, mas termina da seguinte maneira: “Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai” (v. 35). Assim, fica claro que a perfeição exigida aqui é um amor maduro, de acordo com a nossa finalidade como filhos de Deus. Devemos amar de maneira tal que nos assemelhemos a Deus.

O segundo texto usado por perfeccionistas está em I João 3:6-10. Lemos:

“Todo aquele que permanece nele não vive pecando; todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu. Filhinhos, não vos deixeis enganar por ninguém; aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo. Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo. Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus. Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica justiça não procede de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão”.

Alguns perfeccionistas não gostam das versões que usam a expressão “vive pecando”, já que no original não existe o termo “vive”. Assim, eles lêem esse texto como querendo dizer que quem é nascido de Deus “não peca”. Texto semelhante a esse está em I João 5:18, que não vou considerar como outro texto nessa análise, pois interpretando um já se interpreta o outro. A questão da expressão “vive pecando” tem a ver com os verbos gregos. O verbo pecar, nessas passagens, estão conjugados em um tempo verbal que indica ação presente e contínua. Por isso, os tradutores geralmente optam por traduzir para o português e línguas mais modernas como “vive pecando”. Dá uma ideia melhor do que o autor queria dizer no grego.

Basicamente, quem é nascido de Deus continua pecador, como João indica nessa mesma carta (I Jo 1:8-10, 2:1-2). Se não fosse o caso, não precisaria de um advogado para o caso de ele pecar. Um pecador comete falhas diárias, algumas maiores, outras menores. A diferença é dele para alguém que não é nascido de Deus está na postura. Quem é nascido de Deus procura não pecar, tende a se tornar cada dia mais puro, se entristece quando peca e não peca por deliberada e obstinada rebelião. Seus pecados mais graves são falhas de percurso, não um estilo de vida. Quem não é nascido de Deus é o exato oposto. Ele não procura evitar o pecado, tende a se tornar mais impuro, não se entristece quando peca e, muitas vezes, peca por deliberada e obstinada rebelião. Quantos já não ouviram um “faço mesmo, to nem aí” de alguém claramente errado? Nesses casos, o pecado é um estilo de vida.

O tipo de “perfeição” e “impecabilidade” pregado por João, portanto, não exclui a possibilidade de cometer falhas diárias. Nossa vida espiritual é um progresso, uma linha, não um ponto. Se isso era verdade naquela época, dificilmente deixaria de sê-lo na última geração. Mas vamos avançar para esse tópico.

O terceiro texto usado por perfeccionistas é o de Apocalipse 22:10-11:

“Disse-me ainda: Não seles as palavras da profecia deste livro, porque o tempo está próximo. Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo; o justo continue na prática da justiça, e o santo continue a santificar-se”.

Perfeccionistas afirmam que esse texto se refere ao período em que Jesus finaliza seu ministério de intercessão no céu e sai do santuário para voltar a Terra e buscar a sua Igreja. Nesse meio tempo, os casos já estão julgados, os salvos já estão definidos, a porta da graça fechou. Logo, quem estiver salvo, permanecerá na justiça e quem estiver perdido, continuará na injustiça. Até aqui, está tudo correto. O problema é que desse texto eles deduzem que continuar na justiça é não mais cometer falhas, isto é, ter alcançado a impecabilidade absoluta. Ademais, eles entendem que sem um intercessor e mediador no céu (já que Jesus terá saído de lá para vir à Terra), se algum pecado for cometido, não haverá perdão. Qual a falha dessa argumentação? Vamos analisar.

Em primeiro lugar, essa visão acaba obscurecendo a salvação pela graça e a relevância do sacrifício de Cristo na cruz. A salvação da última geração passa a se basear em uma abstenção de falhas. Isso é uma distorção grotesca. Não somos salvos pela abstenção de falhas, mas pela graça de Deus, mediante a fé viva no sacrifício de Jesus (At 15:11; Rm 3:24, 11:6; Gl 2:16, 5:4; Ef 2:8-10). A implicação básica disso é que se aceitamos genuinamente a Cristo, o seu sangue nos justifica mesmo após ele terminar seu serviço no santuário. A porta da graça se fecha para aqueles que foram condenados no juízo, não para aqueles que estão genuinamente em Jesus Cristo. Logo, não há razão para pensar que o perdão não estará disponível a estes como sempre esteve.

Alguém poderia dizer que estou analisando o perfeccionismo de modo errôneo, pois a abstenção de falhas seria o resultado direto de ter sido salvo, não a causa. Mas é difícil sustentar essa ideia, pois a Bíblia parece vincular a impecabilidade absoluta a todo o processo de glorificação do corpo, quando Jesus voltar (I Co 15:51-58). É ali que o pecado é, de fato, totalmente vencido. Além disso, dizer que a última geração será impecável de modo absoluto (ainda que por alguns dias) e que isso é efeito a salvação, é criar uma espécie de “calvinismo perfeccionista”, onde seria impossível pecar porque já estamos salvos. Nem é algo bíblico, nem é algo adventista.

Em segundo lugar, o chamado juízo investigativo, que se inicia no céu no tempo do fim (Dn 7:9-14, 26-27, 8:9-14) e que era prefigurado pelos rituais do Dia da Expiação no AT (Lv 16, 23:26-32; Hb 8:1-6, 9:9-27), confirma diante de todos os seres celestes que os salvos foram justificados porque creram fielmente em Jesus (Jo 3:18). Trata-se de um procedimento jurídico que visa a transparência. Com isso, torna-se inquestionável a todos que os salvos por Cristo foram purificados pelo seu sangue, tornando-se justificável que os registros sejam retirados do tribunal/santuário e que Satanás possa pagar por tudo o que fez. Isso é a purificação do santuário.

A implicação disso é que quando Jesus termina seus julgamentos, todos os crentes verdadeiros não só estão salvos (pois são verdadeiros) como estão oficialmente examinados por toda a corte celeste. O universo inteiro sabe que aqueles que foram salvos estão limpos pelo sangue de Jesus. Se estão limpos, obviamente, não irão se rebelar e se afastar de Deus. Então, não há razão pela qual o perdão de Jesus lhes seja negado em caso de falhas no período entre a saída do santuário e a glorificação. Essas falhas não serão pecados de rebeldia e obstinação, mas erros pequenos que crentes verdadeiros cometem todos os dias e pelos quais buscam sincero perdão.

Assim sendo, o fato de Jesus finalizar o juízo investigativo não interfere na salvação da última geração. Ela é salva por crer nele e manifestar essa crença fazendo a sua vontade, assim como todas as gerações anteriores de crentes verdadeiros fizeram. Não há um novo tipo de salvação, uma salvação baseada na perfeição absoluta, na abstenção total de falhas. A última geração é salva exatamente como foram todas as outras. Logo, falar em pequenos erros cometidos passíveis de ser cometidos pela última geração tem a ver com nossa natureza falha pós-queda, que nos leva a cometer erros inconscientes e erros mentais que às vezes duram frações de segundo, por exemplo. Não têm mais a ver, no entanto, com uma vida de rebeldia e obstinação.

Se uma coisa podemos dizer com certeza sobre a última geração é que ela não terá nenhum pecador rebelde e obstinado, mas pessoas santas que odeiam o pecado, que vivem em intensa comunhão com Deus e que desejam ardentemente ganhar a impecabilidade absoluta (que só será dada por Jesus em sua volta). Assim, não há razão para crer que qualquer pequena falha faria destes crentes “injustos”.

Outra objeção aqui pode ser a de que sem Jesus como mediador/intercessor, qualquer falha que cometermos, mesmo que mínima, será registrada no santuário/tribunal celeste, tornando o santuário/tribunal impuro de novo. E Jesus não estará lá para resolver esse problema. Por isso, a impecabilidade absoluta é logicamente necessária. Não obstante, essa objeção falha na compreensão do objetivo do juízo investigativo. Esse juízo não serve para Deus “tornar-se ciente” de quem foi salvo. Deus sabe de todas as coisas. Ele sabe quem aceitou a Jesus e teve seus pecados justificados pelo sangue. Por isso, mesmo antes desse juízo, um salvo pode ter certeza de sua salvação. O juízo serve para o universo tornar-se ciente da justificação de cada salvo. Essa transparência é tão importante para Deus que ele mesmo depois desse juízo, ele repetirá o procedimento, dando agora aos salvos a possibilidade de examinar os julgamentos, no que a Bíblia também entende como julgamento (I Co 6:2-3; Ap 2:26-28; Ap 20:4).

Disso decorre que a purificação do santuário é equivalente a esse procedimento de transparência aos habitantes celestes. Os registros só podem ser retirados do tribunal sob o procedimento mais transparente possível. Quando, portanto, o juízo investigativo termina, não pode haver mais dúvidas entre os seres celestes. Todos os casos foram examinados e oficializados. Assim, não há mais razão para que os registros permaneçam no tribunal/santuário, muito menos razão para que novos registros de pecados (não provenientes de rebeldia, mas de limitação humana) sejam lá postos. Eles podem ser perdoados pelo sangue de Jesus e juntados aos demais registros já fora do santuário.

Em terceiro lugar, a Bíblia apresenta sempre dois conceitos de justo e injusto, bom e mau, puro e impuro, santo e profano: o absoluto e o relativo. O sentido absoluto abarca a impecabilidade absoluta. Portanto, só Deus é justo, bom, puro e santo absolutamente, nunca o ser humano pós-queda (Mt 19:17; Sl 14:2-3, 53:2-3, 143:1-2; Rm 3:9-24; Pv 30:12; Is 6:5; Lc 5:8). Já em um sentido relativo, bondade, justiça, santidade e pureza se referem a um estilo de vida, a uma postura, o que não exclui falhas no decurso da vida do crente. Assim, nesse sentido relativo, podemos e devemos ser justos, bons, puros, santos, impecáveis e até perfeitos (Gn 6:9; Lv 20:7; Sl 31:23, 125:4; Ml 3:18; Mt 1:19, 5:45, 13:49; Tt 1:15; I Pd 1:15-16).

Deus está muito mais preocupado com a postura geral do crente (se Ele é rebelde ou ama de verdade a Deus) do que com falhas pontuais que todos cometem. A rebeldia e a obstinação são entraves para a santificação. As falhas pontuais não. Elas ocorrem, logo são confessadas, são perdoadas e se tornam passado. A rebeldia e a obstinação, contudo, demonstram um coração duro e uma infidelidade constante para com Deus. Talvez uma analogia ajude a entender esse ponto. Um cônjuge bom e fiel não é perfeito em sentido absoluto. Ele comete falhas pontuais. Mas sua postura geral é bondosa e fiel. É isso o que Deus espera de nós enquanto Ele mesmo não nos transformar em impecáveis de maneira absoluta na glorificação.

A falhas lógica do perfeccionismo

Além de falhar na interpretação dos textos bíblicos mencionados, há uma falha lógica no próprio ato de proclamar a mensagem perfeccionista. Se, de fato, a impecabilidade absoluta fosse possível nessa terra, é claro que seria obra do Espírito Santo, não meramente de nosso esforço próprio. E se a impecabilidade absoluta fosse necessária para a última geração, então necessariamente o Espírito conduziria todos os crentes verdadeiros a essa impecabilidade. E como o Espírito faria essa obra? Perfeccionistas parecem crer que a única maneira é fazendo cristãos pregarem a outros cristãos que é preciso ser absolutamente perfeito após o fechamento da porta da graça.

Mas não há razão para pensar que essa é a única opção. Uma pessoa que nunca ouviu falar na mensagem perfeccionista poderia alcançar a perfeição pelo poder do Espírito Santo simplesmente por amar a Jesus e cada dia a mais se esforçar para fazer a usa vontade. Ninguém precisa estar consciente de que está rumando para a perfeição absoluta para chegar lá. É preciso apenas rumar. E isso, todos os cristãos verdadeiros, independente de ser perfeccionistas, fazem ao andar com Jesus. Santificação é, por definição, rumar com Jesus para a perfeição, ainda que não cheguemos lá antes da glorificação. Ou seja, se a impecabilidade absoluta fosse uma possibilidade e uma necessidade, bastaria andar verdadeiramente com Jesus e a última geração chegaria lá, sem a necessidade de essa mensagem ser pregada.

Ora, se os perfeccionistas estão pregando uma mensagem que, se for verdadeira, é desnecessário pregar, isso apenas revela que sua pregação é legalista. Ele raciocina que se as pessoas não conhecerem essa pregação, não poderão ser perfeitas, mesmo que estejam em comunhão intima com Jesus. Ou seja, o perfeccionista (talvez sem perceber) se vê como alguém que precisa ajudar o Espírito Santo a tornar perfeitos os cristãos que já andam verdadeiramente com Jesus. No fim das contas, o alvo do perfeccionista passa a ser a perfeição, não o Cristo que é dono da perfeição. Mas se de fato a impecabilidade absoluta será um fato antes da glorificação, basta que as pessoas amem verdadeiramente a Jesus e andem com ele para que a impecabilidade venha.

Os escritos de Ellen White

Começamos esse texto analisando supostos textos bíblicos que sustentam a cosmovisão perfeccionista. Fizemos isso porque a Bíblia Sagrada é o nosso manual supremo de fé e prática. Toda a doutrina precisa derivar dela e toda a informação ou sistema filosófico não pode contradizê-la. Nas palavras de Ellen White “A Palavra de Deus é o grande detector do erro; cremos que devemos recorrer a ela em todas as questões. A Bíblia deve ser nosso padrão de toda doutrina e prática” (EGW aos Irmãos, 5 de Agosto de 1888).

Não obstante, geralmente os perfeccionistas se utilizam mais de escritos da própria Ellen White para defender sua doutrina do que a Bíblia. O motivo para isso é bastante simples: White escreveu cerca de 100 mil páginas de conteúdo durante sua vida. Uma Bíblia de tamanho 21×14 não chega a 2 mil páginas. É, portanto, mais fácil distorcer Ellen White do que a Bíblia. No caso perfeccionista, basta escolher alguns textos que parecem dar margem para o perfeccionismo, ignorar outros que contradizem essa ideia e pronto. A partir daí, criada a distorção, comete-se o delito de tentar fazer a Bíblia se adequar à interpretação formulada. Mas, pois bem, o que Ellen White pensava a respeito da perfeição cristã? Vejamos alguns textos:

“Os pastores especialmente devem conhecer o caráter e as obras de Cristo para que possam imitá-Lo, pois o caráter e as obras do verdadeiro cristão são semelhantes às Suas. Ele pôs de lado Sua glória, domínio, riquezas e foi em busca daqueles que estavam perecendo no pecado. Humilhou a Si mesmo para prover às nossas necessidades, para que pudesse exaltar-nos até o Céu. Sua vida foi caracterizada pelo sacrifício, abnegação e desinteressada benevolência. Ele é nosso modelo. Tem você, irmão A, imitado o Modelo? Eu respondo: Não! Ele é um perfeito e santo Exemplo, dado a nós para imitação. Não podemos nos igualar ao Modelo; mas não seremos aprovados por Deus se não O imitarmos e nos assemelharmos a Ele, de acordo com a capacidade que o Senhor nos dá. O amor pelas almas por quem Cristo morreu, conduzirá à negação do eu e à disposição de fazer qualquer sacrifício para sermos coobreiros do Mestre na salvação de almas” (Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 549).

Nesse primeiro, vemos que Ellen White, aconselhando um irmão, diz que devemos imitar Jesus, tê-lo como modelo e ser semelhante a ele. Ela chega a cobrá-lo por não estar fazendo isso. No entanto, ela também diz que não podemos nos igualar ao modelo, apenas imitá-lo (e de acordo com a capacidade que o Senhor nos dá). Não temos como ser perfeitos e santos no mesmo grau em que ele foi.

Em outro texto, White diz:

“Cristo é o nosso padrão, o exemplo perfeito e santo que nos foi dado a seguir. Nós nunca podemos igualar o padrão; mas podemos imitar e parecer com isso de acordo com nossa capacidade. Quando caímos, todos desamparados, sofrendo em conseqüência de nossa realização da pecaminosidade do pecado; quando nos humilhamos diante de Deus, afligindo nossas almas pelo verdadeiro arrependimento e contrição; quando oferecermos nossas orações fervorosas a Deus em nome de Cristo, certamente seremos recebidos pelo Pai, pois sinceramente fazemos uma rendição completa de tudo a Deus. Devemos perceber em nossa alma íntima que todos os nossos esforços em si mesmos serão totalmente inúteis; pois é somente no nome e na força do Conquistador que seremos vencedores” (Review and Herald, 5 de fevereiro de 1895, p. 81. Disponível no link: https://m.egwwritings.org/pt/book/821.14028#14038).

Ainda em outro texto, Ellen White diz que “ninguém é [absolutamente] perfeito, a não ser Jesus” (1888 Materials. Washington, DC: Ellen G. White Estate, 1987, p. 1089 – citado em “Pecado e Salvação”, de George Knight, p. 181).

Instigando obreiros a se tornarem aptos para receberem grandes responsabilidades na Igreja, ela cita Mateus 5:48 e afirma:

Como Deus é perfeito em Sua esfera, assim pode o homem ser na sua. Tudo quanto as mãos acharem para fazer deve ser executado com exatidão e rapidez. A fidelidade e a integridade nas coisas pequenas, o cumprimento dos pequenos deveres e a prática de diminutos atos de bondade, animarão e darão alegria no caminho da vida; e quando findar nossa obra na Terra, todos os deverezinhos cumpridos com fidelidade serão apreciados diante de Deus quais jóias preciosas” (Testemunhos Para a Igreja, v. 4, p. 591).

Esse texto deixa claro duas coisas: (1) não podemos ser perfeitos na esfera de Deus, mas apenas na nossa; (2) Ellen White não tinha em mente obreiros absolutamente infalíveis em tudo o que faziam, mas sim pessoas altamente responsáveis. White caminha no mesmo sentido em outro texto:

Com nossas faculdades limitadas, devemos ser tão santos em nossa esfera, como Deus é santo na Sua. Na medida de nossa capacidade, devemos tornar manifesta a verdade e o amor e a excelência do caráter divino. Como a cera toma a impressão do sinete, assim deve a alma tomar a impressão do Espírito de Deus e reter a imagem de Cristo.

Devemos crescer diariamente em amabilidade espiritual. Havemos de falhar muitas vezes em nossos esforços por copiar o Modelo divino. Muitas vezes havemos de prostrar-nos em pranto aos pés de Jesus, por motivo de nossas faltas e erros; mas não nos devemos desanimar; cumpre orar mais fervorosamente, crer mais plenamente, e de novo tentar, com mais constância, crescer na semelhança de nosso Senhor. À medida que desconfiarmos de nossa capacidade, confiaremos na capacidade de nosso Redentor, e renderemos louvor a Deus, que é a salvação de nossa face, e nosso Deus” (Mensagens Escolhidas,v 1, p. 337).

Podemos citar também o que Ellen White disse aos irmãos de Indiana que estavam seguindo a doutrina herética da carne santa, em 1901. Segundo Arthur L. White, neto de Ellen White, teólogo e escritor, o movimento defendia “que aqueles que seguissem Cristo na experiência do Getsêmani conseguiriam essa ‘carne santa’. Tendo carne santa eles seriam livres de toda tendência para pecar e não experimentariam a corrupção; assim nunca morreriam, e viveriam para ver Jesus voltar. Essa fé proclamada, era similar àquela que levou Enoque e Elias à transladação” (Orientação Especial para as Assembléias da Associação Geral, 22 de junho de 1985). A heresia guardava, como se vê, semelhanças com os perfeccionistas. Veja o que Ellen White diz a respeito disso:

“O ensino dado com relação ao que é denominado ‘carne santa’ é um erro. Todos podem obter agora corações puros, mas não é correto pretender nesta vida possuir carne santa. O apóstolo Paulo declara: ‘Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum’. Romanos 7:18. Aos que têm procurado tão afanosamente obter pela fé a chamada carne santa, quero dizer: Não a podeis obter. Nem uma alma dentre vós tem agora carne santa. Ser humano algum na Terra tem carne santa. É uma impossibilidade.

Se aqueles que falam tão francamente de perfeição na carne, pudessem ver as coisas sob seu verdadeiro aspecto, recolher-se-iam com horror de suas idéias presunçosas. Mostrando o engano de suas suposições quanto à carne santa, o Senhor está buscando impedir que homens e mulheres dêem a Suas palavras uma interpretação que leve à corrupção do corpo, da alma e do espírito. Seja esse aspecto de doutrina levado um pouco mais longe, e conduzirá à pretensão de que seus defensores não podem pecar; de que uma vez que tenham carne santa, suas ações são todas santas. Que porta de tentação se abriria assim!” (Mensagens Escolhidas, p. 32).

Algum perfeccionista pode tentar se defender, dizendo que agora é diferente, pois (1) o perfeccionista correto nunca dirá de si mesmo já ter chegado à perfeição e (2) o estágio de perfeição só chegará na chuva serôdia (um derramar especial do Espírito Santo antes de Jesus voltar). Mas note: se o perfeccionista tem certeza que o homem pode alcançar a impecabilidade absoluta antes da glorificação, não seria errado quem já alcançou esse ponto reconhecer: “Eu sou perfeito”. Ademais, se existe essa possibilidade, por qual razão apenas a última geração conseguiria isso e todas as outras não? Há base bíblica para dizer que um cristão verdadeiro cheio do Espírito Santo na última geração pode mais que um cristão verdadeiro cheio do Espírito Santo em outras gerações? Faz sentido que só a última geração seja cobrada de perfeição absoluta? Por que os apóstolos de Jesus, Ellen White e os pioneiros adventistas não foram absolutamente perfeitos? Não há respostas plausíveis para essas questões. White continua sua repreensão:

“As Escrituras nos ensinam a buscar santificar corpo, alma e espírito a Deus. Nesta obra, devemos ser coobreiros de Deus. Muito se pode fazer para restaurar a imagem moral de Deus no homem, para melhorar as faculdades físicas, mentais e morais. Grandes mudanças se podem operar no organismo físico mediante obediência às leis de Deus e não introduzindo no corpo coisa alguma que contamine. E se bem que não possamos pretender perfeição da carne, podemos possuir perfeição cristã da alma. Mediante o sacrifício feito em nosso favor, os pecados podem ser perfeitamente perdoados. Nossa confiança não está no que o homem pode fazer; sim, naquilo que Deus pode fazer pelo homem por meio de Cristo. Quando nos entregamos inteiramente a Deus, e cremos plenamente, o sangue de Cristo purifica de todo pecado. A consciência pode ser libertada da condenação. Pela fé em Seu sangue, todos podem ser aperfeiçoados em Cristo Jesus. Graças a Deus por não estarmos lidando com impossibilidades. Podemos pretender santificação. Podemos fruir o favor de Deus. Não devemos estar ansiosos acerca do que Cristo e Deus pensam de nós, mas do que Deus pensa de Cristo, nosso Substituto. Vós sois aceitos no Amado. O Senhor mostra, aos contritos, crentes, que Cristo aceita a entrega da alma, para ser moldada e afeiçoada segundo a Sua imagem” (IBDEM).

Ou seja, para Ellen White, era impossível pretender perfeição na carne nessa Terra, mas apenas a “perfeição cristã da alma”. E o que era essa perfeição? Era uma vida limpa pelos méritos de Cristo, a qual possibilitava uma postura de entrega a Deus e constante santificação. Para White, somos perfeitos e aperfeiçoados em Cristo, mesmo possuindo a carne pecaminosa e caindo muitas vezes em nossa caminhada. A visão de White não difere da visão de Paulo:

“Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. […] Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento; e, se, porventura, pensais doutro modo, também isto Deus vos esclarecerá” (Fl 3:12,15).

O apóstolo sabia que não tinha alcançado a perfeição absoluta, mas que todos os crentes são “perfeitos em Cristo” por estarem em constante progresso pelo poder do Espírito Santo. Da mesma forma, somos injustos e maus, porém justos e bons em Cristo. White diz mais adiante:

Quando os seres humanos receberem carne santa, não permanecerão na Terra, mas serão levados ao Céu. Se bem que o pecado seja perdoado nesta vida, seus resultados não são agora inteiramente removidos. É por ocasião de Sua vinda que Cristo deve transformar ‘nosso corpo abatido, para ser conforme o Seu corpo glorioso’. Filipenses 3:21. Repetidas vezes, no avanço de nossa obra, têm surgido movimentos fanáticos, e quando a questão me tem sido apresentada, tenho tido de dar uma mensagem semelhante à que estou apresentando aos irmãos de Indiana” (Mensagens Escolhidas, p. 33).

Como podemos ver, claramente Ellen White entendia que a impecabilidade absoluta só viria na glorificação. Para terminar as citações, podemos ver ainda como White via os pecados que não eram de rebelião e obstinação:

“Aqueles que estão em conexão com Deus são canais para o poder do Espírito Santo. Se alguém que diariamente se comunica com Deus erra no caminho, se ele se afasta um momento de olhar firmemente para Jesus, não é porque ele peca voluntariamente; pois quando ele vê seu erro, ele se vira novamente e fecha os olhos para Jesus, e o fato de ter cometido um erro não o torna menos querido para o coração de Deus. Ele sabe que tem comunhão com o Salvador; e quando reprovado por seu erro em alguma questão de julgamento, ele não fica de mau humor e se queixa de Deus, mas transforma o erro em vitória. Ele aprende uma lição com as palavras do Mestre e presta atenção para não ser enganado novamente” (Review and Herald, 12 de maio de 1896, p. 290. Disponível no link: https://m.egwwritings.org/pt/book/821.14938#14949).

Em suma, Ellen White fazia diferenciação entre erros pequenos que são rapidamente confessados e deixados de lado, e pecados voluntários, isto é, aquele tipo de pecado que revela um caráter profano, sujo, sem reverência e amor genuíno por Deus. Lidos esses textos, fica mais fácil entender textos em que Ellen White fala sobre a necessidade de sermos perfeitos. Seu conceito de perfeição era o bíblico. E sua ênfase na perfeição era uma herança dos ensinos de John Wesley, originador da Igreja Metodista. Uma vez que White foi metodista antes de ser adventista, entendemos porque ela usava abordagens bastante semelhantes a de Wesley.

O problema do perfeccionismo na interpretação de Ellen White, portanto, tem a ver com um total desprezo ou ignorância de suas influências teológicas, de sua abordagem do tema da perfeição como um todo e do próprio ensino bíblico a respeito. Perfeccionistas se deixam levar simplesmente pelos seus próprios conceitos da palavra “perfeição” e de sua visão pobre sobre pecado, justificação e salvação.

As implicações teológicas e espirituais do perfeccionismo

O perfeccionismo pode parecer inofensivo para muitos irmãos. Tenho visto que embora os adeptos da visão sejam minoria, grande parte dos adventistas trata a questão com enorme condescendência, como se fosse apenas um problema pequeno. Não é. A visão de que podemos e precisamos alcançar impecabilidade absoluta antes da glorificação além de distorcer Bíblia, adventismo e Ellen White, gera legalismo, fanatismo, brigas internas, paranóias, falsa santificação, falso evangelho, obscurecimento do sacrifício de Cristo, foco em minúcias em vez das grandes doutrinas e verdades da fé, hipocrisia, preguiça intelectual e burrice. Tratamos alguns desses problemas no texto “O problema do perfeccionismo“. Para além disso, a TUG geralmente acaba desencadeando a também herética visão de que Jesus veio a Terra com tendências pecaminosas e não pecou, o que nos dá a mesma condição de vencer. Como se vê, uma heresia leva a outra ainda maior.

Como se isso tudo não bastasse, o efeito colateral do perfeccionismo é fortalecer o liberalismo no meio adventista. Em outras palavras, quanto mais os perfeccionistas infectam (parcial ou totalmente) os demais irmãos com as suas ideias distorcidas, mais os movimentos liberais no seio do adventismo se desenvolvem como reação. O pêndulo sai de um extremo ao outro.

Apesar de serem opostos, no entanto, perfeccionistas e liberais possuem um grande ponto em comum: ambos acreditam que a Igreja Adventista está errada em não acatar os seus pontos. Eles se julgam os perseguidos e os que possuem a verdade libertadora os adventistas enganados por essa administração. Por tudo isso, o Reação Adventista é igualmente contrário ao perfeccionismo e ao liberalismo teológico. Para cada um desses sistemas, podemos dizer sem hesitar, como o apóstolo Paulo em Gálatas 1:6-9: “É outro evangelho. Seja anátema!”.