Por Davi Caldas

Daqui quatro semanas, estaremos estudando mais uma lição maravilhosa. O tema será: “Como interpretar as Escrituras”. Dificilmente a relevância desse tema poderia ser superestimada. A dificuldade de interpretação talvez seja o maior problema que o mundo cristão tenha hoje (e uma das maiores desde os primeiros séculos).

Trazendo para o campo adventista, isso se evidencia muito, por exemplo, na dificuldade que muitos adventistas têm de relacionar corretamente Bíblia e os escritos de Ellen White. Para compreender o problema, precisamos considerar dois pontos: o que é interpretação e o que é Sola Scriptura.

Interpretação é uma ciência objetiva, não uma experiência subjetiva. Você extrai o significado de um texto baseado nos contextos (no plural). Nenhum texto é autoevidente. Seu sentido flui dos contextos. Para fins didáticos, eu divido os contextos em sete: temático, histórico-cultural, estilístico, idiomático, teológico, moral e lógico. Assim, qualquer interpretação objetiva precisa se coadunar com esses contextos.

Isso não quer dizer, claro, que não existam textos difíceis de interpretar. Às vezes, mais de uma interpretação se mostra plausível para um texto. Às vezes, também, não temos como estudar profundamente todos os contextos, o que torna a interpretação mais difícil e com menos garantia de acerto. Ainda assim, o estudo dos contextos é essencial.

Note que aqui não há regras humanas. O estudo dos contextos são regras lógicas e, portanto, eternas. São dados da realidade. Nós não criamos as regras, apenas as descobrimos.

Sola Scriptura é ter a Bíblia como única regra de fé e prática doutrinária, bem como padrão máximo para julgar a validade de qualquer filosofia, ideia ou postura. Isso não quer dizer que todas as coisas precisam estar na Bíblia, mas que todas as doutrinas precisam sair dela e que todas as informações devem ser julgadas por ela.

Há uma diferença entre informação e doutrina. Doutrina são crenças e práticas ligadas à questões elementares da fé como caráter e poder de Deus, salvação, moralidade e santificação. Informação pode ser qualquer dado não primordial para a fé. Assim, mesmo que uma informação não esteja na Bíblia, ela pode ser aceita e pode ser verdadeira. O que ela não pode é formar doutrina nova, ou alterar doutrinas já existentes, ou contradizer a Bíblia. Por exemplo, a Bíblia não diz que Paulo foi decapitado. Nós cremos por informações históricas. Pode ser verdade? Pode. É doutrina? Não. É só informação. Contradiz a Bíblia? Não. Então, pode ser aceita e não fere a Sola Scriptura.

Notou que a informação é sempre julgada pela Escritura? Por isso a Bíblia é o padrão supremo.

Pois bem, considerando que interpretação é estudo dos contextos e que, nós, adventistas, seguimos a Sola Scriptura, qual deve ser a relação com os escritos de Ellen White? Obviamente, o interpretar a Bíblia em seus contextos, Ellen White em seus contextos e usar a Bíblia para julgar Ellen White. Na verdade, essa deve ser a relação do cristão com qualquer outro profeta extracanônico que, porventura, aparecer. O dom profético existe e deve ser valorizado, mas sempre sendo julgado pela Bíblia.

Diante disso, suponha que lendo a Bíblia e Ellen White, encontramos um texto em que White parece contradizer a Bíblia. E agora? Bom, só há três opções (considerando que a Bíblia é o padrão):

  • Você interpretou a Bíblia fora dos contextos. Na interpretação dentro dos contextos, que é a correta, Bíblia e Ellen White concordam e, por conseguinte, ambas estão corretas.
  • Você interpretou Ellen White fora dos contextos. Mais uma vez, na interpretação dentro dos contextos, Bíblia e Ellen White concordam e, por conseguinte, ambas estão corretas.
  • Você interpretou a Bíblia e Ellen White dentro dos contextos e mesmo assim há uma contradição. Neste caso, a Bíblia está certa e Ellen White está errada.

Como se descobre qual das opções acima está correta? O esquema seria o seguinte:

  • Averiguar se interpretamos a Bíblia dentro dos contextos;
  • Averiguar se interpretamos White dentro dos contextos;
  • Ficar com a interpretação certa da Bíblia;
  • Julgar White pela Bíblia.

Como averiguamos se interpretamos um texto dentro dos contextos? Pegue sua interpretação (aquilo que você acha que o texto disse) e avalie se ela concorda com cada um dos sete contextos que eu mencionei. Por exemplo, Ellen White usou um termo ou expressão que causa polêmica. No contexto temático você vai averiguar o que ela está dizendo no parágrafo e capítulo (ou texto) inteiro para saber qual é o tema tratado. No contexto idiomático, você vai procurar o termo ou expressão em diversas obras dela, a fim de saber qual o sentido ela costumava a dar àquelas palavras. Se possível, deve-se analisar se algum autor que ela lia a influenciou a adotar tal sentido e, assim, analisar o autor também.

A cada análise dessa, você deve comparar sua interpretação com o que descobriu para saber se a interpretação se coaduna com o contexto. A mesma coisa deve ser feita com passagens bíblicas. Por exemplo, uma passagem parece contradizer outra. No contexto idiomático, você vai analisar se há alguma expressão lingüística no texto e se a tradução que você tem está fiel. No contexto estilístico, você vai analisar se o texto é poético, sapiencial, histórico, profético, parabólico, literal, etc. E por aí vai.

Só assim, analisando todos os contextos, podemos descobrir o sentido real de um texto e saber se nossa interpretação concorda com esse sentido. Os contextos, na ciência da interpretação, são como peneiras. Se sua interpretação não passa numa dessas peneiras, ela não está certa.

Mas como muitos irmãos adventistas (para não falar dos demais cristãos) têm procedido em relação à interpretação? Eles têm pulado a parte da análise mais minuciosa dos contextos. O esquema fica assim:

  • Ler a Bíblia superficialmente;
  • Ler Ellen White superficialmente;
  • Achar um texto que parece contraditório;
  • Interpretar o texto bíblico a partir da leitura superficial dos escritos de Ellen White, mesmo que alguém mostre contextualmente que a Bíblia está dizendo outra coisa (e até mesmo quando alguém mostra contextualmente que Ellen White está dizendo outra coisa).

Então, temos dois esquemas de interpretação. No primeiro esquema, que avalia com cuidado os contextos, a Sola Scriptura é preservada. A Bíblia é o padrão que julga tudo, incluindo Ellen White. Esse é o esquema ensinado pela doutrina oficial. E White só é autoridade para nós porque passa por esse esquema. Ou seja, ao ser julgada pela Bíblia, e sob análises contextuais, ela demonstra não ser antibíblica. Se assim não fosse, ela deveria ser descartada, pois a Bíblia é a norma.

No segundo esquema, no entanto, são feridos a Sola Scriptura, a ciência da interpretação bíblica e também a interpretação correta dos escritos de White. O resultado é pior até que colocar Ellen White num pedestal: é colocar uma leitura descontextualizada (e, portanto, pessoal) de Ellen White em um pedestal.

Obviamente, ao cometer tamanho atentado contra a Bíblia e a ciência da interpretação, muitos adventistas acabam caindo em heresias como perfeccionismo, carne de Jesus inclinada ao pecado, Teologia da Última Geração e até antitrinitarianismo. O mesmo padrão também é usado por adventistas progressistas, a fim de defenderem aborto, prática homossexual, socialismo, marxismo, feminismo, drogas, bebida, deslegitimação do dízimo, sexo antes do casamento, divórcio, conivência com o pecado (muitas vezes, se utilizando da distorção do “não julgueis”) ou qualquer outro ensino errôneo. A Bíblia e a ciência da interpretação são solapadas de ambos os lados do espectro religioso.

Alguém pode dizer aqui: “Mas se a autoridade está na interpretação, isso não faz com que a verdadeira autoridade seja o intérprete?”. A resposta é: “Não!”. O fato inconteste é que os contextos não mentem. Nós é que mentimos. Mas o estudo honesto, profundo, dedicado e sob oração constante é capaz de nos livrar de nossos autoenganos e enganos inocentes. Pode demorar alguns anos, às vezes, mas é certo que a liberdade vem.

Por outro lado, a própria leitura “simples”, supostamente “sem interpretação”, já é uma interpretação. Todo texto lido e entendido é um texto interpretado. A questão é que existem interpretações rasas e interpretações profundas. As rasas muitas vezes dão certo nos textos mais fáceis. Raras vezes dão certo nos textos mais difíceis. É aí que acabamos caindo no erro.

Se queremos ser bíblicos, não basta lermos a Bíblia e interpretarmos de modo raso todas as coisas. Devemos aprender a interpretar profundamente. Não só a Bíblia. Tudo.