Por Davi Caldas

Muitas pessoas acusam a Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) de seita por conta da doutrina do juízo investigativo (também chamada de doutrina do santuário). Para elas, essa doutrina além de não ter base bíblica, seria também contrária a ensinos bíblicos fundamentais. Mas será mesmo assim? Nesse artigo, vou desfazer nove mitos bastante comuns a respeito da doutrina do juízo investigativo que acabam fazendo essa crença parecer antibíblica. Desfazendo esses mitos, é possível enxergar como a doutrina flui única e exclusivamente da Bíblia e, obviamente, não a contradiz. Antes de começar, porém, vamos expor brevemente do que se trata essa doutrina.

Resumindo muito, a doutrina do juízo investigativo afirma que em algum momento da história, antes da volta de Cristo, um juízo se inicia no santuário celeste (Dn 7:9-14, 26-27 e 8:9-14; Ap 11:19). Esse juízo era prefigurado, na Antiga Aliança, pelo ritual do Dia da Expiação, no qual sumo-sacerdote purificava o santuário dos pecados ali depositados, figurativamente, durante todo o ano, retirando-os dali (Lv 16; comparar com Êx 29:38-46 e 30:10; Lv 4:1-7, 6:30; Nm 28:3-8). Esse era considerado um dia de juízo divino (Lv 16:29 e 23:26-32). Assim, da mesma maneira, Jesus Cristo iniciaria a purificação/juízo no santuário celeste, que é o verdadeiro (Hb 8:1-6 e 9:11-24; Ap 11:19, 14:15-17, 15:5-8, 16:17), onde os registros dos pecados já perdoados de cada pessoa salva (Ec 12:13-14; Ap 20:12-15) seriam retirados desse santuário. Falamos mais detalhadamente sobre essa doutrina em outras postagens. Tendo esse resumo em mente, podemos começar a desfazer os mitos.

Mito 1: O Juízo Investigativo serve para definir salvação, contrariando assim a salvação ofertada por Jesus na cruz. 

Muitos acreditam que a doutrina do santuário implica que o sacrifício de Jesus na cruz não salvou ninguém completamente e que precisamos esperar o juízo investigativo para só então termos a certeza da salvação. Ou seja, para essas pessoas o juízo investigativo seria um juízo para definir se alguém realmente será salvo ou não. O problema dessa alegação é que ela não é a doutrina do santuário. Ela é uma má interpretação sobre a doutrina do santuário.

O juízo investigativo não serve para definir quem será salvo ou não, pois a Bíblia diz que a salvação e a perdição são definidas de acordo com a resposta da pessoa a Jesus durante sua vida. Quem crê em Jesus e em seu sacrifício vicário até o fim de sua vida está salvo e quem não crê já está perdido (Jo 3:18; Mt 10:22 e 24:13; Mc 13:13; At 16:30-31; I Co 1:8; Hb 3:6,14 e 6:11; Ap 2:10,26). É óbvio, estamos falando de uma fé genuína e viva, aquela que leva o crente a cumprir os mandamentos de Deus e progredir em santidade e boas obras (Mt 5:16; Jo 14:15,21 e 15:10; Ef 2:8-10; Tt 2:14 e 3:3-8;  I Pd 2:12; Tg 2:8-11; I Jo 2:3-6; Ap 12:17 e 14:12).

Também seria um erro dizer que o juízo investigativo serve para informar a Deus quem foi salvo e quem não foi. Ora, Ele é onisciente. Não precisa ser avisado. Ele sabe desde sempre quem será salvo e quem não será. Definitivamente, o juízo não é um evento destinado a revelar algo para Deus. Questão de lógica.

Então, para quê serve o juízo investigativo? Serve para gerar transparência. Uma vez que Deus estará salvando pessoas que não mereciam ser salvas, todas pecadoras, os anjos poderiam acalentar a dúvida de se tais pessoas realmente foram lavadas e remidas pelo sangue de Jesus. Elas creram de fato? Creram até o fim? Deixaram o Espírito Santo agir nelas? Quando aceitaram a Jesus? Como foi? Que evidência há de que realmente elas aceitaram a Jesus como Senhor e Salvador? Note: nesse juízo quem foi salvo já está salvo. Quem se perdeu, já está perdido. Não há novo nada a ser definido, muito menos a ser descoberto por Deus. O alvo, portanto, é deixar claro aos anjos que sim, os salvos realmente aceitaram a Jesus e foram lavados pelo seu sangue, ao contrário dos que se perderam (ímpios, descrentes, cristãos nominais e apóstatas da fé).

Esse tipo de juízo de transparência faz sentido bíblico? Sim. Na verdade, a Bíblia não fala apenas de um juízo de transparência, mas de dois. O segundo é mais conhecido e aceito por quase todos os cristãos. Vejamos:

“Aventura-se algum de vós, tendo questão contra outro, a submetê-lo a juízo perante os injustos e não perante os santos? Ou não sabeis que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deverá ser julgado por vós, sois, acaso, indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos? Quanto mais as coisas desta vida!” (I Co 6:1-3).

Segundo esse texto, os salvos irão, em algum momento da história, julgar o mundo e até os anjos. Outra passagem curiosa, que vai mais ou menos nessa mesma linha, está em Apocalipse 2:26-27: “Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações, e com cetro de ferro as regerá e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro”. Mais uma vez, parece que os salvos terão autoridade de julgamento e condenação. Antes disso, Jesus já havia dito aos seus discípulos: “Em verdade vos digo que vós, os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel” (Mt 19:28). O mesmo é repetido em Lucas 22:30.

Aqui vem a pergunta de ouro: isso quer dizer que os salvos vão determinar se pessoas e anjos vão ser salvas ou não? Podemos dizer, com base nesses textos, que essa decisão depende dos salvos e que só será definido o destino do mundo e dos anjos após o nosso julgamento? Sem sombra de dúvida, qualquer cristão sensato (adventista ou não) responderá não para as duas perguntas.

Mas se nosso juízo não define quem vai ser salvo e quem não vai; se todos, na vinda de Jesus, já estão com seus destinos selados, o que afinal iremos julgar? O que é que significa esse julgamento se nós não definimos nada? A resposta é fácil: Deus nos dá a graça de “avaliar” caso por caso já julgado por Ele. Assim, podemos constatar com os próprios olhos que Deus foi justo. O juízo que faremos não é no sentido de proferir uma decisão diferente da divina, muito menos de proferir uma decisão desconhecida por Deus (já que Ele é onisciente), mas no sentido de constatar a justiça divina e concordar com ela. E assim Deus nos “envolve” em sua decisão e gera transparência. Ninguém, em toda a eternidade, terá a menor sombra de dúvida de que Deus é justo e foi justo em todos os seus juízos.

Por que Deus se preocupa com transparência? Ele não poderia fazer tudo sem nos dar ciência de nada? Poderia, claro! Ele é Deus. Mas o seu amor e a sua justiça são tão grandes que Ele prefere ser transparente. Um exemplo bíblico disso está no texto de Amós 3:7: “Certamente, o Senhor Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas”. Ele precisava avisar? Não. Mas Ele o faz porque quer e porque é bom.

Em resumo, segundo a Bíblia, existirão dois juízos de transparência: um para os seres humanos salvos constatarem a justiça de Deus (depois da volta de Jesus) e outro para os anjos constatarem a justiça de Deus (antes da volta de Jesus). Esse juízo pré-advento feito diante dos anjos é chamado de juízo investigativo pela IASD. Mas o nome não importa muito. O que importa é que ele é bíblico e não contradiz a nossa salvação conquistada na cruz de Cristo Jesus.

Mito 2: O Juízo Investigativo contraria Daniel 8:13-14 porque as 2300 tardes e manhãs são literais.

Não há boas razões para pensar que as 2300 tardes e manhãs são literais. Na série de textos “Comparando Escatologias” (parte 2 e parte 3, principalmente), onde lidamos com as interpretações diversas de Daniel e Apocalipse, explicamos isso detalhadamente. Mas podemos fazer um resumo aqui. O que determina se as “tardes e manhãs” devem ser entendidas como dias literais ou como anos? Contextos. Um desses contextos é o estilístico. Daniel é um livro com alguns capítulos de estilo histórico e alguns capítulos de estilo profético-apocalíptico. O capítulo 8 é profético-apocalíptico. Nesse estilo, é comum as descrições serem simbólicas, diferentemente do estilo histórico, em que as descrições tendem a ser literais. Assim, é bastante possível que as 2300 tardes e manhãs sejam simbólicas.

Outro contexto é o temático. O capítulo 8 fala sobre um longo espaço de tempo, pois diz explicitamente que o bode, o carneiro e os quatro chifres do carneiro simbolizavam a sucessão dos impérios Medo-Pérsia, Grécia e as quatro divisões posteriores da Grécia. Só isso já cobre pelo menos mais de 300 anos. Então, a visão dura no mínimo alguns séculos. Isso já joga por terra a ideia de que as 2300 tardes e manhãs são literais, pois elas estão ligadas à duração da visão, que é bem maior que alguns poucos dias.

Ampliando o contexto temático, vemos que a estrutura dos capítulos profético-apocalípticos de Daniel funciona assim: cada capítulo explica e amplia o anterior. Os capítulos profético-apocalípticos são o 2, 7, 8, 9, 10, 11 e 12. Isso quer dizer que todos eles desenvolvem o mesmo tema, sempre explicando e ampliando o anterior. Você pode tirar a prova. O 2 mostra uma sucessão de impérios de Babilônia até a volta de Jesus. O 7 vai falar dos mesmos impérios sucessivos. E o 8 também. E por aí vai. Assim, é natural que os tempos envolvidos nessas profecias também sejam de longa duração. Além do mais, os impérios são representados por metais, animais e chifres nessas visões. Se os metais, animais e chifres são simbólicos, é natural que os dias e, por conseguinte, as tardes e manhãs também sejam simbólicas. Contexto.

Ademais, para efeito de conhecimento, os adventistas não foram os primeiros a entender as tardes e manhãs como anos. Intérpretes judeus já faziam isso séculos antes. O principio dia-ano em textos de estilo profético-apocalíptico é bastante antigo, remontando tempos anteriores a Cristo. Ou seja, não é uma invenção adventista. É uma interpretação considerada plausível por diversos intérpretes judeus e cristãos ao longo da história.

Mito 3: O Juízo Investigativo contraria Daniel 8:13-14 porque a purificação do Santuário teria que ocorrer durante ou exatamente no fim das 2300 tardes e manhãs, não depois.

Na verdade, esse mito se baseia em uma interpretação que não leva em conta o verso 13, mas apenas o verso 14. O verso 14 contém uma resposta de uma criatura santa. Para entender uma resposta, é preciso ler e entender a pergunta. Por isso, a chave para a compreensão desta passagem está na pergunta que o primeiro santo faz ao segundo, bem como em todo o contexto temático e linguístico. Prossigamos.

O primeiro santo, no verso 13, não pergunta: “Quando o santuário será purificado?”, nem “Quanto tempo durará a purificação do santuário?”, nem “Quando terminará a purificação do santuário?”. Ele pergunta: “Até quando durará a visão…?”. Mas que visão? Nós explicamos isso detalhadamente em “Comparando Escatologias – Parte 3: Daniel 8”. Pelo contexto temático e linguístico (no caso, o termo usado para visão no original hebraico), o santo se referia a toda a visão de Daniel 8. O foco da pergunta é a duração da visão como um todo. Assim, a resposta do segundo santo precisa seguir o sentido da pergunta do primeiro santo. Se a pergunta quer saber até quando durará a visão, a resposta deve ser até quando durará a visão. O que ocorre depois da visão já é informação extra.

Pois bem, o segundo santo responde: “Até duas mil e trezentas tardes e manhãs”. A resposta é essa. De algum ponto do império representado pelo carneiro, passando pelo império representado pelo bode, pelas quatro divisões imperiais representadas pelos quatro chifres do bode e pelo poder representado pelo chifre pequeno/rei feroz – em suma, do início até o fim da visão –, passariam 2300 anos.

O que vem depois disso? O primeiro santo não perguntou. Mas o segundo deu a informação adicional: “E o santuário será purificado”. Note que essa informação adicional não faz parte da visão. A visão só vai até os problemas que o chifre pequeno/rei feroz causa. Portanto, a purificação do santuário é algo que aconteceria depois do tempo que duraria a visão. Mas quanto tempo essa purificação duraria? O santo não diz. Muito menos a visão fala algo sobre isso. Poderia durar um dia, uma semana, um mês, um ano, dez anos, cem anos, mil anos. Simplesmente, não há essa resposta no texto.

Devemos ter em mente que o tempo de duração de algum evento não implica, necessariamente, que aquilo que vem depois deve acontecer em um só dia. Por exemplo, João se formou em direito. Se alguém, no início do seu curso, perguntasse: “Até quando durará o seu curso?”, ele poderia responder: “Até dez períodos, se eu pegar e passar em todas as matérias por semestre. E então, pegarei meu diploma”. Isso não quer dizer que no dia em que ele fechar os dez períodos, tendo pego todas as matérias e passado em todas, o diploma vai ficar pronto em um dia. Sabe-se que em muitas faculdades, o processo de emissão do diploma pode demorar dias, semanas e até meses. O meu, de jornalismo, demorou sete meses para sair. A resposta de João foi errada, então? Não. A pessoa queria saber até quando duraria o curso. Ele respondeu e deu uma informação adicional do que ocorreria após esse tempo. A informação adicional não conduz à conclusão de que o diploma demora um dia para sair.

Voltando para o texto de Daniel 8:13-14, uma vez que ele reflete Daniel 7:9-14 e 26-27, que é um juízo, é razoável pensar na hipótese de que essa purificação/juízo poderia durar bastante tempo. Juízos nem sempre se iniciam e terminam em um único dia, não é mesmo? E se pensarmos que o tempo não é sentido por Deus como nós sentimos (para Ele, um dia é como mil anos e mil anos, como um dia – II Pd 3:8), então não há porque rejeitar, à priori, a possibilidade de que o juízo/purificação que ocorre depois dos 2300 anos dure muitos anos humanos.

Mito 4: O Juízo Investigativo contraria Daniel 8:13-14 porque a purificação do Santuário se refere ao templo judaico terreno.

 Também explicamos isso em “Comparando Escatologias – Parte 3: Daniel 8”. Em resumo, uma vez que 2300 anos certamente adentram a era cristã, não faz muito sentido supor que a profecia está preocupada principalmente com o templo judaico terreno. Sabemos que o templo era apenas um símbolo tanto de Jesus Cristo (no sentido de ser um centro de expiação e de contato com Deus) como do verdadeiro santuário, o celeste (Jo 2:19-22; Hb 8:1-6 e 9:11-24; Ap 11:19, 14:15-17, 15:5-8, 16:17 e 21:22). Como depois da morte e ressurreição de Cristo, o sistema Levítico e seus símbolos alcançam seu término, é mais natural concluir que o foco da profecia não é o templo terreno, mas alguma coisa que remete ao templo celeste. Para mais detalhes, leia o texto supracitado.

Mito 5: O Juízo Investigativo contraria a entrada de Jesus no Lugar Santíssimo na ocasião de sua ascensão ao céu (Hb 1:3, 6:19-20, 8:1, 9:8,12,24, 10:19-22).

 Segundo a crença adventista, o ritual judaico do Dia da Expiação simbolizava o juízo investigativo. Assim, o sumo-sacerdote entrando no Lugar Santíssimo para purificar o santuário representava Jesus entrando no Lugar Santíssimo do Santuário Celeste, a fim de iniciar a obra de purificação/juízo. Entretanto, para muitos cristãos, isso seria contrário aos textos da epístola aos Hebreus que dão a entender que Jesus entrou no Lugar Santíssimo na ocasião de sua ascensão ao céu, e não apenas centenas de anos depois. Há contradição? Não.

Em primeiro lugar, o âmago da doutrina do juízo investigativo não é a entrada de Jesus no Lugar Santíssimo pela primeira vez, mas sim a entrada de Jesus no Lugar Santíssimo para iniciar, pela primeira vez, o juízo pré-advento (purificação do santuário). O foco não é quantas vezes Jesus entrou no Lugar Santíssimo antes, mas sim o que Jesus passou a fazer pela primeira vez no Lugar Santíssimo após dos 2300 anos. A doutrina é sobre o inicio do juízo profetizado em Daniel 7 e 8, não sobre onde Jesus andou e ficou durante os séculos. Assim, é perfeitamente possível que Jesus ter entrado no Lugar Santíssimo antes de 1844 (quando findam os 2300 anos), mas não para iniciar a obra de juízo/purificação. Isso é irrelevante para a doutrina.

Em segundo lugar, antes do ritual do Dia da Expiação começar a vigorar em Israel, Deus ordenou que Moisés entrasse no Lugar Santíssimo do Santuário terrestre para ungi-lo e, assim, inaugurá-lo (Êx 30:22-30 e 40:1-33; Lv 8:10-13; Nm 7:1-89). Note-se que Moisés desempenhou tarefas de sacerdote antes de Arão e seus filhos fossem ungidos para tal (Êx 24:1-8). O autor de Hebreus parece ciente disso, pois compara Jesus e Moisés em sentido sacerdotal (Hb 3:1-2). Logo, é perfeitamente razoável que Cristo tenha feito o mesmo no santuário celeste, incluindo o Lugar Santíssimo (algo que parece estar aludido em Hb 6:19-20). E isso, evidentemente, ocorreu antes de 1844, talvez logo depois da ascensão de Cristo ao céu. Este procedimento provável de ter ocorrido em nada contradiz a doutrina do juízo investigativo. Na verdade, torna mais clara as conexões entre os sacerdócios da Antiga Aliança e a realidade representada, que é o sacerdócio de Jesus Cristo.

Em terceiro lugar, o fato de Jesus ter se assentado à destra do Pai não necessariamente significa que o Pai e Jesus passaram séculos (e continuam até hoje) sentados, estáticos, presos, confinados a um pedaço do céu, sem poder se mexer. O Pai é Deus. Jesus é Deus. Por que eles não teriam mobilidade? A expressão “à destra do Pai” não parece se limitar a uma posição geográfica. Ela traz a ideia de status, posição funcional. Da mesma forma, sentar-se no trono não implica jamais se levantar. Marvin Moore explica de maneira bem humorada:

“O primeiro livro de Reis 2:12 diz: ‘Salomão assentou-se no trono de Davi, seu pai, e o seu reino se fortificou muito’. É pouco provável que Salomão nunca tenha deixado o trono nem por um momento. Assim, mais uma vez, o significado primário de sentar-se sobre o trono é de status, não de localização” (MOORE, Marvin. “El Juicio Investigador: su fundamento biblico”. Florida: Asociación Casa Editora Sudamericana, 2011, p. 314).

Então, não parece ser um problema que tanto Jesus, quanto o Pai tenham transitado por todo o santuário. Até porque não podemos fazer do Santuário terreno o modelo para o celeste. É o contrário. Isso significa que não necessariamente o santuário celeste é, em todos os detalhes, igual ao santuário terreno.

Em quarto lugar, se o Lugar Santíssimo foi ungido/inaugurado por Jesus e reservado para o juízo que ocorreria séculos depois, é plausível pensar que esse compartimento do Santuário tenha sido deixado guardado para este fim. Corroborando com isso, Daniel 7 demonstra que um tribunal foi montado para o juízo e que o trono de Deus possuía rodas (vs. 9-10 e 26). Isso dá uma ideia de mobilidade do Pai e do Filho, bem como do próprio trono e do que mais fizer parte do Santuário. Assim, é perfeitamente possível que o trono do Pai e do Filho possa ser deslocado para qualquer ponto do Santuário, incluindo para o Lugar Santo.

Em quinto lugar, o Lugar Santíssimo pode ser mais um lugar circunstancial do que propriamente um lugar fixo. Isso porque o NT não parece tratar do Santuário celeste como tendo divisão e o véu de separação. A bipartição no Santuário terreno parece ser mais uma forma de parábola para indicar duas verdades: (1) na Antiga Aliança, nosso acesso ao Pai era limitado e (2) no Santuário celeste, dois tipos diferentes de obra serão realizadas por Jesus: uma que começa no momento de sua ascensão ao céu e vai até a consumação dos séculos  – a intercessão pelos crentes (Rm 8:34; Hb 7:25) – e outra que só se inicia após o término da profecia das 2300 tardes e manhãs (o juízo pré-advento), indo também até a consumação dos séculos.

Essa sugestão é defendida por vários teólogos adventistas como, por exemplo, o Marvin Moore. No seu livro “Em Defesa do Juízo Investigativo” (título em português), ele menciona essa ideia algumas vezes. Vejamos dois trechos:

“[…] de minha perspectiva, a ausência do véu no Santuário celestial significa que no ano 31 d.C. [ano da morte, ressurreição e ascensão de Cristo] Jesus ingressou tanto no Lugar Santo quanto no Lugar Santíssimo. Ou, dito de outra forma, o Santuário celestial incorpora tanto o Lugar Santo quanto o Lugar Santíssimo de seu tipo terreno. Isto significa que o ministério que Cristo levou a cabo logo depois de sua ascensão deve ter sido um ministério tanto do Lugar Santo quanto do Lugar Santíssimo [no sentido de localização]. Quer dizer, então, que o Santuário celestial tem apenas um lugar em vez de dois, como no tipo? Não necessariamente. A evidência bíblica sugere que há sim dois lugares [no sentido circunstancial]. […].

 Proponho que, ao mostrar que o Trono de Deus foi movido para um novo ‘lugar’, Daniel 7: 9-10 implica que a sala do trono de Deus, de fato, tem duas partes. A primeira parte é o ‘local’ onde Jesus se sentou com seu Pai, em 31 d. C., e a segunda parte é o ‘local’ onde ocorre o Julgamento de Daniel 7. Cada um pode ser considerado o Lugar Santo do Céu, e cada um também pode ser considerado o Santo dos Santos [Lugar Santíssimo]. Podemos considerar que o lugar onde Jesus se sentou com seu Pai em 31 d. C. é o Lugar Santo do Céu, porque, embora o Trono de Deus esteja localizado lá, as duas salas estão agora em uma única ‘sala’. Portanto, é razoável entender que, durante mil e oitocentos anos, Cristo realizou um tipo de ministério no santuário celestial, representado pela atividade dos sacerdotes durante todo o ano no Santo Lugar do santuário terrestre. Ao mesmo tempo, podemos considerar Daniel 7 para descrever um segundo lugar, no Santuário celestial, onde ocorrem o Dia da Expiação e o Julgamento Investigativo. Este seria o antítipo do Lugar Santíssimo no céu, mas ao mesmo tempo conteria tudo, incluindo o Lugar Santo celestial” (Ibdem, p. 320-321).

 “Eu estou de acordo que Cristo está no Lugar Santíssimo do Santuário Celeste desde a sua ascensão. Mas também proponho que, uma vez que as duas salas estão unificadas no Santuário celestial, Cristo também está no Lugar Santo do Céu, e tem realizado todos os ministérios que são o antítipo do ministério dos sacerdotes terrenos no Lugar Santo do santuário terreno” (Ibdem, p. 353).

Em suma, é possível que o Lugar Santíssimo, no contexto do juízo investigativo, seja apenas o Santuário organizado em uma de suas partes para o juízo, não um lugar fixo, mas um lugar circunstancial. Não parece necessário enfatizar muito a geografia do santuário celeste. Nem o livro de Hebreus se preocupa com esses detalhes.

Em sexto lugar, a expressão que muitas Bíblias traduzem como Lugar Santíssimo ou Santo dos Santos em Hebreus 9:8,12 e 10:19-20 é ta hagia (no singular) ou ton hagion (no plural). Essa expressão grega era usada pelos judeus tanto para Santuário, quanto para Lugar Santo e também Lugar Santíssimo. Exatamente por essa razão, as versões variam na tradução. As versões ARC, BJ, CNBB, NAA, NAB, NRSV e REB traduzem o termo como santuário na maioria ou em todas as aparições. As versões KJV, HCSB e NVI como Santo dos Santos. A NTLH como Lugar Santíssimo. ARA e NASB traduzem a expressão como Santo Lugar. NET e NJB como Lugar Santo. E a BJC como Lugar Sagrado. Já na Septuaginta, a primeira tradução grega do Antigo Testamento (produzida cerca de duzentos anos antes de Cristo), a maioria das vezes em que a palavra ta hagia aparece, se refere ao santuário como um todo.

Posto isto, fica claro que não necessariamente o autor de Hebreus tinha em mente a ideia de que Jesus entrou no Lugar Santíssimo logo que ascendeu aos céus. Para ser mais exato, o foco do autor de Hebreus não é discutir a geografia do santuário celeste, nem falar sobre o que exatamente o Dia da Expiação representava para o contexto da Nova Aliança. O foco é mostrar que todo o sistema Levítico da Antiga Aliança era inferior à Nova Aliança, pois era temporário, não oferecendo remissão plena de pecados nem total acesso ao Pai. Sua função era apenas representar o sacrifício de Jesus. Assim, o autor está satisfeito em apenas dizer que Jesus Cristo é nosso real sacrifício e também real Sumo-Sacerdote, que ele entrou no Santuário celeste (muito mais importante que o santuário judaico terreno) e que agora sim temos remissão completa dos pecados e acesso pleno ao Pai.

Questões como se Santuário celeste também é dividido em dois compartimentos ou não, se Lugar Santo e Lugar Santíssimo são lugares circunstanciais ou não, se Jesus e o Pai circulavam pelo Santuário ou não, se o antítipo do Dia da Expiação já havia ocorrido no céu ou não, etc. não são o foco do autor da Epístola aos Hebreus. Logo, não há como esses textos contradizerem, de alguma forma, a doutrina do juízo investigativo.

Mito 6: O Juízo Investigativo contraria o ensino bíblico de que quando somos perdoados, nossos pecados são apagados e esquecidos (Mq 7:18-19; Jr 31:34; Hb 10:17-18).

 Essa é outra interpretação ruim. Os textos bíblicos querem dizer que Deus não perdoa para depois cobrar de novo ou “jogar na cara”. Se o arrependimento foi sincero, o pecado foi limpo. Não há risco de Deus repensar e, arbitrariamente, anular o seu perdão já dado mediante sincero arrependimento. O juízo investigativo abre os registros perante os anjos não para que pecados já perdoados sejam cobrados de novo e até usados para nossa condenação. Os registros são abertos para mera conferência, tendo em vista a transparência. Nenhuma decisão será mudada. Deus já garantiu o perdão completo dos salvos pela graça, mediante a fé genuína deles em Jesus (algo que ocorre não no juízo investigativo, mas na vida do crente).

Esse juízo pré-advento é análogo de uma purificação porque os registros de pecados representam os pecados. Ao retirá-los do Santuário/Tribunal, esse ato simboliza que o céu foi limpo diante dos anjos. Todos agora sabem que Deus é justo e que os salvos foram, de fato, limpos pelo sangue. Por isso, Daniel 7 e 8 foram escritos em sequência, pois o juízo é uma purificação. E por isso o Dia da Expiação era encarado pelos judeus e pelo próprio Deus como um dia de juízo.

Mito 7: O Juízo Investigativo contraria Levítico 16 porque os dois bodes do Dia da Expiação representavam Jesus, não apenas um.

 Segundo Levítico 16, dois bodes eram separados para o Dia da Expiação. Lançavam sortes sobre para saber qual deles ia morrer e qual deles ia ficar vivo. O bode que morria purificava o santuário (Lv 16:7-9 e 15-19). O outro esperava até o fim do ritual, quando o sumo-sacerdote confessava os pecados sobre a cabeça dele e alguém mandava esse bode vivo para o deserto (Lv 16:10 e 20-22).

Tradicionalmente, os adventistas entendem que o bode que morre representa Jesus, enquanto que o bode vivo representa Satanás. E isso é parte da doutrina do juízo investigativo. Para a maioria dos evangélicos, porém, os dois bodes faziam expiação, o que significa que os dois bodes devem representar a Cristo Jesus. Quem está correto na interpretação? Vejamos.

Para entender o que o texto de Levítico 16 simboliza para nós, cristãos, é preciso primeiro compreender o que o próprio texto está dizendo. Note: os versos 7-9 dizem que os dois bodes seriam colocados diante de Yahweh. Sortes seriam lançadas para escolher qual seria o bode para Yahweh e qual seria o bode para Azazel. A maioria das Bíblias traduz Azazel como “bode emissário”, mas o original hebraico é Azazel, que é um nome próprio. Assim, pela estrutura do texto hebraico, claramente Yahweh e Azazel eram seres distintos.

Quem era Azazel? Ao longo dos séculos, diversos exegetas judeus e cristãos discutiram isso. O problema é que a origem etimológica da palavra é obscura e o termo só é usado na Bíblia em Levítico 16. Muitos exegetas judeus e cristãos, porém, entendem que Azazel provavelmente era o nome de uma entidade demoníaca que servia bem como uma representação de Satanás no contexto da expiação.

Na sequência, vemos que o bode que se tornasse para Yahweh era sacrificado como oferta ao pecado. E o bode que se tornava Azazel ou “para Azazel”? O verso 10 diz que ele não era morto. Dos versos 15 a 19, o texto explica que o bode para Yahweh era morto para que o santuário e todo o Israel fossem purificados. E dos versos 20-22, é dito que só “depois de fazer expiação pelo santuário”, é que o sumo-sacerdote pegava o bode vivo para mandá-lo ao deserto. Vamos organizar as informações até aqui:

(1) Dois bodes eram escolhidos;

(2) Sortes eram lançadas para decidir qual seria o bode de Yahweh e qual seria o bode de Azazel;

(3) O bode escolhido para ser de Yahweh era morto como oferta pelos pecados do santuário, expiando os pecados do santuário e todo o povo;

(4) O bode escolhido para ser de Azazel não morria pelos pecados de ninguém, mas esperava todo o ritual da expiação terminar para então ser usado.

Com essas informações que o próprio texto dá, fica claro que quem expiava os pecados não era o bode de Azazel, mas o bode de Yahweh. Mas, então, por que o verso 5 diz “pegará dois bodes, para a oferta pelo pecado” e o verso 10 diz que o bode Azazel “será apresentado vivo, para fazer expiação por meio dele”? Note que o problema aqui não tem a ver com a teologia adventista, mas com a exegese do próprio texto. O texto tem duas informações aparentemente contraditórias, pois ao mesmo tempo que mostra que o bode de Azazel não faz expiação (v. 20) e que era o bode de Yahweh a “oferta pelo pecado” e a “expiação pelo santuário” (vs. 9 e 15-16), também parece dizer que os dois eram para o mesmo fim.

Se optarmos pela ideia de que os dois bodes faziam expiação, criamos um problema teológico, pois Azazel, independente de ser um demônio ou não, não é Yahweh no texto. Temos dois personagens distintos. Assim, dizer que os dois fazem expiação é dizer que somos purificados não só por Deus, mas por alguma criatura. Ou seja, a interpretação comum dos evangélicos de que os dois bodes fazem expiação não se encaixa com a ideia de que só Jesus expia nossos pecados. Há dois personagens representados no Yom Kippur. Um é Yahweh e o outro não. Como Jesus é um com Yahweh (e, portanto, o próprio Yahweh também), então os dois bodes não podem ser uma representação de Jesus. Apenas o bode de Yahweh simboliza Jesus. Por outro lado, se optamos pela ideia de que apenas um bode faz expiação, então permanecemos com um problema exegético: como explicar os versos 5 e 10?

A solução para esse impasse é, claro, mergulhar nos contextos. Pelo contexto temático, sabemos que os bodes só seriam designados para suas respectivas funções depois do sorteio. Assim, até o sorteio, dizer que os dois bodes são para oferta parece ser apenas figura de linguagem. São dois bodes para o sorteio de qual seria a oferta pelo pecado. Chamamos isso de metonímia. É como dizer: “O professor me mandou ler Lutero e Calvino”. O sentido dessa frase é: “O professor me mandou ler livros, artigos, discursos e/ou sermões que foram escritos por Lutero e Calvino”. Isso se encaixa bem com o contexto temático geral do texto.

Pelo contexto lingüístico, por sua vez, sabemos que a expressão “por meio dele”, no verso 10 (no hebraico, “al”), pode ser traduzido como “sobre”, “acima”, “diante”, “ao lado”, “próximo”, etc. Ou seja, o texto provavelmente está dizendo que o bode vivo seria apresentado diante de Yahweh para que se fizesse expiação ao lado do bode Azazel, próximo do bode Azazel ou diante do bode Azazel (não por meio do bode Azazel). E isso é exatamente o que o contexto temático geral diz. O bode de Azazel só assistia tudo próximo ao bode que realmente era sacrificado.

Do ponto de vista do contexto temático e teológico da Bíblia como um todo, isso também faz todo o sentido. Afinal, o autor de Hebreus diz que quase todas as coisas se purificavam com sangue e que sem sangue não há remissão de pecados (Hb 9:22). Em outras palavras, o bode de Azazel não fez expiação, pois não derramou sangue. Aliás, é digno de nota que qualquer cristão entende que Jesus expia os pecados de quem o aceitou, não de quem descrê. Logo, quem não aceitar Jesus levará sobre si seus próprios pecados, sendo assim condenado por eles. Isso inclui Satanás. Então, se Azazel não faz expiação, ele representa bem o que ocorrerá com Satanás e os ímpios: morrerão em seus próprios pecados, sem expiação. E nada mais justo que Satanás receba sua parcela de culpa pelos pecados de todos os seres humanos. Por conseguinte, o bode que morre e purifica o santuário representa Jesus, nosso único e suficiente redentor.

Mito 8: O Juízo Investigativo é apenas uma desculpa para disfarçar os erros de interpretação dos mileritas.

 Antes de surgir a Igreja Adventista do Sétimo Dia, um pregador batista chamado William (Guilherme) Miller pregou durante alguns anos que a purificação do santuário mencionada em Daniel 8:13-14 era a volta de Jesus. Uma vez que os estudos de Daniel 8 e 9 demonstram a contagem desses anos deveria começar em 457 a.C. (ver “Comparando Escatologias”, parte 3 e parte 4), Miller concluiu que Jesus voltaria entre os anos de 1843 e 1844. Como isso não aconteceu, o movimento milerita minguou e também sofreu divisões. Uma parte desse movimento passou a reexaminar a profecia de Daniel 8:13-14, concluindo que o evento predito era o inicio da purificação do santuário celeste, isto é, o juízo investigativo. Esse grupo viria a fundar a IASD alguns anos depois. Por conta dessa história, críticos fazem essa acusação de que a doutrina do juízo investigativo é apenas uma desculpa esfarrapada.

A alegação é bastante curiosa porque existe outra história muito semelhante a essa, mas que nenhum cristão critica. Vejamos. Entre os judeus do primeiro século havia uma grande expectativa de que o Messias prometido viria por aquela época para assumir o trono israelita, libertar Israel da opressão romana e iniciar a Era Messiânica. Quando Jesus começou a fazer sinais e prodígios, multidões de judeus passaram a segui-lo e pretendiam fazê-lo rei (Jo 6:14-15). Seus discípulos sonhavam, durante o ministério de Jesus, com o dia em que se assentariam em tronos como seus ministros (Mt 20:20-28 e Mc 10:35-45). Na última Páscoa de Jesus, o povo o saudou como rei (“Filho de Davi”) na entrada de Jerusalém (Mt 21:9-15; Mc 11:9-10; Lc 19:36-40; Jo 12:13). Quando foi condenado à morte, enquanto agonizava, ouvia chacotas a respeito de ser ele o rei dos judeus, mas estar preso e numa situação tão humilhante (Mt 27:29; Mc 15:18; Lc 23:37-38; Jo 19:3,21).

Uma coisa era clara para os judeus daquela época: se um homem que alegava ser o Rei Messias prometido morria, então ele não era o Rei Messias. E se um homem era, de fato, o Rei Messias, ele assumiria o trono. Ninguém acalentava a interpretação de que o Messias seria humilhado e morto. Com Jesus morto, a expectativa de que ele assumisse o trono findava. Jesus era carta fora do baralho para o povo. E, para os discípulos, restava uma grande confusão: se Jesus era tão poderoso e singular, como poderia não ser o Messias? Ele não era o Filho de Deus? Como explicar, então, sua morte e o descumprimento das profecias? As profecias não diziam que o Messias assumiria o trono de Israel? Tudo estava nebuloso.

Pois bem, poucas semanas depois, os discípulos passam a pregar em Jerusalém que Jesus ressuscitou dentre os mortos. Já era algo inusitado para as expectativas gerais da época. Mas a mensagem ficava ainda mais esquisita: Jesus ressuscitou, mas não ficou na Terra para assumir o trono. Em vez disso, subiu aos céus e não deixou nenhuma pista de quando iria retornar. Enquanto isso, Israel permanecia nas mãos dos romanos. Que tipo de redenção era essa? Décadas depois, com Jesus ainda não tendo voltado, o apóstolo Pedro já alertava que “nos últimos dias, virão escarnecedores com os seus escárnios, andando segundo as próprias paixões e dizendo: ‘Onde está a promessa da sua vinda? Porque, desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação’” (I Pd 3:3-4).

O leitor percebe? Para muitos judeus, a doutrina apostólica sobre a ressurreição, ascensão e retorno de Jesus era apenas uma desculpa esfarrapada para disfarçar o vexame da morte de Jesus e o “claro descumprimento” das profecias. Por essa ótica, os apóstolos estavam inventando uma doutrina bizarra para não darem o braço a torcer de que tinham errado a ver Jesus como Messias. Talvez alguns apóstolos já tenham, em debates, dito o seguinte: “Não erramos ao atribuir messiandade a Jesus. Erramos ao achar que Ele assumiria o trono terreno. Ele, na verdade, se assentou no trono celeste e voltará só depois que pregarmos o evangelho a todo o mundo”. Para quem não estava muito disposto a estudar as profecias messiânicas a fundo e analisar os sinais que Jesus realizou (e que os próprios apóstolos realizavam), a mensagem apostólica realmente parecia uma desculpa esfarrapada. Fugia à interpretação majoritária e a expectativa geral da nação.

Alguma semelhança com a doutrina do juízo investigativo sustentada pela IASD? Sim, bastante. Também os adventistas, quando ainda eram parte dos mileritas, creram numa interpretação errada. Quando ela não se cumpriu, ficaram confusos. Mas estudando perceberam que erraram o evento, não a ocorrência da profecia. A pergunta é: por que todos os cristãos não vêem problema nos apóstolos terem consertado sua interpretação sobre as profecias, mas vêem problema nos adventistas terem feito o mesmo? Parece ser apenas preconceito.

 Mito 9: O Juízo Investigativo contraria a Sola Scriptura porque é baseado em visões de Ellen White e Hiram Edson, não na Bíblia.

 Depois de responder a todas as perguntas sobre essa doutrina sem sequer mencionar Ellen White ou Hiram Edson (um dos pioneiros da IASD e que teve uma visão sobre o santuário em 1844) está claro que é um mito a ideia de que a base para a doutrina está nas visões dessas duas pessoas. Tudo o que falamos aqui foi baseado apenas no estudo das Escrituras Sagradas. E é assim que precisa ser.

É muito comum cristãos anti adventistas afirmarem enfaticamente que as doutrinas distintivas da IASD são fruto das visões de Ellen White (a quem se referem com desprezo e asco). Mas basta uma olhada rápida nas 28 Crenças Fundamentais da IASD para ver que isso, definitivamente, não é verdade. Todas as doutrinas da IASD são baseadas única e exclusivamente na Bíblia. A função das visões de Ellen White nunca foi criar novas doutrinas ou modificar doutrinas já existentes. Suas visões apenas lidavam com questões mais contextuais e específicas, as quais não alteram em absolutamente nada as doutrinas bíblicas. O juízo investigativo pode, portanto, ser totalmente defendido pela Bíblia sem que se cite Ellen White ou Hiram Edson, mesmo levando em conta a importância de ambos para a história da IASD.

Por que tudo isso importa?

 Se você chegou até aqui, talvez esteja com aquela pergunta: “Ok, mas por que isso tudo importa?”. A doutrina do juízo investigativo é bastante complexa, exige muito estudo e saber ou não dela não muda em nada nossa salvação. Por que, então, discutir esse assunto? Bom, há pelo menos três razões. A primeira é: porque está na Bíblia. Se está na Bíblia é sinal de que Deus julgou importante que em algum momento a humanidade tivesse ciência disso. Aliás, Jesus nos incentivou explicitamente a estudar o livro de Daniel e entendê-lo (Mt 24:15-16; Mc 13:14). E Apocalipse conclama oito vezes os que têm ouvidos para ouvir seus alertas (Ap 2:7,11,17,29; 3:6,13,22; 13:9). É a mesma expressão usada por Jesus nos evangelhos (Mt 11:15 e 13:9,43; Mc 4:9,12,23 e 7:16; Lc 8:8 e 14:35). O apóstolo Paulo, aconselhando a Timóteo, diz:

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (II Tm 3:14-17).

 Isso já seria razão suficiente para se importar, mesmo sem saber o que, na prática, a doutrina importa. Mas dá para ir mais além.

A segunda razão é que o início do juízo investigativo em 1844 não está ligado apenas ao que Jesus começa a fazer no santuário. Esse juízo tem reflexos na Terra. Os grupo de mileritas que, apesar de terem errado a interpretação de Daniel 8:13-14 durante anos, continuaram estudando depois do desapontamento, passaram a redescobrir muitas verdades bíblicas esquecidas nos séculos de cristianismo. Essas verdades são: a guarda do sábado semanal, distinção entre carnes puras e impuras (de onde se deduz também a importância de cuidar da saúde física), mortalidade da alma, aniquilacionismo, a necessidade de estar sempre avaliando nossas doutrinas à luz da Bíblia (modificando-as se for necessário), a importância de estudar os livros de Daniel e Apocalipse, e a relevância de se pregar o retorno literal e visível de Jesus Cristo.

Todas essas verdades bíblicas (e muitas outras) foram esquecidas por ação direta da Igreja Católica Romana através de séculos de supremacia. A primeira fase da Reforma Protestante (chamada Reforma Magisterial) fez um ótimo trabalho em resgatar verdades como as 5 Solas (Sola Scriptura, Sola Fide, Sola Gratia, Solus Christus e Soli Deo Gloria). Mas não foi além disso e também cristalizou alguns erros próprios. A segunda fase da Reforma Protestante (chamada Reforma Radical) avançou um pouco mais com diversos movimentos questionando pontos como mistura entre Igreja e Estado, batismo de crianças, entre outros. Ainda assim, não havia um movimento grande que reunisse essas verdades e mais outras que ainda precisavam ser restauradas. E é aqui que as coisas ficam interessantes.

Quando nos voltamos para Daniel 7 e 8, vemos que o “chifre pequeno” (que nós demonstramos ser Roma, na série “Comparando Escatologias”, parte 2 e parte 3) mudou tempos e Lei, jogou a verdade por terra e prosperou durante muitos anos (Dn 7:8,11,24-25 e 8:9-12). Isso representa os séculos de domínio da Igreja Romana e do Papa sobre a cristandade. O mesmo assunto é descrito em Dn 11:36-40, II Ts 2:1-12, Ap 2:12-29 e Ap 13:1-10. No entanto, Daniel 7 e 8 apresentam também o juízo pré-advento. Esse juízo é colocado como ocorrendo depois do tempo de supremacia de Roma (Dn 7:26) e como sendo uma resposta divina ao poder romano (Dn 8:13-14). Isso sugere o reflexo do juízo na Terra. Se Roma afrontou o céu por séculos, enterrando verdades, agora essas verdades seriam desenterradas de vez. As reformas seriam continuadas. E tudo o que Roma construiu seria totalmente desfeito.

Simbolicamente isso é muito interessante. De certa forma, tudo gira em torno do santuário. Ele está ligado ao sacrifício e ao sacerdócio de Cristo, pois Jesus entra lá como sacrifício consumado e sacerdote eterno. Ele está ligado à Lei, pois João vê a Arca da Aliança no Santuário Celeste (Ap 11:19) – e sabemos que as tábuas dos dez mandamentos ficavam justamente na Arca da Aliança no Santuário Terreno (Êx 25:16-21; Dt 10:1-5; I Rs 8:9; II Cr 5:10). Ele está ligado a um juízo de transparência diante dos anjos, o que vindica o caráter de Deus e a legitimidade da salvação dos crentes em Cristo. Ele está ligado a todos os juízos de Deus, pois Deus julga todo o universo a partir de seu Santuário. E ele está ligado, claro, a todas as realidades celestiais, já que se encontra no céu.

Quando Roma se arroga a entidade infalível e capaz de mudar até a Lei de Deus, de certa forma, afronta o Santuário Celeste. Quando joga as verdades por Terra, assenta-se como Deus, contaminando simbolicamente o Santuário. Quando embaça o sacrifício de Cristo e a sua intercessão diária por nós no Santuário Celeste, fazendo da Santa Ceia um novo sacrifício, transformando padres em sacerdotes e os santos mortos em intercessores, fere as verdades essenciais do Santuário Celeste. Assim, o juízo pré-advento não apenas vindica o caráter de Deus diante do universo e confirma a legitimidade da salvação dos crentes. Ele demonstra que Deus é o verdadeiro juiz e que o reflexo disso na Terra é a retomada das verdades. O juízo é contra Roma também. A purificação também simboliza a restauração das verdades. Tudo está conectado.

É por essa razão que João vê o Santuário sendo aberta depois do período de opressão de Roma (Ap 11:19; comparar com Ap 11:1-3, 12:6, 13:6; Dn 7:25 e 12:7). É por isso que no centro de Apocalipse está uma mensagem que nos lembra que Deus é Criador de todas as coisas e também Juiz (Ap 14:6-7). É por isso que o Apocalipse enfatiza que os crentes do fim iriam se caracterizar não só por ter fé em Jesus, mas por guardar os mandamentos de Deus (Ap 12:17 e 14:12).

Deus Criador, Juízo, Lei, mandamentos de Deus, Sábado, Santuário. Todas essas coisas possuem íntima relação entre si. A doutrina do juízo investigativo, portanto, é uma doutrina que agrega todas as outras verdades esquecidas e essencialmente relevantes para o tempo do fim. Daí a sua importância.

Finalmente, a terceira razão tem a ver com a já citada transparência. Como já dito antes, Deus não precisava dar satisfação de nada às suas criaturas. Mas não é assim que Deus gosta de agir. A doutrina do juízo investigativo, portanto, demonstra claramente qual é o caráter de Deus. Por essa doutrina, nós podemos perceber que Deus não é arbitrário, passional e obscuro, mas um Deus que faz tudo às claras. Podemos confiar nele. Não há sombra de dúvida sobre o caráter de Deus. E aqui fica a reflexão: quem pode dizer que isso não é relevante para a nossa vida? Eu não consigo.