Por Gelvane Fonseca*

A presente reflexão é fruto de um diálogo bastante produtivo e amigável que tive com um pastor conhecido meu no ano passado (2019). Nós conversávamos sobre pregação bíblica e sermões expositivos. Inicialmente, o pastor não estava convencido da relevância dos sermões expositivos, da superioridade deles em relação aos sermões temáticos e da crise acentuada que vivemos em relação à qualidade das pregações atuais no adventismo e no mundo cristão em geral. Assim, em resposta a algumas considerações dele, por áudio, escrevi um artigo expondo as razões pelas quais creio que a visão dele está equivocada. A resposta foi bem recebida pelo pastor e fui autorizado a postá-la. Por razões de proteção da privacidade, omitirei apenas o nome dele. O conteúdo é o mesmo que enviei ao pastor.

Resposta ao Pastor X

Olá, pastor X! Fico feliz de poder falar com o senhor. Seus artigos teológicos  foram extremamente importantes para mim. Na verdade, até hoje os utilizo, indico e até imprimo e distribuo nos programas que realizamos aqui. Admiro muito seu trabalho.

Permita-me tecer alguns comentários sobre o seu áudio. Ouvi-o diversas vezes e acredito que prestei a máxima atenção às suas ponderações. Corrija-me, entretanto, se o entendi equivocadamente e, por favor, perdoe-me, desde já, qualquer equívoco.

Uso do Antigo Testamento (AT) no Novo Testamento (NT) 

Na opinião do senhor, assim eu entendi, os escritores do NT simplesmente tomaram o texto do AT com pouca preocupação para com o contexto. Contudo, os trabalhos nos últimos quarenta anos do Dr. Richard M. Davidson e, principalmente, os de G.K. Beale, erudito amplamente citado entre acadêmicos adventistas, mostram que os autores neotestamentários levaram em absoluta consideração o contexto e a intenção original dos profetas do AT ao citá-los. Esses estudos demonstram que os apóstolos tinham um conhecimento excepcional do AT e fizeram um uso totalmente apropriado da intenção original das Escrituras veterotestamentárias (os livros de Beale, especialmente o “Manual do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento: exegese e interpretação” e “O uso do Antigo Testamento no Novo Testamento e suas implicações hermenêuticas” são espetaculares ao argumentar sobre isso. Sua grande obra, “Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento” mostra, caso a caso, que todos os usos do AT no NT levaram em conta o contexto original). De Richard Davidson, recomendo o artigo “New Testament Use of the Old Testament”, JATS 5.1 (1994). Ele declara:

“Os que mantêm uma visão elevada da inspiração das Escrituras reconhecem o testemunho da própria Bíblia, o qual afirma a unidade e harmonia fundamentais entre suas várias partes. Aceitar essa afirmação conduz à suposição de que os escritores do NT permanecem fiéis aos contextos originais do AT quando citam passagens extraídas dele. […] os autores do NT não retiravam de contexto as Escrituras do AT em suas citações e não liam no AT o que não estava lá originalmente, mas, em vez disso, permaneciam consistentemente fiéis à intenção do AT, e consistentemente engajados em sólida exegese das passagens do AT, usando princípios hermenêuticos sólidos” (p. 14, 16 – grifos acrescentados).

Em um trabalho um pouco mais recente, intitulado “Interpreting Scripture According to the Scriptures: Toward an Understanding of Seventh-day Adventist Hermeneutics” (Seventh-day Adventist Theological Seminary Andrews University), o Dr. Davidson combate a ideia que ele chama de “eisegese [o contrário de exegese] inspirada”:

“Os escritores do NT, em sua exploração do significado mais profundo, especialmente relacionado ao cumprimento tipológico de pessoas, eventos e instituições do AT, não encontram no AT o que já não esteja lá (eisegese ‘inspirada’), ou o que não está aparente ao pesquisador humano (sensus plenior), ou alegorização. Os escritores do NT permanecem fiéis às indicações do AT a respeito de pessoas, eventos e instituições que deveriam servir de prefigurações de Cristo e das realidades do evangelho. O escritor do NT apenas anuncia o cumprimento antitípico do que já está verbalmente indicado no AT”.

Talvez, pastor, o que nos confunda é que a nós, pessoas do século XXI, falte a mesma completa familiaridade com o AT que os escritores neotestamentários possuíam. Logo, às vezes, pode parecer que os escritores do NT usavam textos do AT de qualquer forma para dizer que Jesus é o Messias, por exemplo. Mas isso é só uma impressão. É compreensível a sensação de que as citações deles estejam descontextualizadas porque o que temos em nossa Bíblia é o resultado final de uma longa reflexão teológica com base no AT. Representando um pensamento amplamente aceito atualmente, Moisés Silva é categórico nesse ponto:

“há muitos indícios de que o apóstolo [Paulo] refletiu cuidadosa e ponderadamente sobre os contextos dos textos veterotestamentários. Mesmo no caso de citações que parecem um tanto arbitrárias, a consideração perseverante do contexto amplo é esclarecedora. […] nossa incapacidade de identificar todos os passos lógicos que levaram Paulo a usar um texto veterotestamentário com um propósito determinado não refletem nada mais que nossa ignorância” (SILVA, Moisés. O Antigo Testamento em Paulo. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. Dicionário de Paulo e suas Cartas. [São Paulo: Paulus; Vida Nova; Loyola, 2008], pp. 88, 89).

Para exemplificar, menciono de modo bem rasteiro o trabalho do Dr. Beale, onde ele mostra que Mateus 2:15 vai parar lá em Nm 23 e 24, profecia sobre Judá, novo êxodo messiânico, identificação do Messias com Israel, etc. Mateus resumiu uma trajetória exegética gigantesca ali. Entre outras coisas, Beale demonstra que tipologia já é um recurso utilizado no próprio Antigo Testamento, e não uma novidade ou leitura do Novo sobre o Antigo. De acordo com C. H. Dodd (para mais detalhes sobre a contribuição de Dodd, ver os artigos de Davidson) e outros, Mateus apenas seguiu uma prática comum no NT, a saber: citar um texto do AT esperando que o leitor saiba o contexto mais amplo — especialmente o público-alvo mateano, que era judeu. Portanto, o que existe nesses textos difíceis do NT é exegese, método histórico-gramatical (aliado a uma abordagem teológico-bíblica) e só – do contrário, os apologistas judeus estariam certos em suas críticas aos apóstolos; de forma alguma os autores do NT descontextualizaram o AT, porque não existe licença para tal coisa.

Confesso que me preocupa muito a sugestão de que um pregador moderno teria permissão, como o senhor sugeriu, para descontextualizar o texto bíblico porque os apóstolos supostamente deixaram esse exemplo. Primeiro, como argumentado acima, os apóstolos não tiraram textos do contexto. Segundo, líderes e teólogos adventistas já se pronunciaram claramente a respeito de como os autores bíblicos interpretaram uns aos outros:

Não é correto afirmar que os autores da Bíblia, quando citavam as Escrituras, às vezes impunham ao texto um significado estranho à intenção original do autor. […] é necessário um estudo aprofundado de todo o contexto das passagens citadas pelos escritores inspirados, bem como um conhecimento abrangente de antecedentes bíblicos relevantes, a fim de entender o quadro maior indicado pela sua exegese. […] Um estudo aprofundado dessas citações e de como os escritores da Bíblia as aplicavam mostra sua compreensão (exegética) da intenção original, bem como sua consciência quanto aos versos circundantes e de como as passagens que citam se relacionam com o contexto maior das Escrituras” (Clinton Wahlen, “O uso das Escrituras por autores bíblicos”, Em: Quando Deus fala: o dom de profecia na Bíblia e na história (Tatuí, São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2017), pp. 119, 123-124 e 130 – grifos supridos).

A conclusão natural do que o senhor disse é que, quando tomamos o uso que os apóstolos fizeram do AT, constatamos que as coisas não eram, de fato, assim como eles usaram. Porém, se os escritores do NT usaram o AT de modo alheio ao que disseram os profetas veterotestamentários, como, então, os bereanos podiam tomar as palavras de Paulo, conferi-las “examinando as Escrituras todos os dias” e confirmar que “as coisas [que Paulo dizia das Escrituras do AT] eram, de fato, assim” (At 17.21)? Portanto, usar a Escritura de modo diverso ao que foi dito pelo autor citado não foi o exemplo apostólico. Paulo deixa claro qual foi o exemplo que deixaram: “Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por vossa causa, para que por nosso exemplo aprendais isto: não ultrapasseis o que está escrito […]” (1Co 4:6). Ou seja, não basta o sermão não ferir a doutrina ou não enganar a igreja de alguma forma. É igualmente essencial não ir além do texto. Conforme a alegação da própria Bíblia, esse foi precisamente o exemplo dos apóstolos para nós.

Um dos problemas que identifico é que muitas vezes parece que, quando alguns irmãos pedem pregações mais bíblicas, as pessoas logo pensam que o que se está pleiteando é uma ‘aula de exegese’. Mas uma pregação assim também não é bíblica. A pregação bíblica é justamente aquela que faz a ponte entre o mundo do texto no primeiro século e o nosso mundo atual. Qualquer pregação que fique apenas na exegese textual, ou apenas em nossas experiências, não está atingindo o propósito designado por Deus. E foi isso que os apóstolos fizeram: uma ponte entre o texto do AT e a situação da igreja do NT, uma ponte entre Moisés e o Messias. Eles não explicavam simplesmente o significado original daquele texto. Quando Mateus afirmou que as palavras “do Egito chamei meu filho” (Mt 2:15) também se aplicavam a sua situação presente, ele quis mostrar como, a partir do texto original, Jesus representava aquilo que Deus fez por Israel. Mas perceba, pastor: o uso que Mateus fez não foi alegorizante, tampouco partiu do texto para falar de testemunhos pessoais; o evangelista apenas aplicou o texto antigo a uma situação messiânica contemporânea.

A respeito de coisas semelhantes a essas, disse a irmã White:

“Não apresentem ideias sem importância em seus sermões. Deus não quer que vocês imaginem estar sendo impressionados pelo Seu Espírito, se sua mente se afasta do assunto, introduzindo matérias estranhas, que não possuem conexão com o texto [bíblico] em estudo. Ao divagar para longe de linhas retas, apresentando aquilo que desvia a mente do assunto [apresentado na passagem bíblica], vocês perdem o ponto de apoio e enfraquecem tudo o que disseram previamente. Ofereçam a seus ouvintes trigo puro [isto é, somente a Bíblia], totalmente peneirado” (Ellen White, Testemunhos para a Igreja, Vol. 6, p. 56)

“A meus irmãos do ministério, quero dizer: Pregai a Palavra. Não tragais para o fundamento madeira, feno ou palha – vossas próprias suposições e especulações, que não podem beneficiar a ninguém.” (Ellen White, Obreiros Evangélicos, p. 314).

Guardai as vossas histórias para vós mesmos. As pessoas não têm fome espiritual por elas, mas querem o pão da vida, a Palavra viva que permanece para sempre” (Ellen White, Carta 61, 1896 [citada em “Evangelismo”, p. 210]). No fim dessa carta, ela cita 2Tm 4:1-6, em cujo centro consta a ordem paulina “prega a Palavra”. A ordem de Paulo não é “prega tua história de vida ou histórias inspiradoras”, mas a Palavra.

“Muitos dos ministros atuais citam um texto de Paulo e pregam dos jornais. Quando fazem isso, prefiro me deleitar com meus próprios pensamentos em vez de escutar” (palavra de Daniel Webster, citadas com aprovação por Ellen White, em Ministério Pastoral: Conselhos aos Pastores Adventistas, p. 188)

As declarações dos homens não têm nenhum valor. Que a Palavra de Deus fale às pessoas. Que aqueles que têm ouvido apenas as tradições e os conceitos humanos ouçam a voz de Deus” (RH, 11 de março de 1902. Citado parcialmente em “Ministério pastoral”, p. 189).

O TESTEMUNHO PESSOAL E A PREGAÇÃO

O senhor chegou a dizer que o pregador pode ler o texto e avisar que não se deterá na passagem bíblica, mas contará seu testemunho pessoal, com tanto que não fira a doutrina nem engane a congregação (fazendo-a crer que o que ele dirá realmente se encontra na passagem). Perceba, pastor, que esse discurso valida qualquer coisa que alguém fale no púlpito (desde que não fira a doutrina, nem engane ninguém, como o senhor disse). Uma vez perdido o referencial do texto bíblico como critério definidor do que é uma pregação verdadeira, fica ratificado se o pregador quiser pregar sobre como passar roupa, lavar o carro, falar da formatura dos seus filhos ou como montar a cavalo (Ellen White até mesmo disse que era útil aprender montaria). Aqui, não podemos nos basear em nosso bom senso, porque, nesse ponto, tal critério é muito subjetivo. Ou nossa âncora é o texto bíblico ou estaremos à deriva das vontades humanas pecaminosas, especulações, tradições etc.

Não apenas isso, essa ideia, se levada a sério, faria com que as passagens bíblicas tivessem o mesmo valor de quaisquer contos populares ou acontecimentos da história secular. Se podemos meramente citar a passagem, dar nosso testemunho ou falar de qualquer coisa que consideremos edificante, e o significado original do texto inspirado não precisa obrigatoriamente controlar a pregação, então, tanto faz se o texto usado na pregação é da Bíblia ou de outro lugar, no fim das contas. Poderíamos pregar a partir de qualquer texto que contivesse bons conselhos ou que pudéssemos alegorizar para extrair dele belos e perspicazes ensinos morais, como os textos de Platão ou as Fábulas de Esopo (nesse caso, o pedaço de carne poderia ser a Palavra de Deus; a raposa, o diabo, e o corvo, o cristão. O princípio universal derivado dessa parábola seria: “Quando o cristão pensa demais de si mesmo, ele perde a Palavra de Deus”. Esse princípio é doutrinariamente correto, não engana a igreja e vale a pena pregar sobre ele). Por isso, ou o texto bíblico, devidamente lido e explicado, dita e controla o que é dito, ou ficamos à deriva, sujeitos à sabedoria humana do pregador tratando, na prática, a Bíblia como inútil, igual qualquer outro livro.

De forma alguma estou dizendo que o pregador não pode usar testemunhos pessoais ou ilustrações, mas que tais coisas devem ser contadas unicamente com o propósito de, como o próprio nome “ilustração” diz, lançar luz, nesse caso sobre o texto, a fim de torná-lo mais claro aos ouvintes. O problema é que em vez de usarmos histórias para ilustrar o texto bíblico, usamos o texto bíblico para ilustrar as histórias. Eu creio, com toda a força de meu ser, que a Palavra de Deus é incomparavelmente mais transformadora, comovente e instrutiva do que qualquer história inspiradora.

A PREGAÇÃO DOS PIONEIROS

Quanto ao que o senhor falou sobre a pregação dos pioneiros, eu diria que o fato de Deus poder fazer uso de instrumentos rudimentares não nos isenta da responsabilidade de desenvolvermos e utilizarmos o melhor que nos está disponível. A compreensão da revelação é progressiva não somente quanto ao conteúdo da verdade, mas também quanto aos métodos empregados na exposição e na descoberta do conteúdo.

É verdade que Deus faz uso de pregadores diversos, com estilos diversos. É verdade que ele fez uso dos pioneiros, seus métodos rudimentares e suas estratégias de pregação. Mas isso não significa que é normativo, nem justificativa para nós imitarmos os pioneiros nesses pontos. Deus os abençoou ainda que grande parte deles fosse legalista e antitrinitariana. O argumento de imitarmos os pioneiros, como sabe o senhor melhor do que eu, também é usado exatamente pelos dissidentes de nossa igreja. A questão é que Deus usou os pioneiros apesar de suas ideias e métodos deficientes. Gosto muito de uma frase que li anos atrás e que mudou minha maneira de enxergar as coisas:

“É verdade, como se observa, que Deus pode trabalhar mediante qualquer meio: por um escândalo, domínio, pregador interesseiro; contudo, este não é o seu modo habitual de agir” (John Shaw).

Num momento, Deus chegou até a usar uma jumenta para falar, mas essa não é sua forma usual de trabalhar. De fato, Ele usou o próprio Balaão e Caifás. Em algumas (poucas) ocasiões, também usou crianças, no entanto, esse não é o Seu modo costumeiro de agir, são exceções (e. g., não vemos nenhum ensino na Bíblia de crianças sendo colocadas na posição de instrutores. Em vez disso, a Bíblia ensina que a insensatez está arraigada ao coração da criança [Pv 22.15]; uma criança no trono é motivo de lamento [Ec 10.16. Cf Is 3.1-9 e 1Rs 3.7] etc.). Enfim, o que quero dizer é que devemos ser pacientes e amorosamente exigentes com aquilo que ouvimos. Se algo tem a pretensão de ser bíblico, que a passagem bíblica infalível seja usada como critério, e não o exemplo de homens santos, porém falíveis.

Quanto à pregação de Ellen White, a Enciclopédia Ellen G. White diz que “ela usava uma abordagem híbrida dos métodos temáticos e textuais. Seus sermões, portanto, não eram expositivos no sentido de a passagem bíblica orientar o esboço do sermão. No entanto, ela advertia os ministros a pregar sermões bíblicos (MPa, 188-190)” (p. 1179). Um sermão textual/temático pode perfeitamente expor o pensamento do autor bíblico citado, porque o que importa não é o formato do sermão, mas a intenção de ser fiel ao propósito do texto (porém, geralmente, a pregação expositiva é a que mais precisamente atinge esse objetivo).

Ademais, reitero, não devemos nos fundamentar na vida das pessoas, sejam do passado ou do presente, mas na melhor luz que temos no momento. Creio que o seguinte texto de Ellen White se aplica bem a essa ideia:

“Temos muitas lições a aprender, e muitas, muitas a desaprender. Unicamente Deus e o Céu são infalíveis. Os que pensam que nunca terão de desistir de um ponto de vista acariciado, nunca ter ocasião de mudar de opinião, serão decepcionados” (Ellen White. Mensagens Escolhidas, v.1, p.37).

Assim, se Deus nos proporcionou avanço, e se a pregação expositiva é incomparavelmente melhor para alimentar e instruir a igreja nas Escrituras — pois é a que melhor consegue respeitar o propósito do Espírito Santo e do autor inspirado, uma vez que o Espírito não revelou a Bíblia em temas — , ela deveria receber o maior encorajamento.

O senhor também falou que grande parte dos principais proponentes da pregação expositiva são imortalistas, dominguistas etc. Quanto a isso, eu diria que tal fato não tem a menor relevância para avaliar o valor do sermão expositivo, porque todos esses autores lamentam que em suas respectivas denominações o sermão expositivo é praticamente ausente. Ou seja, o que reina, tanto lá, como cá, é o sermão temático. Se crenças erradas mostram algum tipo de fraqueza intrínseca ao tipo de sermão utilizado, então devíamos fugir do sermão temático, porque as igrejas neopentecostais ou dispensacionalistas o utilizam, e nossos pioneiros (legalistas e antitrinitarianos) também.

Além do mais, isso não deveria ser desculpa para não usarmos sermão expositivo, mas sim um motivo de vergonha. Afinal, deveríamos estar à frente dos outros nisso, já que temos um papel missiológico profético. É uma postura tola e tacanha deixar os outros pegarem o que é bom e nós, depois, não querermos usar. São dois erros: (1) deixar que peguem o que é bom primeiro que nós; (2) depois não correr atrás do prejuízo.

Por outro lado, pastor, o fato surpreendente é que há muito desconhecimento a respeito do papel do sermão expositivo na igreja adventista. Uma séria pesquisa nos arquivos da Associação Geral está em desenvolvimento e será publicada em breve. O autor encontrou menções sobre a importância do sermão expositivo datadas desde o século XIX, o que mostra que essa não é uma pauta recente no adventismo. Os dados revelados na pesquisa mostram que em 1911 treinamentos para pastores adventistas incluíram sermões expositivos em Nova York. Posteriormente, a Ministry Magazine, especialmente em 1919, lançaria dois editoriais contundentes. Nas décadas seguintes, o assunto tornou-se comum e foi objeto de dezenas de defesas. Houve muitos outros nomes nas décadas seguintes, como F. F. Busch, Roy Alan, D. A. (do White Estate), etc.. Enfim, a pesquisa comprova que sermão expositivo não é coisa de calvinista ou reformado, mas também faz parte da nossa história. O que realmente parece ausente é amor pelo genuíno alimento da Palavra nos púlpitos.

TECNICISMOS

Em dado momento, o senhor relacionou o sermão expositivo a tecnicismos e à existência de pregadores expositivos que pregam sermões áridos. Sobre isso eu diria e, creio que o senhor sabe, que tecnicidade não é algo intrínseco à pregação expositiva. Na dúvida, basta ler os comentários expositivos de dois dos principais pregadores do século 20, D. M. Lloyd-Jones ou John Stott, que são fruto de séries de  sermões em suas respectivas igrejas. Esses pregadores se tornaram famosos por conseguir aproximar o estudo sério do texto (exegese) e a realidade das pessoas (aplicação), mostrando como a Palavra de Deus é relevante, eficaz e suficiente para todos os aspectos da vida do homem comum.

Ademais, da mesma forma que um suposto pregador expositivo pode ser tecnicista, um pregador temático também. Porém, é mais comum que pregadores temáticos se preocupem menos com o estudo mais profundo, uma vez que, para a maioria deles, basta enfileirar sem muito critério os textos bíblicos que supostamente tratem do assunto que deseja e intercalá-los com suas considerações e outras citações sobre o tema. A própria estrutura do sermão expositivo torna um pouco mais difícil que isso ocorra, porque ele força o pregador a mergulhar um pouco mais no significado original do texto sagrado a ser exposto, o que por vezes demandará um esforço mais técnico – embora a entrega do sermão não precise de forma alguma ser técnica.

Assim, uma vez que o sermão temático não exige muito estudo dos textos usados por parte do pregador, é realmente mais difícil que seja tecnicista. Mas, para que isso ocorra, basta que os pregadores temáticos se acostumem a estudar tanto quanto os pregadores expositivos precisam para preparar seus sermões. Se o pregador tem muito conteúdo técnico e não sabe o que fazer com ele, tanto fará se for temático ou expositivo: o sermão será igualmente tecnicista. Além disso, ter menos casos de tecnicismo de forma alguma deixa o sermão temático em melhor situação. Os falsos profetas da prosperidade, por exemplo, passam muito longe de ser tecnicistas, mas constituem um dos maiores flagelos e opróbrios do cristianismo atual.

Sermões tecnicistas são um problema terrível; sermões que não explicam e nem aplicam a Palavra, mas, meramente a sabedoria humana, são também um problema terrível, porém incomparavelmente mais alastrado. Sermão tecnicista, graças a Deus, é uma raridade das raridades. Não deveria, portanto, ser motivo de tanto temor. É o mesmo que ter medo de Dilma fazer um discurso técnico. Quase impossível.

Quando nós falamos da importância de pregações bíblicas, reitero, em hipótese alguma queremos aulas acadêmicas nos púlpitos, não queremos aulas de exegese nas pregações. Queremos pregações simples mesmo, mas que sejam TOTALMENTE bíblicas, que expliquem e apliquem — conforme a intenção do autor — a teologia do texto inspirado. E o motivo disso tudo é muito simples: não existe outra forma de alimentar a igreja. Qualquer outro tipo de discurso (não me refiro ao método) no púlpito só faz alimentar a igreja com palha, deixá-la morrer de inanição da Palavra e enganar o povo de Deus com placebo. Entristece muito quando a única coisa pela qual clamamos seja mais Bíblia nos púlpitos e nós, o autoproclamado “povo da Bíblia”, achemos ruim.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em hipótese alguma, o que direi a seguir se dirige ao senhor, pastor. Fique certo disso. Mas tenho a firme convicção de que, quase sempre, o motivo da recusa de alguém em pregar ou preferir sermões expositivos é não querer se submeter à agenda do Espírito Santo. Repito, quando o pregador confia demais em si mesmo, e na sua própria agenda, interesses e ideias, é quase impossível para ele aderir ao sermão expositivo. Tal recalcitrância faz com que a igreja seja “alimentada” apenas dos desejos e gostos do pregador. Mas quando um livro bíblico inteiro (ou uma longa seção de um livro, como Mt 5-7) é pregado um trecho de cada vez, sequencialmente, toda a dieta balanceada que Deus deu ao Seu povo é transmitida às igrejas.

Quando temos nossas próprias ideias, e confiamos pouco no poder e suficiência da Escritura, o resultado inevitável é o menosprezo de um ensino sistemático dela nos púlpitos e nos demais setores da igreja local (a começar com as classes infantis, onde as crianças são colocadas apenas para desenhar e pintar na escola sabatina e são ensinadas quase sempre por pessoas sem nenhum preparo em estudos bíblicos). É por causa disso que se aceita no púlpito que o pregador use a Bíblia apenas como um trampolim para todo tipo de conversas ou assuntos alheios à intenção que o Espírito Santo quis comunicar no texto que inspirou.

Para concluir, faço mais um lamento. Tenho visto algo assustador, comum tanto a grandes teólogos quanto ao leigo mais anti-intelectual: de um lado, existe Bíblia, exegese, teologia, doutrina, aridez, tecnicidade mecânica; de outro, experiência pessoal, emoção, vivacidade, entusiasmo, existencialismo, ativismo e suposta relevância. O que une tanto o leigo quanto o teólogo é negar que existe poder e relevância na viva Palavra de Deus, a qual é, de fato “útil” para TODAS as coisas (2Tm 3:16-17). Grande parte das pessoas que mais enfatiza a importância da teologia e da doutrina, não acredita, de forma alguma, que a teologia é relevante. Teologia, para eles, serve para fazer o membro permanecer dentro da IASD, e não ser enganado pelos críticos e pelos dissidentes. Mas, quando se trata de vida cotidiana, de encorajamento, de “recarregar as baterias espirituais”, de fortalecer a comunhão com Deus, deixe de lado toda a teologia, toda a doutrina, porque o que o povo precisa é (apenas ou primariamente) de experiências pessoais, frases de impacto e pensamentos motivacionais que não têm relação alguma com o texto bíblico citado.

Em suma, apesar de afirmarmos crer na Palavra de Deus, a maioria o faz apenas da boca para fora, porque não crê que ela é capaz de reavivar, santificar, motivar e fortalecer. No máximo, a Bíblia é apenas uma das inúmeras coisas que podem ou devem ser colocadas no púlpito, palestras ou aulas. Vai do gosto do pregador ou professor. Na prática, e às vezes até no discurso, não cremos que é a Bíblia, como instrumento do Espírito Santo, que tem o poder para transformar vidas.

“Deus nos chama a um reavivamento e uma reforma. As palavras da Bíblia, e da Bíblia somente, deveriam ser ouvidas do púlpito. Mas a Bíblia tem sido despida [roubada] em seu poder, e o resultado é ausência de vigor espiritual. Em muitos sermões de hoje não existe aquela manifestação divina que desperta a consciência e traz vida à alma. Os ouvintes não podem dizer: ‘Não estava queimando o nosso coração, enquanto Ele nos falava no caminho e nos expunha as Escrituras?’ (Lc 24:32). Muitos estão clamando pelo Deus vivo, ansiando pela presença divina. Permitam que a Palavra de Deus fale ao coração deles. Deixem que os que têm ouvido apenas tradições, teorias e ensinos humanos ouçam [na Bíblia] a voz dAquele que pode renová-los para a vida eterna” (Profetas e reis, p. 626).

Que Deus nos ajude!

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*Gelvane Fonseca é um dos criadores e administradores da página do Facebook “Adventismo e Evangelho“. A página tem como temas principais o sermão expositivo, as regras básicas de interpretação da Bíblia e a propagação do evangelho de Cristo.