Por Davi Caldas

Nesta semana que passou, eu fui entrevistado por um rapaz que cursa teologia na Faculdade Batista do Cairi, na Cidade do Crato, Ceará. Ele precisava fazer um trabalho sobre as crenças do sistema teológico adventista e perguntou se eu poderia concedê-lo uma entrevista sobre o tema. Abaixo seguem as perguntas que ele fez e as minhas respostas. Acho que acabou ficando um bom resumo para quem quer conhecer melhor a doutrina adventista.

1) Primeira pergunta em relação a Bíblia. O que acreditam em relação a Bíblia? Sobre sua construção e como chegou até nós? É de fato a palavra de Deus ou não?

R.: Nós cremos que a Bíblia é a Palavra de Deus escrita, dada à humanidade por meio de homens santos e profetas inspirados pelo Espírito Santo de Deus (Êx 24:7; Dt 28:58-61; Js 1:8 e 24:26; II Pd 1:20-21; Ap 22:18-19). Assim, ela é a nossa única regra de fé e prática doutrinárias, bem como nosso padrão para julgar quaisquer filosofias, posturas e pensamentos (II Tm 3:16-17; Jo 10:35 e 17:17; At 17:11; I Pd 3:14-18). Em outras palavras, todas as nossas doutrinas têm de estar fundamentadas na Bíblia. Além disso, a Bíblia toda testifica de Jesus Cristo, por meio de profecias, simbologias e testemunho direto (Jo 5:39-47; Lc 24:27,44-45; At 2:32 e 8:26-40; I Co 15:1-8; I Pd 1:16-19). Ela foi sendo escrita ao longo de 1600 anos, por mais de 40 autores. Seus livros foram sendo reconhecidos como inspirados tanto pelo conteúdo coerente quanto pelas evidências de que seus escritores eram homens de Deus. E assim, ao sobreviverem ao tempo, foram sendo reunidos e vistos como uma coisa só. Esse processo foi, sem dúvida, guiado por Deus, de modo que diversos livros e cartas distintos demonstraram ser uma única mensagem coerente, sem contradições, poderosa e divina para a humanidade.

2) Ela é a única autoridade que vocês tem? Digo, ela está acima de qualquer dogma religioso e estatuto eclesiástico?

R.: Nós cremos que a Bíblia é a nossa única autoridade doutrinária. Por essa razão, nunca adotamos um credo fixo e imutável. Nós apenas expressamos nossas crenças fundamentais em declaração oficial (atualmente são 28 Crenças). Mas no preâmbulo desta declaração, deixamos claro que nosso único credo é a Bíblia, de modo que se a Igreja entender, através de muito estudo bíblico e oração, que precisamos mudar pontos de nossas crenças para nos adequarmos mais à Bíblia, isso será feito. De fato, mudanças na doutrina já ocorreram ao longo da história adventista. Isso demonstra que estamos abertos à instrução da Palavra de Deus e do seu Espírito Santo (que age em consonância com a Palavra). Tal postura é uma herança do movimento anabatista e dos movimentos adeptos da Reforma Radical (a segunda fase da Reforma Protestante, que teve como primeira fase a Reforma Magisterial).

Embora a Bíblia seja, para a Igreja Adventista do Sétimo Dia, a única autoridade doutrinária e a norma de julgamento para quaisquer questões doutrinárias ou não, cremos que isso não exclui a possibilidade de Deus dar a determinados cristãos o dom de profecia. Somos continuístas em relação aos dons do Espírito Santo (I Ts 5:19-22; I Co 12:10,28-29 e 14:1-6; II Cr 20:12-20; Pv 29:18; Jl 2:28-29; At 2:16:21). Mas o dom de profecia nunca serviu apenas para profetas escreveram livros bíblicos. Em Israel existiram muitos profetas que não escreveram nenhum livro que se tornou parte da Bíblia. A Bíblia relata alguns como Hulda, Natã, Aías, Elias, Eliseu, João Batista, Ágabo, as quatro filhas de Filipe, etc. Esses profetas, assim como todos os outros posteriores ao fechamento do Cânon bíblico, não possuem função de revelar nova doutrina, ou modificar doutrinas já existentes. A função deles é fazer predições próprias para determinado contexto e incentivar as pessoas à estudarem e aplicarem a Bíblia às suas vidas.

O profeta extracanônico, portanto, tem função subserviente à Bíblia, embora seja inspirado pelo mesmo Espírito Santo. Assim, a Bíblia continua sendo a única autoridade doutrinária mesmo que haja profetas extracanônicos. E estes profetas extracanônicos precisam ser provados pela Bíblia também, a fim de que tenhamos certeza de que vieram da parte de Deus.

3) Em relação a Deus, o que acreditam?

R.: Nós cremos que há um só Deus (Dt 6:4; Is 44:8, 45:5; I Tm 1:17), o qual existe sendo uma unidade de três pessoas divinas e coeternas: Pai, Filho e Espírito Santo (Gn 1:1-2; Is 7:14-15, 9:1-7 e 48:16; Dn 7:9-14; Sl 2 e 110; Pv 30:4; Mt 16:13-17 e 28:19; Jo 1:1-5, 8:56-59, 10:30, 14:6-10; At 5:3-4; I Co 8:6; II Co 13:13; Ef 4:4-6; Fl 2:6-8; Cl 1:15-17 e 2:9; Tt 3:3-8; Hb 1:1-4; I Pd 1:2). Em suma, somos monoteístas trinitarianos, como a maioria esmagadora das igrejas cristãs.

Cremos ainda que Deus é onipotente, onisciente, onipresente e Criador de todo o Universo, incluindo a Terra e o ser humano. Ele também é maximamente moral, amoroso, bom, racional e perfeito. Essas características fazem parte da própria essência/natureza dEle. Deus intervém na história humana e nada acontece sem que Ele determine ou permita, de modo que no fim das contas tudo está sob o seu controle e debaixo de seu conhecimento eterno.

Deus pode ser chamado de vários nomes (Adonai, Elohim, El, El Rapha, Ha Shem, Teos, Deus, Senhor Deus, Deus de Israel, Altíssimo, Eterno, etc.). Mas seu nome principal na Bíblia é YHWH, geralmente transcrito como Yahweh. O que normalmente as Bíblias em português traduzem como “SENHOR Deus” é “YHWH Elohim” no hebraico, onde YHWH é um nome próprio e Elohim é um termo genérico para deus ou deuses. Não há problema em chamar Deus de outros nomes e títulos, mas saber que SENHOR é Yahweh, um nome próprio, ajuda bastante na leitura e interpretação de muitas passagens bíblicas.

4) Em relação a Jesus e ao Espírito Santo, quem são? Vi que os classificou como co-iguais com o Pai, mas me refiro as naturezas de Cristo, em relação a personalidade do Espírito Santo.

R.: Nós cremos que tanto o Pai, quanto o Filho (Cristo) e o Espírito Santo são pessoas da Trindade. As três pessoas divinas são um só Deus. Esse ensino se difere de dois desvios: o triteísmo e o modalismo. No triteísmo, Pai, Filho e Espírito Santo são três deuses. No modalismo, Pai, Filho e Espírito Santo são três modos da mesma pessoa, que se manifestam sucessivamente.

O triteísmo está errado não só porque a Bíblia diz que só há um Deus, mas porque ela diz que o Pai é eterno (Gn 21:33; Sl 10:16; Is 40:28; Jr 10:10; Rm 1:20), Cristo é tão eterno quanto o Pai (Mq 5:2; Is 9:6; Sl 110:4; Rm 16:25-26) e o Espírito não apenas é chamado de eterno, mas descrito em pé de igualdade com o Pai e Cristo (Hb 9:14; Gn 1:1-2; Is 48:16; Ag 2:5; Jo 14:16-17 e 26, 16:7; II Co 13:13; Tt 3:4-7). Então, se Pai, Filho e Espírito Santo são igualmente eternos, divinos, santos, criadores e possuem a mesma essência, então são o mesmo Deus, não três deuses distintos.

O modalismo está errado porque embora as três pessoas divinas sejam um só Deus, não são retratadas como sendo uma pessoa só. Claramente temos três figuras divinas, com três funções distintas, que podem aparecer concomitantemente e se relacionar entre si, como demonstram diversos textos bíblicos já citados (e muitos outros não citados). Assim sendo, tratam-se de três pessoas.

Como entender isso? Pessoalmente, eu sempre imagino a seguinte: uma laranja cortada em três pedaços. Cada pedaço é um pedaço distinto do outro. No entanto, os três pedaços possuem a mesma essência e são a mesma laranja. É claro que essa analogia, como qualquer outra em relação à Trindade, tem suas limitações. Uma delas é que Deus não foi “cortado” em três em algum ponto do tempo (ou do não-tempo). Ele é triúno desde sempre. A analogia serve apenas para entendermos que três pessoas divinas não são necessariamente três deuses, nem um Deus é necessariamente uma pessoa – da mesma forma como uma laranja não é um pedaço e três pedaços da mesma laranja não são três laranjas. Guardadas as devidas proporções, creio que a analogia é útil.

Especificamente sobre as funções das três pessoas da Trindade, cremos que o Pai ocupa a função de Senhor do Universo e aquele que se assenta no trono celeste. Cristo ocupa a função de intermediário entre o Pai e as criaturas, em especial o ser humano. Ele representa o Pai para o ser humano e o ser humano para o Pai. Por isso, coube a Ele a missão de tornar-se homem, morrer pela humanidade e ressuscitar. O Espírito Santo cumpre a função de não estar em um lugar específico (mas em todos os lugares), de guiar o ser humano ao arrependimento, de inspirar os profetas a falarem/escreverem as mensagens divinas, de conduzir um crente à santificação progressiva, dentre outras coisas. O Espírito Santo não é um poder ou algo impessoal (como também não o Pai e o Filho), mas uma pessoa divina mesmo, podendo falar, interceder, ser entristecido, ser alvo de blasfêmia, etc.

5) Minha próxima pergunta estará ligada a hamartiologia. Em relação ao pecado, quais as suas consequências? Digo, o que o pecado é? O que acontece ao homem após a morte por consequência do pecado?

R.: Cremos que Deus criou o mundo perfeito, mas que o ser humano escolheu cometer pecado, separando-se da plena comunhão com Deus (Gn 2:8-15 e 3:1-24). O resultado disso foi a perda da vida eterna, o envelhecimento, as doenças e uma inclinação natural à imperfeição em todos os seres humanos. Assim, todos já nascem propensos a cometer erros (morais ou não) e, de fato, os cometem.

Mas o que é exatamente o pecado. Há várias palavras para pecado na Bíblia, como as hebraicas Hatta’th, ‘Awon, Pesha’ e Resha’, e as gregas Hamartia, Parakoe, Parabasis, Paraptoma e Adikia. Cada uma dessas palavras tem suas nuances de sentido. Algumas se referem a pecados de rebeldia. Outras têm um sentido mais voltado a pecados involuntários e falhas pontuais. A palavra mais usada no Novo Testamento é Hamartia (de onde vem o termo harmatiologia). Ela significa “errar o alvo” e traduz a palavra hebraica Hatta’th (a mais usada no Antigo Testamento). É o pecado deliberado, um desvio consciente e consistente do alvo de Deus.

O apóstolo João define pecado como anomia (I Jo 3:4). Anomia vem do grego “a”, que é um prefixo de negação, e “nomia”, derivado de “nomos”, que quer dizer Lei. Traz o sentido de negação da Lei ou de viver como se não houvesse Lei. Em geral, as Bíblias traduzem como “iniquidade”. É a mesma palavra usada por Jesus em Mateus 7:23. A palavra (ou variantes) também aparece em passagens como Mt 13:41, 23:28, 24:12; Rm 4:7, 6:19; II Co 6:14; II Ts 2:3 e 7; Tt 2:14; Hb 1:9, 10:17.

Podemos dizer, então, que em um sentido amplo pecado é o afastamento do homem em relação a Deus e, num sentido mais estrito, qualquer postura, ato ou condição (ainda que não proposital) que fuja à vontade de Deus e às suas ordens. Isso implica que ainda que um indivíduo pudesse abster-se de cometer atos pecaminosos, não deixaria de ser pecador, pois é propenso à imperfeição, o que em si já é uma fuga da vontade de Deus para sua criação. Além disso, é comum que até em nossos bons atos, haja algum tipo de impureza e é muito frequente pecarmos por omissão (podendo ser melhores e não o sendo).

Nós cremos ainda que um dos principais problemas que o pecado trouxe ao mundo é que nós nos tornamos naturalmente alienados de Deus. O termo comumente usado para isso é “depravação total”, uma crença em comum entre calvinistas e arminianos (e que nós, como arminianos, também aceitamos). Isso quer dizer que nossa natureza não é capaz de, por iniciativa própria, perceber que precisamos de Deus, se arrepender dos pecados, ir até Ele e permanecer nEle. Nossa natureza nos chama para o mal e é para lá que naturalmente vamos. Então, por que existem conversões? Porque, conforme cremos, o Espírito Santo não se apartou da Terra, mas está sempre chamando o ser humano ao arrependimento. Ele ilumina o homem, oferecendo sempre a oportunidade de mudança de vida. No arminianismo, isso é chamado de “graça preveniente” (isto é, uma graça ofertada antes mesmo do indivíduo se converter). Podemos aceitar ou não. Deus não nos obriga. Mas se há aceitação, Deus começa uma obra de transformação do nosso caráter, ideias, postura e sentimentos. A obra de conversão e santificação é divina.

Obviamente, o homem pecador está fadado à morte eterna, conforme a sentença divina dada em Gênesis 3:19. O apóstolo Paulo dirá que o salário do pecado é a morte (Rm 6:23). Deus é justo e não pode deixar o pecado impune. No entanto, sendo Ele um Deus amoroso, o Pai envia seu Filho Unigênito (que é um com Ele) para passar por essa morte em nosso lugar (Jo 3:16). E dessa forma, sem méritos, totalmente pela graça de Deus, nós podemos ganhar a vida eterna se crermos verdadeiramente em Jesus Cristo como Senhor e Salvador (Ef 2:8-10; Rm 5:6-11). Aqueles que creem ressuscitarão quando Jesus voltar para viver eternamente com Deus (Is 26:19; Dn 12:2; Jo 6:40-54 e 11:25; I Ts 4:16; I Co 15:52-58). Aqueles que não creem, recusando a oferta gratuita de Deus, serão aniquilados, morrendo eternamente (Is 66:15-16; Ml 4:1-3; II Pd 2:6-12 e 3:7-13; Lc 17:26-30; Ap 2:11, 20:14, 21:8; etc.).

6) Davi, sei que já falastes, mas me explique agora, sobre soteriologia, como o homem é salvo? Existe o conceito de eleição ou predestinação para os adventistas?

R.: Cremos que Deus, em sua presciência e eternidade, elegeu todos aqueles que iriam crer em Jesus como Senhor e Salvador no futuro para serem salvos. O apóstolo Pedro é claro ao dizer que Deus elegeu aos crentes segundo sua presciência (I Pd 1:2). E o apóstolo Paulo nos informa que Deus conheceu os crentes antes de predeterminá-los a serem conforme a imagem de Jesus (Rm 8:29). Não obstante, isso não equivale a dizer que Deus predeterminou alguns a aceitarem a sua graça e outros a rejeitarem. A Bíblia é clara ao dizer que conquanto o Espírito Santo tenha poder para convencer as pessoas do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:8), elas são livres para rejeitar os seus apelos à conversão (At 7:51-54).

Durante toda a Bíblia vemos que Deus deu ao homem opção de escolha, instigou à conversão e almejou que ele aceitasse o seu convite de arrependimento dos pecados, aceitação de Cristo e salvação eterna (Dt 30:19-20; Js 24:14-24; Ez 18:30-32 e 33:11; Lc 13:34; I Tm 2:1-4; II Pd 3:9; I Jo 2:2; etc.). Assim, ninguém há que se perca por vontade divina, mas apenas por vontade própria e rebeldia. O sacrifício de Cristo é suficiente, eficiente e eficaz para salvar a todo àquele que crê verdadeiramente. E se Deus quer que a salvação ocorra, a única forma de ela não ocorrer é o próprio indivíduo negando a oferta gratuita de Deus.

Isso não pega Deus de surpresa, nem destrói sua soberania. Aprouve a Deus, em sua autoridade suprema, oferecer ao ser humano a condição de escolher. Ele o quis. E o fez por ser moral e amoroso. E mesmo o homem tendo perdido isso na queda, Deus restaura essa capacidade com a graça preveniente, quando apela aos corações incrédulos que o aceitem. O homem é iluminado e pode ver aquilo que precisa. Sem mérito algum, ele vê que pode alcançar a salvação pelos méritos de Cristo, bastando aceitar que Cristo habite em seu coração. Aqueles que não se rendem a esses apelos e frequentemente rejeitam a Deus são, muitas vezes, entregues por Deus às suas próprias paixões (Rm 1:16-32), o que significa que o Espírito já não apela mais. E assim vão de mal a pior.

A visão adventista é, portanto, arminiana. Crê que o homem, em sua natureza caída, é totalmente alienado de Deus e depravado. Mas Deus, por sua própria iniciativa, chama os homens, convencendo-os do pecado, restaurando o poder de escolha e oferecendo a salvação pela graça. Cabe ao homem dizer “sim” ou “não”. Se disser “sim”, será salvo e transformado por Deus diariamente.

7) Não sabia que os Adventistas eram arminianos.

R.: Sim, somos arminianos. Para ser mais exato, arminianos wesleyanos. Dentro do arminianismo existem duas vertentes principais: a clássica (oriunda dos remonstrantes – os discípulos diretos de Armínio) e a wesleyana (oriunda de Wesley, que foi um arminiano ferrenho e criou até uma revista chamada Revista Arminiana). A diferença entre as duas vertentes é mais de ênfase do que de conteúdo. Wesley enfatizava muito a questão da santificação. Além disso, ele tinha uma teologia bastante preocupada com as várias partes do ser humano além da espiritual (saúde, intelecto, etc.). Nós, adventistas, fomos muito influenciados pela teologia de Wesley.

8) Mas Davi, todos os Adventistas são arminianos, ou existe no próprio movimento algumas discordâncias? Tipo, adventistas arminianos puros, derivado de Armínio; e os arminianos wesleyanos?

R.: Não posso responder por cada um. Posso responder pela doutrina: oficialmente a IASD se coloca como arminiana wesleyana. Embora esse termo sirva apenas para localizar mais ou menos nossa crença, não para nos submeter a um sistema. O mais correto, uma vez que nosso credo é a Bíblia, é dizer que cremos em conceitos como depravação do homem, iniciativa divina, graça preveniente, livre arbítrio restaurado pela graça preveniente, salvação pela graça mediante a fé e uma fé que progride e deve progredir fortemente em santificação.

9) Deixe-me fazer só uma perguntinha em cima do conceito sobre a salvação. Uma pessoa já salva poderá perder a sua salvação?

R.: Nós, adventistas, cremos que uma pessoa pode apostatar da fé. A Bíblia sugere essa possibilidade em várias passagens (Hb 3:6 e 10:26-31; I Tm 1:18-20 e 4:1; Mt 10:22, 24:13; Mc 13:13; Ap 2:26). Cremos que nenhuma criatura pode tirar a nossa salvação, exceto nós mesmos. Isso porque Deus não nos obriga a estar com Cristo. A união precisa ser voluntária. E a Bíblia é enfática ao dizer que nenhuma condenação há para quem está em Cristo Jesus, não para quem escolhe consciente e obstinadamente deixar de estar com Jesus.

A união com Cristo é como um casamento. Quando casamos, por mais que amemos nosso cônjuge, é certo que de vez em quando faremos coisas que o desagradarão. Mas isso não quer dizer que cada vez que erramos, o casamento acaba. Ele continua. Agora, o que se espera de cônjuges que se amam e são fieis é que ao errarem, se arrependam, logo peçam perdão e procurem não cometer mais aquela falha. Da mesma maneira, na relação com Jesus nós cometemos pecados. Mas isso não significa necessariamente que apostatamos. Se o amamos de verdade e estamos nele, nos arrependemos, logo pedimos perdão e buscamos não cair mais naquele pecado. A apostasia, portanto, não é apenas cometer pecados. A apostasia é uma postura obstinada de não querer andar com Deus mais, renegando-o por atos e muitas vezes até por palavras. Neste caso, a pessoa já não mais está em Cristo. E se não está em Cristo, rejeitou a salvação.

10) Em relação a morte, qual o destino dos ímpios e dos justos? E o quê acontece após a morte?

R.: Cremos que, a princípio, o destino de todos os homens é a morte (Gn 3:19; Rm 6:23), conforme já pincelado na resposta à pergunta número 5. Mas o que é a morte? A Bíblia nos informa que a morte é a separação entre o fôlego de vida dado por Deus e o corpo feito do pó (Ec 3:18-22 e 12:7). Esse fôlego de vida não é, nesse contexto, a consciência do homem (o chamado “eu”), mas sim um princípio ativo espiritual que, somado ao corpo físico, faz o homem ser “alma vivente” (Gn 2:7). Em outras palavras, antes de haver essa união entre fôlego e corpo, não existia alma vivente. Assim, quando essa união se desfaz, a alma vivente também se desfaz. Como resultado lógico, todos os sentimentos, pensamentos, propósitos e ações do indivíduo cessam (Sl 6:4-5, 30:9, 49:12-20, 88:3-12, 115:17-18, 146:3-4; Ec 9:5-6,10; Is 38:17-19; Jó 3:11-22, 7:9, 10:18-22, 14:10-14, 17:13-16; At 2:25-35; I Co 15:15-18). Em suma, a morte é literal e plena, não havendo consciência nela.

Jesus toma o nosso lugar na morte justamente para nos dar o benefício gratuito (já que nós não temos mérito) da ressurreição. Na ressurreição, o fôlego de vida torna a se unir com o corpo (um corpo agora renovado) e a nossa consciência anterior é reativada, tal como era antes, porém sem mais inclinação ao pecado (I Co 15:35-58). Isso ocorrerá na volta de Jesus Cristo, quando todos os mortos justos ressuscitarão para subir com ele aos céus (Ap 20:1-6). Assim, o destino dos que aceitam a oferta gratuita de Jesus é vencer a morte e viver com Deus para todo o sempre.

Os mortos ímpios, por sua vez, ressuscitarão mil anos após os justos, não para viverem eternamente, mas para serem novamente destruídos, juntamente com Satanás e seus anjos, no lago formado por fogo que descerá dos céus (Ap 20:4-15). A morte dos ímpios será eterna, literal e plena (Is 66:15-16; Ml 4:1-3; II Pd 2:6-12 e 3:7-13; Lc 17:26-30; Ap 2:11, 20:14, 21:8), posto que não receberão de Deus a imortalidade (I Tm 6:14-16; I Co 15:51-58; I Ts 4:13-18). Assim, após isso, o universo estará totalmente livre do pecado e dos pecadores para sempre.

11) Em relação ao inferno Davi, qual a posição dos Adventistas?

R.: Nós, adventistas, cremos que a punição final dos ímpios é a morte eterna causada pelo lago de fogo, não uma vida eterna de sofrimento no lago de fogo. A palavra inferno, que tem conotação de um tormento eterno no fogo, não se encontra na Bíblia. Ela traduz o termo hebraico Sheol e os termos gregos Hades e Geena. Sheol quer dizer sepultura, sepulcro, cova, abismo. Hades é a palavra usada na Septuaginta para traduzir Sheol. E Geena era o nome grego para o Vale dos Filhos de Hinom, em Jerusalém, onde havia um local chamado Tofete, usado para incinerar crianças pelos reis idólatras Acaz e Manassés (II Cr 28:1-3 e 33:6; II Rs 23:10; Jr 32:35). Tofete acaba virando figura, no AT, para punição final dos ímpios (Jr 7:29-34 e 19:1-15; Is 30:32-33). Na época de Jesus, Geena era usada como lixão.

Nenhum desses termos tinha o sentido de lugar de tormento eterno dentro da concepção hebraica. Geena, o termo mais próximo do que entendemos como inferno, na verdade era uma figura não para o sofrimento eterno de um ser que nunca morre, mas para a destruição eterna de seres mortais. O fogo era eterno não no sentido de durar pela eternidade, mas de durar incessantemente até o fim da vida dos ímpios, gerando assim uma morte eterna, irrevogável. Em suma, o processo é definitivo e não uma espécie de purgatório, do qual pode haver escapatória.

Há várias passagens na Bíblia que fazem uso dessa linguagem de destruição onde o “fogo eterno” não é eterno no sentido de a pessoa nunca morrer (Jr 7:20 e 17:27; Ez 20:45-48; Am 5:5-6; Is 34:8-17; Jd 1:7). Palavras para expressar “sempre” também possuem, muitas vezes, um sentido de processo contínuo e incessante dentro de um período limitado de tempo (I Sm 1:22; Jn 2:6; Êx 21:6; etc.). Ademais, a Bíblia enfatiza que o fim dos ímpios será a destruição completa (Is 5:22-25, 47:12-15, 66:15-17, 29:5-6, 1:27-31; Os 13:3; Ob 1:15-18; Na 1:9-10; Sf 1:14-18; Sl 9:17, 21:9, 92:6-7, 104:35; Lc 17:26-30; II Pd 2:6-12 e 3:7-13; Ap 20:9 e 14-15). Assim, por coerência, não faz sentido entender passagens que falam sobre fogo e fumaça eternos de maneira diferente do sentido desses textos.

12) Qual o método hermenêutico utilizado pelos adventistas? 

R.: Nós cremos que o método hermenêutico mais adequado de interpretação bíblica é o chamado gramático-histórico ou histórico-gramatical. Esse método se caracteriza por buscar o sentido original que o autor bíblico pretendia com aquele texto, algo que se faz a partir da análise geral do tema abordado, do estilo do livro/passagem e do contexto histórico-cultural imediato em que escreveu o autor. O método entende que o sentido correto geralmente é o mais óbvio, natural e literal, salvo quando o estilo, contexto histórico e o próprio texto indicam claramente que o sentido é alegórico.

O método gramático-histórico se difere do método alegorista, vastamente utilizado por católicos da patrística à idade média. No alegorismo, entende-se que os textos bíblicos têm camadas de sentidos e que a interpretação mais espiritual é a que descobre sentidos mais profundos. Assim, textos históricos são muitas vezes vistos como significando muito mais do que eles realmente dizem e indicam dizer. Entendemos que o alegorismo é um desvio. Ele transforma a alegoria – um recurso existente na Bíblia – em algo presente em quaisquer textos bíblicos. Isso acaba por criar uma imposição das ideias do intérprete ao texto bíblico.

Em outro extremo, o método histórico-crítico ou crítico tende a não enxergar a Bíblia como a infalível Palavra de Deus, mas como um produto humano que pode conter algumas verdades. Assim sendo, a Escritura passa a ser reinterpretada de acordo com pressuposições naturalistas e humanistas. O resultado é a formação de um cristianismo liberal, uma posição agnóstica ou mesmo o ateísmo.

Respeitando a intenção original dos autores e a inspiração da Palavra de Deus, nós, adventistas, não aceitamos o alegorismo nem o método crítico como bons métodos para interpretar a Bíblia. O método gramático-histórico, herança da Reforma e dos judeus da época de Jesus, é o defendido oficialmente pela IASD.

13) Em relação ao sábado, qual a posição de vocês? 

R.: Cremos que o sábado foi instituído por Deus para servir como dia de descanso espiritual e emocional para o homem, bem como um memorial de que Yahweh é o Criador do mundo. Sua instituição ocorre ao fim da semana da criação, antes de existir judeus, Moisés, Jacó, Isaque, Abraão e até mesmo o pecado (Gn 2:1-3). Isso indica que esse dia era um plano de Deus para um mundo perfeito, não tendo relação primária com o sistema Levítico que surgiria séculos depois (no período mosaico) para representar aspectos da redenção vindoura em Cristo Jesus.

Embora os povos tenham se esquecido do Deus Criador e, por conseguinte, do seu santo dia, Yahweh levantou Israel para manter seus princípios, levantar profetas e preparar o caminho para o Messias. Assim, o sábado, um princípio da criação, foi restaurado no mundo primeiramente entre os hebreus (Êx 16:1-30). Isso não significa que o sábado passou a ser um mandamento apenas para os hebreus. Eles se tornaram apenas o povo que zelava por esse dia no meio de um mundo pagão. Entretanto, Yahweh deixa claro que os gentios que desejavam segui-lo deveriam guardar o sábado (Is 56:1-8).

A universalidade do sábado também é evidenciada no fato de esse mandamento ter sido incluído no decálogo, no qual todas as leis são de caráter universal (Êx 20:1-17). O decálogo, ademais, é descrito como tendo grande relevância. Deus o escreveu duas vezes para Moisés, em tábuas de pedra (indicando ser algo imutável) e com o próprio dedo (Êx 32:15-20, 34:1-4 e 28-29). As tábuas de pedra foram postas na Arca da Aliança do Santuário hebraico, sugerindo centralidade em meio às leis (Êx 25:16-21; Dt 10:1-5; I Rs 8:9; II Cr 5:10). Esse santuário, conforme diz a Bíblia, servia de figura para o Santuário Celeste (Hb 8:1-6 e 9:9-25). Uma vez que João vê, no Apocalipse, a Arca da Aliança do Santuário Celeste se abrindo em determinado momento da história (Ap 11:19), isso é um forte indício de que os mandamentos do decálogo serão enfatizados antes de Jesus voltar. As passagens de Apocalipse 12:17 e 14:12 atestam isso.

Cremos que Jesus se identificava como Senhor do Sábado (Mt 12:8; Mc 2:28; Lc 6:5) não para justificar transgressões ao santo dia, mas para deixar claro que ele sabia melhor que todos qual era a maneira certa de guardar. Jesus nunca transgrediu o sábado, nem incentivou os outros a descumpri-los. Todas as discussões dele sobre o tema visavam esclarecer o modo como deveria ser guardado: sem contradizer o amor ao próximo e as atividades voltadas para o Reino de Deus. Outra razão pela qual Jesus se colocava como Senhor do Sábado é que isso o identificava como Yahweh, já que o sábado era chamado de “Sábado de Yahweh” (Êx 16:23-25, 20:10; Lv 23:3; Dt 5:14) e de “meus sábados” pelo próprio Yahweh (Êx 31:13; Lv 19:3; Is 56:4; Ez 20:12-24).

O sábado deixou de ser guardado ao longo dos séculos por uma série de razões não bíblicas como o antijudaísmo de grande parte da patrística, um movimento dos líderes em busca de uma identidade cristã distinta da identidade judaica, a crescente imposição de regras da igreja romana sobre as demais e um conjunto de interpretações distorcidas do texto bíblico que se tornaram tradição. O resultado foi a mudança dos tempos e da Lei de Deus, como está profetizado em Daniel 7:25. Entretanto, cremos que Deus levantou cristãos sabatistas para desenterrar o sábado, conscientizando cristãos de que esse dia continua válido e devemos guardá-lo. A Igreja Adventista é o maior movimento cristão sabatista do mundo e entendemos que isso cumpre profecias bíblicas no sentido de reformar a verdade do sábado.

É importante ressaltar que nós não cremos que só quem guarda o sábado irá se salvar, muito menos que o sábado salva. Nem o sábado, nem qualquer outro mandamento salva o homem. O que nos salva é a graça de Deus mediante a fé em Jesus. No entanto, a fé que salva é a fé verdadeira, viva (Tg 2:8-25; Tt 1:16, 2:14 e 3:8; Ef 2:10). Essa fé está relacionada ao amor a Deus e leva inevitavelmente à obediência (Jo 14:15 e 15:10; I Jo 2:2-6; Rm 8:7-11). Assim, quem tem fé verdadeira, ao ser convencido pelo Espírito Santo de que o sábado deve ser guardado, certamente o guardará.

Nós cremos que a maioria dos cristãos verdadeiros ao longo dos séculos não teve oportunidade de conhecer a mensagem do sábado (ou, pelo menos, não de maneira convincente). Esses cristãos não eram rebeldes. Andaram na luz que receberam, creram genuinamente, amaram a Deus com todas as suas forças e, portanto, estão salvos. Eles ressuscitarão para a eternidade quando Jesus voltar. A Igreja de Cristo não se restringe a uma denominação, mas sempre se compôs de todos aqueles que creem verdadeiramente em Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Isso inclui sabatistas e não sabatistas.

Não obstante, nós também entendemos que em algum momento da história, um pouco antes de Jesus voltar, todos os cristãos verdadeiros chegarão ao pleno entendimento de que Deus deseja que o sábado seja guardado. Então, neste momento, apenas os rebeldes decidirão não guardá-lo, seja por tradição ou mera conveniência. É neste momento apenas que o sábado será um sinal que distinguirá quem realmente ama a Deus acima de tudo e quem ama a si mesmo acima de Deus e Sua Palavra. Isso, no entanto, não ocorrerá enquanto a mensagem não chegar a todos (Ap 7:1-4, 10:9-10, 14:6-7). Nenhum cristão sincero de qualquer denominação (ou até desigrejado) se perderá. Deus zela pela sua Igreja, que é a união de todos os que creem verdadeiramente em Jesus.