Por Davi Caldas

Segundo dados do IBGE de 2010 (aqui), pouco mais de 42 milhões de pessoas se consideravam evangélicas no Brasil. Desse número, cerca de 33 milhões pertenciam a igrejas confessionais (como Assembléia de Deus, Adventista, Batista, Presbiteriana, Luterana, Metodista, Congregacional, Universal, Quadrangular e algumas menores reunidas sobre o rótulo de “outras”). E cerca de 9 milhões, foram classificados como pertencendo a alguma igreja “não determinada”. Essa classificação “não determinada” representa o que popularmente chamamos de “desigrejados”.

Para além dos evangélicos, o censo apontou que 14,5 milhões não possuem religião, embora não sejam ateus, nem agnósticos (outras duas classificações à parte). Mais de 600 mil pessoas não possuíam religião bem definida e se diziam pertencer a mais de um segmento religioso ao mesmo tempo. Mais de 123 milhões se disseram católicos romanos, mas o senso não diz quantos desses são tradicionais, quantos são carismáticos, quantos são católicos não praticantes e quantos são adeptos de um tipo de sincretismo entre catolicismo e protestantismo. É de se supor que muitas pessoas desses grupos transitem também no grupo dos desigrejados. São membros de uma grande massa amorfa de pessoas que creem em Jesus, mas não possuem vínculo formal e/ou constante com nenhuma igreja confessional.

Os desigrejados não são, necessariamente, cristãos apóstatas. Na realidade, a maior parte dessa massa é formada por cristãos que ou ainda não acharam uma igreja em que quisessem se fixar ou se decepcionaram com uma ou mais igrejas, decidindo viver sua espiritualidade fora de qualquer instituição religiosa. Muitas dessas pessoas oram, lêem a Bíblia, seguem princípios morais básicos e conversam sobre Deus. E algumas têm por hábito se reunir em pequenos grupos cristãos informais e não hierarquizados. Outros, no entanto, não congregam nem nesses pequenos grupos, embora mantenham muitos princípios cristãos.

Com um número tão grande de pessoas compondo essa massa (talvez, hoje, 20 ou 30 milhões), faz-se necessário perguntar: qual é a teologia dessas pessoas? Há um corpo de doutrinas? Existe um conjunto integrado de crenças que seja comum a essa massa ou grande parte dela? É difícil dizer. Provavelmente, a maior parte dessas pessoas não possui uma teologia muito definida. Entretanto, também é possível enxergar alguns pontos em comum dentre desigrejados que simpatizam com líderes espirituais como o ex-reverendo presbiteriano Caio Fábio de Araújo Filho e os pastores Ed René Kivitz e Victor Azevedo. No decorrer desse texto, exponho algumas dessas crenças e as analiso.

(1) Distinção entre Evangelho e Cristianismo: o Evangelho teria sido o que aconteceu antes do imperador Constantino transformar a fé cristã em assunto de Estado e misturar império romano com igreja. Cristianismo seria essa fé cristã estatizada, que se formou a partir de Constantino e que dura até hoje em suas mais variadas formas.

(2) Distinção entre Religião e Espiritualidade: a religião seria uma espécie de relação ou tentativa de relação com Deus baseada em forte sistematização de regras e ideias, institucionalização, templos físicos, hierarquias humanas, hipocrisia, postura julgadora, barganhas com Deus, paranóias, materialismo, frieza e imaturidade espiritual. Os religiosos, por conseguinte, seriam os que vivem essa relação. Espiritualidade, por outro lado, seria uma fé simples, que transcende sistematizações, institucionalizações, templos físicos e hierarquias humanas. Essa fé se caracterizaria pelo amor ao próximo e pela liberdade.

(3) Jesus é a chave hermenêutica: toda a Bíblia deve ser interpretada e julgada com base no que seria o “espírito de Jesus” (“espírito” aqui no sentido de “modo de pensar e agir”). O espírito de Jesus está intimamente associado ao amor. O que, na Bíblia, fugir a esse espírito é ultrapassado. Embora toda a Bíblia seja inspirada, há partes dela que expiram com o passar do tempo, por conta do desenvolvimento espiritual do povo de Deus. Assim, a Bíblia não é padrão de fé e prática. O padrão de fé e prática seria Jesus, isto é, o seu modo de pensar e agir amoroso.

(4) Deus é absurdo: qualquer tentativa de fazer exegese e apologética de maneiras mais detalhadas e profundas esbarram nos fatos de que Deus é grande demais para caber em teologias (“Deus é absurdo”).

(5) As interpretações são simples: Se por um lado Deus é complexo demais, por outro lado, as interpretações verdadeiras (espirituais) são vistas como simples. O ponto 4 por si só poderia levar a uma posição “cristã agnóstica”, onde não se ousa falar nada sobre Deus. Mas com o complemento do ponto 5, a conclusão é outra: o evangelho é simples demais para que percamos tempo com teologias complexas. Assim, se é complexo e (aparentemente) frio demais, não é evangelho e não consegue enquadrar Deus. Se é simples, então é evangelho e representa Deus.

Avaliando os pontos

Um dos meus teólogos preferidos, George Knight, diz o seguinte a respeito de muitas discussões teológicas:

“Da forma como vejo, a maioria das batalhas teológicas é travada entre os ramos e as folhas do que podemos chamar de árvore teológica, com uma pessoa defendendo a posição de certa ramificação ‘x’ e outra defendendo uma teoria variante. Essa ginástica mental geralmente me deixa um tanto perplexo, se não desequilibrado ou zonzo.

A fim de encontrar algum alívio, desenvolvi a medida de autodefesa baseada no bom senso de averiguar se a árvore possui um tronco e se as folhas estão ligadas ao tronco de modo significativo. Esse pequeno exercício me dá uma visão geral e me liberta de muitas argumentações teológicas interessantes, mas sem nenhuma pertinência especial.

Em outras palavras, gosto de ter uma visão geral das coisas. Minha abordagem é olhar para o tronco e o formato geral da árvore teológica. Simplificando ainda mais, orgulho-me do fato de que consigo identificar uma árvore ao avistá-la” (KNIGHT, George. “A visão apocalíptica e a neutralização do adventismo”, p. 51-52).

Knight está certo. O problema de muitas discussões teológicas é que cada um se agarra um galho, quando todos nós deveríamos considerar toda a árvore. No caso das crenças citadas, a coisa não é diferente. Elas partem de verdades bíblicas como: (1) Jesus é o centro das Escrituras Sagradas; (2) o amor deve reger cada vez mais as nossas relações; (3) a Igreja de Cristo transcende templos e liturgias formais; (4) o legalismo, a barganha e a hipocrisia são posturas que destroem a saúde da Igreja de Cristo; (5) temos liberdade em Cristo; (6) a mensagem de salvação é simples; (7) Deus é muito maior que a mente humana. São galhos importantes. No entanto, ao focar apenas neles, o resultado é uma teologia disforme. Vejamos.

Jesus e a Bíblia: Em primeiro lugar, o fato de Jesus ser o centro das Escrituras não implica que os evangelhos são mais importantes que o restante da Bíblia ou que podemos e devemos isolar os ensinos de Jesus dos ensinos de todos os autores bíblicos. Se Jesus diz que toda a Escritura testifica dele (Jo 5:39-47; Lc 24:25-27 e 44-49) e os autores bíblicos que seguiram Jesus até a morte afirmam que toda a Escritura Sagrada é inspirada (At 17:10-12; Rm 16:26; II Tm 3:10-17; II Pd 1:19-21), então toda a Bíblia é Palavra de Deus e evangelho de Cristo. E se isso é fato, isolar o “espírito de Jesus” do restante da Bíblia para julgar partes da própria Bíblia é retaliar a Palavra de Deus.

Esse desvio não é novo. Marcião de Sinope, no segundo século depois de Cristo já tinha essa proposta. Ele entendia que o Deus do Antigo Testamento era um e o do Novo Testamento era outro. Como resultado, fez uma Bíblia só com livros do NT e, mesmo assim, com trechos selecionados. Cerca de dezesseis séculos depois, a partir do advento da chamada “alta crítica” em relação aos textos da Bíblia, formou-se uma leva de cristãos liberais que enxergam a Bíblia não como “a Palavra de Deus”, mas como “contendo a Palavra de Deus”. E como definir o que é Palavra de Deus na Bíblia e o que não é? Bom, os critérios de retalhe têm ficado a cargo de cada um.

O problema por trás dessa postura parece ser a dificuldade pessoal que alguns têm de (a) conciliar certas passagens da Bíblia umas com as outras e (b) de conciliar algumas passagens da Bíblia com a sua própria vida e crenças. Isso não necessariamente é fruto de preguiça intelectual ou desonestidade. Embora existam muitos desses casos, também é fato que muitos cristãos experimentaram um tiroteio de interpretações distintas e de ataques mútuos entre pessoas que pensavam divergente. Sem conseguir chegar a alguma conclusão sólida e sofrendo estresse emocional e espiritual, acabaram tomando raiva de estudos teológicos mais complexos e tradicionais.

É compreensível, embora errado. Se é verdade que às vezes o estudo teológico nos cansa emocionalmente por causa dos supracitados problemas, também é verdade que estudo profundo requer paciência. Tanto com os problemas oriundos das próprias matérias estudadas, quanto com os problemas causados por pessoas ignorantes, sem bom senso, desonestas ou sem amor. E o fato de toparmos com dificuldades não fará com que o caminho mais fácil se torne verdadeiro. Questão de lógica.

O cristão e o amor: Em segundo lugar, o fato de que o amor deve reger cada vez mais as nossas relações não implica que o nosso conceito de amor precisa ser o mesmo conceito de amor que os não cristãos possuem. O amor cristão envolve, por exemplo, a exortação, a repreensão, a responsabilidade e a obediência (Lv 19:17; Pv 3:11-12, 9:8-9, 15:12, 19:25, 24:24-25, 28:23; Jo 14:15; I Co 6:1-3; Gl 2:11; I Tm 5:1-2,20; II Tm 4:2; Tt 10:13 e 2:15; Hb 12:5-11; Ap 3:19). Será que os não cristãos têm enxergado o amor dessa forma bíblica? Ou o conceito deles envolve uma aceitação moral incondicional de tudo o que o outro faz, seja certo ou errado? Até que ponto, aliás, devemos considerar como padrão de julgamento do nosso amor o modo como os descrentes nos vêem? Embora, em certos contextos, o modo como os descrentes nos vêem pode nos indicar se estamos sendo coerentes com o que dizemos crer, o fato é que nosso padrão de julgamento não é a opinião do incrédulo, tampouco do crédulo, mas sim da Bíblia.

Em suma, nossa pergunta para autoavaliação não deve ser primariamente “como os incrédulos e os crédulos me vêem?”, mas sim “como Deus, através do que Ele ensinou na Bíblia, me vê?”. Estamos amando da maneira como a Bíblia ordena? Ou estamos inventando nossa própria maneira de amar?

A Igreja e o templo: Em terceiro lugar, o fato de a Igreja de Cristo transcender templos, liturgias formais e até hierarquias não leva logicamente à irrelevância ou até equívoco da existência desses. Meus pais e meus irmãos serão meus pais e meus irmãos independente de estarmos debaixo da mesma casa, regras do lar e funções familiares (e até independente de termos essas coisas). Mas isso não significa que estar debaixo de uma casa, regras e funções seja algo errado ou irrelevante. Nem tanto lá, nem tanto cá.

O problema de quem toma raiva de instituições formais é que uma raiva que deveria ser específica torna-se generalista. Sim, há problemas em instituições formais. Mas isso nem prova que o problema são as próprias instituições formais, nem prova que todas as instituições formais são iguais. O caso aqui é muito parecido com o de quem tem mágoa do pai, da mãe ou de uma pessoa com a qual se relacionou e, por isso, vê com maus olhos o arquétipo de pai, mãe, marido ou esposa. É comum, aliás, pessoas que tiveram problemas em seu casamento asseverarem que casamento é algo ruim. O problema óbvio é que ela está projetando sua situação sobre todos os casamentos. E mesmo que metade dos casamentos seja, de fato, ruins como o dela, ainda assim há outra metade que não passa por isso. Assim, a generalização é tola.

Ter um local específico para reuniões (templo), certa hierarquia de funções, uma liturgia organizada e um nome que facilite às pessoas a identificação das principais crenças de seu grupo cristão não é antibíblico. Antibíblico é quando a hierarquia se torna desculpa para autoritarismo e separação entre leigos e pastores; quando as pessoas se tornam dependentes do templo para adorar; quando certa liturgia ganha status de mandamento bíblico; e quando o nome da instituição passa a ser usado não para identificação de crenças, mas para divisão entre cristãos. Ora, mas esses são desvios. Não precisa ser assim e é possível combater tais desvios com Bíblia na mão, oração e paciência. O que não é justo é jogar todas as igrejas no mesmo balaio e passar a criticar tudo o que é um pouco mais sistematizado.

O legalismo e a barganha: Em quarto lugar, o fato de que o legalismo e a barganha com Deus são uma mentalidade/comportamento antibíblico não implica que qualquer um que discurse sobre obediência, fidelidade, Lei, mandamentos, santificação, pecado, regras e responsabilidade esteja pregando salvação pelas obras. A Bíblia tanto fala de que a salvação é totalmente pela graça mediante a fé (de modo que não temos nenhum mérito), como da necessidade de sermos obedientes e buscar santificação. Lembremos da analogia de Knight. Há cristãos focando só na necessidade do homem cumprir mandamentos e cristãos focando só na graça. Os dois galhos são importantes e não podem ser defendidos sozinhos, pois acabarão gerando dois extremos antibíblicos e anticristãos: legalismo e anomia (negação ou desprezo da Lei). Se queremos ser cristãos e cristãos saudáveis, devemos ser bíblicos. E a Bíblia não endossa esses extremos.

Cristo e a liberdade: Em quinto lugar, o fato de termos liberdade em Cristo também não implica que esse conceito de liberdade é o nosso ou o do mundo. O NT fala da liberdade em relação ao cativeiro do pecado, às opressões de Satanás, à condenação da Lei, da morte eterna, dos rituais Levíticos, da circuncisão e de qualquer noção de que o cumprimento da Lei nos traz méritos para a salvação. Não há, em nenhum ponto da Bíblia, o ensino de que em Cristo temos liberdade para fazermos aquilo que nós achamos melhor, a despeito do que as Escrituras dizem. Então, embora haja líderes e leigos (sempre houve!) tentando impor regras extrabíblicas aos demais, nem sempre quem fala de regras está nesse meio. Há gente apontando para regras que estão na Bíblia e devem ser seguidas. Em relação a estas, o discurso de liberdade não faz sentido. A liberdade do pecado implica à servidão a Cristo e Sua Palavra (Rm 6:12-23; Gl 1:10; II Tm 3:10-17; II Pd 2:18-22).

Simplicidade e Salvação: Em sexto lugar, o fato de a mensagem de salvação ser simples não implica que qualquer estudo teológico mais complexo e denso é errôneo, contrário ao evangelho ou inútil. É preciso separar as coisas. A mensagem de salvação é realmente muito simples. Ela pode ser resumida assim:

(a) Deus criou o mundo e ser humano perfeitos; (b) nossa espécie pecou; (c) o pecado tornou o mundo imperfeito e todos os seres humanos naturalmente inclinados à imperfeição; (d) um dos resultados disso foi a condenação de todos à morte eterna; (e) Deus, no entanto, que é uma Trindade, se fez homem como nós e, vivendo em perfeição aqui na Terra, morreu por nós para cumprir a punição que deveria ser nossa; (f) ressuscitou porque não tinha pecado algum e ascendeu aos céus; (g) nos deixou a boa nova de que todos os que crerem genuinamente nisso podem ser salvos, mesmo ninguém tendo mérito algum diante dEle; (h) a partir daí, Deus dá aos crentes o Espírito Santo para que tenham força para cumprir cada vez mais os seus mandamentos (santificação); (i) tudo isso está registrado na Bíblia, que é a infalível Palavra de Deus, escrita por homens inspirados pelo seu Espírito; (j) devemos pregar essa mensagem para que mais pessoas conheçam o amor de Deus e sejam salvas; (k) tudo o que fazemos deve ser movido pelo amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos; (l) congregar com quem crê assim é uma das formas através da qual Deus deseja que o adoremos e desenvolvamos nossa capacidade de amar as pessoas.

Está aí. Esse é o evangelho. Esse é o resumo da Bíblia Sagrada e da mensagem de salvação. Uma pessoa pode ser salva sabendo e colocando em prática só esses pontos básicos? Sim. Dependendo das circunstâncias, pode ser salva até sabendo menos do que isso. A Bíblia parece indicar que uma pessoa de fé simples, mas verdadeira em um Deus Criador, que procura agir de maneira justa e que não teve condição de saber (ou saber mais) sobre a Bíblia e Jesus, pode ser salva por Ele (Rm 1:18-32 e 2:1-16). Esse juízo não nos pertence.

Agora, isso quer dizer que tudo na Bíblia é simples? Definitivamente não. Para ser mais exato, o estudo da Bíblia é complexo. Estamos falando de uma coletânea de 66 livros e cartas, escritos por mais de 40 autores diferentes, num espaço de 1600 anos, em três idiomas distintos, para públicos diversos, com seus estilos próprios, numa cultura, lugar e tempo bem distantes de nós. É esperado que a interpretação desse material exija um estudo muito acurado, o que leva tempo. É esperado que a interpretação correta de vários pontos desse material exija um bom conhecimento e aplicação das regras básicas de interpretação textual. Então, sim, o estudo teológico é complexo.

Isso quer dizer que a teologia, no sentido mais profundo, é inacessível aos leigos e pessoas mais simples? De modo algum. O que a Reforma Protestante nos legou é que o exame da Bíblia é livre e que o sacerdócio é universal. Ou seja, se você quer examinar e interpretar corretamente a Bíblia, basta se esforçar para conhecer as regras básicas de interpretação, ter uma vida devocional saudável e ter paciência para o estudo. São coisas acessíveis a praticamente qualquer um com disposição e amigos, líderes e/ou livros que possam orientar nessa jornada. É possível e acessível. Mas sim, requer disposição.

E esse estudo é relevante? É necessário? Será que não podemos ficar só com o básico da mensagem da salvação? Sim, é relevante e necessário. Isso não quer dizer que alguém precisa saber muito de teologia para ser salvo. Mas uma Igreja que sabe pouco de teologia não só deixa de ser edificada a partir de um entendimento mais profundo da Palavra de Deus, como fica exposta a dúvidas sem resposta que corroem a fé, ventos de doutrina que se opõem à Palavra de Deus e, obviamente, ensinos errados de líderes ignorantes ou desonestos. Além disso, se temos real confiança na Palavra de Deus, então o estudo teológico deve ser visto como uma forma de vivificar o crente. Teologia significa “estudo sobre Deus”. Ora, o conhecimento de Deus não deveria ser a coisa mais vivificante de nossas existências?

Claro, há pessoas que usam a teologia para bater nos outros, para julgar de modo hipócrita ou agressivo, para se vangloriar, para criar muros, etc. Mas isso não é um problema da teologia e sim das pessoas. A Bíblia nos orienta tanto a crescer no conhecimento de Deus e da Sua Palavra (Dt 6:4-9; II Tm 3:10-17 e 4:1-5; I Pd 3:15; II Pd 3:17-18) como ser amoroso, benigno, paciente e estratégico para com os outros (I Pd 3:15-17; II Pd 3:17-18; Pv 14:29, 18:13, 29:20; Ec 7:8; Rm 13:8-10; I Co 9:19-23; Ef 4:29; Cl 3:8; I Ts 5:14; Tg 1:19-20). Se alguém não faz isso, está indo contra a própria Bíblia que diz seguir.

Deus e a mente humana: Em sétimo e último lugar, o fato de que Deus é muito maior que a mente humana não implica que não podemos estudar sobre Ele e entender muitas coisas. Aqui há uma exacerbação da ideia de que algumas coisas são mistério para nós, humanos (Dt 29:29). O fato de Deus ter nos dotado de raciocínio lógico e de ter revelado seus desígnios na Bíblia demonstra que podemos entender muita coisa e que, no fim das contas, Ele deseja isso.

Ademais, não é justo usar a ideia de que Deus é “absurdo” para deslegitimar algumas discussões complexas, mas abraçar nossas próprias ideias sobre Deus. Isso parece muito mais uma forma de negar o que nos é inconveniente ou difícil de entender, mas impor aquilo que nos soa bem. Nesse sentido, a ideia de que devemos ter uma “interpretação mais espiritual” é muito usada por críticos de uma teologia mais profunda. Mas o que muitas vezes vemos é que “interpretação mais espiritual” é uma cortina de fumaça para uma “interpretação superficial e agradável a mim”. Não é um método honesto, nem eficaz de encontrar a verdade. É uma forma de ignorar regras lógicas de interpretação e impor ao texto bíblico o que não está ali.

A postura também é contraditória. Se Deus é tão grande a ponto de não poder ser entendido por uma teologia profunda e complexa, por que seria tão pequeno a ponto de ser entendido por uma teologia tão rasa e simplista? No fim das contas, o indivíduo precisa escolher se é possível entender algo sobre Deus ou não. Se é possível, as regras básicas de interpretação e as leis do raciocínio lógico precisam ser respeitadas. O que passa disso é subjetivismo e emocionalismo baratos.

Considerações Finais

O objetivo desse texto não foi ensinar que existe uma teologia formal e sistemática comum a todos os desigrejados. Seria até uma contradição sustentar isso, já que os desigrejados são, por definição, pessoas que estão à margem de instituições com uma teologia definida. Entretanto, essas ideias estão presentes na cabeça de muitas dessas pessoas e formam, senão uma teologia sistemática, ao menos uma tendência teológica que pode vir a ganhar mais corpo no futuro.

Além do mais, muitas dessas ideias não atingem apenas desigrejados, mas muitas pessoas que estão congregando regularmente em instituições formais. Estas podem em algum momento, se tornar desigrejados ou continuar em suas instituições, porém disseminando alguns desses pontos. E como são pontos errôneos e perigosos, é preciso expô-los e avaliá-los.

O que objetivei, portanto, foi analisar essas ideias, mapeando os pontos justos por trás delas e onde foi que elas se desviaram da Bíblia. Espero que esse texto possa ajudar tanto desigrejados quanto “igrejados” a um entendimento mútuo e uma melhor compreensão da Bíblia. Aludindo mais uma vez a George Knight, o que a Igreja como um todo precisa hoje é deixar de se agarrar a alguns ganhos, enxergando e abraçando a árvore teológica da Bíblia como um todo. Isso fará toda a diferença.