Por Davi Caldas

Na sétima postagem dessa série, analisamos as interpretações católicas e protestantes em geral a respeito de Apocalipse 7. Nesta oitava postagem, daremos prosseguimento às comparações, focando nos capítulos 8-11 de Apocalipse, os quais formam uma unidade. Quem não leu as postagens anteriores, os links estão aqui (parte 1, parte 2, parte 3, parte 4, parte 5, parte 6 e parte 7).

As sete trombetas

Conforme vimos nas últimas duas postagens, a série de sete selos abertos por Jesus que começa no capítulo 6 e termina em Apocalipse 8:1. Há um interlúdio no capítulo 7 que versa sobre o “selo de Deus”. Ele ocorre temporalmente entre o sexto e o sétimo selo abertos por Cristo. A partir de Apocalipse 8:2, são descritos anjos que estão na presença de Deus, bem como as orações dos justos (vs. 2-5). Então, do verso 6 em diante, se inicia uma série de sete trombetas tocadas por cada um desses anjos. Em cada trombeta, catástrofes sobre a Terra ocorrem. A série passa pelos capítulos 8 e 9 e é interrompida na sexta trombeta por um interlúdio (caps. 10 e 11:1-13). Retorna em Apocalipse 11:14-19 findando a série com a sétima trombeta.

Como cada vertente interpreta a série de sete trombetas? Mais uma vez, não vou focar muito em cada ente da série (no caso, cada trombeta), mas no sentido geral da série em si. Foi a mesma abordagem que usei para analisar as séries das sete igrejas e dos sete selos. Meu objetivo é saber o que os autores pensam sobre a série como um todo. Ela representa eventos ao longo da história? Ou eventos ocorridos nos primeiros séculos do cristianismo apenas? Ou eventos que ainda ocorrerão? Ou apenas princípios de batalha espiritual? Começando pela Nova Bíblia de Estudo de Genebra, podemos ler:

“8:7-12 Os quatro primeiros pragas trompete atacar as quatro principais regiões de criação: terra, mar, água fresca, e no céu. As primeiras quatro taças afetam as mesmas quatro regiões (16:1-9). Dentro do período da igreja primitiva, essas visões foram cumpridas tanto por meio de calamidades naturais e através de calamidades espirituais análogas que afligem as almas dos ímpios. Em tais imagens apocalípticas, um tipo de calamidade pode representar o outro. Os princípios gerais podem ser aplicados de forma mais ampla. Ambos os seres humanos e o mundo natural sofrem estresse até o momento da renovação final (Rm 8:18-25). A destruição final do universo natural, bem como o julgamento dos seres humanos, acompanham a Segunda Vinda (II Ped. 3:10-12)”.

Neste trecho, parece que os intérpretes fazem uso de uma mistura entre idealismo, preterismo e futurismo. Os eventos preditos são vistos como cumprindo calamidades genéricas da época da Igreja Primitiva, simbolizando o sofrimento espiritual da alma do ímpio e prefigurando calamidades futuras que ocorrerão um pouco antes da segunda vinda de Jesus. É uma interpretação que aceita tudo e, portanto, acaba não descrevendo nada de relevante do ponto de vista histórico. Eles continuam mais adiante, em relação à quinta trombeta:

“Os ímpios, por vezes, sofrem ainda nesta vida como uma prévia do seu castigo final (20:11-15). De acordo com os intérpretes idealistas (Introdução: Dificuldades Interpretativo), a visão mostra a natureza autodestrutiva e atormentada de maldade na alma humana. Poderes do ataque atingem não os santos, mas somente os ímpios. Historicistas têm geralmente visto a visão como uma representação da conquista islâmica da Europa Ocidental degenerada (AD 612-762), mas tal aplicação seria apenas uma forma de realização do princípio, e uma forma imperfeita disso. Futuristas entendem a visão como uma praga sobrenatural de espíritos demoníacos, para ser solto na Terra pouco antes da Segunda Vinda. O princípio fundamental é o mesmo em todas estas interpretações, e aplicações múltiplas do princípio são possíveis”.

Por esse trecho, percebe-se claramente que os intérpretes da Nova Bíblia de Estudo de Genebra preferem, ao menos aqui, não escolher uma das metodologias interpretativas possíveis.

O Comentário Moody se limita, na maior parte do tempo, a apenas descrever o que ocorre nos capítulos 8 e 9, sem ser muito claro quanto ao tempo em que os eventos ocorrem e o que significam. Mas há algumas pistas. O intérprete relaciona os eventos da quarta trombeta com os sinais celestes do dia do juízo. E sabemos que o futurismo encara esses sinais como ocorrendo um pouco antes da volta de Jesus. Assim, provavelmente a visão do comentário é que as sete trombetas se referem a eventos todos próximos da volta de Jesus. Em consonância com isso, o intérprete diz sobre a sexta trombeta: “Certamente chegamos aqui aos dias do começo do Anticristo”. O Anticristo, no futurismo, também se revela um pouco antes de Jesus voltar.

A Bíblia de Estudo Apologia também faz uso do método futurista. O intérprete diz:

“Antes do soar das trombetas, as orações dos santos sobem diante do Senhor (vs. 3-4). Esta pausa sugere a resposta de Deus às orações para a vingança do sangue dos mártires (6:10) sobre os habitantes da Terra. O foco da hora da tentação (3:10) começa com os juízos das trombetas”.

Para o comentarista, a série de sete trombetas ocorre cronologicamente depois da série de sete selos. E a série de sete selos é vista pelo mesmo como possivelmente relacionada a eventos que ocorrem um pouco antes da grande tribulação final, conforme vimos na parte 6 dessa série. Assim, a visão aqui também futurista.

Os intérpretes da Bíblia de Jerusalém, em contraponto, adotam o método preterista, também usado na série dos sete selos e das sete igrejas:

“Como na tradição profética, um silêncio solene precede e anuncia a ‘vinda’ de Iahweh. A execução dos decretos contidos no livro aberto [dos selos] começa a desenvolver-se agora, segundo nova liturgia celeste marcada pelos sete toques de trombeta (8-9 e 11:15-18)”.

Sobre os dois últimos “ais” dessa série (presentes nas trombetas 6 e 7), os comentaristas dizem: “Prossegue a descrição interrompida em 9:21. O segundo ‘ai’ foi descrito em 9:15-19. O terceiro será a queda da Babilônia (Roma), descrita no capítulo 17”.

Para os intérpretes aqui, Babilônia é o império romano, que na maior parte do tempo foi anticristão. Assim sendo, a profecia apocalíptica estaria tratando da queda desse império diante dos bárbaros (algo que já ocorreu há mais de 1500 anos).

Finalmente, Isaac Newton defende a seguinte visão:

“O tempo do sétimo Selo é subdividido em oito partes sucessivas, por meio de um silêncio de meia hora no céu e pelo soar sucessivo de sete trombetas. E a sétima trombeta dá o sinal da batalha do grande Dia do Deus Onipotente, por meio da qual os reinos deste mundo tornar-se-ão o reino do Senhor e de seu Cristo e serão destruídos os que destroem a terra”.

Ele enfatiza em outro trecho:

“Por isso o toque das sete trombetas, as vozes dos sete trovões e o derrame dos sete cálices da ira são sincrônicos e se referem a uma mesma divisão do tempo do sétimo Selo em sete partes sucessivas, ocorrida após o momento de ‘silêncio’”.

Essas interpretações se aproximam do que o texto bíblico quer dizer? Vamos analisar.

Em primeiro lugar, não parece sensato desconsiderar que as duas últimas séries (a das igrejas e a dos selos) possuem ótimas indícios de que devem ser interpretadas pelo método historicista. Assim, é razoável considerar que a série das sete trombetas, que vem logo na sequência e que também é de “sete” talvez siga o mesmo modelo. Deve-se considerar ainda que a série das trombetas também possui um interlúdio entre a sexta e a sétima trombeta, o que torna razoável que a sexta trombeta, o interlúdio e a sétima trombeta abarquem o mesmo período histórico representado pelo sexto selo, o interlúdio do selamento e o sétimo selo.

Se este for o caso, as sete trombetas não são cronologicamente posteriores ao sétimo selo, mas sim o início de uma nova série. Curiosamente, nenhum dos autores analisados aqui considerou essa possibilidade. Talvez a razão para isso seja o fato de que falta uma marcação textual evidente que separe Apocalipse 8:1 de 8:2. Não sei se é por essa causa, mas a própria capitulação adotada como padrão nas Bíblias há muitos séculos (e que não está no texto original) nos induz a ver as trombetas como subsequentes aos selos no sentido cronológico. Talvez, se Apocalipse 8:1 tivesse sido capitulado como Apocalipse 7:18 (que não existe), muitos intérpretes não fossem levados a essa visão.

A pergunta que fica aqui é: a ausência de uma marcação clara que separe Apocalipse 8:1 de 8:2 é razão suficiente para descartar a ideia de que a série de trombetas é não é cronologicamente posterior aos selos, mas paralela? Creio que não. Entre Apocalipse 11:19 e 12:1, por exemplo, não há uma marcação clara que separe os dois textos. Mas a maioria dos cristãos entende que em Apocalipse 12:1 se inicia uma recapitulação de eventos anteriores a Apocalipse 11:19. Por quê? Contexto. Se considerarmos que João teve essas visões em sequência direta e sem ter pleno entendimento do sentido delas, então é natural que ele mesmo não soubesse ao certo se elas estavam em uma ordem cronológica ou em séries repetitivas. E isso se coaduna com o fato de que embora não haja marcação clara que separe Apocalipse 8:1 de 8:2 (e 11:19 de 12:1), também não há marcação textual clara que coloque esses textos como cronológicos. Neste caso, não há porque descartar a ideia de que as visões são seqüenciais, não a cronologia.

Não obstante, há algumas características no texto das sete trombetas que levantam questionamentos a essa interpretação. Assim sendo, precisamos ver se elas podem ser superadas ou não. A primeira dificuldade é que se as sete trombetas representam o mesmo período dos sete selos e das sete igrejas, é natural concluir que o selamento descrito entre o sexto e o sétimo selo (Ap 7) apareça também entre a sexta e a sétima trombeta, no caso do texto mencionar isso. No entanto, à menção ao selo e à selados já aparece na quinta trombeta (Ap 9:3-4). Ora, se há um paralelo, o mais natural não seria os selados aparecerem no interlúdio da sexta trombeta, tal como aparecem no interlúdio do sexto selo? Vamos analisar.

Três interpretações historicistas possíveis

Parece haver três possíveis soluções para isso. A primeira seria considerar o que é representado pelo Selo de Deus. Vimos, na postagem anterior, que o Selo de Deus é uma representação do sábado. Ora, o sábado não passou a ser resgatado por cristãos apenas entre os séculos 18 e 19. Já existiam alguns grupos e indivíduos sabatistas na Reforma e a Igreja Batista do Sétimo Dia existe desde 1654. Por conseguinte, nos séculos 16 e 17 já existiam selados. Entretanto, os poucos cristãos sabatistas dessa época não faziam parte de um movimento sabatista de extensão mundial ou que viria a ganhar tal extensão no futuro. Os batistas do sétimo dia, por exemplo, são uma congregação muito pequena até os dias de hoje.

Olhando por esse prisma, é bastante possível que a Apocalipse 9:3-4 esteja se referindo aos poucos sabatistas que já existiam no quinto período. Já o selamento de Apocalipse 7 estaria se referindo a um período posterior onde um mensageiro de caráter universal estenderia esse selamento a todos os servos até a volta de Jesus. O ponto forte dessa hipótese é que ela faz todo o sentido histórico e se encaixa bem nos textos. O ponto fraco é que não há nenhum texto explícito no Apocalipse que fale de selados antes do selamento predito em Apocalipse 7. Isso poderia ser um indício de que, conquanto possa existir selados antes, o livro de Apocalipse foca apenas nos selados a partir do período do mensageiro universal. Se este for o caso, então a quinta trombeta não pode representar o quinto selo.

É aqui que entra a segunda possível solução para o impasse. A quinta trombeta pode muito bem representar o sexto selo. Vejamos, por exemplo, a estrutura de Daniel. Nos capítulos 2 e 7 (os dois primeiros capítulos profético-apocalípticos), o primeiro reino é Babilônia, o segundo é Medo-Pérsia, o terceiro é Grécia e o quarto é Roma. No capítulo 8, no entanto, Babilônia não é mais citada. Assim, o primeiro reino descrito é Medo-Pérsia, o segundo é a Grécia e o terceiro é Roma. Os três capítulos cobrem o mesmo período, mas o capítulo 8 pula o primeiro. O livro não oferece razão para isso, mas podemos postular que pela proximidade do fim do período babilônico, Deus quis que Daniel focasse na sucessão a partir do reino Medo-Pérsia.

Ora, se o mesmo modelo tiver sido usado em Apocalipse, a primeira trombeta talvez pule o primeiro período da Igreja. Isso faz sentido, já que João se aproximava do fim desse período. Se este for o caso, então a quinta trombeta será equivalente exatamente ao sexto selo, onde começa o interlúdio.

Tal hipótese resolve o problema. No entanto, ela levanta outra questão: se a quinta trombeta equivale ao sexto selo (e o seu interlúdio), então como a sexta trombeta (e o seu interlúdio) podem ser paralelos ao sexto selo (e seu interlúdio) também? Por esse raciocínio, a sexta trombeta teria que representar o sétimo selo. E a sétima trombeta abarcaria algo fora dos sete selos. Isso embaralha tudo. Como resolver esse impasse?

A resposta parece estar no fato de que não necessariamente cada trombeta precisa ser paralela a exatamente um selo específico. Em outras palavras, o fato de a quinta trombeta equivaler ao sexto selo não impede que a sexta trombeta abarque também uma parte do sexto selo. Dito de outra forma: o sexto selo pode equivaler aos períodos da quinta e da sexta trombeta também.

Isso é razoável? Vamos pensar. O selamento começa no período do sexto selo/Igreja, mas se estende até um pouco antes da volta de Jesus (sétimo selo/Igreja). Ou seja, o interlúdio dos selos 6-7 começa em um período e continua no outro. Portanto, é lógico que se o selamento começa na quinta trombeta, continuará pela sexta trombeta e, possivelmente, parte da sétima. Isso implica que mesmo a quinta trombeta abarcando o sexto selo/Igreja, a sexta trombeta também precisa abarcar o sexto selo/Igreja e parte do sétimo selo/Igreja (até o final do selamento e a subseqüente volta de Jesus). E se este é o caso, então o período dos dois interlúdios acaba sendo paralelo.

A estrutura do livro de Daniel parece, outra vez, confirmar essa hipótese. Enquanto Daniel 2 apresenta a sucessão de quatro reinos, um reino dividido e o Reino de Deus (ou seja, seis reinos no total), Daniel 7 inclui entre os reinos fragmentados e o Reino de Deus o poder representado pelo chifre pequeno (totalizando sete). Essa informação adicional funciona como os interlúdios em Apocalipse. E esse “interlúdio” de Daniel 7, embora se inicie após a fragmentação de Roma e antes do Reino de Deus, permanece existindo paralelamente a esses reinos fragmentados até o tempo do fim. Exatamente como os interlúdios de Apocalipse, que começam em um período, o atravessam e seguem paralelos através do outro período.

Em Daniel 8, a sucessão se repete, porém com quatro diferenças: (a) o primeiro reino descrito (carneiro com um chifre maior que o outro = Medo-Pérsia) representa o segundo das séries anteriores (peito e braços de prata; urso com um lado maior que o outro); (b) o segundo reino descrito (bode peludo com um chifre grande que se quebra em quatro = Grécia) representa o terceiro das séries anteriores (quadril de bronze = Leopardo de quatro cabeças e asas); (c) o terceiro reino descrito (o chifre pequeno = Roma) representa o quatro reino de Daniel 2 e 7 (pernas de ferro = animal terrível e espantoso com dentes de ferro) e, por extensão, o chifre pequeno de Daniel 7, que é parte da estrutura do quarto animal; (d) os reinos divididos não são mencionados, pois a intenção do texto é enfatizar a continuidade entre Roma pagã e Roma papal, a qual permanece existindo em paralelo com os reinos divididos.

Com essa dinâmica, conquanto cada capítulo traga algumas diferenças entre as séries, o período representado é o mesmo. A estrutura não está interessada em dar ao leitor uma estrutura igual no número de reinos descritos e no paralelismo textual, mas sim em oferecer um paralelismo geral. Em outras palavras, o capítulo 7 pode adicionar um reino a mais entre os reinos divididos pós-Roma, já que eles são paralelos; e o capítulo 8 pode descartar Babilônia, encarar Roma pagã e Roma papal como uma cosia só e não citar os reinos divididos, já que o foco é o reino que dá, de certa forma, continuidade à Roma.

Se as séries de Daniel podem ter essas pequenas diferenças, mas ainda assim cobrirem o mesmo período, é razoável considerar que as séries de Apocalipse também. De fato, elas parecem seguir esse modelo. Apocalipse 2-3 (as Sete Igrejas) não inclui interlúdio. Já Apocalipse 6-8 (os Sete Selos) inclui. E Apocalipse 8-11 (as Sete Trombetas) não só inclui interlúdio, mas, nesta hipótese, inicia sua série pulando a primeira Igreja/Selo e trabalhando com um paralelismo desigual entre as trombetas e os selos/igrejas. O ponto forte aqui é que tal interpretação tem amparo da estrutura de Daniel. O ponto fraco é que o paralelismo igualitário parece ser mais natural.

Uma terceira possibilidade, defendida por alguns autores, propõem um meio termo entre essas duas interpretações historicistas. Nesse meio termo, a primeira trombeta não se iniciaria nem totalmente no primeiro Selo/Igreja, nem totalmente no segundo, mas sim entre um e outro. Ou seja, pegaria a parte final de um e a inicial de outro. Um ponto forte é que cada uma das trombetas abarcaria necessariamente um pouco das características de dois Selos/Igrejas, o que explica bem porque há trombetas que possuem características mais semelhantes a um período aparentemente posterior. Outro ponto forte é que nesta interpretação, cada trombeta é uma resposta a um Selo/Igreja.

Isso é muito interessante, pois na parte final de cada Selo/Igreja existiram grandes conflitos ou calamidades. O período da Igreja primitiva contou, em sua parte final, com a destruição do templo de Jerusalém e grande morticínio de judeus pelas milícias romanas (66 d.C.-70 d.C.). O período pré-Constantino contou, em sua parte final, com a maior das perseguições por parte do império romano aos cristãos (303 d.C-313 d.C.). Os períodos posteriores, a depender de até quando exatamente cada um vai, contaram ao seu final com a destruição das tribos bárbaras contrárias ao catolicismo (508-538), com as cruzadas católicas (1096-1272), com os conflitos entre católicos e protestantes na chamada Guerra dos Trinta Anos na Europa (1618-1648), com violenta Revolução Francesa (1789-1799) e com a Guerra da Secessão nos EUA (1861-1865). Todos esses conflitos envolveram, em algum grau, questões que se relacionavam ao cristianismo. E trombetas, na Bíblia, têm mesmo íntima relação com conflitos e/ou grandes eventos.

O ponto fraco dessa interpretação é que não há nenhum elemento explícito no texto de Apocalipse que localize as trombetas entre um Selo/Igreja e outro. Por outro lado, não há nenhum elemento textual que impeça essa possibilidade também.

Qual interpretação é mais provável? Eu não sei dizer. Porém posso dizer que uma interpretação não historicista é pouco provável. O método preterista fugiria totalmente da lógica seguida nos sete primeiros capítulos e ao foco do Apocalipse, que é sempre conduzir até o fim. O método idealista e a proposta que faz um mix de todos os métodos também parece fugir à essência do livro. O Apocalipse foi escrito não para meramente ensinar princípios espirituais ou fazer predições genéricas que não ajudam a localizar nada no tempo. Ele foi escrito sim para nos preparar para eventos futuros.

O método futurista é mais plausível que o preterismo e o idealismo aqui, pois conduz ao período à volta de Jesus e conta com a suposição possível de que as trombetas vêm cronologicamente depois do sétimo selo. Entretanto, além das razões já dadas para crer que a série das sete trombetas deve seguir o modelo das duas séries anteriores, há o fato de que o conteúdo do interlúdio entre as trombetas 6 e 7 faz alusões à predições do livro de Daniel que se cumpriram entre os séculos 18 e 19 e que são interpretadas pelo método historicista. Isso torna pouco coerente que as sete trombetas sejam interpretadas pelo método futurista. Ou o interlúdio é historicista, se cumpre nos séculos 18 e 19 e ocorre numa série que ocorre sequencialmente ao longo da história ou o interlúdio é futurista, se cumpre um pouco antes de Jesus voltar e ocorre numa série que ocorre sequencialmente no fim da história. Não faz sentido misturar as duas coisas.

Assumindo que o método historicista é o correto para essa série e que ela deve seguir mais ou menos o padrão das outras duas, o que significa cada detalhe de cada uma das trombetas? Essa é uma questão que não tratarei nessa série. Assim como Daniel 11, os capítulos 8-9 de Apocalipse possuem grande número de interpretações distintas dentro do historicismo. Se eu fosse analisar todas elas aqui, a postagem ficaria bem maior do que o projetado. Além do mais, eu mesmo ainda não consigo ver uma em específico como a mais provável. Todas elas têm pontos fortes e fracos. Assim, para os propósitos dessa série, basta dizer que independente de qual visão estiver correta, ela precisa ser historicista. Só o historicismo cabe na série das sete trombetas.

João e o Livrinho (Ap 10)

Como já mencionado, entre a sexta e a sétima trombeta há um interlúdio. Ele se compõe de dois eventos distintos. O primeiro está no capítulo 10 e é o tema que será tratado neste tópico. No texto, João vê um anjo descer do céu com um livrinho aberto. O anjo brada algo com vozes de trovão, mas quando João ia escrever, uma voz do céu diz para que ele sele as palavras e não escreva. Em seguida, o anjo jura por aquele que vive eternamente que não haverá mais demora e que nos dias da sétima trombeta o segredo de Deus anunciado aos profetas se cumprirá. Então, a voz do céu diz a João para comer o livrinho, dizendo que o sabor será doce na boca e amargo no estômago. O discípulo obedece e a predição se cumpre. A voz, por fim, afirma que ainda era necessário profetizar para muitos povos, nações, línguas e reis.

O que este capítulo quer dizer? Como cada vertente interpreta? Os comentaristas da Nova Bíblia de Estudo de Genebra pontuam que o texto tem paralelo com Daniel 10-5-6 e Ezequiel 2:1-3:11 e flertam com a ideia de que “provavelmente, a visão deste capítulo fala de uma forma geral do poder de recepção de João de continuar a profetizar”. Eles também colocam João como “um exemplo e padrão para o testemunho da igreja”, concluindo que “A igreja deve levar a sério a mensagem do livro (1:03), viver por ela, e estar pronto para comunicar as suas implicações para a ‘povos, nações, línguas e reis’ (v. 11 )”. Essa interpretação parece ser uma mistura de preterismo com idealismo, onde o sentido do texto se cumpre na própria história de João e ilustra um principio espiritual para a Igreja.

Sobre o livrinho, eles dizem que o amargor representava um conteúdo com “notícias do sofrimento”, enquanto que o doce representava o fato de que “A Palavra de Deus oferece a comunhão com Deus e Sua bondade; portanto, a doçura acompanha ainda a mensagem de aflição”.

O Comentário Moody diz que “O livrinho (v. 8) que João devia comer (cons. Ez. 3:1-3; Sl. 19:10, 11; Jr. 15:16) nunca foi aberto e por isso sua natureza exata tem de ser assunto controvertido”. Citando outro comentarista, diz que parecem ser instruções e interpretações sobre eventos futuros.

A Bíblia de Estudo Apologia sustenta:

“O livrinho (grego, biblaridion) pode ser um segundo pergaminho ou o mesmo pergaminho [referência ao pergaminho de Ap 5:1-10], que parece menor porque o anjo que o segura é muito forte”.

E mais adiante:

“O fato de João comer o livrinho relembra Ezequiel sendo instruído a fazer a mesma coisa (Ez 3:1-3). No caso de João, embora o comer fosse doce, a digestão foi amarga (Ap 10:10). A implicação aqui é de que, embora a Palavra de Deus (isto é, a profecia de João) seja doce, a objeção obstinada de seus ouvintes realmente é amarga. Todo o ministério da Palavra de Deus é similarmente agridoce”.

Já a Bíblia de Jerusalém pondera: “Diferente do livro selado entregue ao Cordeiro (5:2); o livro oferecido aqui a João é pequeno e aberto”. Neste ponto, é um comentário mais atento que os demais. Também diz:“O episódio inspira-se na vocação profética de Ezequiel (Ez 2:8-3:3; cf. Jr 15:16). Ele renova a missão de João, tornando-a mais precisa (cf. 1:1-2:9-20)”. Finaliza: “Doce, a mensagem anuncia o triunfo da Igreja; amargo, porque profetiza também seus sofrimentos” (11:1-13).

Isaac Newton, finalmente, diz que “comer e beber significam aquisição e posse; e comer um livro é tornar-se inspirado pela Profecia nele contida”. Para ele, o texto queria dizer que João iniciaria “uma vívida repetição de toda a Profecia, à maneira de interpretação”, começando “com a doce profecia da gloriosa mulher no céu e a vitória de Miguel sobre o dragão [Ap 12]” e terminando com “o amargor no ventre de João, por meio de uma longa descrição dos tempos da Apostasia [Ap 13 em diante]”.

Via de regra, os comentaristas não falam muita coisa sobre Apocalipse 10. Entretanto, o texto é bem mais rico do que pode parecer à primeira vista. A Bíblia de Jerusalém acerta ao pontuar que o livrinho não é o mesmo do qual Jesus arranca os selos a partir de Apocalipse 5, pois suas características são diferentes. E a Nova Bíblia de Estudo de Genebra acerta ao lembrar que o texto faz alusão não apenas a Ezequiel 2 e 3, mas também a Daniel 10:5-6. Esses dois pontos são importantes, pois acabam nos levando a um terceiro (que, curiosamente, nenhum desses comentaristas percebeu): Apocalipse 10 também é uma clara alusão a Daniel 12:4-10. Uma leitura atenta indica, para ser mais exato, que Apocalipse 10 é o cumprimento de Daniel 12:4-10. Vejamos.

No primeiro texto (Dn 12:4-10), o livro das profecias de Daniel é selado até o tempo do fim, quando seria estudado pelos sábios e compreendido. No segundo texto (Ap 10), o livro é dado a João, que o come e, em seguida, recebe a ordem de profetizar ao mundo inteiro. O ato de comer o livro parece significar que as profecias seriam estudadas e entendidas. E uma vez entendidas, deveriam ser espalhadas para todo o mundo. Além disso, no primeiro texto, um ser jura por aquele que vive eternamente que isso ocorreria depois de um tempo, dois tempos e metade de um tempo. No segundo, um ser também jura por aquele que vive eternamente, dizendo que já não haverá demora. Assim, o texto de Apocalipse 10 parece predizer um período próximo ao fim do “um tempo, dois tempos e metade de um tempo”.

Como já vimos em outras postagens, esse período se finda em 1798. E isso se encaixa bem com a localização temporal das trombetas. Por tudo o que vimos, sabemos que a sexta trombeta abarca pelo menos os eventos do sexto Selo/Igreja. Ou seja, justamente o período em que a Igreja passa por alguns reavivamentos importantes, muitos despertam para o estudo das profecias e um movimento extensivo de pregação do sábado se inicia.

O detalhe sobre o livrinho ser doce na boca e amargo no estômago ganha outro colorido nesse contexto. Se o ato de comer o livrinho representa o estudo das profecias de Daniel no período do sexto Selo/Igreja, então João está representando os cristãos desse período que estudaram as profecias. Historicamente, sabemos que muitos desses cristãos, ao estudarem tais profecias, julgaram que Jesus voltaria dentro de poucos anos. Isso gerou alguns desapontamentos. Essa informação se encaixa bem na descrição: o estudo das profecias foi doce à boca, pois parecia apontar a volta de Jesus; a demora do Senhor era amargo ao estômago.

A profecia, que parece ter sido dada com o intuito de consolar os cristãos da aparente demora da volta de Jesus, parece prover duas explicações para ele não ter vindo nessa época: (1) ainda falta uma trombeta para tudo se cumprir (v. 7) e (2) ainda há muitos povos para os quais pregar (v. 11). Isso apenas reforça interpretações feitas em outras passagens como Apocalipse 7. Jesus está esperando a pregação do evangelho por todo o mundo. Só depois disso ele virá.

As demais interpretações expostas parecem ser mais frágeis que a historicista porque são por demais genéricas. Como tenho enfatizado, o livro de Apocalipse foi escrito para mostrar claramente aos cristãos onde eles estão historicamente, o que já foi cumprido e o que falta até o fim. Assim, qualquer interpretação muito genérica foge ao intuito do livro e ao sentido de se oferecer profecias ao povo de Deus.

As duas testemunhas (Ap 11:1-13)

Ainda dentro do interlúdio entre a sexta e a sétima trombeta, João vê um segundo evento. A visão tem muitos detalhes. João vê o templo de Deus (e o mede com uma vara); vê os gentios no pátio por 42 meses; vê duas testemunhas testemunhando por 1260 dias com pano de saco; vê que elas são as duas oliveiras e os dois candelabros – o que é uma alusão a uma visão de Zacarias (Zc 4:3-14); vê que elas tem poder para não fazer chover e transformar água em sangue – uma alusão a Elias e Moisés (I Rs 17:1; Êx 7:17-19); vê uma besta que as combate e as mata; vê seus cadáveres estirados na “grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado”; vê o mundo se alegrando da morte das testemunhas; vê a ressurreição delas depois de três dias e meio; vê a ascensão delas ao céu; vê um terremoto que mata milhares de pessoas.

Como cada vertente interpreta essa passagem? A Nova Bíblia de Estudo de Genebra diz que o templo “representa a presença de Deus na Terra, especialmente através de Seu povo (04:01 ao 05:14)”. Os primeiros versos, no geral, são provavelmente “uma figura da preservação do povo de Deus no meio de ataques”. Sobre os 1260 dias, afirma que “a partir de um ponto de vista simbólico sugere um período completo de sofrimento, cortada pela metade”. A respeito das duas testemunhas, pondera:

“Possivelmente dois seres humanos individuais literais estão a vista: ou dois profetas cristãos que foram martirizados, pouco antes da queda de Jerusalém, ou dois profetas que aparecerão logo antes da Segunda Vinda. Mas sua identificação com dois candeeiros (v. 4) sugere que eles podem ser figuras simbólicas de pé para o testemunho das igrejas candelabro de 01:20. Se este for o caso, eles simbolizam as igrejas, em vez de indivíduos específicos”.

Quanto à grande cidade, lemos: Este verso sugere a muitos que a antiga Jerusalém está em vista ao longo deste capitulo (11:1-2). Mas o simbolismo tem muitas aplicações potenciais”. E sobre a ressurreição, podemos ler: Se as duas testemunhas são pessoas físicas, a sua ressurreição deve provavelmente ser interpretada literalmente. Se as testemunhas são simbólicos das igrejas, sua ressurreição simboliza a vitoria do testemunho cristão depois de um tempo de perseguição intensa (06:09, 10; 20:1-6)”.

Como se pode ver, os comentaristas da Nova Bíblia de Estudo de Genebra buscaram considerar várias hipóteses, não fechando conclusão. O Comentário Moody é um pouco mais assertivo. Sobre a cidade, afirma:

“A cena certamente acontece em Jerusalém, a qual embora chamada espiritualmente Sodoma e Egito (v. 8; cons. Is. 1:9, 10) é especificamente chamada de lugar onde também o seu Senhor foi crucificado. Os acontecimentos aqui registrados ainda não aconteceram, mas acontecerão literalmente na ‘cidade santa’ no final dos tempos”.

A interpretação aqui é claramente futurista. O comentarista defende ainda que os versos 1 e 2 indicam que “haverá alguma espécie de templo em Jerusalém nessa ocasião”. O período de 1260 dias, para ele, é “a primeira metade do período de sete anos da nossa dispensação, ocorrendo a Grande tribulação na segunda metade, quando o Anticristo exercerá poder universal”. Sobre a identidade das duas testemunhas, afirma:

“O texto não permite de modo nenhum, creio eu categoricamente, uma interpretação referindo-se a um movimento, ou, como Lange insiste, ao estado cristão e à Igreja Cristã (pois onde encontrar um estado cristão atualmente?), ou ao V.T. e ao N.T., ou à Palavra e ao Espírito, ou aos cristãos fiéis, como crêem Milligan é Swete. Eu acho que estas testemunhas devem ser consideradas como indivíduos. Muitos afirmam que são Moisés e Elias (Simcox, etc.), outros que são Enoque e Elias (Seiss, Lang, Govett). Mas com referência a tais opiniões eu concordo com a posição de Moorehead: “É extremamente improvável que aqueles santos, depois de séculos de bem-aventurança no céu, sejam enviados para a terra para dar testemunho aos judeus e gentios” (op. cit., pág. 86). Francamente, acho que nada ganhamos em prolongarmos debates em relação à identidade delas. São duas testemunhas enviadas por Deus e revestidas por Ele de grande poder.”

O autor, portanto, opta pela literalidade dos personagens, o que é bastante comum no futurismo.

A Bíblia de Estudo Apologia é vaga e dúbia na interpretação desse capítulo. Ela parece flertar com o preterismo quando diz: “Esta segunda cena do segundo interlúdio (vs. 1-13) tem lugar em Jerusalém durante a época em que os gentios (Lc 21:24) controlavam a cidade”. Porém, mais adiante, parece flertar com o futurismo, ao falar do verso 7: “A Besta – o Anticristo, profetizado em outras passagens (II Ts 2:9-11; I Jo 2:18) – faz a sua aparição”. Sobre a grande cidade, ela o identifica como Jerusalém e explica:

“Chamar Jerusalém, a cidade onde o Senhor foi crucificado, de “grande cidade” (a maneira usual de se referir a Babilônia, a Grande [por exemplo, 17:18; 18:10], bem como a Sodoma e ao Egito), reflete o quanto eram ímpios muitos habitantes de Jerusalém”.

Mais uma vez, a passagem parece flertar com o preterismo. No entanto, em seguida, o intérprete vai dizer:

“Uma vez que isso [a ressurreição das testemunhas] acontece em Jerusalém, onde muitos dos presentes seriam judeus, isto poderia ser, talvez, parte de cumprimento da profecia de Paulo de que toda a nação de Israel será salva (Rm 11:25-26)”.

Em suma, a interpretação proposta na Bíblia de Estudo Apologia não é muito clara. A Bíblia de Jerusalém, por sua vez, continua coerente com seu preterismo. Em relação aos primeiros versos, afirma que “O Templo, coração de Jerusalém, Cidade Santa (v. 2), representa a Igreja (I Co 3:16-17+; Ap 20:9; 21:1+)”. Sobre o tempo de perseguição, sustenta: “A partir de Daniel (7:25+), este tempo (três anos e meio) tornou-se a duração-tipo de qualquer perseguição (cf. Lc 4:25; Tg 5:17). Aqui trata-se imediatamente da perseguição de Roma (a Besta de 13; 17:10-17)”. Quanto às duas testemunhas, diz:

“No Ap simbolizam provavelmente as duas personagens encarregadas de edificar o novo Templo, a Igreja de Cristo […]. Já não é possível identificá-los. Pensou-se frequentemente em Pedro e Paulo, martirizados em Roma sob Nero (vs. 7-8)”.

A besta que mata as testemunhas é identificada como Nero, que é entendido como um tipo de Anticristo. E a grande cidade é identificada como Roma pagã.

Isaac Newton, sobre o sentido da profecia no geral, pontua:

“Quando os Gentios calcam aos pés a cidade santa, Deus dá às suas duas Testemunhas o seu poder e elas profetizam mil e duzentos e sessenta dias em vestes de linho. Elas são chamadas as duas oliveiras, numa alusão às duas oliveiras da visão de Zacarias e que (cf. Zacarias cap. 4) ficavam lado a lado do candeeiro de ouro para fornecer óleo às lâmpadas. E ainda, de acordo com o Paulo, no capítulo 11 do livro aos Romanos, as duas Oliveiras representam Igrejas. E elas fornecem óleo às lâmpadas, pela manutenção de professores. São também chamadas os dois candeeiros o que, na Profecia, também significa Igrejas, isto é, as Sete Igrejas da Ásia, representadas pelos sete candeeiros”.

Em outras palavras, para Newton, as duas testemunhas seriam igrejas puras em meio à corrupção. Ele traça uma relação ainda entre essas duas testemunhas e as igrejas de Esmirna e Filadélfia, as quais não recebem repreensões de Jesus nas cartas e sofrem perseguição e/ou opressão.

Alguma dessas interpretações está correta? O que podemos dizer sobre esse texto tão denso de Apocalipse 11:1-13? Vejamos.

De imediato, parece bastante improvável que a visão futurista do Comentário Moody e preterista da Bíblia de Jerusalém estejam corretas. Afinal, já vimos boas evidências de que as sete trombetas se interpretam pelo método historicista. Como o capítulo 11 faz parte de um interlúdio entre a sexta e a sétima trombeta, deve seguir o mesmo modelo, sendo algo que ocorre neste período histórico. Também parece muito improvável que a interpretação seja vaga como propõe a Bíblia de Estudo Apologia. Assim, é razoável buscar, mais uma vez, o cumprimento específico na história e dentro do período entre os séculos 18 e 19 (sexta trombeta).

Há no texto algo que auxilia na interpretação: ele menciona os 1260 dias. Esse período é mencionado em Daniel e conforme estudamos na parte 2 dessa série, se inicia em 538 e termina em 1798. O texto de Apocalipse também menciona 42 meses, que são equivalentes a 1260 dias e os 3,5 tempos. O que podemos concluir é que o texto está falando sobre o período em que se cumpre a profecia dos 1260 dias revelada em Daniel. Para isso, a passagem mostra o que ocorreu durante esse período e o que ocorre no cumprimento. Tal interpretação se adéqua bem ao contexto, já que Daniel 12 sela justamente a profecia dos 1260 dias, e Apocalipse 10, como vimos, retoma esse tema. A sequência, portanto, é uma ampliação do assunto. A interpretação também se encaixa bem no período da sexta trombeta. Tudo aqui bate.

Ora, se o capítulo 11 realmente fala sobre a profecia dos 1260 dias de Daniel e essa profecia se cumpre em 1798, então é razoável concluir que o capítulo 11 tem a ver ou com a França ou com Roma. Afinal, em 1798 o Papa é preso por um general francês, a mando de Napoleão. Uma vez que Roma é o chifre pequeno de Daniel e, portanto, a besta de Apocalipse 13, a grande meretriz e a Babilônia (Ap 17 e 18), então a descrição de Apocalipse 11 parece se encaixar mais com a França. De fato, a França na época da Revolução contava com grande permissividade sexual, o que faz lembrar Sodoma (Gn 19:1-29), bem como forte oposição a Deus e fé em sua própria força humana, o que lembra Egito (Êx 5:2; Is 31:1-3). A referência a Jesus crucificado parece ser espiritual também. Talvez uma forma de dizer que a França desprezou a Cristo.

E o que seriam as duas testemunhas? A opinião de que são literais não se encaixa bem no historicismo. Como duas pessoas literais profetizariam por 1260 anos? Ademais, se os 1260 dias são uma representação, é natural que as testemunhas também o sejam. Mas o que poderia servir de testemunho por 1260 anos? O texto fala sobre duas oliveiras e dois candeeiros (v. 4), o que faz lembrar azeite, uma figura típica, nas Escrituras, para a unção do Espírito Santo (Êx 30:22-33; I Sm 10:1 e 16.13; I Rs 1:39; Is 61:1-3; Lc 4:18-21; Mt 25:1-13). Também alude a Moisés e Elias (vs. 6), o que faz lembrar a Lei e os Profetas (II Rs 17:13; Zc 7:12; Mt 5:17, 7:12 e 22:40; Lc 24:44; Jo 1:45; At 13:15, 24:14 e 28:23). Ora, as Escrituras Sagradas são inspiradas pelo Espírito Santo e eram chamadas de “a Lei e os Profetas” no primeiro século. Então, parece razoável concluir que quem testemunhou por 1260 anos foram as Escrituras.

Se isso está correto, a morte das duas testemunhas (as Escrituras) está relacionada aos ataques que a França promoveu contra a Bíblia na época da Revolução. A profecia fala em um período de três dias e meio, o que deve significar três anos e meio, tendo em vista que os 1260 dias são anos. Localizar esse período tem sido um desafio. Sabe-se que de novembro de 1793 até junho de 1797, a fé cristã sofreu fortes ataques dos revolucionários por meio de decretos (o que dá três anos e sete meses, algo que poderia ser arredondado para três anos e meio). Mas o período, como é evidente, não ocorre em 1798 (o fim dos 1260 anos), algo que parece se contrariar os versos 3 e 7. Para explicar isso, os que creem nessa hipótese argumentam que, segundo Jesus Cristo, o período de perseguição profetizado por Daniel seria abreviado (Mt 24:22). Isso explicaria porque os três anos e meio de ataques à Bíblia são antecipados. Embora essa hipótese possa ser verdadeira, eu não tenho muita convicção nela.

Particularmente proponho outra sugestão (talvez mais plausível). O testemunho das duas testemunhas se finda em fevereiro de 1798 – data em que o Papa VI é preso a mando de Napoleão. Mas o mesmo poder secular que fere o papado (que é um poder usurpador da autoridade de Cristo na Igreja), fere também a fé cristã como um todo e as Escrituras, já que ele é parte de uma revolução anticristã e se arroga como estando acima de tudo. Ademais, se sob o Papa a Escritura ainda testemunha, embora com pano de saco, sob um Estado/movimento hostil à fé cristã, a Escritura não testemunha nem com pano de saco. Em outras palavras, no catolicismo a Escritura ainda tem autoridade, enquanto que no secularismo ela não é levada em conta. Simbolicamente, parece ser correto que a Revolução Francesa começou a matar a Bíblia com os Jacobinos, em 1793, e a matou de vez em 1798. Napoleão Bonaparte consolidou o secularismo como sendo um novo Papa.

Entretanto, em julho de 1801, Napoleão Bonaparte fecha uma concordata com o Papa VII (sucessor de Pio VI), onde garantia direitos aos católicos e também aos protestantes na França. Conquanto o movimento de Napoleão tenha sido político e, de certa forma, tenha restabelecido relações com o papado, também representou uma trégua na opressão anticristã da Revolução e, ao mesmo tempo, um freio ao papado (já que o catolicismo não voltou a ser religião oficial do Estado francês, mas apenas reconhecido como a maior religião da França). É razoável supor, ademais, que um mês após a concordata, os ares já fossem outros para os cristãos. E isso perfaz os três anos e meio com precisão.

A ascensão da Bíblia ocorre nos anos posteriores. Em 1804 surge a primeira sociedade bíblica, na Inglaterra. Também se inicia um período de efervescência em relação às missões e de grande interesse pela volta de Jesus.

Esteja minha sugestão correta ou não, está claro que o método historicista se encaixa aqui muito melhor do que qualquer outro método. Interpretar pelo método historicista faz com que o fluxo seja seguido. Tudo se encaixa melhor.

Resumo e Conclusão

Vimos que a série das sete trombetas também só se encaixa bem na interpretação historicista, por mais que sua interpretação não seja tão fácil quanto a das sete igrejas e dos sete selos. As trombetas, portanto, também representam períodos sucessivos da história do cristianismo que irão desembocar na volta de Jesus. Uma vez que o método historicista é estabelecido nessa série, torna-se provável que o interlúdio também deva ser interpretado por esse método, o que o localiza no período compreendido entre os séculos 18 e 19.

Diversos detalhes na descrição do interlúdio demonstram que os períodos ali citados se referem ao reavivamento da Igreja, o estudo mais profundo em relação ao livro de Daniel, à esperança renovada na volta de Jesus, a decepção pela demora de Cristo e a descrição do cumprimento da profecia dos 1260 dias (o que envolve o cenário da França no período da Revolução). A análise minuciosa mostra ainda que os capítulos 10 e 11 de Apocalipse são cumprimento e extensão do que foi escrito em Daniel 12:3-10.

As propostas futuristas, preteristas e idealistas não são suficientes para explicar de modo convincente e coerente esses textos. Elas são confusas, por vezes genéricas, fogem ao objetivo do livro e à estrutura dos primeiros capítulos e também de Daniel.

A Igreja Adventista do Sétimo Dia tem crido nessa abordagem historicista das sete trombetas e de seus interlúdios. Há bastante divergência entre os teólogos sobre o sentido específico de cada trombeta. Mas na maioria das abordagens, o historicismo é uma constante. As interpretações de Apocalipse 10 e 11, que formam o interlúdio, contam com considerável unanimidade na interpretação, variando em poucos detalhes.

Na próxima postagem, vamos comparar as interpretações existentes a respeito dos capítulos 12, 13 e 14 de Apocalipse.