Por Davi Caldas

Um dos erros comuns na análise que alguns cristãos fazem de obras de ficção ou fantasia é não compreender que universos distintos possuem funcionamentos distintos. Assim, não estamos autorizados a interpretar o significado de elementos de um universo fictício X da mesma forma como interpretamos esses mesmos elementos no nosso universo real. Tomemos como exemplo “As Crônicas de Nárnia”. O autor, C. S. Lewis, cria um universo diferente do nosso, com funcionamento próprio. Nesse universo, a magia é possível e não é algo relacionado especificamente a bruxas.

Aqui entra a questão do significado. Em nosso universo real, magia não existe e qualquer um que faça algo aparentemente mágico ou é um ilusionista, ou um farsante, ou um satanista. No universo de “As Crônicas de Nárnia” o significado não é esse. O universo é outro, o funcionamento é outro e, portanto, magia tem outro sentido. Magia, no universo criado por Lewis, é apenas uma capacidade que alguns tem, sejam bons ou maus. Analogamente seria como as capacidades naturais que alguns seres humanos tem e outros não em nosso universo real (como andar por sobre uma corda há metros de altura, correr 100 metros em 9 segundos ou decorar uma série de mil cartas).

Quando interpretamos os elementos de um universo fictício com a visão do nosso universo real, estamos tirando coisas de seus devidos contextos. Curiosamente, isso é algo comum dentro de nosso próprio universo real. Por exemplo, aqueles que alegam ser o Antigo Testamento machista, escravagista, sanguinário e xenófobo o fazem porque projetam sobre os hebreus de três mil anos atrás a nossa mentalidade ocidental e atual a respeito de igualdade de gêneros, monogamia, direitos humanos, direito internacional e diplomacia. Mas a nossa mentalidade não era a mentalidade dos hebreus de três mil anos atrás. O nosso contexto não é o contexto em que vieram as pessoas do Antigo Testamento. Trata-se, portanto, de anacronismo pressupor que nossa visão sobre as coisas era a mesma naquele outro “universo”.

A confusão entre contextos distintos é um erro de interpretação da realidade. E esse erro, quando projetado sobre a literatura, impede que uma pessoa extraia dos textos e das obras a verdadeira intenção do autor. Um exemplo claro disso é a parábola do fariseu rico e de mendigo Lázaro, em Lucas 16:19-31. Jesus faz uso de um conto conhecido no oriente, modificando seus elementos para adaptá-lo ao contexto dos fariseus. Sua intenção era enfatizar a soberba e dureza de muitos fariseus, em contraste com a humildade e a fé de muitos que compunham a “ralé”. O universo parabólico montado considera um diálogo ocorrido sob uma premissa imortalista, onde salvos e perdidos poderiam se ver e conversar. Obviamente, um absurdo, algo possível apenas dentro da parábola. A historieta não poderia ser usada de modo que seus elementos fossem misturados com o universo real. Supor, por exemplo, que as almas são imortais no universo real e que inferno e paraíso estão próximos o suficiente para haver diálogo seria extrapolar o universo fictício.

É óbvio que há sempre alguma equivalência entre o universo fictício e o real. Essa equivalência precisa existir, pois quem conta a parábola ou escreve uma história de ficção vive no universo real. É impossível, pois, que não haja equivalências. E essas equivalências muitas vezes são propositais, já que o autor, por vezes, pretende ensinar algo por analogia/alegoria para nós que vivemos no mundo real. No entanto, os sentidos da analogia/alegoria não podem ser extrapolados pelo intérprete ao seu bel-prazer. Há sempre um sentido pretendido e isso pode ser aferido pela análise dos contextos.

O cuidado em relação a interpretação torna-se central aqui. Não, o texto não diz o que queremos que ele diga. O texto diz o que os contextos indicam. E isso é uma verdade tanto para a interpretação da Bíblia, quanto para a interpretação de quaisquer literaturas.

Interpretar textos fora de seus contextos e intenções originais, usando de anacronismos, ignorando a história da obra como um todo, isolando passagens e cometendo outros vícios é não apenas uma forma de violentar o texto e a realidade, mas de lançar contra o autor (consciente ou não) um falso testemunho.

Saber separar os universos é algo imprescindível para ter a sensibilidade de diferenciar certas coisas. Quem já assistiu os antigos desenhos Tom e Jerry, Coiote e Papa-Léguas, entre outros, sabe que os tais possuem um nível de violência. Mas essa violência é bem diferente da violência verossímil de filmes de ação, por exemplo. No primeiro universo, o gato Tom pode receber uma panelada na cabeça do rato Jerry, ficar totalmente amassado e, no segundo seguinte, estar correndo de volta atrás de Jerry. Tudo isso ocorre de um modo absolutamente irreal, sem presença de sangue, sem aparência de ferimento genuíno e sem quaisquer elementos que deem àquela cena um teor semelhante à realidade. No segundo universo, no entanto, temos talvez um homem dando uma facada no outro. Os atores são reais, a faca é real, o sangue parece real, o ferimento parece real e as expressões são de ódio e sofrimento. Essa é uma violência verossímil. O universo ali representado é o nosso. Ele não é real, mas representa o real e se esforça para representá-lo da maneira mais próxima possível.

Isso também tem a ver com interpretação. Ou será que poderíamos dizer que a intenção do produtor de um filme violento de ação é a mesma do produtor de um episódio absolutamente lúdico e infantil de um Tom e Jerry? Os universos, sem dúvida, são totalmente distintos.

Atentar para essas questões é um exercício interessante. Ajuda-nos a trabalhar sensibilidade literária, bom senso, intelecto, senso das proporções e, claro, espiritualidade. Entre os cristãos sempre foi comum existirem aqueles que deixam Satanás se apropriar de tudo o que é bom. A TV, o rádio, o teatro, a arte, os filmes, os desenhos, os instrumentos musicais, os esportes, as vestes, a ciência e até o sexo. Depois que Satanás usa e abusa de todas as coisas que esses crentes deliberadamente lhes dão nas mãos, então correm a dizer: “Olha, isso é do Diabo!”. E aí até quem está fazendo bom uso das coisas é considerado do Diabo.

A essa altura, é claro, algum cristão adventista certamente citará textos de Ellen White “contra isso” e “contra aquilo”. Trata-se de um procedimento comum entre muitos, porém extremamente inapropriado e altamente irritante. Urge lembrar: a teologia oficial adventista sempre se pautou pelo principio protestante da Sola Scriptura. Questão de coerência, já que a IASD se considera protestante desde seus primórdios. E Ellen White, por sua vez, passou toda a vida enfatizando este principio. Antes de prosseguir com o assunto desse texto, relembremos algumas palavras dela, tantas vezes já citadas em textos do Reação Adventista:

“O Senhor deseja que estudeis a Bíblia. Ele não deu alguma luz adicional para tomar o lugar de Sua Palavra. Esta luz deve conduzir as mentes confusas a Sua Palavra, a qual, se for comida e assimilada, e como o sangue que da vida a alma. Então serão vistas boas obras como luz brilhando nas trevas” (Carta 130, 1901).

“O Espírito não foi dado – nem nunca o poderia ser – a fim de sobrepor-Se à Escritura; pois esta explicitamente declara ser ela mesma a norma pela qual todo ensino e experiência devem ser aferidos. Diz o apóstolo João: ‘Não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus; porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo’. I João 4:1. E Isaías declara: ‘À lei e ao Testemunho! se eles não falarem segundo esta palavra, não haverá manhã para eles’. Isa. 8:20 (DTN, p. 7).

“A Palavra de Deus é suficiente para iluminar o espírito mais obscurecido, e pode ser compreendida de todo o que sinceramente deseja entende-la” (Testimonies for the Church 5:663, 664; Testemunhos Selectos 2:279).

“Não devem os testemunhos da irmã White [ela mesma] ser postos na dianteira. A Palavra de Deus é a norma infalível. Não devem os Testemunhos substituir a Palavra. Devem todos os crentes manifestar grande cautela no expor cuidadosamente estes assuntos, e calai sempre que houverdes dito o suficiente. Provem todos a própria atitude por meio das Escrituras e fundamentem pela Palavra de Deus revelada todo ponto que vindicam ser verdade” (Carta 12, 1890).

“Quanto mais examinarmos as promessas da Palavra de Deus, mais brilhantes ficam. Quanto mais as pusermos em prática mais profunda será a nossa compreensão delas. Nossa atitude e crença têm por base a Bíblia. E nunca queremos que alma nenhuma faça prevalecer os Testemunhos [de Ellen White – ela mesma] sobre a Bíblia” (Manuscrito 7, 1894).

“No trabalho público não torneis proeminente nem citeis o que a Irmã White [ela mesma] tem escrito, como autoridade para apoiar vossas posições. Fazer isto não aumentara a fé nos testemunhos. Apresentai vossas provas, claras e simples, da Palavra de Deus. Um ‘Assim diz o Senhor’ e o mais forte testemunho que podeis apresentar ao povo. Que ninguém seja instruído a olhar para a Irma White, e, sim, ao poderoso Deus, que dá instruções a Irmã White” (Carta 11, 1894).

“A Palavra de Deus é o grande detector do erro; cremos que devemos recorrer a ela em todas as questões. A Bíblia deve ser nosso padrão de toda doutrina e prática. […] Não devemos aceitar a opinião de ninguém sem antes compará-la com as Escrituras. Eis a autoridade divina que é suprema em assunto de fé” (EGW aos Irmãos, 5 de Agosto de 1888).

“Como pode o Senhor abençoar os que manifestam o espírito de ‘não me importa’, que os leva a andar em sentido oposto a luz que o Senhor lhes deu? Não solicito, porém, que acateis minhas palavras. Ponde a irmã White de lado. Não citeis outra vez as minhas palavras enquanto viverdes, até que possais obedecer a Bíblia. Quando fizerdes da Bíblia vosso alimento, vossa comida e vossa bebida, quando fizerdes de seus princípios os elementos de vosso caráter, conhecereis melhor como receber conselho de Deus. Enalteço a preciosa Palavra diante de vos neste dia. Não repitais o que eu declarei, afirmando: ‘A irmã White disse isto’ e ‘a irmã White disse aquilo’. Descobri o que o Senhor Deus de Israel diz, e fazei então o que Ele ordena” (Manuscrito 43, 1901).

Que conclusões podemos tirar dessas palavras? Ora, se a Bíblia é a única regra de fé e práticas doutrinárias, então quaisquer práticas impostas como doutrina precisam fluir das Escrituras, quer diretamente, quer por aplicação de princípio.

No que tange obras de ficção, fantasia, romance e contos de fadas a pergunta é: “Há algum mandamento direto ou princípio orientador na Bíblia que nos proíba de ler obras desse gênero?”. Não, não há. E não é cristão torcer a Bíblia para dizer algo a esse respeito. Pela Bíblia, no máximo, conseguimos deduzir que obras que exaltam e/ou estimulam imoralidades são condenáveis. Mas não há nada contra gêneros literários em si mesmos. Gêneros são, ao menos em sua maioria, neutros.

Então, se alguém saca um texto de Ellen White dizendo que tais gêneros não devem ser lidos, das duas uma: ou (1) Ellen White errou em seu conselho ou (2) a interpretação que estamos fazendo de Ellen White está errada. Há uma terceira possibilidade que gosto de considerar e que é compatível com a segunda: (3) Ellen White acertou no âmago de seu conselho, mas generalizou na forma de expressá-lo.

A primeira opção costuma a ser preferida por quem já tem opinião negativa sobre Ellen White. Por quê? Porque a primeira opção é a mais fácil. Ela não exige estudo, reflexão e análise de contextos. Ademais, ela não oferece risco de convencimento. É só aceitar a interpretação descontextualiza como real e seguir a vida. Mas esta não é a maneira intelectualmente mais honesta e cristã de tratar as questões. Assim sendo, analisemos a segunda e a terceira hipóteses.

Estamos interpretando Ellen White de maneira correta? Tomemos um exemplo. Ellen White diz:

“Os leitores de contos frívolos e empolgantes tornam-se inaptos para os deveres da vida prática. Vivem em um mundo irreal. Tenho observado crianças a quem se consentiu adquirir o costume de ler tais histórias. Quer em casa quer fora de casa, achavam-se inquietas, sonhadoras, incapazes de conversar a não ser sobre os assuntos mais triviais. Pensamentos e conversas religiosos eram inteiramente alheios ao seu espírito” (Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, págs. 134 e 135; O Lar Adventista, p. 414).

Qual é o âmago desse conselho? Que nossos filhos jamais podem ler uma literatura que não seja estritamente cristã, séria e profunda? Que devemos escolher histórias monótonas para nossos filhos, a fim de que a leitura não seja empolgante? Que nossos filhos não podem ler algo mais lúdico e raso? O contexto não parece ser esse. White fala sobre o “costume” de ler só literaturas de gênero secular, raso e lúdico. Isso poderia suplantar o interesse por assuntos religiosos. Não é algo incomum de se ver nos dias de hoje e, por certo, não o era na época. Já observei mais de uma vez crianças com grande interesse nas histórias de desenhos animados, jogos de videogame, histórias de princesas e contos de fadas. E, no geral, essas crianças não nutriam interesse (ou, pelo menos, não tanto) por temas bíblicos.

Aqui entra o bom senso: segundo a psicologia e a sabedoria popular, a criança forma seu caráter e gostos principais até mais ou menos os sete anos de idade. Se esse é o caso, é razoável incentivar mais o interesse da criança em histórias bíblicas e/ou mais profundas e edificantes do que por histórias lúdicas seculares. Isso depõe contra os gêneros lúdicos seculares? Não. Apenas é um conselho que leva em conta a idade de formação da criança e o costume que se está criando.

Vejamos outro conselho:

“Muitos jovens são ávidos por livros. Lêem qualquer coisa que possam obter. Apelo para os pais desses jovens, a fim de que governem o desejo deles pela leitura. Não permitais sobre vossas mesas revistas e jornais em que se encontrem histórias de amor. Preenchei o lugar desses com livros que auxiliem os jovens a porem na formação de seu caráter o melhor material – o amor e o temor de Deus, o conhecimento de Cristo. Animai vossos filhos a armazenar na mente conhecimento valioso, a deixar que aquilo que é bom ocupe a alma e dirija suas faculdades, não dando lugar a pensamentos baixos, aviltantes. Restringi o desejo pela leitura que não forneça ao espírito bom alimento” (Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, pág. 133; LA – Pag. 411).

Qual o âmago desse conselho? Que todos os livros sobre histórias de amor são ruins e não devem ser lidos? Não necessariamente. White fala sobre histórias de amor em revistas e jornais, os quais provavelmente eram seculares e continham conteúdos mais voltados para adultos. Ela também fala sobre o cuidado para que os jovens não fossem deixados a nutrir pensamentos baixos e aviltantes. Ou seja, o teor de muitas dessas histórias provavelmente não era dos melhores. A quem duvida que literaturas imorais existiam à época de White, pesquise sobre nomes de autores como Gabrielle Collete e Marquês de Sade. O âmago do conselho, portanto, era: seus filhos estão em fase de formação e não devem ser expostos a qualquer tipo de literatura secular de amor que apareça em revistas e jornais. Nos dias de hoje poderíamos aconselhar: “Não deixe seus filhos adolescentes lerem obras do tipo ‘Cinquenta Tons de Cinzas’ ou outras de amor que possam ter conteúdos inapropriados”.

Em uma carta, ela escreve assim:

“Quão penoso é para Jesus, o Redentor do mundo, contemplar uma família cujos filhos não têm amor a Deus nem respeito a Sua Palavra, mas estão todos absorvidos na leitura de ficção. Tempo assim despendido rouba-vos o desejo de tornar-vos eficientes nos deveres do lar; desqualifica-vos para serdes chefe da família, e se continuado prender-vos-á mais e mais nos laços de Satanás. … Alguns dos livros que ledes contêm excelentes princípios, mas os ledes apenas para absorver a história. Se pudésseis tirar dos livros que ledes aquilo que vos poderia ajudar na formação do vosso caráter, vossa leitura poderia fazer-vos algum bem” (Carta 32, 1896; LA, p. 417).

Qual o centro desse conselho? Que a ficção em si mesmo é condenável? Não parece ser o caso. O problema central apontado por White é que alguns filhos eram leitores ávidos de ficção, mas não nutriam interesse pela Bíblia e por Deus. Um efeito desse problema era que tais filhos não extraíam bons princípios dos livros que liam. Em suma, o problema não estava propriamente na ficção, mas no vício em livros de ficção a ponto de achar a Bíblia e as obras religiosas desinteressantes. É por isso que White vai insistir em outros textos que determinadas literaturas de sua época eram potencialmente viciantes para crianças e jovens, gerando o efeito da substituição da Bíblia por tais obras. O fato de White focar em crianças e adolescentes nesses conselhos indica que sua preocupação centrava-se na formação do caráter, o que obviamente tem a ver com o tipo de hábito que se forma. Ou seja, o âmago não era propriamente os gêneros.

Em alguns casos, a linguagem de White será mais generalizante. Em outros, mais amena. A generalização não necessariamente desabona o âmago de um conselho. Se um pastor vê muitas crianças se interessando por histórias de desenhos animados e filmes, mas nem um pouco por questões espirituais, é possível que ele dê um conselho generalizante, dizendo que os pais devem cortar os desenhos e incentivar a Bíblia. O âmago do conselho está certo, mas talvez o pastor tenha exagerado nas palavras. Pode ser que o próprio pastor nem pense de modo tão radical. Possivelmente ele usou palavras fortes para enfatizar seu ponto sem nem perceber que elas poderiam ser levadas muito ao pé da letra. O ponto central, no entanto, permanece correto: as crianças precisam gostar mais de Bíblia e não nutrirem vícios em relação a desenhos ou quaisquer outras coisas. E esses conselhos fluem de princípios bíblicos!

A generalização, além do mais, sempre se aplica a alguns casos. Certo homem que conheço, convertido após uma vida dissoluta, dizia vez ou outra que o cristão não deveria ir à praia. Era o conselho amoroso de quem foi um pervertido a vida inteira e sabia que cometeria pecado ao olhar libidinosamente para mulheres em traje de banho na praia. Obviamente, nem todos são como ele e, portanto, o conselho é um tanto generalizante. Entretanto, certamente o conselho se aplica a muitos que possuíram uma história como a dele ou que possuem fraqueza na área sexual. Em determinados contextos, esse tipo de conselho generalizante pode atingir a maioria das pessoas, ainda que, em outros lugares e/ou tempos, o mesmo conselho perca a sua aplicabilidade majoritária. A esse respeito, White diz:

“É assim que é, e meu espírito tem sido muito agitado quanto à idéia: ‘Ora, a irmã White disse assim e assim, e a irmã White falou isto ou aquilo; e, portanto, procederemos exatamente de acordo com isso’. Deus quer que todos nós tenhamos bom senso, e deseja que raciocinemos movidos pelo senso comum. As circunstâncias alteram as condições. As circunstâncias modificam a relação das coisas” (Mensagens Escolhidas, vol. 3, p. 217).

O grande problema de muitos adventistas – e já escrevi sobre isso em outros textos – é que eles se esquecem da Sola Scriptura, a qual deveriam defender ferrenhamente, e a substituem por uma espécie de “Sola White”. Se Ellen White falou, está falado. Se algo é dito, tem que ser provado por Ellen White. Como protestantes, jamais deveríamos agir assim. É obrigação nossa, como de qualquer cristão, não aceitar acriticamente nada que qualquer pessoa diga sem passar pelo crivo da Bíblia – e, claro, pelo crivo das regras básicas e lógicas de interpretação. Isso inclui Ellen White. A Bíblia, lembremos, é o padrão de julgamento de todas as coisas.

Fazer uma análise crítica não significa necessariamente descrer. Analisar criticamente é simplesmente averiguar se (a) o que alguém diz (no caso, White) flui de princípios bíblicos e se (b) a nossa interpretação inicial do que alguém diz está de acordo com os contextos dos quais emergem o conteúdo dito. Se cremos, por antecipação, em Ellen White e essa crença for verdadeira, a averiguação apenas confirmará aquilo que nós já professamos. Como White diz:

“Se toda a ideia que temos defendido em matéria de doutrina for verdade, não deve a verdade suportar a investigação? Ela balançará e cairá se for criticada? Se for assim, que ela caia, quanto mais cedo melhor. O espírito que fecha a porta para a investigação cristã dos pontos da verdade não é o Espírito que vem do alto” (EGW a WMH, 9 de Dezembro de 1888).

E ainda:

“Examinem cuidadosamente as Escrituras para ver o que é a verdade. A verdade não perde nada para a investigação minuciosa. Que a Palavra de Deus fale por si mesma, que ela seja sua própria intérprete” (EGW aos Irmãos, 5 de Agosto de 1888).

Diante desses textos, fica claro que citar passagens isoladas de Ellen White para condenar doutrinariamente gêneros literários, jogos e as mais diversas atividades que a Bíblia não condena é matar a um só tempo a Sola Scriptura, a razão, o bom senso, a interpretação contextualizada e os próprios conselhos de Ellen White. É um conjunto grande demais de erros para a Igreja simplesmente fechar os olhos. São erros que devem ser fortemente combatidos pelo bem da sã doutrina.

E então voltamos à questão do Diabo. Talvez sentado em uma cadeira de balanço, sem mais muito trabalho para fazer, Satanás recebe das mãos de certos adventistas e crentes em geral todas as coisas. Tudo passa a ser “do Diabo” e “do mundo”. De outro lado, esse tipo de crente entre numa bolha, perde a capacidade de examinar de tudo e reter o que é bom (I Ts 5:21) e, como resultado, não cresce intelectual e espiritualmente. De quebra, é visto como doido pelos irmãos da fé e gera um mau testemunho. Nas palavras de um amigo meu, adventista também, “formam uma religião de malucos”. Mais que isso, formam uma fé onde quase tudo é proibido, menos interpretar da maneira mais rasa quanto possível a Bíblia, todos as outras literaturas e toda a realidade.

Um pouco mais de sagacidade poderia impedir que Satanás tomasse para si coisas que não são dele e que podemos utilizar dentro dos princípios bíblicos. A sagacidade também poderia impedir a formação de crentes sinceros com aparência de santidade, mas que praticam violência contra as regras básicas de interpretação de texto e de toda a realidade. Eles aprenderam assim e não houve quem os orientasse corretamente. Faltou sagacidade por parte da Igreja, líderes e leigos mais instruídos. Foi Jesus quem notou, afinal, que os filhos das trevas têm sido mais espertos que os filhos da luz (Lc 16:8). A constatação não foi um elogio aos cristãos. Foi uma bronca.