Por Davi Caldas

Há alguns dias postamos em nossa página no Facebook um trecho de uma recente entrevista do rev. Ageu Cirilo de Magalhães Jr. no programa televisivo “Vejam Só”. O trecho gera reflexões e questionamentos interessantes a respeito do tema “guarda do domingo”. Ageu é calvinista e ministro da Igreja Presbiteriana. Como um bom calvinista, tem uma visão positiva o decálogo (os dez mandamentos). E tendendo para o pensamento dos antigos puritanos, tem uma visão do quarto mandamento como ainda válido em sua essência, porém cumprido agora no primeiro dia da semana, o chamado domingo.

Como pode ser visto no vídeo, Ageu entende que a pandemia do Coronavírus pode ser uma espécie de disciplina de Deus sobre o mundo e uma das razões possíveis elencadas é o descumprimento da guarda do domingo. Para Ageu, esse é um mandamento de fato e nós, cristãos protestantes/evangélicos deveríamos guardá-lo assim como até o século 18 e 19 era comum entre a maioria dos protestantes. Ele também alude brevemente ao fato de que Deus santificou o sétimo dia na criação e que Jesus, tendo dito ser o Senhor do sábado, pode mudar esse dia. Por essa razão, ele conclui, a Igreja passou a guardar o primeiro dia da semana (domingo). Aqui vão algumas considerações:

(1) Uma vez que não há nenhuma passagem bíblica que ordena a guarda do domingo, mas sim o sábado, por que seria herético guardar e ensinar a guarda do sábado para as pessoas? Muitos presbiterianos e calvinistas incluem no rol de heresias “a guarda do sábado”. Não sei se é o caso do reverendo Ageu. Mas mesmo que não seja, fica no ar a questão: por que o domingo e não o sábado, se não há base bíblica para o primeiro, mas há para o segundo?

(2) Note que o argumento do rev. Ageu de que Jesus pode mudar e mudou o sábado para o domingo porque é “o Senhor do Sábado” (Mt 12:8; Mc 2:28; Lc 6:5) falha do ponto de vista lógico e do ponto de vista exegético. Do ponto de vista lógico, para que esse argumento fosse sustentável seria necessário mostrar uma passagem bíblica em que Cristo dissesse que fez essa mudança ou que algum apóstolo fizesse tal afirmação. Como essa passagem não existe, a mudança só pode ter sido feita pelas gerações posteriores aos apóstolos. Nesse sentido, não há uma relação lógica entre “Jesus pode” e “a Igreja passou a fazer”.

Do ponto de vista exegético, as passagens em que Jesus diz ser “o Senhor do Sábado” expressam não a autoridade para mudar o sábado, mas a autoridade para dizer como o sábado deveria ser guardado. É questão de contexto.

Podemos adicionar aqui ainda o ponto de vista teológico: Jesus encarnou para ser um homem judeu perfeito na Lei do Senhor. A expressão “Senhor do Sábado”, portanto, nunca poderia ser usada em relação a uma suposta atitude de modifica as leis de Deus. Ademais, o Deus judaico-cristão se difere dos falsos deuses pagãos justamente por ser um Deus que estabelece leis e as faz cumprir. O sol “nasce” e “se põe” todos os dias. As quatro fases da lua se sucedem ciclicamente sem cessar. Yahweh não é um deus pagão que age de modo arbitrário, passional e sem padrão. Assim, não se encaixa com Jesus uma postura de modificar algo que já estava definido na Lei e, antes disso, na criação.

Pesa aqui ainda fato de que o sábado implica uma continuidade entre Deus Criador retratado no Antigo Testamento e Deus Criador retratado no Novo Testamento. O que nos indica que estes são retratos de um mesmo Deus, que Jesus é o mesmo Criador de Gênesis e o mesmo Redentor de Israel, é o sábado. A substituição do sábado pelo primeiro dia da semana estabelece uma quebra nesse esquema. O que se espera do Senhor do Sábado – uma referência ao próprio Yahweh, no Antigo Testamento, a quem o Sábado pertencia (Êx 16:23-25, 20:10; Lv 23:3; Dt 5:14; ver também Êx 31:13; Lv 19:3; Is 56:4; Ez 20:12-24) não é que Ele o quebre, mas que Ele mostre melhor que os demais o verdadeiro cumprimento.

(3) Não foi citado no vídeo, mas os argumentos comumente usados de que apóstolos guardaram o domingo em Atos 20:7 e em I Co 16:2 são extremamente frágeis, pois tais passagens não dizem que o primeiro dia estava sendo santificado/guardado. Além do mais, há boas razões para se pensar que a reunião de Atos 20:7 foi uma extensão de reuniões ocorridas ao longo do sábado, já que, pela contagem bíblica e judaica, os dias terminam ao pôr do sol, começando assim a parte escura do próximo dia. Assim, o dia narrado ali provavelmente era o que hoje entendemos como sábado à noite. Paulo, como bom judeu, marcara sua viagem para o primeiro dia depois do sábado e pela manhã, pois as coisas funcionavam na parte clara do dia. Já I Co 16:2 provavelmente menciona o primeiro dia por uma questão de ciclo econômico. O primeiro dia da semana era o primeiro dia de trabalho. Muitas pessoas ganhavam por diária. Portanto, era um dia adequado para separar dinheiro para ofertas.

(4) Sem nenhuma base bíblica para a guarda do domingo, o que sobra é mera tradição. E isso não deixa de ser curioso, já que o reverendo Ageu é um reformado. Conquanto a tradição tenha a sua importância, ela jamais deveria ser fundamento para doutrina. É isso o que difere ou, pelo menos, deveria diferir católicos de reformados. Por outro lado, aqueles que não santificam nem o domingo nem o sábado acabam por também incorrer em erro semelhante, já que passam por cima de Gênesis 2:1-3 (como bem aludiu o reverendo Ageu) e literalmente invalidam um dos nove mandamentos do decálogo. E ainda por outro lado, aqueles que creem que somos livres para escolher um dia qualquer entre sete também escapam ao que a Bíblia diz, já que ela não dá margem alguma para que o dia semanal de descanso seja escolhido segundo nossa vontade.

Ou seja, há que se concordar com o reverendo Ageu: o mundo cristão deveria se voltar para o quarto mandamento. Mas há também que se discordar do reverendo Ageu: o dia bíblico de guarda não é o domingo, mas o sábado.

(5) Passagens como Romanos 14:5-6, Gálatas 4:8-11 e Colossenses 2:16-17 são comumente usadas pela maioria dos protestantes e até católicos para desqualificar a guarda do sábado. Mesmo Romanos 14 não falando de leis, mas de costumes (o que exclui o sábado), e Gálatas e Colossenses focando não na guarda do sábado em si, mas em sistemas corrompidos por idolatria, ascetismo, legalismo, gnosticismo e outros problemas, o padrão é essas passagens serem usadas. No entanto, por que o domingo não poderia ser atacado por essas mesmas passagens? O que parece é que, pelo menos por parte de alguns cristãos que guardam o domingo, existe um duplo padrão de interpretação. E pelos que não guardam, parece (pelo menos na minha experiência) que um guardador do domingo é mais tolerável do que um guardador do sábado. Por quê?

(6) Se um cristão sabatista dissesse o que o reverendo Ageu disse – que Deus talvez esteja disciplinando o povo para que haja retorno aos seus mandamentos, incluindo o quarto –, esse pensamento seria visto como tolerável pelos presbiterianos, calvinistas em geral e demais protestantes? Ou seria visto como uma enorme heresia? E o que o reverendo Ageu disse é considerado pelos presbiterianos, calvinistas em geral e demais protestantes como algo correto, tolerável ou herético? É interessante saber se há dois pesos e duas medidas ou não.

(7) Se milhares de líderes mais conservadores como o reverendo Ageu começarem a sustentar esse argumento de que Deus está enviando correções ao mundo por causa da transgressão ao domingo, como os cristãos sabatistas passarão a ser vistos? Afinal, se Deus está irado porque o domingo não está sendo guardado pelo povo cristão, os sabatistas são duplamente culpados: não só não guardam o domingo como ensinam que o dia certo a ser guardado é o sábado. Logo, por essa ótica, o avanço do sabatismo no mundo seria uma desgraça para todos, trazendo a ira de Deus. Será que o reverendo Ageu concordaria com esse pensamento? Será que mais pessoas concordariam? É para onde a lógica leva.

Nota 1: as reflexões aqui propostas não são uma tentativa de defesa do adventismo. O tema é especificamente o sábado. Existem outras denominações cristãs que guardam o sábado. A mais antiga em funcionamento hoje é a dos batistas do sétimo dia, a qual surgiu em 1654, na Inglaterra. O sábado é uma doutrina bíblica e deve ser interpretado e discutido à luz da Bíblia, não à luz do adventismo ou qualquer outro movimento.

Nota 2: este post não é um ataque nem à pessoa, nem ao trabalho do reverendo Ageu, que parece ser um cristão sincero, temente a Deus e que tem colaborado para a pregação do evangelho. Desejamos que Deus o abençoe e continue guiando-o em seu ministério.