Por Davi Caldas

De vez em quando algumas pessoas acusam a página Reação Adventista de pregar ideias da direita política. Para essas pessoas, o intuito da página seria cooptar o evangelho para o lado direito do espectro político. O problema dessa alegação é que ela acaba apontando como “ideias da direita política” alguns princípios que são primeiramente cristãos (como se a direita pudesse se apoderar de determinados posicionamentos cristãos, tornando-os exclusividade de direitistas). Vejamos alguns exemplos.

1) Posição Pró-Vida: Biblicamente, a vida começa na concepção. E do ponto de vista do raciocínio lógica, não faz sentido separar a vida do embrião em fases para dizer a partir de qual ponto ele é uma pessoa. Se é uma vida humana, é uma pessoa. Isso implica que aborto é matar um ser humano inocente. Logo, é uma posição cristã ser contra o aborto.

O que isso tem a ver com direita política? A princípio, nada! É perfeitamente possível ser contra o aborto apenas e tão-somente por ser cristão. É possível, inclusive, ser de contra o aborto e de esquerda. Há uma página no Facebook, só a titulo de exemplo, que se chama “Esquerda Pró-Vida“. É uma página de esquerda (de verdade) que é contra o aborto. Há vários cristãos mais inclinados à esquerda no campo econômico que também são contra o aborto.

No entanto, o que o crítico faz? Diz que o Reação é contra o aborto porque é uma página de direita. Ou ainda: que o Reação é de direita porque é contra o aborto. Mas amigo, a razão é bíblica, não política.

2) Posição contra o socialismo marxista: O socialismo marxista ortodoxo postula que (a) Deus e as religiões são ficções inventadas pelo homem e que servem para alienação do povo; que (b) a propriedade privada dos bens de produção é o grande gerador de injustiças no mundo e, portanto, deve ser abolida para que o mundo seja justo; (c) que o Estado, numa fase de transição para uma sociedade sem classes, deve dominar todos os meios de produção e toda a vida comunitária, usando de poderes despóticos para o suposto bem do povo. Biblicamente, nenhuma dessas posições se sustenta. Logo, é uma posição cristã ser contra o socialismo marxista ortodoxo. Ainda mais levando-se em conta que os regimes socialistas marxistas reprimiram religião e religiosos ao longo do século 20, perseguindo, inclusive, muitos cristãos.

O que isso tem a ver com direita política? A princípio, nada! É perfeitamente possível ser contra o socialismo marxista apenas e tão-somente por ser cristão. Na verdade, espera-se que o cristão não defenda nenhum regime totalitário, autoritário ou ditatorial, pois tais regimes levam à banalização da vida humana e a destruição dos direitos fundamentais. Então, nazismo, fascismo, franquismo, diferentes tipos de socialismo, pinochetismo, etc. não são regimes a serem defendidos por quem crê na Bíblia. Isso não é, ou pelo menos não deveria ser, uma posição exclusiva da direita ou da esquerda, mas de todo aquele que defende um Estado democrático de direito.

No entanto, o que o crítico faz? Diz que o Reação é contra o o socialismo marxista porque é uma página de direita. Ou ainda: que o Reação é de direita porque é contra o marxismo. Mas amigo, a razão é bíblica, não política.

3) Posição contra o feminismo moderno (segunda e terceira ondas): O feminismo de primeira onda e os movimentos que antecederam a primeira onda (lá pelos séculos 18 e 19) contaram com muitas mulheres cristãs verdadeiras. Em geral, elas não eram favoráveis a aborto, não entendiam a religião como um problema, não incentivavam uma vida promíscua para mulheres, não adotavam um discurso negativo generalista em relação aos homens e faziam do evangelho a sua força motriz para ajudar as mulheres de seu tempo. Elas lutaram por direitos e contra leis e posturas na sociedade que expunham a mulher à maus tratos e abuso. Algumas delas libertaram moças da prostituição, dando a elas oportunidade de vida nova.

A segunda e a terceira onda, no entanto, passaram a focar numa cruzada contra a religião (em especial a fé cristã), estimular a promiscuidade feminina, lutar contra a família e a maternidade, defender o aborto, incentivar divórcios, criar um discurso de ódio generalizado aos homens e, claro, cooptar o feminismo para o marxismo e a esquerda política (como se lutar pelas mulheres fosse algo exclusivo de esquerdistas e marxistas).

Diante desse histórico, está claro que um cristão não deveria abraçar e defender o feminismo moderno (segunda e terceira ondas), mas procurar resgatar um movimento pró-mulher mais cristão, mais bíblico e mais parecido com o feminismo ou pré-feminismo original (primeira onda). O que isso tem a ver com direita política? A princípio, nada! É perfeitamente possível ser contra o feminismo moderno apenas e tão-somente por ser cristão. E não vemos qualquer contradição em uma pessoa ter posições mais à esquerda e, no entanto, discorda do modus operandi do feminismo moderno. Não é preciso sequer ser religioso para isso. A intelectual Camille Pagie, por exemplo, é ateísta e lésbica. Apesar disso, ela tem feito duras críticas ao movimento feminista atual. Há uma ótima entrevista dela no Roda Viva a respeito disso.

No entanto, o que o crítico faz? Diz que o Reação é contra o feminismo moderno porque é uma página de direita. Ou ainda: que o Reação é de direita porque é contra o feminismo moderno. Mas amigo, a razão é bíblica, não política.

Ora, se o termo “de direita” tiver conotação teológica, não política, então até faz sentido dizer que o Reação é de direita. É possível falar em uma direita teológica (mais conservadora, mais voltada aos fundamentos bíblicos) e uma esquerda teológica (mais liberal/progressista, mais voltada para uma atualização dos fundamentos). De fato, quando criamos a página, há quatro anos, fizemos essa associação do termo entre os administradores. E provavelmente muita gente faz. Direita se tornou, ao longo do tempo, uma palavra intercambiável com “conservador” e “reacionário”. Então, é fácil ligar uma coisa à outra. Mas politicamente a página não é de direita. E por uma razão simples: a página não é de análise política, mas de análise teológica.

Para deixar isso mais claro: se você pesquisar nossos textos, não encontrará um posicionamento do Reação Adventista em relação ao governo Dilma, ao seu impeachment, ao governo Temer, às eleições de 2018, ao governo Bolsonaro, etc. Não encontrará posicionamento específico em relação a partidos políticos, candidatos e o desempenho de governantes no exercício do mandato. Como página, não nos importamos em quem você vota ou deixa de votar, se você pensa que o governo deve ser mais liberal ou mais social-democrata, se você é monarquista ou republicano, se concorda com o governo atual ou se discorda. Nós nos importamos sim com o que você tem crido e ensinado em matéria de teologia.

Quando a política invade o campo da teologia e ataca ou adultera a Bíblia e o evangelho, aí nós nos importamos. E isso pode acontecer na esquerda e na direita. Por exemplo, já publicamos meia dúzia de textos falando contra a idolatria política, um fenômeno que pode atingir direitistas e esquerdistas. Messianismo político é uma tragédia, um horror, um pecado. Não importa se o político é de direita ou de esquerda. Há pessoas hoje que idolatram Bolsonaro. Para elas, ele é incriticável e a salvação do país. Há pessoas que idolatravam e idolatram até hoje o Lula. Para elas, ele é impecável e a redenção do nosso povo. Independente de qual seja o caráter de cada um (não é esse o ponto e a página não está interessada em dissecar sobre isso), idolatria é pecado. Ponto. Aqui é apenas o óbvio.

É preciso parar de politizar tudo. E é preciso entender que nem tudo o que hoje é pauta política é exclusivamente ou primariamente política. Quando discutimos se o feto/embrião é uma vida, isso não é, em primeiro lugar, um tema político. É um tema moral. Se o feto/embrião é vida, abortar é assassinar. Ponto. É questão de direitos humanos. E direitos humanos é parte integrante da teologia.

Por falar em direitos humanos, aqui deve ficar claro que pautas geralmente identificadas com a esquerda também não são primariamente de esquerda. Criticar atos de violência policial desmedida, atos de racismo, atos de violência contra a mulher ou homossexuais, ou defender que o Estado auxilie pessoas que estão na miséria enquanto elas não tem condições de “andar com as próprias pernas”, são pautas cristãs. Pode-se discutir o modo como esses problemas devem ser enfrentados. E aqui geralmente direitistas e esquerdistas discordam. Mas os temas em si não são nem da direita, nem da esquerda. São problemas reais com os quais um verdadeiro cristão deve se preocupar e os quais um verdadeiro cristão deve lidar em consonância com a Bíblia.

A Bíblia, neste caso, é o padrão para julgar as propostas de direita e esquerda. Se em um ponto X, as propostas de esquerda não ferem a Bíblia, sigamos. Se em um ponto Y, as propostas de direita não ferem a Bíblia, sigamos. Se em um ponto Z, a única proposta que não segue a Bíblia é uma de centro (nem esquerda, nem direita), sigamos. É a Bíblia quem deve determinar, não o espectro político.

Nosso papel como página, portanto, não é fazer análise política-econômica de governos atuais, partidos e políticos. Que isso fique com páginas que se especializaram nesse assunto. Nosso foco é teologia. Faça o teste. Olhe nossas postagens. Você encontrará no blog textos sobre Sola Scriptura, interpretação da Bíblia, pregação expositiva, argumentos para a existência de Deus, fé e razão, cultura e espiritualidade, doutrinas distintivas da IASD, etc. A proposta é e sempre foi trazer boa teologia, teologia de qualidade, salvaguardando o evangelho verdadeiro e aquilo que a Bíblia ensina. Não há espaço aqui para politizar o evangelho. São os críticos que muitas vezes acabam fazendo isso ao identificar posições bíblicas primariamente como pautas políticas. Que Deus livre o leitor desse vício. Amém!