Por Davi Caldas

A página que citamos no último post – aquela que afirma não ter a Bíblia como bússola moral, mas sim Jesus – respondeu às nossas ponderações em um texto. O print mais interessante, que não poderia faltar aqui, é esse:

Bússula Moral 2

Segue abaixo nossa resposta a alguns trechos mais interessantes. Entre aspas, depois do número, sempre o trecho deles. Abaixo, nossas respostas.

(1) “Aparentemente, é um absurdo dizer que Jesus é maior que o Livro. Que Ele não é refém do Livro. Para os ‘bibliólatras’, se Ele contrariar o ‘Livro’, é um herege”.

Poucas coisas na vida são mais compensadoras que ser chamado de “bibliólatra” por quem relativiza ou minimiza o Livro Sagrado. É sinal de estar trilhando o caminho certo. Fica aqui nossa gratidão pela alcunha.

Sobre a ideia de que Jesus contrariar o Livro seria heresia, não fomos nós que dissemos, mas o próprio Jesus:

“Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5:17-20).

E Jesus estava seguindo a Bíblia ao dizer isso. Em Isaías 8:20, por exemplo, a resposta aos necromantes (que não eram cativos à Palavra de Deus) era: “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva”.

(2) “Fica a questão: devemos seguir TODA a Bíblia? Como identificar os textos bíblicos que estão em vigência, que são relevantes, que devem ser seguidos ou não? Simples: usando Jesus como parâmetro!”.

Sim, devemos usar Jesus como parâmetro. E Jesus usou o que como parâmetro? As próprias Escrituras, interpretadas dentro das regras lógicas de interpretação. Pense na resposta que ele deu a Satanás, no evento da tentação, por exemplo. O método de Jesus está ali (Mt 4:5-7).

(3) “Todos os escritos bíblicos devem ser lidos e compreendidos sob o contexto histórico sob o qual eles foram escritos. É por isso que existe história, teologia, exegese, hermenêutica, estudos de língua hebraica, de língua grega e etc. Sendo Jesus Cristo, a grande ‘Chave Hermenêutica’ de compreensão. É nEle que tudo se converge e faz sentido. Ele é o centro da Bíblia”.

Ora, mas se todos os escritos bíblicos devem ser lidos e compreendidos sob o contexto histórico sob o qual eles foram escritos (e não só sob o contexto histórico, mas o temático, o linguistico, o estilistico, o teológico, o moral e o lógico), então a “chave hermenêutica”, isto é, a chave para interpretar a Bíblia são os contextos. E é claro que a interpretação feita dentro dos contextos sempre apontarão para Jesus.

O problema do intérprete mais liberal/progressista é que geralmente “Jesus como chave hermenêutica” é apenas uma cortina de fumaça para ignorar os contextos quando convém, apelando para o que ele julga ser o “espírito de Jesus”. Algo assim: “Eu acho que Jesus não aprovaria falar contra a postura X. Não seria amoroso. Logo, é assim que a Bíblia deve ser interpretada”. Aqui a chave hermenêutica não é Jesus, mas a visão própria que o intérprete tem de Jesus.

E veja: sem contexto, cada um tem o Jesus que quiser. Sem contexto, Jesus pode ser socialista, capitalista, de esquerda, de direita, anarquista, revolucionário, subversivo, reacionário, conservador, republicano, democrata, petista, bolsonarista, monarquista, absolutista, branco, negro, ariano, feminista, machista, racista, gay, homofóbico, xenófobo, relativista, gnóstico, adventista, católico, ortodoxo, protestante, espírita, etc. Tem Jesus Cristo para todos os gostos. Mas nenhum desses é o Jesus real, registrado na Bíblia e interpretado corretamente apenas por meio de análise minuciosa dos contextos.

(4) “A própria Bíblia declara quem é, de fato, a Palavra de Deus. Portanto, a Bíblia por si só, não é a palavra de Deus, mas ela CONTÉM a Palavra de Deus, que é o Verbo Encarnado (Palavra) – Jesus. (João 1:1-17)”.

A Bíblia tanto fala de Jesus como a Palavra de Deus como fala da palavra escrita/falada de Deus. Leiamos, por exemplo, a oração sacerdotal de Jesus:

“Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste, e guardaram a tua palavra” (Jo 17:6).

“Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo” (Jo 17:14).

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).

Ou ainda a resposta de Jesus à Satanás:

“Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4:4).

(5) “Vejamos alguns exemplos de conflitos entre a Torah e JESUS: ‘Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal […]’.

‘Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem, para que sejais filhos do Pai que está nos céus […]’ (Mt 5:38-42).

Onde está localizado este ‘ouvistes o que foi dito?’ – certamente na Torah. E Jesus declara: ‘EU PORÉM VOS DIGO’, trazendo, ou aperfeiçoamento no entendimento, ou a anulação de uma lei, como é o caso da Lei do Talião. E então? Você escolhe seguir ‘A Bíblia’, no que se refere a Lei do Talião, ou a Jesus?”.

A interpretação tosca da página comprova o que falamos sobre ignorar contextos. Em primeiro lugar, “ouvistes que foi dito” não está localizado na Torah. Quando Jesus se referia a Torah, usava a expressão “Está Escrito”. A expressão “ouvistes que foi dito” se refere à tradição oral. Jesus estava se opondo à interpretações errôneas das Escrituras que eram comuns naquela época. Tanto é assim que o mandamento “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” existe na Torah (Lv 19:17-18), mas o complemento “e aborrecerás o teu inimigo” não existe.

Em segundo lugar, o ensino de Jesus sobre não se vingar foi retirado sabe de onde? Das Escrituras. Leia, por exemplo, Provérbios 25:21-22: “Se o que te aborrece tiver fome, dá-lhe pão para comer; se tiver sede, dá-lhe água para beber, porque assim amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça, e o Senhor te retribuirá”.

Em terceiro lugar, a Lei de Talião não era um princípio para ser usado por qualquer um como vingança. Os textos do AT mostram que o principio era jurídico e só poderia ser aplicado por juízes, após um julgamento formal (Dt 19:15-21; Lv 24:20; Êx 21:24). A distorção da Lei estava na ideia popular de que ela servia como principio moral pessoal, isto é, como justificativa para vingança e justiça com as próprias mãos.

Então, quem escolhemos seguir? A Bíblia e Jesus, pois Jesus interpretava a Bíblia de modo correto, diferentemente da página a qual estamos respondendo.

A página continua citando o caso da mulher adúltera em João 8 e pontua:

“Alguns argumentam que Jesus só não condenou a mulher pois, de acordo com a lei, o homem que também adulterou, deveria estar presente para a sentença. O que é absurdo. É como afirmar: se os dois estivessem ali, Jesus apoiaria o apedrejamento. Você acha que sim?

A reação do Mestre, que é a Justiça em pessoa, é impressionante. Em nenhum momento saem de sua boca palavras de condenação, mas de perdão e misericórdia, com uma suavidade que convida gentilmente à conversão: ‘Eu também não te condeno’”.

Antes de responder essa, três pontos devem ser destacados aqui.

Primeiro: leis civis/penais são, por natureza, contextuais. Os legisladores, no geral, podem legitimamente suspendê-las, modificá-las ou restringir sua aplicação a um contexto específico. Podem, inclusive, criá-las já com prazo de validade, de modo que sua aplicação findará quando a validade acabar. E nisso a Lei estará sendo cumprida. Com Deus não é diferente. Ora, uma vez que Israel foi formado com a intenção de ser uma ferramenta para abençoar o mundo (Gn 12:1-3) e que grande parte de suas leis só eram aplicáveis como leis antes de Cristo, pois eram parábolas (Hb 9:9-10), é razoável concluir que a própria teocracia judaica tinha prazo de validade. Se este é o caso, então não aplicar suas condenações após o prazo não deixa de ser seguir a Lei.

Segundo: leis civis/penais são, por natureza, para humanos. Deus, não sendo humano, não está obrigado a segui-las. Elas não são parte do seu caráter (como é o caso das leis morais). Assim, em determinadas situações, Deus pode suspender uma lei civil/penal por entender ser esse o melhor para o momento. Nisso também não há contradição com a Bíblia, posto que a natureza das leis civis é distinta das leis morais. Por exemplo, Deus não pode mentir (suspensão de lei moral). Mas pode oferecer perdão civil para uma pessoa se assim desejar (suspensão de lei civil). Se uma lei é mutável, seu Legislador pode mudá-la.

Terceiro: Jesus, embora seja divino em sua essência, veio à Terra como homem. E sua missão era viver e morrer como homem perfeito. Mais precisamente como um homem judeu perfeito. Logo, Jesus estava debaixo de todas as leis que lhe eram aplicáveis na Torah. Andar fora da Torah seria contradizer sua missão.

Destacados esses pontos, vamos à postura de Jesus. Sim, uma das razões para Jesus não apedrejar a mulher foi o fato de que o homem não foi levado também. A Lei ordenava apedrejar os dois. Se só havia a mulher, o julgamento era inválido. Mas mesmo que o homem tivesse sido levado, havia outra questão em jogo: Jesus não era juiz no sentido terreno. Ele sequer era um rabino no sentido formal. Israel, por sua vez, não tinha mais juízes civis com poder de condenação à morte, pois estava sob domínio de Roma. Ora, se não havia juízes, não poderia haver condenações. Então, tecnicamente, operar juízos civis estava proibido para qualquer cidadão judeu. Jesus, sendo fiel à Lei, não poderia fazer um julgamento sem ser juiz.

Se considerarmos ainda que essa situação era providencial, já que Deus pretendia não restaurar o sistema teocrático, então Jesus não só estava cumprindo a Lei ao não fazer o julgamento de qualquer maneira, mas também cumprindo a vontade de Deus de findar o contexto da teocracia. Parece reforçar essa interpretação o conceito de Jesus de dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. O domínio romano era um marco de Deus para o fim da teocracia judaica. E o fato de Jesus não assumir o trono terreno dá à teocracia uma natureza temporária e contextual mesmo.

E então? Ficamos com Jesus ou com a Bíblia? Com os dois.

(6) “Respondendo as perguntas: devemos seguir TODA a Bíblia? Como identificar os textos bíblicos que estão em vigência, que são relevantes, que devem ser seguidos ou não?

Tudo aquilo que for EVANGELHO, isto é, que estiver de acordo com o ESPÍRITO DE JESUS, com as palavras de Jesus, ensinos de Jesus, posturas de Jesus, ações de Jesus – é válido e deve ser seguido”.

E como definimos aquilo que está de acordo com o espírito de Jesus? Esse é o pulo do gato. Seria pela análise minuciosa dos contextos de TODA a Bíblia, independente do resultado nos agradar? Ou seria a partir de uma “eisegese” descarada, onde impomos aos textos as nossas próprias noções de amor, tolerância e misericórdia? Quem é a chave aqui realmente? O contexto (que sempre aponta para Cristo Jesus) ou nossas sensibilidades individuais? Para nós, o contexto impera.

Que a paz de Cristo esteja com os leitores.