Por Davi Caldas

Recentemente, chegou até nós o print de um comentário feito por uma página que tem como proposta produzir uma teologia adventista alinhada com algumas pautas progressistas. Anos atrás, essa mesma página produziu uma série de posts defendendo que a prática homossexual não é pecado, o que refutamos aqui. O referido comentário traz uma ideia, no mínimo, perigosa. Vejamos:

Bússula Moral

A ideia exposta nesse comentário não é nova, nem surgiu dos meios adventistas. Ela é uma versão do conceito de Jesus como “chave hermenêutica” da Bíblia, muito adotado por cristãos mais liberais/progressistas.

O nome é bonito. Dá a impressão de ser um princípio interpretativo onde Jesus é colocado no centro. Faz lembrar a passagem de João 5:39, onde Cristo diz que toda a Escritura testifica dele. Em resumo, o conceito consiste em julgar todas as coisas, incluindo a Bíblia, a partir do que seria o “espírito de Jesus” – espírito aqui no sentido de modo de pensar e agir. Algo como sempre se perguntar: “O que Jesus faria/pensaria em relação a X?”. Dependendo da resposta, até trechos da própria Bíblia podem ser colocados em cheque. Na verdade, a tendência de quem adota esse método é gradualmente avançar para uma visão cada vez mais relativista das Escrituras.

O problema central desse tipo de teologia é evidente: o “espírito de Jesus” é sempre aquilo que o intérprete acha correto. Se o intérprete pensa que X não combina com Jesus ou que Y combina com Jesus, então é isso o que vale. E será esse o padrão a julgar todas as coisas. Como o leitor pode perceber, o objetivismo de extrair o sentido das Escrituras a partir de regras lógicas de interpretação dá lugar ao subjetivismo de impor às Escrituras o sentido que nos parece mais belo e conveniente. No fim das contas, Jesus como “chave hermenêutica” acaba se tornando “eu mesmo como chave hermenêutica”.

Há outros dois problemas fundamentais nessa abordagem hermenêutica progressista. Primeiro: ela despreza o fato de que Jesus usava as Escrituras Sagradas e se guiava por elas. Todos os seus discursos e ensinos estavam pautados na Bíblia Hebraica, e suas principais ações eram cumprimento de profecias registradas nos livros sagrados judaicos.

Segundo: ela despreza que a própria história de Jesus e dos apóstolos, bem como seus ensinos principais estão registrados em um conjunto de documentos que foi acoplado à Bíblia Hebraica pelos cristãos do primeiro século, tornando-se a Bíblia cristã que temos hoje. Em outras palavras, a principal e mais confiável fonte a respeito de Jesus que nós temos é a Bíblia.

Sendo assim, separar Jesus das Escrituras, buscando usá-lo como “chave hermenêutica” é um erro crasso. Aliás, dentro das regras lógicas de interpretação, é principio básico que nenhuma parte das Escrituras deve ser usada de modo isolado para interpretar toda a Bíblia. Uma vez que a Bíblia é um todo coerente e inspirado, toda ela deve ser usada para interpretar cada uma de suas partes.

A página em questão provavelmente ainda não chegou ao ponto de considerar que algumas partes da Bíblia não são inspiradas. Mas já flerta com uma hermenêutica mais subjetivista e faz uso de uma exegese distorcida dos textos bíblicos que condenam práticas que ela apoia ou é conivente. Ainda que seus autores permaneçam na Igreja e crendo na total inspiração da Bíblia, o tipo de evangelho que tem criado levará muitos a moldarem suas interpretações da Bíblia com base em suas preferências, não em critérios lógicos e objetivos. As palavras de Paulo a Timóteo, pouco antes de ser martirizado, cabem bem aqui:

“Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério” (II Timóteo 4:1-5).