Por Davi Caldas

Na última postagem que escrevi, falei sobre uma discussão que tive com dois cristãos (adventistas também) que acusaram a mim e à página Reação Adventista de sermos apoiadores e idólatras de Bolsonaro. Um deles, de sobrenome Santos, resolveu escrever um texto em seu perfil sobre o ocorrido, a fim de explicar melhor sua posição. Eu fui lá respondê-lo em um comentário e trocamos pedidos de desculpas por possíveis ofensas um ao outro. Apesar disso, eu gostaria de deixar aqui registrados alguns esclarecimentos. Minha intenção não é atacar o Sr. Santos, nem abrir caminho para que outros o ataquem (motivo pelo qual não estou citando seu primeiro nome, nem expondo o link de seu texto). Quero apenas colocar alguns pingos nos i´s em respeito a quem segue o Reação Adventista.

Santos começa seu texto dizendo o seguinte:

“O socialismo é cheio de problemas? É.

Não discuto esse ponto.

Mas precisamos entender que esse discurso repetitivo na atual conjuntura coaduna com a abordagem da extrema-direita que luta em favor de um golpe de estado no Brasil. O bolsonarismo usa a desculpa que estamos na eminência de um golpe socialista para aterrorizar evangélicos. Uma mentira, pois não há esse perigo.

Apesar do Brasil ter ficado nas mãos desastrosas do PT por 13 anos, em nenhum momento os petistas cogitaram implantar uma ditadura socialista, portanto amendrontar a população dizendo que o socialismo é um perigo tornou-se terrorismo do bolsonarismo. Portanto, essa sequência de textos contra o socialismo em páginas cristãs, apesar de ter importância, se tornou um mantra em favor da extrema-direita. A crescente onda reacionária que pede a volta da ditadura militar também exige atos institucionais que acabem com direitos individuais e coletivos, querem o fechamento das intituições democráticas, como congresso nacional e supremo tribunal federal a fim de formar um governo que imponha uma agenda autoritária.

Diante deste quadro assustador que se desenha no país, a página Reação Adventista não se posiciona, mas replica constantemente o mesmo discurso terrorista dos reacionários que usam o medo do comunismo. Eles sabem que o Brasil está longe de ser comunista, pelo contrário, nosso governo namora com um golpe de extrema direita”.

O primeiro ponto problemático nesse texto é a afirmação de que a página Reação Adventista “replica constantemente o mesmo discurso terrorista dos reacionários que usam o medo do comunismo”. Fazendo uma regressão nas postagens do Reação, é possível perceber que o último texto que postamos sobre o socialismo foi no dia 08 de Abril de 2018! Tem dois anos e quatro meses que não postamos um texto sobre o socialismo. O texto em questão foi escrito por mim e é justamente o que o Leandro Quadros republicou recentemente, gerando toda a minha discussão com o Sr. Santos e o Sr. Lopes (como mencionei na última postagem). Ora, se tem quase dois anos e meio que não postamos sobre socialismo, como Santos pode dizer que replicamos um discurso terrorista sobre o comunismo constantemente?

Ademais, o texto que o Quadros compartilhou não fala sobre uma suposta ameaça de um golpe comunista no Brasil. O que digo no artigo é que as universidades possuem um alto grau de influência marxista. Falo isso com base em minha experiência própria de universitário, nas conversas com outros amigos universitários e em estudos. Essa influência leva muitos jovens a adotarem posturas e ideologias antibíblicas, e muitos jovens cristãos a saírem da igreja quando entram na universidade, ou importarem para a Igreja discursos e cosmovisões não-cristãs. Em nenhum momento, eu faço terrorismo dizendo algo como “o Brasil está prestes a sofrer um golpe comunista!”. Meu interesse, no texto, é teológico. O leitor pode conferir e tirar suas conclusões.

O segundo ponto problemático é que parece haver um anacronismo no texto. Santos diz que o bolsonarismo (isto é, o apoio acrítico e irrestrito ao presidente Bolsonaro) é um forte problema atual. Pessoalmente, concordo com ele nesse ponto. Mas ele também vai dizer que o Reação fortalece esse problema ao repetir constantemente o discurso de que o socialismo é problemático. Contudo, se nosso texto tem quase dois anos e meio, como nós estamos fortalecendo o bolsonarismo? Aliás, há quase dois anos e meio as eleições nem haviam ocorrido. Se já havia bolsonarismo, ele certamente era um tanto insipiente. Tanto que esse termo só começa a ser usado, salvo engano, depois que Jair Bolsonaro é eleito. O que me parece é que Santos não se atentou para a data do texto do Reação Adventista. Simplesmente julgou ser um texto novo e julgou que assim como o Leandro Quadros e outras páginas, nós temos feito uma série de textos sobre socialismo. É um erro grave de apuração.

Há um ponto no texto que não chega a ser problemático, mas uma dúvida sincera minha. Santos afirma que a crescente onda reacionária pede volta da ditadura militar, fechamento das instituições democráticas, etc. Sem dúvida, eu já vi gente defendendo essas coisas. Mas não muita gente. Conquanto eu não duvide que, nos últimos meses, o número de pessoas adotando discurso autoritário tenha aumentado bastante em função da crescente idolatria política, não tenho como mensurar isso.

Até porque eu comecei a cansar de política tem uns dois anos. E parei de acompanhar há mais de um ano. Então, eu realmente não sei muito do que se passa, exceto pelo que ouço falar por parte de amigos. Como metade de meus amigos apóia Bolsonaro e a outra metade reprova, não tenho como avaliar bem quem está com a razão em cada tema, exceto se eu voltar a me aprofundar no estudo do cotidiano político. E eu não tenho a menor disposição mais para isso. Assim, eu realmente não sei dizer se a proporção de gente pedindo ditadura e fechamento do congresso é gigante ou é ínfima. Isso explica, em parte, porque nunca abordei esse tema no Reação.

Pode ser uma falha minha não acompanhar mais política. E se eu tiver de ser execrado por algo, pode ser por isso. Assumo meu desinteresse. Falei sobre política de modo intenso durante quatro anos da minha vida (enquanto eu estava na faculdade). Isso me saturou de tal maneira que não consigo mais estudar e debater o tema como antes. Além disso, o meu caso com a política sempre teve raiz teológica. Eu passei a gostar de política quando descobri que a raiz de alguns desvios teológicos (tais como fé no ser humano, fé no Estado redentor, ateísmo militante, Teologia da Libertação, Teologia da Missão Integral, Evangelho Social, etc.) muitas vezes surgiam de algumas ideologias políticas. Eu passei, então, a combater essas ideologias e me aprofundar em política motivação teológica. A política cotidiana/partidária em si nunca foi minha paixão genuína e, na medida em que ela começou a se tornar mais forte nos meus círculos pessoais, meu interesse político passou a se reduzir. Restou o bom e velho interesse teológico.

O reflexo do meu crescente desinteresse por política pode ser visto na própria trajetória do Reação. Nos últimos dois anos, a maioria esmagadora das postagens que fiz foi sobre temas teológicos sem relação alguma política. Some a esse desinteresse por política, o meu interesse original de fazer do Reação Adventista um centro difusor de teologia de qualidade. Eu ajudei a fundar o Reação com isso em mente. Eu não queria apenas combater más filosofias que tiravam jovens da Igreja ou deturpavam o evangelho. Eu queria oferecer base teológica sólida para esses jovens. Queria ensinar argumentos para a existência de Deus, evidências da veracidade da Bíblia, explicações sobre textos difíceis da Bíblia, regras básicas de interpretação, conhecimento histórico a respeito da formação do Cânon, etc. Eu queria dar erudição cristã, indicação de livros, leitura de qualidade. Ajudar os jovens a formarem uma cosmovisão cristã sobre tudo. Mostrar, finalmente, que há racionalidade na fé cristã. O resultado era inevitável: a análise e a crítica de ideologias políticas teriam menos lugar nos meus textos.

Creio que consegui alcançar êxito no meu plano. O Reação se tornou uma página de teologia de qualidade. Ao longo dos últimos dois anos, tiramos muitas dúvidas bíblicas de leitores, ajudamos gente a voltar para a Igreja, colaboramos para a decisão de alguns de se batizarem. Formamos um grupo muito prazeroso no Facebook, onde vários bons teólogos e leigos estudiosos compartilham textos, análises, dúvidas e conhecimento. Eu mesmo ganhei muito com isso.

Digo tudo isso para enfatizar que o Reação não é uma página política, embora tenha falado bastante contra o marxismo nos anos de 2016 e 2017. A motivação sempre foi teológica e os textos sobre marxismo deixaram, há tempos, de fazer parte de nosso tema central. Então, se hoje não falo sobre temas mais relacionados com a política que talvez alguns achem cruciais, em parte, é por isso. Eu estou literalmente desatualizado em relação a muita coisa da política cotidiana, e focando muito mais em teologia. É uma possibilidade que milhões de pessoas estejam clamando por uma ditadura e eu não saiba porque deixei de estudar e acompanhar a fundo essas coisas. Posso assumir essa culpa sem problema. Por outro lado, ao menos no meu círculo de conhecidos, não vejo isso.

Outro ponto que acelerou meu desinteresse em falar de política foi o enorme fluxo de informações opostas umas às outras publicadas por parte de meus amigos e conhecidos. no Facebook. Eu simplesmente não tenho tempo, nem condições mentais de ficar avaliando os argumentos dos dois lados, fazendo pesquisa, refletindo e discutindo na internet esses temas. Então, para o bem da minha sanidade mental e meu foco em temas mais teológicos, eu preferi não pensar mais em política.

Santos, no restante do seu texto, questiona porque o Reação não se posicionou em relação a diversas barbaridades que Bolsonaro disse ao longo dos anos, mesmo antes de ser presidente. De fato, olhando em retrospecto, penso que eu poderia ter feito textos a respeito de algumas falas mais absurdas. Por que eu não fiz? É difícil dizer com certeza, visto que não foi nada pensado conscientemente. Mas creio que eu não escrevi nada sobre essas falas por pelo menos duas razões.

Primeira: o bolsonarismo não existia no início do Reação Adventista. Iniciamos nossas atividades em julho de 2016. Estávamos focados em outros problemas. Eu ainda estava na faculdade, em meio a um ambiente extremamente marxista. Os integrantes do Reação lamentavam diversas histórias de gente saindo da Igreja por causa feminismo moderno, socialismo, etc. A página Adventista Subversivo, que hoje conta com 11 mil seguidores, ensinava (ensina até hoje) que homossexualidade não é pecado e que aborto deve ser legalizado. E não havia página adventista rebatendo essas coisas. Então, nosso recorte e foco iniciais foram esses problemas.

Segunda: o Reação Adventista se iniciou focado em rebater sistemas ideológicos, não falas. As lamentáveis frases do Bolsonaro em várias ocasiões não me soavam como parte de um sistema ideológico. Eu as via apenas como erros de um homem sanguíneo que se expressa de modo ímpio e fala sem pensar. Assim, não havia, na minha cabeça, um sistema ideológico bolsonarista para combater.

Essas duas razões podem ter me feito menos sensível para perceber o potencial negativo de determinadas falas para a teologia (como a que ele fez sobre o Estado laico, certa vez). Assumo a possibilidade de falha aqui. Mas rejeito o julgamento maldoso de que a minha intenção ou a da página era defender Jair Bolsonaro. O que houve é bem mais simples: eu não dei atenção ao caso. Meu foco era outro.

Não obstante, não me eximi de escrever textos, desde o início, falando sobre como uma pessoa poderia cair no erro de fazer da direita seu evangelho ou de ter o evangelho influenciado por vícios da direita. Em 2016, postei o texto “Cristo: tudo o que precisamos”, onde cito um texto bem legal de Peter Kreeft sobre não abraçar direita e esquerda como ideais. No fim do texto, eu digo:

“[…] não se deve colocar direita e esquerda no mesmo patamar do cristianismo, tampouco seus valores e princípios no lugar do relacionamento com Cristo. As críticas que postamos às ideias e comportamentos antibíblicos, portanto, visam apenas resguardar o Evangelho e a Palavra de Deus, não substituí-los por algum tipo de militância política, modelo de governo ou concepção econômica. Estamos convictos de que nada disso tem o poder da salvação, mas apenas o Cristo vivo”.

Também em 2016, postei um artigo argumentando que a mídia não é nem de esquerda, nem de direita. Segue um trecho:

“Você já deve ter percebido que esta análise joga por terra a ideia simplista de que a mídia é de direita ou de esquerda. A mídia não possui uma posição definida. Ela é formada por elementos tanto da esquerda, quanto da direita e frequentemente se moverá no espectro político da maneira como as circunstâncias exigirem. Mesmo pautando-se principalmente pelo secularismo, poderá em alguns momentos mostrar-se um pouco mais conservadora em matéria de costumes e religião, se isso for conveniente no contexto. Por conveniência, poderemos ver a mídia buscar alinhamento com setores do cristianismo, promover determinados eventos cristãos e tentar angariar simpatia. Não é incomum ou contraditório. Faz parte de seu modus operandi. Lembre-se: a maioria de seus agentes não deseja destruir o cristianismo e a religião, mas “reformá-los”. E isso implica alinhamentos e recuos, mordidas e assopros, tapas e beijos”.

Em 2017, postei o texto “O cristão conservador e o pêndulo satânico”, onde alerto que a perseguição aos cristãos bíblicos pode vir de irreligiosos e anticonservadores, mas também de religiosos e conservadores. Leia esse trecho:

“O fim do mundo que se aproxima não traz apenas uma possibilidade de mal. Há pelo menos dois cenários possíveis se aproximando: ou a imoralidade sexual destruirá a humanidade ou, chegando ela ao seu cume, receberá a mais poderosa reação já concebida na terra, no que se configurará um movimento pendular. Aqui, corremos o risco de sair de um extremo em direção a outro. A força moral, cultural e religiosa que conseguir barrar o Apocalipse da imoralidade sexual também terá nas mãos o poder para impor tudo o que julga correto e a perseguir tudo o que possa parecer a semente de uma nova destruição generalizada da moral. Nisso ganham os grupos religiosos majoritários. Perdem os que, diante dos olhos da maioria, se afigurarem perigosos.

Não há escapatória para os que pretendem realmente seguir a Cristo, só a Cristo, e cumprir seus mandamentos. Os irreligiosos e anticonservadores tem motivos para persegui-los. Os religiosos e conservadores de outras matizes também. O conhecimento do que é o ser humano e as profecias bíblicas não nos trazem um panorama melhor. O homem, no fim das contas, não sabe trilhar os caminhos de Deus em sociedade. E o Diabo tem nas mãos os dois extremos, para fazer da vida de quem deseja seguir inteiramente a Cristo um verdadeiro inferno. Como já dizia C. S. Lewis, Satanás brinca de jogar as pessoas de um extremo ao outro”.

Em 2018, escrevi o texto “A suficiência da Bíblia e do Evangelho de Cristo (ou: Idolatria à político e fé em Ideologia não são coisas de cristão)”. Em um trecho, digo o seguinte:

“Idolatria à político e fé em ideologia não são coisas de cristão, quer tais políticos e ideologias estejam à direita, à esquerda ou ao centro. Esse é o tipo de obviedade que não deveria ter de ser dita aos que conhecem a Bíblia e o evangelho. Mas já que a realidade é diferente do ideal, fazemos aqui o trabalho de bradar o óbvio”.

E mais abaixo:

“O cristão de direita se perde de maneira mais sutil, porém igualmente corrosiva espiritualmente. Ele pode, querendo conservar a família, os valores judaico-cristãos e a religião, passar a olhar isso como uma panaceia. Ainda que não reconheça isso em palavras, pensa e sente que essa defesa fará o mundo tão bom quanto o que ele almeja, ainda que não perfeito. E, nesse momento, o inimigo deixa de ser Satanás e passa a ser quem se opõe ao que ele quer conservar. Pronto. Ele se tornou um ideólogo. Ele transformou uma postura boa, que emana do evangelho, em uma ideologia. Já não sabe mais o que é evangelho.

O mesmo pode acontecer com quem coloca todas as esperanças em uma economia livre, fazendo do mercado um deus, e flertando com um materialismo tão destrutivo espiritualmente quanto o materialismo marxista. O materialista capitalista e o materialista marxista são dois lados da mesma moeda. Chersterton foi um dos grandes autores que percebeu isso. E Lewis já asseverava que Satanás cria dois extremos antibíblicos e brinca de levar os cristãos de um lado para o outro.

Em suma, eu posso me perder no evangelho marxista e também em algum evangelho antimarxista. A defesa do que é certo se perde quando ela passa a ser vista como uma panaceia. E ela se torna uma panaceia quando Cristo já não é o foco, quando a Palavra já não é mais suficiente”.

Em 2019, escrevi o texto “Cristo precisa ser o centro da vida do cristão”. Em um trecho eu digo:

“Há crentes conservadores que falam mais de combater o marxismo e de ícones conservadores do que de Cristo. Há crentes capitalistas que falam mais de economia liberal e economistas como Ludwig von Mises do que em Cristo. […]

O leitor percebe? Todos esses se chamam cristãos. Levam Cristo no nome. Mas acabam fazendo de outras coisas o centro da sua vida”.

Com a vitória de Bolsonaro e o crescimento da idolatria política à direita, eu percebi que o problema que eu já tinha descrito nesses textos anteriores deixou de ser algo restrito a alguns poucos doidos isolados para se tornar algo bem mais numeroso – por vezes envolvendo cristãos. Ou seja, agora, tínhamos um novo problema teológico no Brasil para combater.

Foi em 2020, no período de quarentena, que meu amigo Davi Boechat, um dos fundadores do Reação Adventista, compartilhou comigo sua preocupação com esse novo problema teológico que estava crescendo e que precisávamos combater isso. Eu concordei com ele. No entanto, discordamos em relação a como fazê-lo.

Eu, que sempre adotei uma estratégia mais gradualista e menos personalista, preferia escrever textos que abordassem o tema de modo gradual e focando mais em ideias do que no próprio presidente em si. Primeiro, porque textos menos personalistas é o que eu faria também se Lula, Dilma ou Temer estivessem na cadeira presidencial. Eu nunca quis dar ao Reação um aspecto de página de análise da política partidária e cotidiana atual. Nunca quis que o Reação assumisse um aspecto de página contra ou a favor de um governo. Segundo, porque o gradualismo é uma forma de adaptar o público à crítica e de não deixar a impressão de que a página está meramente fazendo campanha contra Bolsonaro ou deixando de lado a posição contrária ao marxismo.

Devo lembrar que o processo de assimilação nas pessoas varia. Às vezes um bom cristão começa a colocar muita fé em alguém sem perceber. Pela minha experiência, é mais eficaz conscientizar essas pessoas aos poucos do que partir para a “pancadaria”. O público do Reação é composto por seis mil pessoas. Todos já conscientizados contra o marxismo, o feminismo moderno, etc. Boa parte, creio, admiradora do nosso trabalho e, portanto, receptiva ao nos ouvir. Se houver, nesse meio, gente com fé quase religiosa no presidente e incapacidade de criticá-lo por qualquer erro, é racional não espantá-los com uma cinta, mas sim conscientizá-los com paciência. Pode ter gente que ainda não se apercebeu de sua própria conduta. Se usamos o gradualismo, ela vai vendo aos poucos que está trilhando um caminho errado. Esse foi meu raciocínio – um raciocínio que uso para muita coisa nessa vida.

Davi Boechat, no entanto, achava (e acha) que o problema exigia uma crítica mais personalista, escancarada e explícita. A crítica gradualista e menos personalista, e a crítica escancarada e mais personalista são, a meu ver, duas formas válidas de lidar com o problema. Eu apenas acho que a primeira mais sensata e eficaz para esse contexto específico que narrei. Na reunião interna dos administradores, venceu, por maioria de votos, a posição gradualista.

No mesmo dia, escrevi o texto “O cristão e a idolatria política”, me prontificando a falar sobre o tema “idolatria política” com mais frequencia. No texto em questão, falo sobre como “muitos movimentos (e indivíduos) de cunho conservador, antimarxista, anti-revolucionário e/ou pró-liberalismo econômico, transformaram a luta contra essas ideologias numa outra religião”. E também aponto para a postura de “defender com unhas e dentes políticos e ideólogos que possuem a sua visão”. Adiante, digo:

“Como há uma guerra ideológica em curso e ela é entendida como sendo ‘o grande conflito entre o bem e o mal no mundo’, a tendência é o indivíduo adotar cada vez mais uma visão maquiavélica: os fins justificam os meios. Para que o outro lado não vença, vale tudo minimizar ou até justificar todos os pecados dos meus políticos e ideólogos de estimação e, ao mesmo tempo, apontar e criticar ferrenhamente cada pecado dos políticos e ideólogos inimigos. E isso será feito mesmo que os pecados dos dois lados do espectro político cometam, em determinado contexto, exatamente os mesmos pecados. Dois pesos, duas medidas. Tudo sob a desculpa de que ‘estamos em guerra’, ‘não podemos deixar o outro lado vencer’ e ‘o muro é de Satanás’. Aqui o compromisso não é mais com a verdade e nem mesmo com os valores que se dizia defender antes, mas sim com a destruição do adversário”.

Embora eu não cite por nome “bolsonaristas” e “lulistas”, nem mencione Bolsonaro e Lula, seus erros e seus governos, a idolatria dos dois lados do espectro está bem clara aqui. E minha intenção era gradualmente tratar o assunto com mais abertura.

Depois desse texto, escrevi o artigo “O Reação Adventista é de direita?”. Entre outras coisas, digo o seguinte:

“Quando a política invade o campo da teologia e ataca ou adultera a Bíblia e o evangelho, aí nós nos importamos. E isso pode acontecer na esquerda e na direita. Por exemplo, já publicamos meia dúzia de textos falando contra a idolatria política, um fenômeno que pode atingir direitistas e esquerdistas. Messianismo político é uma tragédia, um horror, um pecado. Não importa se o político é de direita ou de esquerda. Há pessoas hoje que idolatram Bolsonaro. Para elas, ele é incriticável e a salvação do país. Há pessoas que idolatravam e idolatram até hoje o Lula. Para elas, ele é impecável e a redenção do nosso povo. Independente de qual seja o caráter de cada um (não é esse o ponto e a página não está interessada em dissecar sobre isso), idolatria é pecado. Ponto. Aqui é apenas o óbvio”.  

Apesar de todos esses textos, aparentemente o Sr. Santos e alguns de seus amigos veem o Reação Adventista como uma página pró-Bolsonaro e que se resume à política. Todo o trabalho teológico que vem sendo o nosso foco é ignorado e desprezado. Não falo isso para brigar. Apenas estou lamentando. Um dos comentaristas no post do Sr. Santos, um conhecido adventista de esquerda, chega a acusar o Reação de ter criado a página especialmente para dar legitimidade ao Bolsonaro e à direita para os cristãos. Isso, nem por um segundo, passou pela minha cabeça nesses quatro anos de projeto. Sobretudo, nos últimos dois anos, quando me desinteressei absolutamente por política.

É duro ler essas coisas porque são horas de pesquisa e leitura teológica de nossa parte para produzir esses materiais. Essas pesquisas e leituras geraram 25 textos sobre fé, razão e argumentos para existência de Deus; 21 textos sobre Sola Scriptura, interpretação e pregação; 21 textos sobre sexualidade e casamento; 26 textos sobre lei e sábado; 10 textos sobre doutrinas adventistas; 17 textos sobre escatologia; 28 textos sobre Evangelho, Cultura, Igreja e responsabilidades sociais; 14 textos de exposição bíblica e/ou devocional; 9 textos sobre catolicismo e protestantismo; 4 textos contra o perfeccionismo; 8 textos sobre aborto (que jamais deveria ser visto como um tema primariamente político); 9 textos sobre feminismo (sempre mostrando que devemos sim defender os direitos femininos, mas pelos princípios bíblicos e não por movimentos que se tornaram secularistas e anticristãos); 9 textos contra a idolatria política à esquerda e à direita; entre outros temas.

Difícil olhar para esses números e dizer que a intenção do site é meramente dar munição ao Bolsonaro através de um terrorismo a respeito do socialismo. Olhando o histórico, eu encontro apenas quatro textos especificamente sobre o socialismo e dois textos sobre o totalitarismo no geral. Nenhum deles é atual. Nenhum deles foi escrito muito próximo ou depois das eleições de 2018. Todos são anteriores. Usando a mesma lógica do Sr. Santos (“essa sequência de textos contra o socialismo em páginas cristãs, apesar de ter importância, se tornou um mantra em favor da extrema-direita”), o Reação Adventista fez justamente o contrário: deixou de escrever textos que poderiam ser usados por grupos fanáticos antes mesmo da corrida presidencial de 2018 começar.

Santos termina seu texto dizendo que nossa reação é “reacionária”. Seria a reação apenas pelo ódio a algo, não por principio. Isso explicaria nossa “omissão”. O que todo esse episódio deixa claro para mim é que nós, humanos, temos uma enorme facilidade de julgar as intenções do outro sem procurar saber mais e de tentar provar algum ponto pelo silêncio (o que é falácia lógica, aliás). Num ambiente de discussão na internet então, isso é comportamento quase padrão. E não me excluo disso. Certamente, eu já agi assim alguma vez em meio ao sangue quente. Mas é errado.

O fato é que minha intenção em ajudar a criar e conduzir o Reação Adventista (e a intenção do Reação no geral) nunca se baseou no ódio, mas na preocupação. Eu nunca me esqueço de quando uma vez preguei em uma igreja sobre argumentos históricos para crer na ressurreição de Jesus. Ao terminar e ir cumprimentar os irmãos na porta, uma senhorinha me disse: “Eu queria muito que você tivesse pregado esse sermão aqui há dois anos. Minha filha ainda era da Igreja. Depois ela entrou na UERJ, deixou de crer na Bíblia e se afastou”. Esse tipo de coisa, que eu já vi e ouvi tantas vezes, foi o que me instigou a criar o Reação. E é o que me instiga a mantê-lo.

Escrever esse texto foi uma tentativa de, ao menos, dar aos nossos seguidores a convicção de que não estamos aqui para fazer proselitismo político à direita ou proteger políticos. O foco é e sempre foi teológico. E se errei na condução desse projeto não foi por idolatria política, mas por pura limitação humana. Errei tentando acertar. Chamo a responsabilidade para mim porque a maior parte dos textos do projeto é minha. Então, de certa forma, me sinto responsável por dar esses esclarecimentos.

Tenho um carinho gigante por esse projeto. Aliás, foi por meio dele que conheci minha esposa. Espero que a difamação não venha a destruir o que levamos quatro anos para conquistar. Espero ainda poder contribuir bastante aqui, com artigos e vídeos – apesar de, neste exato momento, ainda estar totalmente sem ânimo em função das críticas injustas que li nesses últimos dias.

Em relação ao Sr. Santos e seus amigos, não quero guardar mágoa deles. Já pedimos perdão uns aos outros e as coisas devem continuar assim. Ainda me encontro chateado, porém é mais pela situação do que propriamente pelas pessoas. É mais fácil destruir um árduo trabalho por mau julgamento e difamação do que construir com estudo, pesquisa e esforço. Ou seja, um trabalho de quatro anos pode deixar de alcançar muita gente por causa do mau juízo de alguns. Mas, como já disse, esses erros são compreensíveis. Em vez de mal, desejo a eles paz de espírito e bênçãos de Deus. É sincero. E aos leitores desse texto, peço que se lembrem de mim em suas orações. Não é fácil conduzir um projeto como esse. Que Deus abençoe a todos.