Por Davi Caldas

Certo irmão afirmou o seguinte em um comentário que li na internet: “Crer em livre arbítrio é negar a salvação pela graça. Porque se eu digo que é a partir de uma atitude minha que eu vou para o céu, logo estou sendo salvo por uma escolha minha. Se parte da uma vontade humana, logo é salvação por obras e não por graça”.

Há vários problemas nessa definição de graça. O primeiro é de ordem bíblico-histórica. Quando Paulo, por exemplo, opunha salvação pela graça à salvação pelas obras, o contexto subjacente era o de judeus que achavam que a salvação era garantida por meio da circuncisão, da observância das festas judaicas e do cumprimento de regras baseadas na tradição oral dos anciãos (muitas das quais se chocavam com uma interpretação mais viva e profunda da Lei). Em suma, essas pessoas acreditavam que a salvação estava atrelada a se tornar e agir como um judeu étnico.

Esse sentimento era reforçado pelo fato de a maioria dos judeus não ter aceito a Jesus como Messias. Se a salvação estava simplesmente na fé em Jesus, gentios incircuncisos poderiam ser salvos dessa forma, enquanto que uma maioria de judeus circuncidados e guardadores fieis de leis e tradições especificamente judaicas poderiam se perder. Isso soava inconcebível, pois era como se Deus estivesse quebrando sua aliança com Israel. É por isso que Paulo, em Romanos, vai argumentar que Deus não quebrou sua aliança, pois sua aliança sempre incluiu os gentios crentes que se achegavam a Yahweh, e sempre deixou claro que embora os descendentes de Israel sejam inúmeros, apenas o remanescente fiel é salvo e contado na aliança. Eram questões já reveladas na Bíblia Hebraica (o Antigo Testamento).

Com esse contexto em mente, fica claro que Paulo não concebe salvação pela graça como uma redenção à parte da decisão humana, mas como uma redenção à parte de ser e agir como um judeu étnico. A base dessa salvação pela graça, em vez de circuncisão e “obras de Lei” (um termo que envolvia tanto leis judaicas quanto tradições que “geravam justiça”, segundo seus praticantes), era a fé em Jesus como Messias. Esse é o contexto.

O segundo problema é de ordem lógica e semântica. Pela lógica, a partir dos dados bíblicos, podemos dizer que salvação pela graça implica a inexistência de obras meritórias para a redenção. Ninguém é salvo por se circuncidar, participar de festas judaicas e seguir tradições rabinicas. Nem mesmo é salvo por não matar, não roubar e não adulterar. Somos salvos pela fé em Jesus, sendo as obras apenas o resultado da salvação e da transformação que o Espírito opera em nós. Mas isso não implica que nossa mera decisão de aceitar a salvação provida por Cristo e a regeneração oferecida pelo Espírito Santo nos gere mérito. Nossa aceitação não muda o fato de que não merecemos. Continua sendo pela graça.

Um homem que deve muito dinheiro não passa a ter mérito diante do seu credor simplesmente porque aceita uma proposta misericordiosa e gratuita de perdão da dívida. Tanto aos olhos do credor que perdoa, quanto aos olhos do devedor que aceita, o perdão continua sendo um ato de graça imerecido. Confessar a dívida e aceitar o perdão não paga a dívida. O que paga a dívida é a boa vontade do credor em oferecer o perdão e arcar com o custo.

Assim, a participação humana no processo de salvação não é meritória. A própria fé não gera mérito algum diante de Deus. Ele estipula a fé como pré-requisito não porque ela paga a dívida, mas porque sem fé não há relacionamento com Deus. E o que Jesus faz por nós na cruz é restaurar nosso relacionamento com o Pai.

O problema semântico, como fica evidente, é entender que a mera aceitação da oferta de Cristo já é uma obra meritória. Para sustentar isso, é preciso definir mérito como abarcando até o que aceitamos receber sem merecer. Essa estranha definição, no entanto, não se encontra no vocabulário bíblico.

Finalmente, essa definição estranha de salvação pela graça ignora que mesmo a fé do ser humano em Cristo só pode ser ativada por iniciativa do chamado do Espírito Santo ao arrependimento, o que o arminianismo denomina graça preveniente. Sem essa graça, não teríamos condições de enxergar a Cristo e nossa necessidade dele. Nesse sentido, calvinistas e arminianos concordam em suas teológicas: só há salvação se Deus chamar. A diferença reside no fato de que os arminianos crêem que o Espírito faz o convite a todos. E todos podem aceitar (embora nem todos aceitem). Já os calvinistas creem que Deus não chama a todos, reservando desde a eternidade boa parte da humanidade à perdição.

Portanto, a acusação de que havendo livre arbítrio não há graça é descabida. Ela se baseia em anacronismo, distorção bíblica, má definição de termos e incoerência lógica. A definição correta de salvação pela graça não pode fluir de concepções posteriores ao texto biblico. Ela precisa fluir do texto, considerando-se seus contextos histórico-cultural, temático, idiomático, estilístico, teológico, lógico e moral. Sem isso, a definição será apenas uma imposição extrabiblica ao texto sagrado.